Clarence Eugene Woodman / The Catholic Publication Society (Manual of Prayers, Baltimore, 1888) · fonte · PD
Anselmo de Cantuária
Santo Anselmo de Cantuária (Anselmo de Aosta), nascido por volta de 1033/1034 em Aosta, no norte da Itália, e falecido em 21 de abril de 1109 em Cantuária, na Inglaterra, foi monge beneditino, prior e abade da Abadia de Bec, na Normandia, e Arcebispo de Cantuária de 1093 a 1109. Doutor da Igreja e chamado "pai da Escolástica", uniu fé e razão sob o lema "fides quaerens intellectum" (a fé que busca a inteligência) e legou obras maiores como o Monologion, o Proslogion — onde formula o célebre argumento ontológico da existência de Deus — e o Cur Deus Homo, sobre a Encarnação e a Redenção. Defensor intrépido da liberdade da Igreja, enfrentou a querela das investiduras com os reis Guilherme II Rufo e Henrique I, o que lhe custou dois exílios, e participou do Concílio de Bari (1098). Sua festa litúrgica é celebrada em 21 de abril, e foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720.
A vida
Infância, formação e vocação monástica
Santo Anselmo nasceu em 1033 (ou no início de 1034) em Aosta, no norte da Itália, primogénito de uma família nobre. Seu pai, Gundulfo, era um lombardo radicado em Aosta — homem mundano, "dedicado aos prazeres da vida e dissipador dos seus bens" —, enquanto sua mãe, Ermenberga, de antiga família burgúndia, era "mulher de costumes excelsos e de profunda religiosidade", que imprimiu no filho a primeira educação cristã. Anselmo recebeu uma esmerada formação clássica e tornou-se um dos melhores latinistas de seu tempo. Após anos de buscas e de uma relação tensa com o pai, deixou sua terra e, atraído pela fama do mestre Lanfranco de Pavia, chegou por volta de 1059–1060 ao mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, onde ingressou como monge e se tornou discípulo predileto de Lanfranco.
Vida adulta e missão
Quando, em 1063, Lanfranco se tornou abade de Caen, Anselmo — após apenas três anos de vida monástica — foi nomeado prior de Bec. À morte de Herluino, fundador e primeiro abade da abadia, foi eleito unanimemente seu sucessor, tornando-se abade de Bec em 1078 (consagrado em fevereiro de 1079). Foi nesse período fecundo que compôs suas grandes obras filosófico-teológicas, entre elas o Monologion e o Proslogion — este originalmente intitulado Fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência"), no qual formula o famoso argumento ontológico da existência de Deus. Sua fama de santidade e sabedoria fez com que, em 1093, o rei Guilherme II Rufo o nomeasse Arcebispo de Cantuária; Anselmo recebeu a solene consagração episcopal em dezembro de 1093.
Lutas e controvérsias
Como arcebispo, Anselmo empenhou-se numa luta enérgica pela liberdade da Igreja, defendendo a independência do poder espiritual diante do temporal no contexto da querela das investiduras. Esse zelo o opôs aos reis Guilherme II Rufo e, depois, Henrique I, e custou-lhe dois exílios: o primeiro de 1097 a 1100 e o segundo a partir de 1103, prolongando-se até 1107. Durante o exílio concluiu na Itália o Cur Deus Homo, sua grande obra sobre a Encarnação e a Redenção. Manteve firme comunhão com os papas Urbano II e Pascoal II, e no Concílio de Bari, em 1098, foi chamado a expor e defender a fé católica — entre ela a doutrina do Filioque — diante dos bispos reunidos.
Últimos anos, morte e legado
Reconciliado com a Coroa, Anselmo pôde regressar definitivamente a Cantuária, onde passou os últimos anos no governo pastoral de sua sede. Faleceu no dia 21 de abril de 1109, em Cantuária, e foi sepultado em sua catedral. Mestre que uniu profundamente fé e razão sob o lema fides quaerens intellectum, é honrado como "pai da Escolástica". Sua festa litúrgica é celebrada em 21 de abril, e em 1720 o Papa Clemente XI proclamou-o Doutor da Igreja.
O contexto em que viveu
Santo Anselmo viveu entre meados do século XI e o início do século XII, uma das épocas mais decisivas da história da Igreja no Ocidente. Nasceu em Aosta, na Alta Borgonha, em 1033 ou início de 1034, e morreu em Cantuária em 1109, cobrindo com sua vida quase todo o arco da chamada Reforma Gregoriana. Foi o tempo em que o Papado, sob Gregório VII (1073–1085), empreendeu a purificação da Igreja contra a simonia (a compra e venda de cargos eclesiásticos) e o nicolaísmo, e reivindicou para a Sé Apostólica a plena liberdade frente ao poder temporal. O Dictatus Papae (1075) condensou essa visão, afirmando o primado romano e o direito exclusivo do Papa de nomear e depor bispos.
Dessa reforma nasceu a Querela das Investiduras, o conflito entre o Sacerdócio e o Império sobre quem podia conferir aos bispos os símbolos de seu ofício. O choque mais célebre opôs Gregório VII ao imperador Henrique IV: depois da excomunhão do imperador (1076), seguiu-se a humilhação de Canossa (janeiro de 1077), e a contenda só se encerraria, em terras do Império, com a Concordata de Worms (1122), já depois da morte de Anselmo. A mesma luta atravessou a Inglaterra e marcaria pessoalmente o futuro arcebispo.
Anselmo era, antes de tudo, um filho da abadia de Bec, na Normandia, que sob a direção de Lanfranco de Pavia se tornara um dos maiores centros intelectuais e monásticos da Europa. Foi de Bec que a Igreja normanda se projetou sobre a Inglaterra após a conquista normanda de 1066: vencida a batalha de Hastings por Guilherme, o Conquistador, e instalada uma nova hierarquia, o próprio Lanfranco passou a arcebispo de Cantuária em 1070. Anselmo seria seu sucessor em 1093, herdando também a tensa relação entre a Igreja inglesa e a Coroa.
Como arcebispo, Anselmo enfrentou dois reis. Guilherme II, o Rufo, ávido das rendas eclesiásticas e cioso de sua autoridade sobre a Igreja, levou-o ao primeiro exílio (a partir de 1097). Já Henrique I reabriu a disputa das investiduras na Inglaterra, provocando o segundo exílio do arcebispo, até o acordo conhecido como Concordata de Londres (1107), em que o rei renunciou ao direito de investir os bispos com báculo e anel, preservando-se apenas a homenagem feudal. Anselmo defendeu, sem ceder, a liberdade da Igreja diante do poder régio.
No plano da fé e da inteligência, o século XI assistia a um verdadeiro renascimento do estudo. Anselmo é justamente celebrado como o pai da Escolástica: sua fórmula fides quaerens intellectum ("a fé que busca compreender") e o argumento do Proslogion (o chamado argumento ontológico da existência de Deus), ao lado do Monologion e do Cur Deus Homo, deram à teologia um novo rigor especulativo, unindo oração e razão.
Por fim, o tempo de Anselmo era também o do recém-consumado Cisma do Oriente (1054), que separara Roma de Constantinopla, tendo entre suas questões o Filioque. No Concílio de Bari (1098), reunido por Urbano II — o mesmo Papa que em 1095, no Concílio de Clermont, pregara a Primeira Cruzada —, coube a Anselmo expor e defender a doutrina latina sobre a processão do Espírito Santo diante dos bispos gregos do sul da Itália. Mundo de reforma, de cruzada e de saber nascente: tal foi o cenário em que se desenrolou a vida deste monge, abade, arcebispo e Doutor da Igreja.
Como reconhecer Anselmo de Cantuária na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
O navio com o casco furado que não afundou
Segundo a Vita Anselmi de Eadmer, encontrou-se um grande buraco no casco do navio que o trouxe pelo mar, e ainda assim a água não entrou.
Cura de dois cavaleiros com febre quartã
Em Vienne, dois cavaleiros teriam sido curados de febres quartãs por meio de restos da mesa de Anselmo, conforme relatado por Eadmer.
Cura de uma mulher enferma pelo sinal da cruz
Eadmer narra que Anselmo restituiu plena saúde a uma mulher enferma fazendo sobre ela o sinal da santa Cruz.
Suas contribuições à teologia
O pensamento de Santo Anselmo de Cantuária (c.1033–1109) é resumido no lema fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência"), título original do seu Proslogion. Herdeiro de Santo Agostinho, ele não opõe fé e razão, mas as une: como afirma na abertura do Proslogion, "Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam" — "não busco compreender para crer, mas creio para compreender" (credo ut intelligam). A razão não cria a fé, mas aprofunda, clarifica e, em certa medida, demonstra aquilo que primeiro se acolhe pela fé.
No Monologion (c.1076), Anselmo propõe estabelecer, "por razões necessárias" e só pela razão, a existência de Deus, sumo bem do qual tudo procede, e a sua natureza. Insatisfeito com a cadeia de argumentos desse livro, escreveu o Proslogion (c.1077-1078) buscando um único argumento que bastasse por si. Ali formula o célebre argumento ontológico: Deus é "aliquid quo nihil maius cogitari possit" — "aquilo de que nada maior se pode pensar" (id quo maius cogitari nequit). Ora, aquilo de que nada maior se pode pensar não pode existir só no entendimento, pois então se poderia pensar algo maior — o mesmo existindo também na realidade; logo, necessariamente existe também na realidade.
O monge Gaunilo, em sua Resposta em favor do insensato, objetou que pelo mesmo raciocínio se provaria a existência de uma "ilha perfeita", a maior que se pode pensar — o que é absurdo. Anselmo respondeu que o argumento vale unicamente para aquilo de que nada maior se pode pensar, ser cuja não-existência é impensável, e não se transfere a coisas finitas como uma ilha.
Na sua obra mais influente em teologia, o Cur Deus Homo ("Por que Deus se fez homem", c.1094-1098), diálogo com o discípulo Boso, Anselmo expõe a teoria da satisfação da Redenção. Pecar "nada mais é do que não dar a Deus o que lhe é devido": o pecado rouba a Deus a honra que lhe pertence. Como a honra subtraída deve ser restituída ou seguir-se o castigo, é necessária uma satisfação proporcional à ofensa. Mas a dívida contra a dignidade infinita de Deus é tão grande que nenhuma criatura pode pagá-la — só Deus o pode; e contudo é o homem que deve pagá-la. Daí a necessidade do Deus-Homem (Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem), o único que pode e deve oferecer essa satisfação, em vez de pagar resgate ao demônio (teoria que Anselmo rejeita).
Anselmo escreveu ainda o De Veritate, onde define a verdade como "retidão" (rectitudo); o De Libertate Arbitrii, em que a liberdade é "o poder de conservar a retidão da vontade por si mesma"; e o De Casu Diaboli, sobre a queda dos anjos. No De Conceptu Virginali et de Originali Peccato tratou da concepção virginal de Cristo e do pecado original; e no De Processione Spiritus Sancti defendeu o Filioque contra os gregos — tese que havia sustentado no Concílio de Bari (1098).
Por unir o rigor lógico à contemplação e abrir o método de "fé que busca compreender" que floresceria com Tomás de Aquino, Anselmo é chamado pai da Escolástica. Foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade beneditina / monástica anselmiana
Formado no monaquismo beneditino (monge e abade de Bec antes de arcebispo de Cantuária), Anselmo viveu uma espiritualidade de oração contemplativa em que a razão teológica nunca se separa da prece. Suas Orações e Meditações (Orationes sive Meditationes), escritas sobretudo entre 1070 e 1080, foram um dos textos devocionais mais lidos da Idade Média e inauguraram um estilo de oração íntima, pessoal e afetiva, marcada por terna devoção mariana. Para ele, pensar a Deus é rezar: o próprio Proslogion, que contém o argumento ontológico, é redigido como uma oração dirigida a Deus, em que pede conhecê-Lo, amá-Lo e alegrar-se n'Ele. Razão e oração assim se unem, e o trabalho teológico tem por fim elevar a mente à contemplação de Deus.
A espiritualidade anselmiana continua a falar pelo seu lema fides quaerens intellectum: uma fé que não teme a razão, mas a busca, e uma razão que se mantém humilde diante do mistério. Convida o cristão de hoje a fazer teologia de joelhos — a unir estudo e oração — e mostra que a inteligência da fé nasce e desemboca na contemplação e no louvor a Deus.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Ordem de São Bento (OSB) — monaquismo beneditino
Ordem monástica fundada por São Bento de Núrsia, regida pela Regra de São Bento. Anselmo foi monge, prior (1063) e abade beneditino antes de ser Arcebispo de Cantuária; toda a sua formação espiritual e intelectual deu-se dentro do monaquismo beneditino.
Abadia de Notre-Dame du Bec (Le Bec-Hellouin), Normandia
Mosteiro beneditino fundado por Herluíno (Herluin), cavaleiro normando, em 1034. Sob Lanfranco e depois Anselmo tornou-se o mais célebre centro intelectual da cristandade do séc. XI. Anselmo entrou como monge (c.1060), foi prior (1063) e segundo abade (1078) até ser chamado a Cantuária. A abadia deu três arcebispos à Sé de Cantuária: Lanfranco, Anselmo e Teobaldo.
Sé / Arquidiocese de Cantuária (Canterbury)
Sé primaz da Inglaterra, fundada por Santo Agostinho de Cantuária em 597. Anselmo foi seu Arcebispo de 1093 a 1109, sucedendo a Lanfranco, e reafirmou a primazia de Cantuária sobre a Igreja inglesa.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Monológio
Tratado escrito no mosteiro de Bec que demonstra a existência e a natureza de Deus por meio de "razões necessárias", sem apelar à autoridade da Escritura. Apresenta argumentos a partir dos graus de bondade e de ser, e foi a primeira grande obra especulativa de Anselmo.
Proslógio
Originalmente intitulado Fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência"), contém o célebre argumento ontológico para a existência de Deus, concebido como "aquilo de que nada maior pode ser pensado". É a obra filosófica mais influente de Anselmo.
Sobre o Gramático
Diálogo dedicado a um problema de lógica e dialética: a análise semântica de termos como "gramático", distinguindo substância e qualidade. É a obra mais técnica e propriamente lógica de Anselmo.
Sobre a Verdade
Primeiro de três diálogos com seu discípulo. Investiga a noção de verdade como "retidão" (rectitudo) percebida pela mente, aplicando-a às proposições, ao pensamento, à vontade e às coisas.
Sobre o Livre-Arbítrio
Segundo dos três diálogos. Define a liberdade de escolha como o poder de conservar a retidão da vontade em vista dela mesma, mostrando que a liberdade não consiste na capacidade de pecar.
Sobre a Queda do Diabo
Terceiro dos três diálogos. Estende a doutrina anselmiana da liberdade e do pecado ao primeiro pecado dos anjos, explicando como uma criatura boa, recebendo tudo de Deus, pôde abandonar a retidão e cair.
Epístola sobre a Encarnação do Verbo
Escrita contra o triteísmo atribuído a Roscelino de Compiègne. Defende a doutrina trinitária e a unidade da essência divina, argumentando que apenas o Filho se encarnou, e tratando da questão dos universais.
Por que Deus se fez homem
Obra capital da soteriologia ocidental, na qual Anselmo expõe a teoria da satisfação: o homem, devedor a Deus por uma ofensa de gravidade infinita, não podia satisfazê-la; só o Deus-homem podia. Justifica a necessidade e a conveniência da Encarnação e da Redenção.
Sobre a Concepção Virginal e o Pecado Original
Continuação de Cur Deus Homo. Explica como a natureza humana de Cristo foi preservada do pecado original na concepção virginal, e analisa a transmissão e a natureza do pecado original na humanidade.
Sobre a Procissão do Espírito Santo
Defesa do Filioque contra os gregos, sistematizando os argumentos que Anselmo apresentara diante dos representantes orientais no Concílio de Bari (1098). Sustenta que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Epístola sobre o sacrifício do pão ázimo e fermentado
Breve escrito sobre a controvérsia entre latinos e gregos quanto ao uso de pão ázimo ou fermentado na Eucaristia, defendendo a legitimidade da prática latina.
Sobre os Sacramentos da Igreja
Tratado breve sobre variações litúrgicas e sacramentais entre as Igrejas, ligado à mesma controvérsia sobre o pão eucarístico. Defende a unidade essencial na fé sacramental apesar da diversidade de usos.
Sobre a concórdia da presciência, da predestinação e da graça com o livre-arbítrio
Última grande obra de Anselmo. Procura conciliar a presciência divina, a predestinação e a graça com a real liberdade humana, retomando e sintetizando temas dos diálogos anteriores.
Orações e Meditações
Coletânea de orações e meditações devocionais dirigidas a Cristo, à Virgem Maria e aos santos, com profunda contrição e contemplação da Paixão. Inaugurou uma tradição de devoção pessoal e intensa, de grande importância para a espiritualidade e a devoção mariana medieval.
Cartas
Vasta correspondência — centenas de cartas — endereçada a monges, bispos, reis e nobres de toda a Europa, abordando questões espirituais, doutrinais, disciplinares e políticas. Fonte essencial para sua biografia e para a história eclesiástica de seu tempo.
Como a Igreja celebra Anselmo de Cantuária
Oração a Anselmo de Cantuária
Peço-te, ó Deus: que eu te conheça, que eu te ame, para que me alegre em ti. E se nesta vida não posso alcançá-lo plenamente, que ao menos progrida dia após dia, até que aquilo chegue à plenitude. Avance aqui em mim o teu conhecimento, e ali se torne pleno; cresça o teu amor, e ali seja completo, para que aqui a minha alegria seja grande em esperança, e ali plena na realidade.
Amém.
Como o povo reza a Anselmo de Cantuária
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- As Orações e Meditações de Santo Anselmo — As Orationes sive Meditationes, compostas sobretudo entre 1070 e 1080, foram um dos textos devocionais mais lidos da Idade Média e ainda hoje alimentam a oração pessoal: meditações sobre Cristo, sua Paixão e a Virgem Maria, num estilo íntimo, afetivo e contemplativo.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
Na Catedral de Cantuária, a antiga capela de São Pedro e São Paulo — que escapou ao incêndio da década de 1170 e onde se crê terem sido depostos os restos de Anselmo — passou a chamar-se Capela de Santo Anselmo, lugar de memória e veneração do santo arcebispo.
O que Anselmo de Cantuária nos diz hoje
"Vamos, pobre criatura humana: foge por um pouco das tuas ocupações, esconde-te por um instante dos teus pensamentos tumultuosos. Lança fora agora os cuidados pesados e deixa de lado as tuas labutas fatigantes. Entra no quarto da tua mente, exclui tudo, exceto Deus e o que te ajude a buscá-lo, e, fechada a porta, busca-o."
— Proslogion, cap. 1"Peço-te, ó Deus: que eu te conheça, que eu te ame, para que me alegre em ti. E se nesta vida não posso alcançá-lo plenamente, que ao menos progrida dia após dia, até que aquilo chegue à plenitude."
— Proslogion, cap. 26Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Pois também creio nisto: que, se eu não crer, não compreenderei."
"Cremos que Tu és algo de que nada maior se pode pensar."
"Pecar não é, pois, outra coisa senão não dar a Deus o que lhe é devido."
"A liberdade do arbítrio é o poder de conservar a retidão da vontade por amor da própria retidão."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
A raiz principal do pensamento de Anselmo é Santo Agostinho de Hipona: dele Anselmo herdou o método do "crer para entender" e a confiança na harmonia entre fé e razão. Sua fórmula credo ut intelligam ("creio para entender") é inspirada diretamente no Bispo de Hipona — Anselmo escreve: "não procuro entender para crer, mas creio para entender".Formou-se na tradição monástica de São Bento, professando na abadia beneditina de Le Bec, na Normandia, onde viveu como monge, prior e abade. Ali teve por mestre Lanfranco de Pavia, prior de Bec, sob cuja direção retomou energicamente os estudos, tornando-se seu aluno predileto e confidente.Alimentaram ainda o seu pensamento a Sagrada Escritura e os Padres da Igreja, lidos e meditados na vida litúrgica e contemplativa do mosteiro, que Anselmo sempre considerou o solo de onde brotava sua especulação teológica.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
Santo Anselmo de Cantuária é tradicionalmente considerado o pai da Escolástica: foi o primeiro a aplicar de modo sistemático a razão dialética à fé, abrindo o caminho que culminaria na grande teologia medieval. Sua máxima fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência") tornou-se o programa de toda uma era do pensamento cristão.Sua contribuição mais célebre é o chamado argumento ontológico da existência de Deus, formulado no Proslogion, segundo o qual Deus é "aquilo de que nada maior pode ser pensado" (aliquid quo nihil maius cogitari possit). O argumento atravessou toda a história da filosofia: foi retomado e reformulado por São Boaventura e por João Duns Escoto, mais tarde recuperado por Descartes (na Quinta Meditação) e por Leibniz; foi, por outro lado, rejeitado por Santo Tomás de Aquino — que negava ser a existência de Deus evidente para nós — e criticado por Immanuel Kant, com a objeção de que "a existência não é um predicado real".Na teologia da Redenção, Anselmo deixou marca decisiva com a teoria da satisfação, exposta no tratado Cur Deus Homo ("Por que Deus se fez homem"). Foi a primeira tentativa de explicar de modo sistemático por que o Verbo se encarnou e como a vida, a morte e a ressurreição de Cristo realizaram a salvação; o modelo da satisfação passou a orientar a soteriologia ocidental, substituindo em grande parte a antiga teoria do resgate.Anselmo influenciou também a devoção mariana: suas orações a Maria difundiram a piedade ao seu papel de intercessora e prepararam o terreno para o desenvolvimento da doutrina da Imaculada Conceição, depois defendida por Duns Escoto com apoio em textos anselmianos.Pela profundidade de sua obra, Anselmo foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
A querela das investiduras na Inglaterra
Como Arcebispo de Cantuária (consagrado em 4 de dezembro de 1093), Anselmo defendeu a liberdade da Igreja contra a ingerência régia. Entrou em conflito com o rei Guilherme II Rufo, que lhe exigiu pagamentos e disputou o direito de lhe conferir o pálio; Anselmo recusou-se a recebê-lo das mãos do rei e, em 1097, partiu para o exílio, tendo o monarca confiscado as rendas de Cantuária.
Sob Henrique I, o conflito recrudesceu: Anselmo recusou-se a prestar homenagem ao rei e a receber a investidura episcopal de suas mãos, o que o levou a um segundo exílio (1103). Após encontros em Laigle (1105) e em Bec (1106), chegou-se ao acordo selado no Concílio (Concordata) de Londres de 1107: o rei renunciou a investir os prelados com báculo e anel, enquanto a Igreja admitiu que os bispos prestassem homenagem ao rei pelos bens temporais.
A objeção de Gaunilo ao argumento ontológico
O monge beneditino Gaunilo de Marmoutiers, em seu escrito Em defesa do insensato (Pro insipiente), objetou ao argumento do Proslogion propondo, por analogia, a "ilha perfeita": se o raciocínio de Anselmo fosse válido, poder-se-ia provar a existência da ilha "de que nenhuma maior se pode pensar". Anselmo respondeu na Responsio (Liber apologeticus), sustentando que a analogia não procede, pois só a Deus — e a nada mais — pertence existir necessariamente, de modo que apenas a Ele se aplica o argumento.
O Filioque e o Concílio de Bari (1098)
No Concílio de Bari, convocado pelo Papa Urbano II em 1098, Anselmo foi chamado a defender a doutrina latina da processão do Espírito Santo "também do Filho" (Filioque) diante dos gregos. Sua exposição foi depois desenvolvida no tratado De processione Spiritus Sancti (1102).
Polêmicas ainda em aberto
O argumento ontológico na filosofia moderna e analítica
O argumento do Proslogion continua vivo no debate filosófico contemporâneo. No século XX, autores como Norman Malcolm, Charles Hartshorne e Alvin Plantinga propuseram versões modais, centradas não na "existência" como predicado, mas na existência necessária e na lógica dos mundos possíveis, com o intuito de responder à crítica de Kant. Kurt Gödel formulou uma versão lógico-formal baseada na noção de "propriedades positivas". O próprio Plantinga reconhece que tais argumentos podem mostrar que é racional aceitar a conclusão, mas não a provam de modo coercitivo — e as objeções permanecem em aberto.
A teoria da satisfação em debate
A soteriologia de Anselmo segue sendo discutida hoje, em confronto com outros modelos da expiação — o Christus Victor e a teoria da "influência moral". A clássica obra de Gustaf Aulén (Christus Victor, 1931) popularizou essa tipologia e criticou o modelo anselmiano por seu enquadramento "feudal" da honra; estudos posteriores, porém, mostram raízes patrísticas tanto para a satisfação quanto para o Christus Victor. O debate sobre o alcance e os limites da teoria da satisfação permanece aberto na teologia atual.
Fé e razão hoje
O ideal anselmiano da fides quaerens intellectum é frequentemente evocado nas discussões contemporâneas sobre a relação entre fé e razão. O Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 23 de setembro de 2009, apresentou Anselmo como modelo de teólogo em que a razão não se opõe à fé, mas é instrumento essencial da inteligência do crer — tema central do magistério recente sobre a harmonia entre fé e razão.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Teólogos
- Filósofos
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento na Catedral de Cantuária (1109)
Após morrer em 21 de abril de 1109, Anselmo foi sepultado na Catedral de Cantuária, junto ao seu mestre Lanfranco, no lado sul do Altar da Santíssima Trindade (atual Capela de São Tomás).
Transferência para a Capela de Santo Anselmo
Durante a reconstrução da catedral após o grande incêndio da década de 1170, os restos de Anselmo foram realocados; crê-se que para a capela então dedicada a São Pedro e São Paulo, no lado sul do altar-mor, que por isso passou a chamar-se Capela de Santo Anselmo. O local exato, porém, é incerto, e o paradeiro atual das relíquias é desconhecido.
Onde está Anselmo de Cantuária hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Anselmo de Cantuária
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
O Proslogion foi escrito originalmente com o título "Fides quaerens intellectum" ("A fé que busca a inteligência"). Só depois foi rebatizado "Proslogion", por sugestão do amigo de Anselmo, o arcebispo Hugo de Lião.
O célebre "argumento ontológico" para a existência de Deus, que Anselmo apresentou no Proslogion como "aquilo de que nada maior pode ser pensado", não recebeu esse nome dele: a expressão consagrou-se séculos depois, já na filosofia moderna.
Anselmo morreu na Quarta-feira Santa, 21 de abril de 1109, em Cantuária.
É chamado o "pai da Escolástica" e descrito como um dos intelectos mais luminosos e penetrantes entre Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.
A abadia de Bec, na Normandia, deu três arcebispos à Sé de Cantuária: Lanfranco, Anselmo e Teobaldo — todos formados ali.
No tratado "Cur Deus Homo" ("Por que Deus se fez homem"), Anselmo formulou a chamada "teoria da satisfação" da redenção, mostrando por argumentos racionais por que só o Deus-Homem poderia saldar a dívida do pecado.
Foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720, recebendo o título "Doctor Magnificus" (Doutor Magnífico).
Sua primeira grande obra, o Monologion (1075-1076), tinha originalmente o título "Exemplum meditandi de ratione fidei" ("Exemplo de meditação sobre a razão da fé").
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090923.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090923.html
- newadvent.org/cathen/01546a.htm
- newadvent.org/cathen/02379b.htm
- britannica.com/biography/Saint-Anselm-of-Canterbury
- plato.stanford.edu/entries/anselm/
- plato.stanford.edu/entries/ontological-arguments/
- iep.utm.edu/anselm-of-centerbury/
- ewtn.com/catholicism/saints/anselm-470
- ewtn.co.uk/saint-anselm-of-canterbury/
- la.wikisource.org/wiki/Proslogion
- logicmuseum.com/wiki/Authors/Anselm/cur_deus_homo/Liber_1
- ewtn.com/catholicism/library/cur-deus-homo-1316
- worldhistory.org/article/2068/anselms-proslogion/
- canterbury-archaeology.org.uk/st-anselm-chapel-painting
- santiebeati.it/dettaglio/26800
- bible.usccb.org/bible/readings/0421-memorial-anselm.cfm
- en.wikipedia.org/wiki/Anselm_of_Canterbury
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