Agostinho de Hipona
Santo Agostinho (bispo de Hipona e Doutor da Igreja) é uma das figuras centrais do cristianismo ocidental: sua pregação e sua produção teológica ajudaram a Igreja a enfrentar controvérsias do seu tempo.
A vida
Infância, formação e conversão
- Educação cristã e relação com a fé: Desde cedo, recebeu uma educação baseada nos princípios cristãos, tendo forte ligação com a catequese da época; as fontes mencionam que ele foi inscrito formalmente entre os catecúmenos.
- O tema do adiamento do batismo por hábito do tempo: Ao ficar gravemente doente, Agostinho buscou o batismo. No entanto, assim que superou o perigo de morte, acabou adiando a recepção do sacramento , uma prática que era um costume comum daquele período, mas considerada deplorável pelos líderes da Igreja, pois deixava a conversão real para mais tarde.
- O papel decisivo da mãe: A tradição biográfica da Igreja destaca o papel fundamental de sua mãe, Mônica, descrita historicamente como o modelo perfeito das mães cristãs. Relata-se que suas virtudes e orações constantes foram a força que levou inclusive o pai de Agostinho à graça do batismo e a uma morte santa.
- O entendimento de sua conversão fundamenta-se em sua própria produção literária : A grande riqueza de documentos que temos sobre o período inicial de sua vida e sua conversão é associada ao que se sabe diretamente por meio de seus próprios escritos biográficos e teológicos, com destaque para os livros Confissões e Retratações.
Vida adulta e missão principal
- Ordem de vida monástica e busca de verdade: Após ser batizado na vida adulta, ele retorna ao continente africano com a firme intenção de viver em comunidade seguindo o ideal do monaquismo (estilo de vida consagrado), totalmente voltado ao serviço de Deus por meio da oração, do estudo profundo e da pregação.
- Ordenação como sacerdote e início da vida pastoral: Foi ordenado sacerdote no ano de 391 na cidade de Hipona, embora demonstrasse alguma reticência e temor inicial diante do peso dessa responsabilidade. Junto de seus companheiros de comunidade, viveu uma forma de vida totalmente dedicada a Deus e ao serviço da verdade teológica.
- Ordem episcopal: Quatro anos mais tarde, em 395, foi ordenado bispo em Hipona, dando continuidade incansável ao seu estudo das Escrituras Sagradas e da tradição cristã.
- Trabalho pastoral contínuo e formação do clero: As fontes descrevem uma atuação pastoral intensa e diária: ele pregava para o povo várias vezes por semana, prestava auxílio material e espiritual aos pobres e órfãos e supervisionava diretamente a formação teológica do clero (padres), além de organizar e guiar mosteiros tanto para homens quanto para mulheres.
Lutas, controvérsias ou perseguições
- Heresias e movimentos que ameaçavam a fé: Sua atividade pastoral e intelectual esteve diretamente ligada ao combate de tendências e heresias descritas como “tenazes e perturbadoras”, que ameaçavam a unidade da Igreja. Destacam-se três correntes teológicas:
- Maniqueísmo: filosofia que dividia o mundo rigidamente entre o Bem e o Mal como forças iguais.
- Donatismo: movimento que dividia a Igreja por afirmar que a validade dos sacramentos dependia da pureza moral do padre.
- Pelagianismo: heresia que pregava que o homem podia se salvar por suas próprias forças, minimizando a necessidade da graça divina.
- Debates públicos e busca de diálogo: As fontes apontam que Agostinho realizava debates públicos com esses pensadores heréticos e “buscava o diálogo” teológico sincero, tratando a controvérsia e a correção dos erros como parte essencial do seu cuidado de pastor pelas almas.
- Controvérsias e divisões eclesiais na correspondência: Em uma de suas cartas enviadas a São Jerônimo, Agostinho expressa sua profunda dor e lamenta a existência de uma “discordância dolorosa” surgida entre pessoas que antes se amavam e que eram unidas por um forte vínculo de amizade reconhecido em quase todas as Igrejas.
- A teologia como serviço da Igreja: em outra correspondência recebida por ele (que funcionava como um incentivo para que continuasse escrevendo), o pedido explícito feito a Agostinho é que ele redija tratados teológicos “para o serviço incrível da Igreja”.
Últimos anos e legado
- Planejamento pastoral do sucessor: antevendo o fim de seus dias, ele planejou cuidadosamente a transição pastoral para evitar divisões na diocese. No dia 26 de setembro de 426, reuniu os fiéis na Basílica da Paz e apresentou oficialmente o padre Heráclio como o sucessor designado para o cargo.
- Caráter dos últimos anos: marcado por um estudo ainda mais intenso e trabalho intelectual. Após nomear e transferir as principais obrigações administrativas ao seu sucessor, dedicou os anos restantes a um aprofundamento nos estudos das Escrituras, mantendo a produção de obras e a participação em debates públicos.
- Durante a invasão do povo bárbaro dos Vândalos à região da África romana, o cerco à cidade de Hipona durou quase quatorze meses. Foi exatamente no decorrer do terceiro mês desse angustiante cerco que o santo bispo adoeceu gravemente e veio a falecer, entregando sua alma a Deus aos 75 anos de idade."
- Morte e continuidade: faleceu piedosamente no dia 28 de agosto de 430. A tradição teológica e histórica liga intimamente o seu imenso legado literário ao esforço comunitário da Igreja para preservar a memória e a integridade de suas obras, mesmo em meio à destruição causada pela invasão bárbara.
O contexto em que viveu
Agostinho viveu no norte da África romana, numa região em que a Igreja já possuía uma estrutura institucional forte e consolidada e, ao mesmo tempo, enfrentava sérios desafios doutrinais que colocavam em risco a unidade da fé cristã. Em sua época, as tendências e heresias conhecidas como maniqueísmo, donatismo e pelagianismo eram descritas como movimentos suficientemente persistentes e perturbadores a ponto de ameaçarem o dogma essencial do cristianismo: a fé em um só Deus, rico em misericórdia. Nesse ambiente de crise teológica, a tarefa de um bispo ia muito além da administração prática da diocese: incluía o dever de ensinar a sã doutrina, julgar as tensões comunitárias e responder com clareza teológica às divisões que surgiam.
Além disso, o panorama geopolítico da vida de Agostinho foi profundamente atravessado por tensões políticas e militares que culminaram na derrocada das fronteiras romanas. No fim de sua vida, a própria cidade de Hipona encontrava-se sob cerco de invasores bárbaros; e é justamente nesse quadro de extremo sofrimento social e fragilidade física que o seu cuidado espiritual transparece nos seus gestos e no modo como enfrentou a doença até a morte em 430. Do ponto de vista da geografia eclesial, registra-se que Hipona tinha uma importância concreta e estratégica para a Igreja da época: a cidade foi sede de diversos concílios (reuniões regionais de bispos) em anos marcantes, incluindo 393, 397 e 426, demonstrando que o local e o episcopado de Agostinho eram pontos de referência fundamentais para as decisões pastorais, disciplinares e doutrinais de toda a região.
Como reconhecer Agostinho de Hipona na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
A Cura no Cerco de Hipona
Conforme registrado por seu biógrafo contemporâneo e amigo, São Possídio, no livro Vida de Santo Agostinho, o santo operou uma cura física pouco antes de sua morte em 430 d.C., durante o cerco dos vândalos. Um homem doente foi levado até ele, e Agostinho, impondo as mãos e orando, alcançou a sua cura imediata.
Curas Tradicionais
A hagiografia católica posterior registra relatos de curas físicas milagrosas atribuídas à intercessão e ao toque do santo, com destaque para a cura de pessoas acometidas por cegueira.
Suas contribuições à teologia
O pensamento principal de Santo Agostinho centra-se na busca incessante pela Verdade e por Deus através da interioridade, defendendo que o ser humano possui uma inquietude natural no coração que só encontra repouso na comunhão divina. Unindo de forma pioneira a filosofia clássica à fé cristã, ele estabeleceu que a razão e a fé cooperam mutuamente para o conhecimento (resumido no conceito de "crer para compreender e compreender para crer"), enquanto a sua teoria da iluminação divina afirma que a mente humana precisa da luz de Deus para alcançar as verdades eternas. Toda a sua teologia e ética giram em torno do primado do amor ordenado e da necessidade absoluta da graça divina para curar o livre-arbítrio e conduzir a alma à salvação.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade agostiniana
A espiritualidade agostiniana fundamenta-se no pensamento, na vida e na Regra de Santo Agostinho (século IV-V). Ela é marcada por uma profunda busca interior da Verdade (Deus) em comunhão com o próximo. Longe de ser um exercício puramente intelectual, caracteriza-se pela dinâmica do "coração inquieto" (cor inquietum), que só repousa ao encontrar o Criador, e pela centralidade do amor e da graça divina na transformação do ser humano.
Hoje, essa espiritualidade é vivenciada tanto por ordens religiosas (como os Agostinianos e Agostinianas Recoletos) quanto por leigos em colégios, universidades, paróquias e comunidades. Ela se manifesta na busca pelo equilíbrio entre a vida contemplativa e a ação apostólica, no cultivo de amizades sinceras, no diálogo aberto entre a fé e a razão (cultura e ciência), e no compromisso social em prol da justiça e dos mais necessitados, sempre sob o princípio da fraternidade.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Ordem de Santo Agostinho (OSA)
Ordem mendicante voltada para a vida comunitária, a busca da Verdade (interioridade), o serviço paroquial e a educação (escolas e universidades).
Ordem dos Agostinianos Recoletos(OAR)
Um ramo nascido da reforma da ordem principal, focado em uma vida de intensa oração comunitária, austeridade, missões e pastoral paroquial.
Irmãs Agostinianas Recoletas (IAR)
Congregação de freiras que uniram o carisma contemplativo agostiniano à ação prática no mundo, dedicando-se à educação de meninas, assistência aos pobres e cuidado com órfãos.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Dos Costumes da Igreja Católica
Obra moral de grande valor teológico que apresenta Deus como a referência e o “bem supremo” do ser humano. A partir disso, desenvolve como devem ser as virtudes e os deveres práticos do amor ao próximo.
Sobre a mentira
Uma profunda investigação moral sobre a mentira e a necessidade de cultivar e inculcar no cristão o amor de sempre falar a verdade. A nota do texto também menciona a relação desta obra com outro escrito seu chamado Against Lying (Contra a Mentira).
Confissões
Uma das obras mais importantes da teologia ocidental; trata-se de uma autobiografia espiritual com foco total na interioridade humana.
A Cidade de Deus
Uma das obras mais monumentais e influentes do pensamento ocidental. Escrita para defender o Cristianismo após o saque de Roma pelos visigodos, o autor desenvolve uma profunda teologia da história detalhando o conflito místico e moral entre duas cidades: a Cidade de Deus (baseada no amor divino) e a Cidade dos Homens (baseada no amor-próprio e no egoísmo).
A Trindade
Obra teológica culminante de Santo Agostinho. Nela, o santo dedica décadas de reflexão para investigar o maior mistério da fé cristã, utilizando analogias da mente humana (como a tríade memória, inteligência e vontade) para tentar compreender as relações de amor e igualdade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
A Doutrina Cristã
Tratado fundamental sobre como ler, interpretar e ensinar as Sagradas Escrituras de maneira correta (hermenêutica e homilética). O texto ensina o leitor a discernir os sinais e as palavras da Bíblia para extrair a verdadeira essência divina, além de orientar pregadores a comunicar a fé com clareza e beleza
Retratações
Obra única no final de sua vida, citada especificamente no estudo de sua Vida. Em um gesto notável de humildade intelectual e honestidade doutrinária, Santo Agostinho revisita cronologicamente quase todos os seus livros e escritos anteriores para reavaliá-los, retificar passagens ambíguas e esclarecer o amadurecimento do seu pensamento teológico.
Manual sobre a Fé, a Esperança e a Caridade
Um guia prático e conciso da teologia agostiniana escrito em resposta a um pedido de um cidadão romano chamado Laurêncio. O santo estrutura o resumo de toda a doutrina e espiritualidade cristã baseando-se nas três virtudes teologais: a Fé (explicada através do Credo), a Esperança (focada na oração do Pai Nosso) e a Caridade (o amor como ápice da vida cristã
Comentários aos Salmos
A maior e mais extensa obra exegética escrita por Santo Agostinho, composta por homilias, sermões e notas detalhadas sobre cada um dos 150 Salmos bíblicos. O autor faz uma leitura profundamente mística e prática do Saltério, interpretando os versículos como as vozes proféticas da Igreja e de Cristo (o Cristo Total) em constante diálogo e oração com o Pai.
Como a Igreja celebra Agostinho de Hipona
Leituras próprias da Missa
- 1ª Leitura 1Jo 4, 7-16
- Salmo Salmo 118(119)
- Evangelho Mt 23, 8-12
Oração a Agostinho de Hipona
Ó excelentíssimo Doutor da Igreja, Santo Agostinho, que depois de teres percorrido os caminhos do erro e do vício, fostes iluminado pela graça divina e te transformastes num farol de sabedoria para o mundo inteiro.
Olha para mim, que tantas vezes me sinto perdido em minhas próprias dúvidas e fraquezas. Concede-me, por tua intercessão, uma centelha dessa luz divina que transformou o teu coração. Ajuda-me a compreender as verdades da fé, dá-me clareza nos estudos e sabedoria nas decisões da minha vida. Que eu saiba, a teu exemplo, buscar a Deus acima de todas as coisas e encontrar n’Ele a verdadeira paz.
Amém.
Novena a Agostinho de Hipona
Oração inicial para todos os dias Peregrino e enfermo, volto a Vós, Deus meu, cansado de peregrinar fora de Vós, e agoniado pelo grave peso de meus males. Vi, experimentei: fora de Vós não há abrigo, nem fartura, nem descanso, nem bem algum que sacie os desejos da alma que criastes. Pai-Nosso; Ave-Maria; Glória ao Pai. Ladainha de Santo Agostinho Oração final para todos os dias Ó Deus, que iluminastes o vosso Bispo Santo Agostinho com a luz da vossa graça, para que ele buscasse ardorosamente a Vossa sabedoria e a encontrasse; iluminai também os nossos corações com a Vossa luz, para que sempre Vos procuremos e Vos amemos sobre todas as coisas. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.
O Coração Inquieto e o Repouso em Deus
Confissões I, 1 — "Fizeste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto, enquanto não repousar em Vós"
O Primado do Amor e a Caridade Ativa
Comentário à Epístola de São João VII, 8 — "Ama, e faze o que queres! Se emudeces, emudece por amor; se gritas, grita por amor; se repreendes, r..."
A Humildade contra os Obstáculos do Orgulho
Sermão 117 — "Deus não pode estar em ti, porque já estás repleto de ti."
A Liberdade Humana e a Cooperação com a Graça
Sermão 169, 11, 13 — "Quem te criou sem ti, não te salvará sem ti."
A Retidão e a Pureza de Intenção na Oração
Tiago 4, 3 (Comentado por Santo Agostinho ) — "Deus não nos ouve, ou por pedirmos mal, ou por pedirmos coisas ruins. Em latim: aut male, aut mala."
O Reconhecimento da Fragilidade diante de Deus
A Trindade XV, 28 — "Dai-me a força de vos buscar, Vós que permitistes serdes encontrado e me cumulastes de esperança de..."
O Desejo Sincero e o Fervor do Coração
Confissões X, 4.6 ; Carta 130, 10.20 — "Estes são vossos servos, meus irmãos, que quisestes que fossem filhos vossos e meus senhores, a quem..."
A Intercessão Paciente e as Lágrimas de Mãe
Confissões III, 12.21 — "Enquanto viveres é impossível que se perca o filho dessas lágrimas."
O Encontro com a Beleza Verdadeira e Interior
Confissões III, 6.11 ; Confissões X, 27.38 — "Era a Vós que eu procurava. E Vós estáveis dentro da parte mais profunda e acima da parte mais alta..."
Como o povo reza a Agostinho de Hipona
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Novena de Santo Agostinho — Prática de oração realizada tradicionalmente ao longo de nove dias antecedentes à sua festa litúrgica (28 de agosto). Durante a novena, os fiéis meditam sobre seus escritos, sua conversão e suas virtudes (como a busca pela verdade e o amor fraterno), recitando orações específicas e pedindo sua intercessão.
Medalhas e escapulários
- Entrega e Uso da Correia Agostiniana — Trata-se de um sacramental profundamente ligado à devoção popular agostiniana (Nossa Senhora da Consolação e Correia). O cordão ou correia de couro benta, usada na cintura, simboliza o compromisso de conversão, a pureza, a herança espiritual de Santo Agostinho e a proteção maternal de Maria.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
: Celebrações culturais e religiosas tradicionais que ocorrem em diversas comunidades e paróquias de matriz agostiniana no Brasil durante o mês de agosto. A tradição local engloba tríduos, procissões solenes pelas ruas e a realização de quermesses e festas beneficentes populares que mobilizam as famílias e os fiéis da região.
O que Agostinho de Hipona nos diz hoje
"Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim e eu Te procurava fora!"
— Confissões X, 27"Se me perguntassem qual é o primeiro preceito da religião cristã, eu responderia: o primeiro é a humildade; o segundo, a humildade; e o terceiro, a humildade."
— Carta 118, 22"Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor."
— Comentário à Primeira Epístola de João VII, 8Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração andará inquieto enquanto não descansar em Ti."
"Compreende para crer, crê para compreender"
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
A transformação de Agostinho foi impulsionada por duas grandes figuras que reorientaram sua mente e seu coração.O primeiro impacto veio do filósofo pagão Cícero. Na juventude, ao ler a obra Hortensius, Agostinho foi despertado por um desejo avassalador de buscar a sabedoria eterna, abandonando as ambições fúteis e iniciando sua jornada em busca da verdade.Anos mais tarde, em Milão, ele conheceu Santo Ambrósio. Atraído inicialmente pela famosa oratória do bispo, Agostinho acabou cativado por sua profunda bondade e santidade. Ambrósio ensinou-o a compreender as Escrituras de forma espiritual, desfazendo seus preconceitos intelectuais e abrindo as portas para sua conversão e batismo.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
Agostinho exerceu uma influência monumental e profunda na literatura cristã e nas bases do desenvolvimento cultural e filosófico de todo o Ocidente. Ele se tornou um ponto central para onde convergiam as grandes ideias de sua época e de onde nasceram novos caminhos intelectuais para a humanidade.Há registros históricos importantes, inclusive atribuídos ao Papa Paulo VI, de que todas as correntes de pensamento do passado se encontram e se reúnem nas obras do santo.Sua grande capacidade pastoral e inteligência teológica para enfrentar e desestruturar os movimentos que ameaçavam a fé de seu tempo — como o maniqueísmo, o donatismo e o pelagianismo — acabaram por marcar e pavimentar de forma definitiva as rotas trilhadas por toda a teologia ocidental nos séculos seguintes.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
Maniqueísmo, Donatismo e Pelagianismo
- Três correntes de pensamento que aparecem de forma explícita nas fontes históricas catalogadas como “heresias tenazes e perturbadoras”, que exigiram uma árdua e constante ação pastoral e intelectual de Agostinho para proteger a Igreja.
A virada contra o pelagianismo
- Logo após uma grande reunião de bispos na cidade de Cartago, no ano de 411, a polêmica com o grupo dos pelagianos ficou ainda mais séria. A partir daí, Agostinho passou a combater firmemente as ideias erradas desse grupo, usando seus sermões nas igrejas e enviando cartas para orientar as pessoas.
A salvação como presente de Deus
- Nas partes focadas nos ensinamentos da Igreja, Agostinho defende firmemente que a graça de Deus é um presente totalmente gratuito. Ele deixava claro que Deus não nos ajuda ou salva como um "pagamento" por nossas boas ações ou merecimentos. Com isso, ele derrubava o pensamento pelagiano, que dizia erradamente que o ser humano conquista a salvação por seu próprio esforço
Polêmicas ainda em aberto
O Debate sobre o Corpo e a Sexualidade
Pensadores e psicólogos modernos acusam Agostinho de introduzir um pessimismo excessivo e uma "culpa sexual" no Ocidente ao associar o pecado original ao ato da geração. Em contrapartida, teólogos defendem que sua rigidez era uma resposta aos excessos de Roma e aos seus próprios vícios de juventude, lembrando que ele valorizava o corpo e defendia a ressurreição da carne.
O Cisão entre Católicos e Protestantes
Na Reforma do século XVI, Lutero e Calvino usaram os textos de Agostinho sobre a Graça para fundamentar a predestinação e a ideia de que o homem é totalmente corrompido pelo pecado. A Igreja Católica rebate essa visão, argumentando que os protestantes radicalizaram o santo, pois ele defendia que o ser humano mantém o livre-arbítrio para cooperar com a graça divina.
O Distanciamento da Igreja Ortodoxa
Os cristãos orientais rejeitam a tese agostiniana de que a humanidade herdou a "culpa" jurídica do pecado de Adão. Para o Oriente, nós herdamos apenas as consequências físicas do erro (como a doença e a morte), o que faz com que as teses do santo não tenham o mesmo peso teológico que possuem no Ocidente.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Teólogos
- Convertidos
- Diocese de Pavia
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Catedral de Santo Estêvão
Local onde o corpo de Santo Agostinho foi inicialmente sepultado por seus discípulos logo após o seu falecimento. Seus restos mortais permaneceram em paz neste templo-catedral dedicado a Deus em honra do protomártir Santo Estêvão por um longo período.
Oliveira Milenar de Santo Agostinho (Antiga Tagaste)
Cidade natal do santo. O local atrai peregrinos que visitam uma oliveira milenar associada aos seus estudos durante a juventude.
Igreja na Sardenha (Cagliari)
Devido à violenta perseguição promovida pelos vândalos contra os católicos no norte da África, o corpo de Santo Agostinho foi retirado de Hipona e transferido para a ilha da Sardenha para ser protegido contra profanações.
Basílica de San Pietro in Ciel d’Oro
Por iniciativa do rei Luitprando, os restos mortais do santo doutor foram transferidos da Sardenha para a igreja de San Pietro in Ciel d’Oro, em Pavia, por volta do ano 725. É neste local que o corpo de Santo Agostinho se encontra guardado e venerado até os dias de hoje.
Onde está Agostinho de Hipona hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Agostinho de Hipona
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
Durante o duro período de cerco militar à sua cidade e sofrendo com a sua doença final, Agostinho demonstrou uma reação profundamente humana e piedosa: ele pediu que os salmos penitenciais fossem copiados em letras e caracteres bem grandes e fixados nas paredes de seu quarto de cama. Ele fazia isso para que pudesse ver e ler as orações bíblicas diretamente, e o relato afirma que ele passava o tempo vertendo lágrimas quentes e constantes
No meio de todo o cenário de sofrimento social vivido em Hipona, os registros apontam que Agostinho buscava consolar a si mesmo e aos seus fiéis por meio da oração e da meditação teológica sobre a providência de Deus. Nessas ocasiões, ele utilizava a expressão de que o mundo vivia o seu envelhecimento
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080109.html
- noticias.cancaonova.com/mundo/papa-destaca-santo-agostinho-e-unidade-dos-cristaos/
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080220.html
- newadvent.org/cathen/02084a.htm
- liriocatolico.com.br/enciclopedia/palavra/hipona_regia/
- agostinianos.org.br/wp-content/uploads/2020/10/Carta-Apost-lica-Agostinho-de-Hipona.pdf
- agustinosrecoletos.org/2022/08/san-agustin-y-la-sinodalidad/?lang=pt-br
- santo.cancaonova.com/santo/santo-agostinho-doutor-da-igreja-2/
- cnbb.org.br/saiba-quais-sao-as-cores-das-vestes-liturgicas-e-seus-significados/
- arquidiocesedefortaleza.org.br/santo-agostinho-3/
- perpetuosocorroms.com.br/oracoes/oracao-a-santo-agostinho
- pocketterco.com.br/terco/novena-a-santo-agostinho-inicia-em-19-de-agosto#google_vignette
- agostinianos.org.br
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