Vittore Crivelli, séc. XV · fonte · PD
Boaventura de Bagnoregio
São Boaventura de Bagnoregio (nome secular Giovanni di Fidanza, “João Fidanza”), nascido por volta de 1217 em Bagnoregio, perto de Viterbo, e falecido em 15 de julho de 1274 em Lyon, foi frade franciscano, teólogo e místico do século XIII, conhecido como o Doutor Seráfico. Formado e mestre em teologia na Universidade de Paris, foi contemporâneo e amigo de São Tomás de Aquino e defendeu as ordens mendicantes nas disputas universitárias de Paris. Eleito Ministro Geral dos Frades Menores em 1257, governou a Ordem por cerca de dezessete anos e é chamado seu “segundo fundador”, tendo escrito a Legenda Maior, biografia oficial de São Francisco de Assis, e o célebre Itinerário da mente para Deus (Itinerarium mentis in Deum). Criado cardeal-bispo de Albano pelo papa Gregório X em 1273, teve papel central no II Concílio de Lyon de 1274, voltado à união com a Igreja grega, durante o qual morreu. Foi canonizado pelo papa Sisto IV em 1482 e proclamado Doutor da Igreja pelo papa Sisto V em 1588.
A vida
Infância, nome e entrada na Ordem
São Boaventura nasceu por volta de 1217 em Bagnoregio, pequena cidade próxima a Viterbo, então nos Estados Pontifícios, e recebeu no batismo o nome de Giovanni di Fidanza (João Fidanza). Era filho de um médico, e uma tradição franciscana, ligada à sua própria infância, conta que, gravemente enfermo a ponto de o pai perder toda esperança de salvá-lo, foi curado pela intercessão de São Francisco de Assis, a quem sua mãe recorreu. O próprio Boaventura confirma ter sido preservado da morte na infância pela intercessão de Francisco, embora a origem do nome religioso “Boaventura” — segundo a qual Francisco teria exclamado diante do menino curado “O buona ventura!” (“Ó boa ventura!”) — deva ser registrada como tradição piedosa, e não como fato historicamente comprovado.
Por volta de 1243, após obter o grau de mestre em artes em Paris, recebeu o hábito franciscano, tomando então o nome de Boaventura. Movera-o o testemunho dos Frades Menores que conhecera em Paris, nos quais reconheceu a ação de Cristo presente em São Francisco e no movimento que ele fundara.
Formação e magistério em Paris
Boaventura estudou na Universidade de Paris, então o maior centro teológico da cristandade, tendo por mestre Alexandre de Hales, um dos grandes teólogos franciscanos da época. Aprofundou-se na Sagrada Escritura e nas Sentenças de Pedro Lombardo e tornou-se mestre em teologia, sendo solenemente reconhecido como doutor da Universidade de Paris em 1257, ao lado de seu amigo e contemporâneo São Tomás de Aquino. Os dois doutores, um franciscano e outro dominicano, encarnam de modo complementar o auge da teologia escolástica: Tomás acentuando o primado do conhecimento e Boaventura, o primado do amor.
Naqueles anos, as ordens mendicantes — franciscanos e dominicanos — eram atacadas por mestres do clero secular da Universidade, sobretudo por Guilherme de Saint-Amour, que acusava os frades de desonrar o Evangelho com sua prática da pobreza e da mendicância. Boaventura assumiu a defesa do ideal mendicante; mais tarde, retomada a controvérsia por Gerardo de Abbeville, escreveria a Apologia pauperum (“Defesa dos pobres”).
Ministro Geral dos Frades Menores
Em 2 de fevereiro de 1257, Boaventura foi eleito Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, que já contava com mais de trinta mil frades espalhados pelo Ocidente. Governou-a por cerca de dezessete anos com sabedoria e dedicação, a ponto de ser chamado o “segundo fundador” da Ordem. No Capítulo Geral de Narbona, em 1260, deu aos Frades Menores suas primeiras constituições gerais, as chamadas Constituições de Narbona, organizando juridicamente a vida da Ordem.
Por encargo do mesmo Capítulo, redigiu a Legenda Maior (e a abreviada Legenda Minor), biografia de São Francisco que o Capítulo Geral de Pisa, em 1263, reconheceu como o retrato mais fiel do Fundador e adotou como sua biografia oficial. Como Ministro Geral, Boaventura teve de enfrentar graves tensões internas entre os “espirituais”, de rigorismo radical, influenciados pelas ideias de Joaquim de Fiore, e os “conventuais”, mais relaxados. Rejeitando o utopismo dos espirituais, afirmou que “as obras de Cristo não retrocedem, mas progridem” (Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt) e manteve a Ordem firmemente ancorada na Igreja apostólica, buscando o equilíbrio entre a fidelidade ao ideal de Francisco e a viabilidade institucional.
Cardeal, II Concílio de Lyon, morte e legado
Em 1273, o papa Gregório X — para cuja eleição Boaventura havia colaborado — criou-o cardeal-bispo de Albano. O papa confiou-lhe a preparação do II Concílio Ecumênico de Lyon, aberto em 1274, cujo grande objetivo era a união com a Igreja grega, separada de Roma. Boaventura teve papel central nos trabalhos conciliares, tratando com os gregos os pontos relativos ao reencontro das duas Igrejas.
Foi durante esse concílio que Boaventura morreu, em 15 de julho de 1274, em Lyon, assistido pelo próprio papa, que o tinha em alta estima. Naquele mesmo ano de 1274 morria também São Tomás de Aquino, a caminho do concílio. Entre as obras de Boaventura destaca-se o Itinerário da mente para Deus (Itinerarium mentis in Deum), composto em 1259 no monte Alverne, no lugar onde São Francisco recebera os estigmas — síntese de sua teologia mística, que apresenta a ascensão da alma a Deus como caminho que culmina não na ciência, mas no amor. São Boaventura foi canonizado pelo papa Sisto IV em 14 de abril de 1482 e proclamado Doutor da Igreja pelo papa Sisto V em 1588, recebendo o título de Doutor Seráfico.
O contexto em que viveu
São Boaventura viveu no século XIII, o “século de ouro” da escolástica e das universidades. A Universidade de Paris, surgida em torno de 1200 da escola da catedral e reconhecida pelo bispo e pelo papado (estatutos de 1215; bula Parens scientiarum de Gregório IX, 1231), tornou-se o grande centro do saber cristão, para onde o jovem Giovanni di Fidanza foi estudar por volta de 1235. Era o tempo em que mestres como Alexandre de Hales formavam toda uma geração de teólogos.
Esse mesmo século viu nascer e explodir as ordens mendicantes. A Regra de São Francisco de Assis foi confirmada pela bula Solet annuere de Honório III, em 29 de novembro de 1223 (a Regula bullata); Francisco morreu em 3 de outubro de 1226 e foi canonizado por Gregório IX em 16 de julho de 1228. Em poucas décadas a Ordem dos Frades Menores se espalhou pelo Ocidente, contando, no governo de Boaventura, mais de trinta mil frades — crescimento vertiginoso que trouxe enormes desafios de unidade e disciplina.
Dentro da Ordem fervia a tensão entre os “espirituais”, que defendiam a observância radical da pobreza absoluta, e os “conventuais”, mais abertos às adaptações exigidas pela vida nas cidades e nas universidades. A essa disputa somava-se a influência das ideias apocalípticas de Joaquim de Fiore. Como Ministro Geral a partir de 1257, Boaventura buscou um caminho de equilíbrio, fixando a legislação da Ordem nas Constituições de Narbona (1260) e oferecendo, com a Legenda Maior (aprovada em Pisa, 1263), uma imagem oficial e unificadora de São Francisco.
Na própria Universidade de Paris estourou a controvérsia das ordens mendicantes: o mestre secular Guilherme de Saint-Amour atacou os frades no tratado De periculis novissimorum temporum (1256), negando-lhes o direito de ensinar. Boaventura, ao lado de Tomás de Aquino, defendeu o ideal mendicante; o livro de Guilherme foi condenado por Alexandre IV em 1256, e os dois frades receberam solenemente o grau de mestre em 1257.
Foi também o século da recepção maciça de Aristóteles, lido através dos comentários de Averróis, e do chamado averroísmo latino de mestres como Siger de Brabante. Diante das teses tidas por perigosas à fé, o bispo de Paris Estêvão Tempier emitiu as condenações de 1270 e de 1277. Boaventura, fiel à tradição agostiniana e franciscana, foi um dos críticos desse racionalismo, reafirmando a primazia da sabedoria iluminada pela fé.
No plano da Igreja universal, o papado e o Império disputavam o poder, e crescia o desejo de reconciliação com a Igreja grega. Já cardeal-bispo de Albano (1273), Boaventura foi figura central na preparação do II Concílio de Lyon (1274), que buscou a união entre as Igrejas latina e grega. Foi nesse concílio, em 15 de julho de 1274, que o Doutor Seráfico morreu. Seria canonizado por Sisto IV em 14 de abril de 1482 e proclamado Doutor da Igreja por Sisto V em 14 de março de 1588.
Como reconhecer Boaventura de Bagnoregio na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
Cura na infância pela intercessão de São Francisco
Ainda criança, Giovanni di Fidanza esteve gravemente doente, sem esperança dos médicos, e foi curado depois que sua mãe recorreu à intercessão de São Francisco de Assis. O próprio Boaventura atesta ter sido preservado da morte na infância pela intercessão de Francisco. A cena da exclamação “O buona ventura!” e a explicação do nome são apresentadas pelas fontes como tradição piedosa, não como fato comprovado.
O anjo que lhe trouxe a Eucaristia (tradição)
Tradição piedosa: por humildade, considerando-se indigno, Boaventura hesitava em comungar. Um dia, assistindo à Missa e meditando na Paixão, um anjo teria tomado a hóstia consagrada e lhe dado a comunhão. Episódio devocional, sem base documental histórica.
A cabeça incorrupta encontrada na translação de 1434
Na translação de 1434, a cabeça de Boaventura foi achada perfeitamente conservada, com a língua tão vermelha como em vida. Tido como prodígio, moveu o povo de Lyon a tomá-lo por padroeiro e impulsionou fortemente o processo de canonização.
Suas contribuições à teologia
Para São Boaventura, a teologia não é primariamente uma ciência que satisfaz a curiosidade da razão, mas uma sabedoria (sapientia) ordenada ao amor de Deus. Como sublinhou Bento XVI, ela busca a contemplação como forma mais alta de conhecimento, mas tem por intenção ut boni fiamus — “que nos tornemos bons”. O conhecimento da fé não permanece no intelecto: saber que Cristo morreu “por nós” torna-se necessariamente afeto e amor. Daí o primado da caridade sobre a especulação: para o Doutor Seráfico, o destino último do homem é amar a Deus, e o amor ainda vê o que permanece inacessível à razão. Por isso seu pensamento é uma teologia mística e devota, ordenada à piedade.
O coração de sua metafísica é o exemplarismo: Cristo, o Verbo eterno, é a Arte do Pai (ars aeterna) na qual subsistem as ideias-modelo de todas as coisas, e é o medium — o centro — de toda a realidade e de todo conhecimento verdadeiro. Toda criatura é, em graus, vestígio (vestigium), imagem (imago) e semelhança (similitudo) de Deus: o vestígio remete a Deus como tríplice causa (eficiente, formal e final), a imagem é própria da alma racional que o tem por objeto, e a semelhança é o dom infuso pela graça. Assim o mundo inteiro é um espelho e um livro em que toda a criação fala de Deus.
Em teoria do conhecimento, Boaventura é agostiniano: a certeza das verdades imutáveis exige a iluminação divina — a “luz” eterna como causa reguladora e motiva, atuando junto com a causa criada e não em seu lugar. Embora reconhecesse Aristóteles como o Filósofo no âmbito natural, opôs reserva crítica a um aristotelismo absolutizado e ao averroísmo: rejeitou como contraditória a eternidade do mundo (o que é produzido do nada tem ser depois do não-ser e não pode ser eterno) e advertiu contra a soberba da razão que se coloca acima da Palavra de Deus.
Sua obra-síntese é o Itinerarium mentis in Deum (Itinerário da mente para Deus), escrito no monte Alverne (La Verna), onde, meditando, recordou a visão do Serafim de seis asas em forma de Crucificado dada a São Francisco — visão dos estigmas. As seis asas tornam-se os seis graus de uma escada de ascensão, em três etapas: contemplar Deus fora de nós (extra nos), nos vestígios das criaturas; dentro de nós (intra nos), na imagem refletida na alma reformada pela graça; e acima de nós (supra nos), em Deus mesmo, em seu ser e em sua bondade trinitária. O sétimo grau é o repouso e o êxtase místico: já “não a luz, mas o fogo que tudo inflama e transporta a Deus”.
Boaventura elaborou ainda uma original teologia da história, destacada por Bento XVI. Como Ministro Geral, enfrentou a tensão dos “espirituais” franciscanos seguidores de Joaquim de Fiore; estudou criticamente seus escritos e, contra um terceiro “reino do Espírito” que ultrapassaria Cristo, afirmou que Cristo é o centro — e não apenas o fim — da história. Daí a sua célebre ideia de progresso: “Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt” — as obras de Cristo não retrocedem nem falham, mas progridem.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade franciscana boaventuriana (mística seráfica)
Escola espiritual que sintetiza a afetividade franciscana com a tradição agostiniana e vitorina, dando-lhe sistematização teológica. Seu eixo é o cristocentrismo: Cristo, Verbo e Exemplar do Pai, é o centro (medium) de toda a realidade, da história e de todo conhecimento, e o Crucificado é o termo do amor que inflama a alma. Daí o primado da caridade sobre a mera especulação: a teologia é sabedoria ordenada a tornar o homem bom e santo, e o amor vê o que escapa à razão. A criação é lida como espelho e livro de Deus, em que toda criatura é vestígio, imagem e semelhança do Criador, conduzindo a mente a Ele. O caminho é uma ascensão contemplativa por graus, o Itinerarium mentis in Deum: de Deus nos vestígios das criaturas, à sua imagem na alma reformada pela graça, até Deus mesmo em seu ser e bondade trinitária, culminando no êxtase místico modelado em São Francisco e nos estigmas do Alverne. Tudo sustentado pela pobreza, pela humildade e pela contemplação franciscanas.
A espiritualidade boaventuriana fala à Igreja de hoje porque integra fé e razão, inteligência e afeto, evitando tanto um racionalismo árido quanto um sentimentalismo sem fundamento: lembra que o saber teológico só se completa quando se torna amor e santidade de vida. Seu olhar sacramental sobre a criação — o mundo como vestígio e espelho de Deus — inspira uma contemplação reverente diante da natureza. O cristocentrismo, que faz de Cristo o centro da história e da pessoa, oferece esperança e sentido a uma cultura fragmentada, enquanto sua ideia de progresso ligada às obras de Cristo anima a confiança no agir de Deus no tempo. Por fim, o Itinerário convida o cristão a um caminho concreto de interioridade e oração que parte do visível e conduz à união com Deus.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Ordem dos Frades Menores (O.F.M.)
Ordem mendicante fundada por São Francisco de Assis, com aprovação oral da Regra por Inocêncio III em 1209/1210 e confirmação definitiva (Regula bullata, bula Solet annuere) por Honório III em 1223. São Boaventura ingressou nela por volta de 1243, foi seu sétimo Ministro Geral (1257–1274) e é tido como segundo fundador da Ordem.
Família Franciscana (tronco de São Francisco de Assis)
O conjunto das ordens e movimentos nascidos do carisma de São Francisco de Assis: Primeira Ordem (Frades Menores), Segunda Ordem (Clarissas) e Terceira Ordem (franciscanos seculares). Boaventura pertence à Primeira Ordem e foi um de seus maiores teólogos e governantes.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Comentário aos Quatro Livros das Sentenças
Sua grande obra escolástica, redigida como bacharel sentenciário em Paris. Comenta os quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo, tratando de Deus e da Trindade, da criação e queda do homem, da Encarnação e Redenção, e dos sacramentos. É o monumento de sua teologia sistemática.
Questões Disputadas (sobre o conhecimento de Cristo, o mistério da Trindade e a perfeição evangélica)
Conjunto de disputas acadêmicas conduzidas em Paris. No De scientia Christi expõe sua defesa da iluminação divina; no De mysterio Trinitatis apresenta argumentos pela existência de Deus; no De perfectione evangelica defende a pobreza e a vida evangélica franciscanas.
A Redução das Artes à Teologia
Breve opúsculo que demonstra como todas as artes e ciências, como diferentes luzes do conhecimento, procedem de Deus e se reconduzem à teologia, que as absorve a todas.
Breviloquium
Síntese breve e acessível de toda a teologia, composta ao deixar a docência e assumir o generalato. Condensa a quintessência da teologia de seu tempo em torno dos grandes temas da fé, servindo como compêndio do seu Comentário às Sentenças.
Solilóquio sobre os Quatro Exercícios Mentais
Tratado espiritual em forma de diálogo da alma consigo mesma, voltado à formação interior dos frades. Reúne rica coletânea de passagens dos Padres, conduzindo a alma ao autoconhecimento, ao amor e ao desejo de Deus.
A Árvore da Vida
Conjunto de quarenta e oito meditações devotas sobre a vida, a Paixão e a glorificação de Cristo, dispostas em forma de árvore com frutos. Tornou-se um clássico da devoção franciscana à Paixão.
Das Três Vias
Tratado de teologia mística, por vezes intitulado Incendium amoris. Distingue os graus da caridade perfeita pelas três vias clássicas (purgativa, iluminativa e unitiva) que conduzem à união com Deus.
Itinerário da Mente para Deus
Sua obra mística mais célebre, concebida e composta no monte Alverne, onde São Francisco recebera os estigmas. Descreve a ascensão da alma a Deus em seis graus (mais um sétimo de repouso), partindo dos vestígios de Deus na criação até a contemplação extática, à imagem das seis asas do serafim.
Legenda Maior de São Francisco
Biografia oficial de São Francisco de Assis, encomendada pelo Capítulo Geral de Narbona (1260) e aprovada no Capítulo de Pisa (1263). Tornou-se a vida oficial e a mais influente biografia do santo por séculos.
Legenda Menor de São Francisco
Redação abreviada e mais concisa da Legenda Maior, organizada para uso litúrgico no coro, dividida em lições para os dias da oitava da festa de São Francisco.
Conferências sobre os Dez Mandamentos
Série de conferências pregadas aos mestres e estudantes em Paris durante a Quaresma de 1267, comentando os Dez Mandamentos e reagindo às ameaças intelectuais do momento.
Conferências sobre os Sete Dons do Espírito Santo
Série de conferências pregadas em Paris na Quaresma de 1268, sobre os sete dons do Espírito Santo e sua necessidade para a vida espiritual, no contexto da defesa da sabedoria cristã.
Apologia dos Pobres
Defesa madura da pobreza e da vida mendicante franciscana, escrita contra Gerardo de Abbeville, que havia reavivado a antiga disputa universitária. É o tratado mais completo de Boaventura sobre a pobreza evangélica.
Conferências sobre o Hexaémeron
Curso de conferências pregadas em Paris a partir da Páscoa de 1273, interrompido por sua nomeação como cardeal e nunca concluído. Partindo dos seis dias da criação, expõe uma teologia da história e da sabedoria e combate os erros filosóficos do tempo.
Como a Igreja celebra Boaventura de Bagnoregio
Oração a Boaventura de Bagnoregio
Feri, dulcíssimo Jesus, o mais íntimo e profundo do meu ser com o dardo suavíssimo e salutar do vosso amor, com aquela santíssima e inalterável caridade que foi brasão e timbre dos vossos Apóstolos, para que a minha alma se deleite e enterneça com a febre sempre crescente de Vos querer mais. Dai à minha alma que se...
Novena a Boaventura de Bagnoregio
Esta novena devocional prepara o coração para a festa de São Boaventura de Bagnoregio (15 de julho), o Doutor Seráfico, frade franciscano, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, cardeal-bispo de Albano e Doutor da Igreja. Durante nove dias contemplamos os grandes temas de sua vida e de seu pensamento: o amor à Sabedoria, a teologia como ato de amor, a fidelidade a São Francisco, a pobreza, a ascensão da alma a Deus pelo caminho de Cristo crucificado, a Eucaristia, a caridade pastoral, a humildade e o serviço da unidade da Igreja. Que, por sua intercessão, sejamos enriquecidos por sua doutrina e inflamados por sua ardente caridade. Reza-se nos nove dias que antecedem a sua memória, 15 de julho.
O amor à Sabedoria divina
Sabedoria 7,7 — "Por isso pedi a prudência, e ela me foi dada; invoquei o Senhor e veio a mim o espírito da sabedoria..."
Fiel a São Francisco e à cruz
Gálatas 6,14 — "Longe de mim o gloriar-me senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucific..."
A pobreza evangélica
Mateus 5,3 — "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus."
Itinerário da mente para Deus
Salmo 83(84),6 — "Bem-aventurado o homem que de ti recebe auxílio, quando decide empreender santas peregrinações."
Cristo, centro de tudo
1 Coríntios 2,2 — "Porque não julguei saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado."
Amor à Eucaristia
João 6,55 — "Porque a minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue verdadeiramente bebida."
Caridade pastoral, o bom pastor
João 10,11 — "Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas."
Humildade e recusa das honras
Mateus 11,29 — "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descans..."
A serviço da unidade da Igreja, até o fim
João 17,21 — "Para que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti; que também eles estejam em nós, para..."
Como o povo reza a Boaventura de Bagnoregio
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Padroeiro dos teólogos e estudantes de teologia — Doutor Seráfico, mestre em Paris e grande teólogo franciscano, São Boaventura é venerado como padroeiro dos teólogos e dos estudantes de teologia e filosofia, invocado por todos os que buscam a sabedoria divina.
- Invocado contra os males intestinais — São Boaventura é tradicionalmente invocado contra os distúrbios e doenças intestinais, em memória da grave enfermidade que sofreu na infância, da qual foi curado pela intercessão de São Francisco de Assis.
- Veneração entre os franciscanos como segundo fundador — Ministro Geral por cerca de dezessete anos, São Boaventura é tido como o segundo fundador da Ordem dos Frades Menores e é veneração viva em toda a família franciscana, que celebra sua festa com particular solenidade, apresentando-o como modelo de teólogo e pastor.
Medalhas e escapulários
- Memória litúrgica universal de 15 de julho — A Igreja celebra São Boaventura, bispo e Doutor da Igreja, em memória obrigatória no dia 15 de julho, data de sua morte (1274), no Concílio de Lyon. A cor litúrgica é o branco, e a liturgia recorda seus preclaros ensinamentos e sua ardente caridade.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
Filho ilustre de Bagnoregio (junto a Civita di Bagnoregio, província de Viterbo), São Boaventura é ali especialmente venerado, com a concatedral a ele dedicada (Santos Nicolau, Donato e Boaventura), que guarda a relíquia de seu braço.
Falecido e sepultado em Lyon em 1274, e após o prodígio da cabeça incorrupta encontrada em 1434, São Boaventura foi escolhido pelo povo como padroeiro da cidade de Lyon, onde sua memória foi por séculos venerada.
O que Boaventura de Bagnoregio nos diz hoje
"Se queres saber como essas coisas acontecem, interroga a graça, não a doutrina; o desejo, não o intelecto; o gemido da oração, não o estudo da letra; o Esposo, não o mestre; Deus, não o homem; a treva, não a claridade; não a luz, mas o fogo que tudo inflama e transporta para Deus com unções intensas e ardentíssimos afetos. Morramos, pois, e entremos na treva; passemos com Cristo crucificado deste mundo ao Pai."
— Itinerarium mentis in Deum, VII, 6"É cego quem não é iluminado por tantos esplendores das criaturas; é surdo quem não desperta a tantos clamores; é mudo quem por todos esses efeitos não louva a Deus; é tolo quem, por tantos sinais, não reconhece o Primeiro Princípio."
— Itinerarium mentis in Deum, I, 15"O verdadeiro adorador de Deus e discípulo de Cristo, que deseja configurar-se perfeitamente ao Salvador de todos, crucificado por ele, deve aplicar-se sobretudo, com atento esforço da mente, a trazer continuamente a cruz de Cristo Jesus consigo, tanto na mente quanto na carne."
— Lignum Vitae, Prólogo, 1Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"As obras de Cristo não retrocedem nem falham, mas progridem."
"Esse fogo é Deus, e a sua fornalha está em Jerusalém; e Cristo o acende no fervor de sua ardentíssima paixão."
"Neste trânsito, para que seja perfeito, é preciso que se abandonem todas as operações intelectuais, e que o ápice do afeto seja todo transferido e transformado em Deus."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
A formação de São Boaventura entrelaça as duas grandes correntes que confluíram no século XIII: o carisma franciscano e a tradição agostiniana-neoplatônica latina.A raiz primeira é São Francisco de Assis. Boaventura atribuía a São Francisco a própria recuperação de uma grave doença na infância, e confessava que o que mais o fez amar a vida de Francisco foi que ela se assemelhava ao nascimento e ao primeiro desenvolvimento da Igreja. O ideal evangélico da pobreza e da humildade de Francisco é o coração de toda a sua obra.A matriz filosófico-teológica é Santo Agostinho: a doutrina da iluminação divina, o exemplarismo e o itinerário interior do mundo exterior à mente e desta a Deus são de inspiração nitidamente agostiniana.Para a dimensão mística foram decisivos o Pseudo-Dionísio Areopagita (a teologia mística, o amor que ultrapassa a razão) e os Vitorinos, Hugo e Ricardo de São Vítor, mestres da contemplação medieval, cuja herança Boaventura assimila e prolonga no Itinerarium.No ambiente universitário de Paris, seu mestre direto foi Alexandre de Hales, tido como fundador da escola franciscana; o próprio Boaventura declarava não querer propor opiniões novas, mas retecer as comuns e aprovadas. Como todo teólogo escolástico, formou-se sobre as Sentenças de Pedro Lombardo — seu Comentário às Sentenças é uma de suas obras maiores — e na herança de Santo Anselmo. Acima de tudo, porém, sua fonte permanente é a Sagrada Escritura, que comentou amplamente e que sustenta toda a sua teologia.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
São Boaventura de Bagnoregio (Giovanni di Fidanza, c. 1217–1274) é uma das maiores influências da história franciscana e da teologia medieval. Eleito Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores em 2 de fevereiro de 1257, governou-a por cerca de dezessete anos, e por sua obra de consolidação institucional, doutrinal e espiritual é tradicionalmente venerado pelos franciscanos como o “segundo fundador” da Ordem, depois de São Francisco.Sua influência institucional culminou nas Constituições de Narbona (aprovadas pelo Capítulo Geral de Narbona em 1260), primeira codificação sistemática da legislação franciscana, que deu unidade jurídica e disciplinar à Ordem num momento de crescimento acelerado e de tensões internas. No mesmo Capítulo recebeu o encargo de compor uma vida definitiva de São Francisco; concluiu a Legenda Maior por volta de 1261–1263 e apresentou-a no Capítulo Geral de Pisa (1263), tornando-se a biografia oficial do Fundador. No Capítulo de Paris de 1266 a Ordem declarou-a a legenda oficial e decretou a destruição das legendas anteriores — fato histórico hoje debatido pelos historiadores, lido por uns como supressão das fontes primitivas e por outros como mera uniformização litúrgica. A Legenda Maior moldou por séculos a imagem de São Francisco no Ocidente.No plano intelectual, Boaventura é o grande sistematizador da escola franciscana e da tradição agostiniana-neoplatônica (o chamado “boaventurismo”), que se afirmou ao lado e em contraste com o tomismo aristotélico de seu amigo Tomás de Aquino — ambos receberam o grau de doutor em Paris em 1257. Frente ao aristotelismo, Boaventura subordinou a filosofia à sabedoria cristã e fez da iluminação divina e do exemplarismo o eixo de seu pensamento.Sua influência mística é imensa, sobretudo pelo Itinerarium mentis in Deum (1259), que marcou profundamente a tradição espiritual posterior, unindo teologia e santidade, conhecimento e amor. Sua visão sacramental da criação — toda criatura como sinal e pegada (vestigium) do Criador — tornou-se uma das marcas duradouras da espiritualidade franciscana.Quanto à mariologia, é preciso ser preciso: apesar de sua intensa devoção a Maria, Boaventura não sustentou a Imaculada Conceição tal como seria definida em 1854. Como Tomás de Aquino e a maioria dos escolásticos de seu tempo, defendeu a santificação de Maria no seio materno, mas considerava que isentá-la inteiramente do pecado original parecia comprometer a universalidade da redenção de Cristo. A dificuldade só seria resolvida mais tarde por João Duns Escoto, com a noção de redenção preservadora. Não se deve, portanto, apresentá-lo como defensor da Imaculada Conceição.O reconhecimento eclesial coroou seu legado: canonizado por Sisto IV em 14 de abril de 1482 e proclamado Doutor da Igreja por Sisto V, pela bula Triumphantis Hierusalem, em 14 de março de 1588, com o título de Doutor Seráfico — epíteto que já lhe fora atribuído no século XIV. Seu corpus foi fixado pela grande edição crítica das Opera Omnia preparada pelos frades em Quaracchi (Ad Claras Aquas), em dez volumes, entre 1882 e 1902, ainda hoje a edição de referência.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
A controvérsia das ordens mendicantes em Paris
Entre 1252 e 1257, os mestres seculares da Universidade de Paris opuseram-se ao acesso dos frades mendicantes (franciscanos e dominicanos) às cátedras. Em 1256, Guilherme de Saint-Amour publicou o virulento De periculis novissimorum temporum (“Os perigos dos últimos tempos”), atacando duramente os frades. Boaventura respondeu em defesa do ideal de pobreza. Mais tarde, contra Gerardo de Abbeville, que reacendera a antiga disputa por meio de um libelo anônimo, compôs a Apologia pauperum, defesa madura e definitiva da pobreza evangélica e da vida mendicante. A intervenção do papa acabou impondo aos frades o lugar que lhes era negado, e Boaventura recebeu o grau de doutor em Paris em 1257.
Espirituais e conventuais: a recepção crítica de Joaquim de Fiore
Dentro da própria Ordem, opunham-se os “espirituais”, radicais na pobreza e influenciados pelo joaquimismo, e os “conventuais”, mais moderados. Joaquim de Fiore propusera uma leitura trinitária da história, com uma terceira “idade do Espírito Santo”. Boaventura, governando a Ordem, rejeitou esse ritmo trinitário da história — para ele a história é uma só, e Deus é um em toda a história. Reposicionou Cristo não como fim, mas como centro da história, e formulou, contra um progresso meramente humano, que “Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt” (as obras de Cristo não retrocedem, mas progridem). Assim corrigiu os exageros dos espirituais sem renunciar à esperança, salvaguardando a fidelidade humilde de Francisco ao Evangelho e à Igreja.
Frente ao aristotelismo e ao averroísmo latino
Nos últimos anos, sobretudo nas Collationes in Hexaëmeron (1273), Boaventura combateu erros do aristotelismo radical (averroísmo latino) então difundido em Paris: a eternidade do mundo, a necessidade do destino e a unidade do intelecto (monopsiquismo). Para ele, afirmar que o mundo é eterno e ao mesmo tempo criado do nada é contraditório. Sua reação é contemporânea das condenações do bispo Estêvão Tempier (1270; depois 1277). Diferentemente de Alberto Magno e de Tomás de Aquino, Boaventura não buscou uma síntese plena com Aristóteles, mantendo a primazia da sabedoria cristã iluminada pela fé.
A destruição das legendas anteriores de São Francisco
Composta a Legenda Maior e declarada oficial, o Capítulo Geral de Paris de 1266 decretou a destruição das “legendas” anteriores de São Francisco. O fato é histórico e foi diversamente interpretado: alguns viram nele uma tentativa deliberada de fechar as fontes primitivas e substituir o “Francisco real”; outros o entendem como mera ordenança litúrgica, destinada a garantir uniformidade nas legendas do coro. O debate permanece em aberto entre os historiadores franciscanos.
Polêmicas ainda em aberto
Boaventura lido por Joseph Ratzinger / Bento XVI
O maior leitor contemporâneo de São Boaventura foi Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI. Sua tese de habilitação versou precisamente sobre a teologia da história em São Boaventura (Die Geschichtstheologie des heiligen Bonaventura): submetida em 1955, foi inicialmente reprovada por um dos relatores e defendida pelo orientador Gottlieb Söhngen; revista, foi aceita em 1957 e publicada em 1959. Já como Papa, Bento XVI dedicou a São Boaventura três Audiências Gerais (3, 10 e 17 de março de 2010), retomando sua vida, sua teologia da história e sua mística do Itinerarium.
Olhar sacramental sobre a criação e ecologia espiritual
A redescoberta contemporânea de Boaventura passa por sua visão sacramental do mundo: cada criatura é sombra, vestígio (vestigium) e imagem de Deus, sinal que conduz a alma ao Criador, como no primeiro grau do Itinerarium. Essa contemplação de Deus na criação tem sido lida hoje como raiz de uma ecologia espiritual franciscana, em diálogo com a atenção da Igreja à criação.
Boaventurismo e tomismo
Ao longo do século XX, a recuperação histórico-crítica das Opera Omnia (edição de Quaracchi) reabilitou a escola franciscana e o boaventurismo como alternativa legítima e complementar ao tomismo, mostrando que Boaventura não foi um aristotélico fracassado, mas seguiu um caminho próprio, agostiniano em inspiração e franciscano em execução.
Valor ecumênico do II Concílio de Lyon
Encarregado pelo papa Gregório X de preparar e conduzir os trabalhos do II Concílio de Lyon (1274), Boaventura teve papel decisivo na (efêmera) união com os gregos, proclamada em 6 de julho de 1274. Faleceu durante o próprio concílio, em 15 de julho de 1274. Sua atuação conciliadora em favor da unidade entre Oriente e Ocidente conserva valor ecumênico ainda hoje.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Teólogos
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Morte e sepultamento na igreja dos Frades Menores em Lyon
Boaventura morreu durante o II Concílio de Lyon, no domingo 15 de julho de 1274. Foi sepultado no dia seguinte na igreja dos Frades Menores de Lyon, em funeral solene assistido pelo papa Gregório X, pelo rei de Aragão, pelos cardeais e demais membros do concílio.
Translação de 1434 e achado da cabeça incorrupta
Em 1434, os restos de Boaventura foram transladados para a nova igreja erguida em Lyon em honra de São Francisco. Ao abrir o túmulo, a cabeça foi encontrada em perfeito estado de conservação, com a língua tão vermelha como em vida. O povo de Lyon, comovido, escolheu Boaventura como padroeiro da cidade, e o achado deu grande impulso ao processo de canonização.
O braço direito conservado em Bagnoregio
No reconhecimento do corpo em Lyon (1490) extraiu-se o braço direito de Boaventura, com que, segundo a tradição, escreveu o Comentário às Sentenças; no ano seguinte o santo braço foi levado a Bagnoregio, sua cidade natal, onde é conservado em relicário de prata na concatedral. É a única relíquia corporal sobrevivente de São Boaventura no mundo.
Destruição das relíquias pelos huguenotes (1562)
Em 1562, durante as guerras de religião, o santuário foi saqueado pelos huguenotes/calvinistas; a urna com o corpo foi queimada em praça pública e as cinzas dispersas nas águas de um rio de Lyon. A cabeça incorrupta foi salva e escondida, mas desapareceu durante a Revolução Francesa, e a igreja foi depois demolida. A urna nunca foi recuperada.
Onde está Boaventura de Bagnoregio hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Boaventura de Bagnoregio
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
A origem tradicional do nome “Boaventura” atribui a São Francisco de Assis a exclamação “O buona ventura!” (“Ó boa ventura!”) ao curar o menino João Fidanza de uma doença grave na infância. A própria Enciclopédia Católica adverte que essa derivação é altamente improvável e baseada numa lenda do fim do século XV — portanto é tradição, não fato histórico.
Boaventura e São Tomás de Aquino, amigos e contemporâneos, receberam solenemente o título de doutor na Universidade de Paris no mesmo período (1257) — Boaventura pelos franciscanos, Tomás pelos dominicanos. Ambos morreriam no mesmo ano de 1274.
Conta a tradição que, ao perguntar de quais livros Boaventura tirava sua sabedoria, São Tomás de Aquino foi levado a um pequeno oratório onde só havia um crucifixo; Boaventura teria dito que aquele era o seu principal livro, do qual tirava tudo o que ensinava e escrevia.
Quando os enviados do papa Gregório X lhe levaram o galero de cardeal em 1273, a tradição diz que encontraram Boaventura lavando a louça num convento; ele pediu que pendurassem o chapéu num galho de árvore até ter as mãos livres.
Por ter governado a Ordem dos Frades Menores por cerca de dezessete anos (1257–1274), consolidando-a e escrevendo a biografia oficial de São Francisco (a Legenda Maior), Boaventura é amplamente chamado de segundo fundador dos franciscanos.
Por humildade, recusou em 1265 a nomeação do papa Clemente IV para o arcebispado de York, na Inglaterra; o papa acabou cedendo e dispensou-o do encargo.
A tese de habilitação de Joseph Ratzinger — futuro papa Bento XVI — foi sobre a teologia da história em São Boaventura (publicada em 1959); já como papa, Bento XVI dedicou-lhe três catequeses nas Audiências Gerais de março de 2010.
Boaventura morreu durante o II Concílio de Lyon, em 15 de julho de 1274. Em 1562, huguenotes saquearam seu túmulo e queimaram seu corpo na praça pública de Lyon; a única relíquia que sobreviveu é o braço com que ele escreveu, hoje conservado em Bagnoregio.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100303.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100310.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20100317.html
- newadvent.org/cathen/02648c.htm
- britannica.com/biography/Saint-Bonaventure
- plato.stanford.edu/entries/bonaventure/
- ofm.org/en/st-bonaventure-of-bagnoregio.html
- catholic.com/encyclopedia/bonaventure-saint
- santo.cancaonova.com/santo/sao-boaventura-doutor-da-igreja/
- franciscanos.org.br/carisma/especiais/sao-boaventura-o-teologo-de-cristo-i
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=108
- papalencyclicals.net/sixtus05/triumph.htm
- thelatinlibrary.com/bonaventura.itinerarium.html
- christianiconography.info/bonaventure.html
- pocketterco.com.br/santo/sao-boaventura
- catholicsaints.info/saint-bonaventure/
- it.wikipedia.org/wiki/Bonaventura_da_Bagnoregio
- en.wikipedia.org/wiki/Bonaventure
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