Atanásio de Alexandria
Santo Atanásio de Alexandria (Alexandria, c. 296/298 – 2 de maio de 373) foi bispo e patriarca de Alexandria, Padre e Doutor da Igreja, reconhecido como o maior defensor da fé professada no Concílio de Niceia (325), no qual participou ainda jovem como diácono e secretário do bispo Alexandre. Eleito bispo de Alexandria em 328, dedicou todo o seu episcopado à defesa intransigente da divindade do Verbo e do termo niceno “homoousios” (consubstancial ao Pai) contra a heresia ariana, que então dominava grande parte do Império e do próprio episcopado. Sua firmeza solitária ficou imortalizada na expressão “Athanasius contra mundum” (Atanásio contra o mundo), e a tradição o consagrou como “Pai da Ortodoxia”. Por sua causa foi injustamente deposto no Sínodo de Tiro (335) e padeceu cinco exílios sob os imperadores Constantino, Constâncio II, Juliano e Valente, passando cerca de dezessete anos longe de sua sé, parte deles refugiado entre os monges do deserto egípcio. Foi autor de obras fundamentais da teologia cristã, como “Contra os Gentios”, “Sobre a Encarnação do Verbo” e as “Orações contra os Arianos”, além da célebre “Vida de Santo Antão”, que difundiu o ideal monástico no Oriente e no Ocidente. Morreu em paz em Alexandria em 2 de maio de 373, dia em que a Igreja celebra a sua memória.
A vida
Infância, formação e início (diácono de Alexandre)
Atanásio nasceu em Alexandria, no Egito, muito provavelmente entre os anos de 296 e 298 (algumas fontes propõem uma data anterior, por volta de 293), no seio de uma família cristã. Recebeu a sólida formação clássica da grande metrópole cultural do Mediterrâneo, com estudos de gramática, retórica e filosofia, e desde cedo se nutriu profundamente das Escrituras.
Ainda jovem, foi acolhido sob a tutela de Alexandre, bispo de Alexandria, que o ordenou leitor e depois diácono e o tomou como secretário e colaborador de confiança. Foi nessa condição, ainda diácono e sem ter recebido a ordem sacerdotal, que acompanhou o bispo Alexandre ao Concílio de Niceia, em 325, atuando como assessor teológico. Embora muito jovem, destacou-se ali pela refutação vigorosa do erro de Ário e pela defesa do termo homoousios (consubstancial ao Pai), que se tornaria a pedra angular da fé nicena. Já nesses primeiros anos compôs suas grandes obras de juventude, Contra Gentes e De Incarnatione (Sobre a Encarnação do Verbo), nas quais formulou a célebre afirmação de que “o Verbo de Deus se fez homem para que nós pudéssemos ser feitos Deus”.
Bispo de Alexandria e a luta contra o arianismo
Em 328, poucos meses após a morte de Alexandre, Atanásio foi eleito e consagrado bispo de Alexandria, sucedendo o seu mestre. Tinha cerca de trinta anos e assumiu o governo de uma das mais importantes sedes da cristandade, em meio à controvérsia ariana que então dividia profundamente a Igreja e o Império.
Convicto de que a salvação depende da plena divindade do Verbo encarnado, Atanásio recusou-se firmemente a qualquer compromisso com os arianos, que afirmavam ser o Filho uma criatura, ainda que a mais elevada. Tornou-se, assim, o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, defendendo sem recuos a fé de Niceia mesmo quando esta era abandonada por grande parte do episcopado oriental, com frequência favorecido pelo poder imperial. Em suas Orações contra os Arianos e em numerosos escritos, fundamentou teologicamente a consubstancialidade do Filho com o Pai, merecendo da tradição o título de “Pai da Ortodoxia”.
Os cinco exílios e “Athanasius contra mundum”
A intransigência de Atanásio na defesa da verdade lhe custou perseguições incessantes. Em 335, foi convocado ao Sínodo de Tiro, uma assembleia hostil dominada por seus adversários, que, com base em acusações falsas, o depuseram injustamente; recusando-se a ser julgado por tal tribunal, recorreu ao imperador Constantino. Esse foi o início de uma longa série de provas: ao todo, Atanásio foi obrigado a deixar a sua cidade cinco vezes, somando cerca de dezessete anos de exílio.
O primeiro exílio (336–337) levou-o a Tréveris (Trier), na Gália, por ordem de Constantino. O segundo (c. 339–346) foi vivido sobretudo em Roma, sob a perseguição de Constâncio II, onde encontrou apoio do papa e do Ocidente. O terceiro (356–362), também sob Constâncio II, começou quando soldados tentaram prendê-lo durante uma vigília noturna; refugiou-se então por anos entre os monges do deserto egípcio. O quarto exílio (362–363) foi imposto por Juliano, o Apóstata, e o quinto (365–366), breve, por Valente. Em meio ao abandono quase universal da fé nicena, sua resistência solitária ficou imortalizada na expressão Athanasius contra mundum — “Atanásio contra o mundo”.
Últimos anos e legado
Durante os longos períodos de refúgio no deserto, Atanásio estreitou vínculos profundos com o monaquismo nascente. Foi ele quem escreveu a Vida de Santo Antão (Vita Antonii), biografia do grande pai dos monges que se tornou um dos textos mais lidos da Antiguidade cristã e contribuiu decisivamente para a difusão do ideal monástico no Oriente e no Ocidente.
Após a morte de seus perseguidores e a virada da maré doutrinal a favor de Niceia, Atanásio pôde governar em paz os últimos anos do seu longo episcopado, que se estendeu por mais de quatro décadas. Morreu serenamente em Alexandria, em sua própria casa e cercado pelo clero, em 2 de maio de 373. Venerado como Padre e Doutor da Igreja e celebrado tanto no Oriente quanto no Ocidente, Santo Atanásio permanece como modelo de fidelidade à verdade e como o grande “Pai da Ortodoxia”.
O contexto em que viveu
Do Édito de Milão à Igreja imperial
Atanásio nasceu numa Igreja que saía das catacumbas. Em 313, os imperadores Constantino e Licínio firmaram em Mediolano (Milão) o acordo conhecido como Édito de Milão, que concedeu a todos a liberdade de adorar a divindade que quisessem, garantiu aos cristãos direitos legais — inclusive o de organizar igrejas — e determinou a pronta devolução dos bens confiscados. Em poucos anos, a fé que fora perseguida por quase três séculos passava a favorecida pelo poder imperial. Esse mesmo favor, porém, trouxe um preço: a intromissão do trono nos assuntos da fé tornou-se a marca do século.
Alexandria, grande sé e centro intelectual
O palco principal foi Alexandria, um dos mais importantes centros de comércio do império e uma das maiores sés patriarcais do mundo cristão, ao lado de Roma e Antioquia. Ali florescera a célebre Escola Catequética de Alexandria, dirigida sucessivamente por mestres como Panteno, Clemente de Alexandria e Orígenes — grande centro de erudição teológica do Oriente, onde a fé e a cultura grega se encontravam.
A crise ariana
Por volta de 318–320, Ário, presbítero da igreja de Báucalis em Alexandria, opôs-se ao bispo Alexandre e passou a ensinar que o Filho fora originado e que “houve um tempo em que não existia”, sendo feito do nada e, portanto, criatura — só o Pai seria sem princípio. Condenado num sínodo de mais de cem bispos do Egito e da Líbia, Ário ganhou a proteção de Eusébio de Nicomédia e dividiu rapidamente o Oriente cristão, com sínodos da Palestina e da Bitínia opondo-se aos do Egito.
O Concílio de Niceia (325)
Para pôr fim ao escândalo, Constantino — então ainda catecúmeno — convocou em 325, em Niceia, o primeiro concílio ecumênico, com cerca de 318 bispos, quase todos do Oriente. O concílio definiu o Filho como “consubstancial ao Pai” (homoousios) e anatematizou os que diziam que o Filho não existiu certa vez, ou que antes de ser gerado não era, ou que fora feito do nada. Foi também a primeira vez que um imperador interveio diretamente numa definição doutrinal.
As décadas de turbulência pós-Niceia
Longe de encerrar a disputa, Niceia abriu décadas de tumulto. Formaram-se facções: arianos estritos, semi-arianos (homoiousianos, que afirmavam a “semelhança” do Filho ao Pai negando a igualdade) e os nicenos. Após a morte de Constantino (337), seu filho Constâncio II favoreceu abertamente o partido ariano no Oriente. Sucederam-se sínodos rivais — Tiro (335), que depôs Atanásio sob falsas acusações; Sárdica (343), em que os orientais se retiraram, revelando os primeiros sintomas do futuro cisma entre Oriente e Ocidente; e a dupla assembleia de Rímini e Selêucia (359), em que os bispos foram pressionados a assinar fórmulas anti-nicenas. Foi o auge do arianismo, tempo em que São Jerônimo escreveria que “o mundo inteiro gemeu e espantou-se ao ver-se ariano”. Só com Teodósio e o Concílio de Constantinopla (381) o niceno triunfaria definitivamente.
Como reconhecer Atanásio de Alexandria na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
A fuga prodigiosa pelo Nilo
Durante a perseguição sob Juliano (c. 362–363), Atanásio fugiu de barco subindo o Nilo, perseguido de perto por soldados. Avistando a embarcação dos perseguidores, mandou voltar ao encontro deles; perguntados onde estava Atanásio, seus companheiros responderam que não estava longe e que, apressando-se, logo o alcançariam, despistando-os. O episódio é narrado por Sócrates Escolástico; a tradição copta/oriental acrescenta-lhe caráter sobrenatural (revelação divina e os olhos dos perseguidores turvados).
A profecia da nuvem que logo passa
Ao ser novamente forçado ao exílio, Atanásio teria dito aos companheiros: 'Retiremo-nos por um pouco; é apenas uma pequena nuvem que logo passará.' A frase, registrada por Sócrates Escolástico, é lida pela tradição como previsão confiante de que a perseguição e o imperador hostil cairiam logo — o que de fato ocorreu com a morte de Juliano.
O batismo das crianças à beira-mar (tradição)
Tradição hagiográfica preservada por Rufino: ainda menino, Atanásio, brincando à beira-mar de imitar os ritos da Igreja, teria 'batizado' os companheiros fazendo o papel de bispo; o bispo Alexandre, observando-os, reconheceu a validade do rito e tomou o menino sob sua tutela. A Catholic Encyclopedia trata o episódio como possivelmente lendário.
O livramento no barco lançado ao mar (tradição copta)
Segundo o Sinaxário copta, um imperador teria mandado lançar Atanásio ao mar num pequeno barco, sem mantimentos nem guia, esperando que perecesse; o barco navegou em paz e ele chegou são e salvo a Alexandria, onde o povo o recebeu em festa. Tradição copta, não confirmada pelos historiadores antigos gregos e latinos.
Suas contribuições à teologia
A divindade plena do Verbo: o homoousios contra o arianismo
O coração do pensamento de Santo Atanásio é a defesa intransigente da divindade plena e eterna do Verbo (Logos), consubstancial ao Pai. Contra Ário — que reduzia o Filho a uma criatura intermediária entre Deus e o mundo, sustentando que “houve um tempo em que o Filho não existia” —, Atanásio defendeu, em torno do Concílio de Niceia (325), o termo homoousios (“da mesma substância”, consubstancial), afirmando que o Filho é Deus de Deus, gerado da própria substância do Pai e não feito. Nas Orações contra os Arianos, mostra que o Filho é o Verbo eterno, increado e não-criatura: negar a divindade do Filho é negar o próprio Pai.
A soteriologia da Encarnação: “Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus”
Para Atanásio, a luta pela divindade de Cristo não é especulação abstrata, mas questão de salvação: só Deus pode redimir o homem; se Cristo fosse mera criatura, não poderia divinizar ninguém. Daí o axioma célebre de De Incarnatione 54,3: “Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus”. A Encarnação do Verbo opera a divinização (theosis) do homem: ao assumir um corpo, o Verbo manifestou o Pai invisível e, pela sua morte e ressurreição, fez a imortalidade alcançar a todos.
Cristo Logos, Criador e Redentor: a renovação da imagem de Deus
Atanásio articula criação e redenção num só desígnio: o mesmo Verbo pelo qual o Pai criou todas as coisas é aquele que as recria. O homem, feito à imagem de Deus, caiu na corrupção e na morte pelo pecado, perdendo a semelhança divina. Convinha então que o próprio Verbo-Imagem se encarnasse para renovar no homem aquela imagem desfigurada, vencendo a morte por sua morte e ressurreição e restaurando a incorruptibilidade. A salvação é, assim, recapitulação e renovação da imagem de Deus na humanidade.
A divindade do Espírito Santo (Cartas a Serapião)
Levando até o fim a lógica de Niceia, Atanásio foi também um dos primeiros grandes defensores da divindade do Espírito Santo. Nas Cartas a Serapião, refutou os tropici (pneumatómacos), que tinham o Espírito por criatura: o Espírito Santo não é criatura, mas é próprio do Verbo e da divindade do Pai, distinto por natureza das coisas criadas e pertencente à própria Divindade. Sendo a Trindade indivisível, a ação das três Pessoas é uma só; negar a divindade do Espírito destrói a unidade da Trindade. Assim Atanásio preparou a definição pneumatológica do Concílio de Constantinopla (381).
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade alexandrina / patrística grega (divinização)
A espiritualidade ligada a Santo Atanásio é a da tradição alexandrina e patrística grega, centrada na divinização (theosis): o Verbo de Deus fez-se homem para que o homem fosse feito Deus, isto é, participasse, pela graça, da vida divina. Tudo gravita em torno da Encarnação do Verbo como fonte da salvação e da renovação da imagem de Deus no homem caído. A fé reta na divindade de Cristo não é mero exercício intelectual, mas ato de adoração e condição da própria salvação: conhecer e confessar verdadeiramente o Filho é unir-se a Deus. Atanásio promoveu também o ideal monástico como caminho concreto dessa união: ao escrever a Vida de Santo Antão durante os exílios, ofereceu o monge do deserto como modelo de combate espiritual, ascese, oração e busca de Deus.
Hoje a espiritualidade de Atanásio ressoa sobretudo como defesa firme da divindade de Cristo num tempo que tende a reduzi-lo a mestre ou figura meramente humana. É fonte primária para a teologia da divinização (theosis), redescoberta no Ocidente e no diálogo com as Igrejas orientais, e para uma compreensão da salvação como participação real na vida de Deus. Sua biografia de Santo Antão continua a inspirar a vida monástica e a busca de Deus no silêncio e na ascese. Por fim, lembrado como Athanasius contra mundum, Atanásio permanece modelo de fidelidade doutrinal e de coragem em permanecer firme na verdade da fé mesmo contra pressões majoritárias e poder político.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Santo Alexandre de Alexandria
Bispo de Alexandria, mestre e predecessor de Atanásio. Atanásio foi seu secretário e conselheiro de confiança, acompanhou-o como diácono ao Concílio de Niceia (325) e sucedeu-o na sé alexandrina em 328.
Santo Antão do Deserto
Pai do monaquismo e amigo de Atanásio, que escreveu a sua Vida (Vita Antonii). Antão veio a Alexandria pregar contra os arianos em apoio a Atanásio e legou-lhe, ao morrer, uma de suas duas peles de carneiro.
São Pacômio e os monges do deserto egípcio
Fundador do cenobitismo (m. c. 348), com quem Atanásio teve amizade e contato na Tebaida. Os mosteiros pacomianos do Alto Egito acolheram e protegeram Atanásio durante os exílios; no terceiro exílio (356–362), o bispo viveu cerca de seis anos entre os monges coptas dessa comunidade.
Papa São Júlio I
Papa que acolheu Atanásio em Roma e abraçou a sua causa sem vacilar, reabilitando-o no Sínodo de Roma (341) e apoiando-o no Concílio de Sárdica (343).
São Hósio (Ósio) de Córdova
Grande campeão da ortodoxia nicena no Ocidente e aliado de Atanásio. Atanásio foi consultá-lo na Gália em 343 e juntos partiram para o Concílio de Sárdica em defesa da fé de Niceia.
Serapião de Tmuis
Bispo amigo e um dos companheiros mais fiéis de Atanásio, ligado ao círculo de Santo Antão. Destinatário das Cartas a Serapião sobre a divindade do Espírito Santo, guardou a sé durante um dos exílios do santo.
São Marcelo de Ancira
Aliado niceno antiariano, deposto pelos arianos e acolhido por Júlio I. Relação ambígua: sua teologia foi acusada de sabelianismo e a comunhão chegou a ser rompida, mas Atanásio resistiu à sua condenação geral e restabeleceu a comunhão.
Os Padres Capadócios
São Basílio Magno, São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa, herdeiros que completaram a vitória nicena e trinitária no Oriente após Atanásio. Basílio, com quem Atanásio se correspondeu, é tido como seu sucessor na defesa da ortodoxia.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Contra os Gentios
Obra apologética de juventude que defende a fé cristã, refutando a idolatria e o culto pagão por carecerem de fundamento racional. Forma uma obra dupla com Sobre a Encarnação.
Sobre a Encarnação do Verbo
Segunda parte da obra dupla de juventude; expõe a razão e o sentido da Encarnação do Verbo e da Redenção pela Cruz, com o célebre axioma da divinização do homem.
Discursos contra os Arianos
Principal obra dogmática antiariana, defendendo a consubstancialidade (homoousios) do Filho com o Pai. São três discursos autênticos; um quarto, transmitido sob o mesmo nome, tem autoria duvidosa.
Sobre os Decretos do Concílio de Niceia
Defesa das definições do Concílio de Niceia, especialmente do sentido do termo homoousios, escrita para auxiliar um amigo nas disputas com os arianos.
Apologia contra os Arianos
Defesa documental contra as acusações que lhe foram feitas, reunindo documentos oficiais que comprovam a sua inocência e a injustiça das deposições.
Apologia ao Imperador Constâncio
Defesa pessoal dirigida ao imperador Constâncio II contra acusações de traição e conspiração, composta no retiro do deserto egípcio.
Apologia da sua Fuga
Justifica a sua retirada de Alexandria diante da perseguição, argumentando que fugir da violência não é covardia, mas prudência conforme o exemplo dos santos.
História dos Arianos
Relato histórico-polêmico das perseguições arianas dirigido aos monges, em que chega a apresentar o imperador Constâncio como precursor do Anticristo.
Sobre os Concílios de Arimínio e Selêucia
Examina os concílios arianos de Arimínio e Selêucia (359) e as diversas fórmulas de fé, distinguindo os semiarianos dos arianos puros em vista da reconciliação.
Cartas a Serapião sobre o Espírito Santo
Cartas dogmáticas a Serapião de Tmuis defendendo a divindade e a consubstancialidade do Espírito Santo contra os pneumatómacos, que o reduziam a criatura.
Tomo aos Antioquenos
Proposta de mediação redigida em nome do Sínodo de Alexandria (362) para resolver o cisma de Antioquia, esclarecendo a terminologia trinitária (hipóstase e ousia).
Cartas Festais (Cartas Pascais)
Cartas pastorais anuais que anunciavam a data da Páscoa. A 39ª Carta Festal (367) é tida como o primeiro documento a listar exatamente os 27 livros do Novo Testamento como canônicos.
Vida de Santo Antão
Biografia de Santo Antão, pai do monaquismo; obra fundadora da hagiografia que difundiu o ideal monástico no Oriente e no Ocidente e foi logo traduzida para o latim.
Como a Igreja celebra Atanásio de Alexandria
Oração a Atanásio de Alexandria
Ó Deus, que marcastes pela vossa doutrina a vida de Santo Atanásio, concedei-nos, por sua intercessão, que sejamos fiéis à mesma doutrina, e a proclamemos em nossas ações. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso filho, na unidade do Espírito Santo
Novena a Atanásio de Alexandria
Novena devocional de nove dias em honra de Santo Atanásio, bispo de Alexandria e Doutor da Igreja, defensor da fé na divindade de Cristo contra a heresia ariana. A cada dia contempla-se um aspecto de sua vida e virtude, pedindo a sua intercessão pela fidelidade à verdadeira fé. Reza-se durante os nove dias que antecedem a sua festa, em 2 de maio.
Exemplo de santidade desde a infância
Jo 8,31-32 — "Jesus dizia aos judeus que nele creram: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros..."
Serviço à Igreja e o Concílio de Niceia
1Jo 5,5 — "Quem é o vencedor do mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?"
Amor à verdade no estudo e na teologia
Jo 1,14 — "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória que o Filho único recebe do..."
Coragem em pregar contra a heresia
1Jo 5,4 — "Porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé."
Fidelidade diante das falsas acusações
Mt 5,11 — "Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal co..."
Fidelidade nos anos de exílio
Mt 5,12 — "Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus; pois assim perseguiram os pro..."
Fortaleza em todas as provações
2Tm 4,7 — "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé."
Serviço santo como bispo de Alexandria
Jo 16,13 — "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará p..."
Toda uma vida de serviço à Igreja
2Tm 1,14 — "Guarda o bom depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós."
Como o povo reza a Atanásio de Alexandria
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Invocado como defensor da fé contra as heresias — Santo Atanásio é venerado como o Pai da Ortodoxia e baluarte da fé de Niceia contra o arianismo. É invocado pelos fiéis como protetor e modelo na defesa da verdadeira fé na divindade de Cristo, e tido na devoção popular como patrono dos teólogos e dos cristãos fiéis perseguidos por causa da fé.
- Memória litúrgica em 2 de maio — A Igreja Católica celebra a memória obrigatória de Santo Atanásio, bispo e doutor da Igreja, em 2 de maio, aniversário de sua morte (373). A liturgia do dia destaca sua defesa da divindade do Verbo, com a oração coleta que pede, por sua doutrina e proteção, crescer no conhecimento e no amor a Deus.
Medalhas e escapulários
- Veneração das relíquias na Igreja de San Zaccaria — A tradição veneziana conserva e venera na Igreja de San Zaccaria, em Veneza, as relíquias atribuídas a Santo Atanásio, trazidas de Constantinopla no século XV — lugar de veneração do santo no Ocidente.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
Santo Atanásio, 20º patriarca de Alexandria, é grandemente venerado pela Igreja Copta, que o celebra em Pashons 7 (por volta de 15 de maio). Em 1973, o Papa Paulo VI doou ao Papa copta Shenouda III uma relíquia do santo, hoje conservada na Catedral Ortodoxa Copta de São Marcos, no Cairo.
O que Atanásio de Alexandria nos diz hoje
"Pois Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus; e Se manifestou por um corpo para que recebêssemos a ideia do Pai invisível; e suportou a insolência dos homens para que herdássemos a imortalidade."
— De Incarnatione, 54,3"Estas são as fontes da salvação, para que os que têm sede se saciem com as palavras vivas que elas contêm. Somente nelas é proclamada a doutrina da piedade. Que ninguém acrescente nada a elas, nem delas retire coisa alguma."
— Carta Festal XXXIX (367), 6"O Filho não veio do nada, nem está de modo algum no número das coisas criadas, mas é a Imagem e o Verbo eterno do Pai, nunca tendo deixado de existir, mas sendo sempre, como o eterno Resplendor de uma Luz que é eterna."
— Orações contra os Arianos, I, 13"Antes da vinda do Salvador, mesmo para os santos a morte era terrível, e todos choravam os mortos como se perecessem. Mas agora que o Salvador ressuscitou o seu corpo, a morte já não é terrível."
— De Incarnatione, 27,2Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"As divinas Escrituras mostram de modo consistente que o Espírito Santo não é uma criatura, mas é próprio do Verbo e da Divindade do Pai."
"Nem, como Deus mesmo está acima de tudo, o caminho até Ele está longe ou fora de nós, mas está em nós, e é possível encontrá-lo a partir de nós mesmos."
"É uma nuvem que logo se desvanece."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
Atanásio formou-se na grande tradição da Escola de Alexandria. Seu mestre e bispo foi Santo Alexandre de Alexandria, que o tomou como secretário, o levou consigo ao Concílio de Niceia (325) e a quem sucedeu no patriarcado em 328; com ele herdou a tradição teológica alexandrina enraizada em Orígenes. Foi também profundamente marcado pelo contato com os monges do deserto egípcio, em especial Santo Antão, de quem se tornou amigo e biógrafo e de quem recebeu, por legado, uma das peles de carneiro do eremita.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
Fixou a vitória de Niceia: o homoousios e a divindade do VerboNo I Concílio de Niceia (325), do qual participou ainda jovem diácono ao lado do bispo Alexandre, foi proclamado o termo homoousios (consubstancial), que afirma ser o Filho, o Verbo, da mesma substância do Pai. Atanásio tornou-se o defensor mais tenaz dessa fé contra o arianismo, recusando todo compromisso com as teses arianas. A causa que ele sustentou quase sozinho contra grande parte do episcopado e do império triunfou definitivamente no I Concílio de Constantinopla (381), que vindicou Niceia.Influência sobre os Padres CapadóciosA obra trinitária iniciada por Atanásio foi completada pelos três grandes Padres Capadócios — São Basílio Magno, São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa —, que, em união com os bispos do Ocidente, levaram a fé nicena ao triunfo de Constantinopla (381). São Gregório de Nazianzo saudou Atanásio como “a coluna da Igreja”.A “Vida de Santo Antão” e a difusão do monaquismoA biografia que escreveu do eremita Santo Antão tornou-se rapidamente popular, foi quase imediatamente traduzida para o latim e depois para várias línguas, contribuindo decisivamente para a propagação do monaquismo no Oriente e no Ocidente. Santo Agostinho relata, nas Confissões (livro VIII), como a leitura dessa vida foi um dos antecedentes da sua própria conversão.A 39ª Carta Festal (367) e o cânon do Novo TestamentoNa sua 39ª Carta Festal de 367, Atanásio enumerou exatamente os vinte e sete livros que hoje compõem o Novo Testamento — os quatro Evangelhos, os Atos, as sete epístolas católicas, as catorze cartas paulinas e o Apocalipse —, chamando-os “fontes da salvação”. É tida como uma das primeiras declarações a coincidir exatamente com o cânon neotestamentário atual.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
As calúnias dos arianos e melecianos
Os adversários de Atanásio — a facção ariana ligada a Eusébio de Nicomédia e os cismáticos melecianos — forjaram contra ele acusações graves, levadas ao Sínodo de Tiro (335). As principais foram: ter mandado matar o bispo meleciano Arsênio e decepado a sua mão para usos de magia; ter, por meio do presbítero Macário, profanado os Sagrados Mistérios e quebrado o cálice de Iscíras; além de violência e de ter sido consagrado bispo abaixo da idade canônica.
O desmascaramento em Tiro
As acusações revelaram-se calúnias. Arsênio estava vivo e escondido: descoberto e apresentado ao sínodo, Atanásio mostrou-lhe as duas mãos intactas e desafiou os acusadores a indicar de onde teria sido cortada a “terceira mão”. A acusação do cálice também ruiu, pois Iscíras não era presbítero legitimamente ordenado. O episódio de Arsênio é narrado pelo historiador Sócrates Escolástico.
Os cinco exílios e a intromissão imperial
Apesar disso, Atanásio foi deposto e enviado ao exílio cinco vezes por quatro imperadores diferentes, passando mais de dezessete anos banido, até a sua reabilitação definitiva. Suas provações ilustram o peso da intromissão imperial nos assuntos da Igreja, sobretudo a política pró-ariana de Constâncio II, que renovou contra ele as ordens de banimento.
Polêmicas ainda em aberto
“Athanasius contra mundum” nos debates atuais
A expressão “Athanasius contra mundum” (Atanásio contra o mundo) evoca o tempo em que, no dizer de São Jerônimo, “o mundo inteiro gemeu e espantou-se ao ver-se ariano”, e Atanásio sustentou quase sozinho a ortodoxia nicena. Hoje a fórmula é frequentemente invocada — e por vezes abusada — em debates eclesiais como modelo de firmeza doutrinal contra a opinião majoritária ou a pressão institucional.
Discussões historiográficas
A historiografia moderna discute a “imagem” de Atanásio. Obras como Athanasius and Constantius (1993), de Timothy D. Barnes, analisam-no também como hábil operador político e chamam a atenção para a retórica de seus próprios escritos. Tais leituras revisionistas matizam o relato hagiográfico sem anular o núcleo doutrinal de sua defesa de Niceia, que a Igreja reconhece.
Atanásio no diálogo ecumênico
Atanásio é venerado como santo e Doutor da Igreja pelos católicos e igualmente honrado pela Igreja Ortodoxa, pelas Igrejas Ortodoxas Orientais, pela Igreja do Oriente, pela Comunhão Anglicana e pelo Luteranismo. Contado, com Basílio, Gregório de Nazianzo e João Crisóstomo, entre os quatro grandes Padres gregos, é figura de amplo consenso no diálogo ecumênico.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Teólogos
- Apologistas
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento original em Alexandria
Atanásio morreu em paz no próprio leito em 2 de maio de 373, após consagrar seu sucessor Pedro II, e foi originalmente sepultado em Alexandria. O local exato do túmulo não se conserva.
Relíquias na Igreja de San Zaccaria, Veneza
Segundo a tradição veneziana, a maior parte do corpo de Atanásio é venerada na Igreja de San Zaccaria, em Veneza, tendo sido trazida de Constantinopla em 1455 após a queda da cidade. A autenticidade é discutida: alguns estudiosos sustentam tratar-se, na verdade, de Atanásio I, patriarca de Constantinopla (m. c. 1310).
Relíquia devolvida ao Egito — Catedral Copta de São Marcos, Cairo
Durante a visita do Papa copta Shenouda III a Roma, em maio de 1973 (16º centenário da morte de Atanásio), o Papa Paulo VI entregou uma relíquia do santo, levada ao Egito em 15 de maio de 1973 e conservada na nova Catedral Copta de São Marcos, no Cairo.
Onde está Atanásio de Alexandria hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Atanásio de Alexandria
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
Em sua 39ª Carta Festal (367), Santo Atanásio relacionou exatamente os 27 livros do Novo Testamento que usamos hoje — uma das primeiras vezes em que o cânon aparece na forma atual, o que lhe valeu por vezes o título de 'Pai do Cânon'.
Seu episcopado durou cerca de 45 anos, mas mais de 17 deles foram passados em cinco exílios, quando foi deposto por ordem de quatro imperadores romanos diferentes: Constantino, Constâncio II, Juliano e Valente.
Sua resistência quase solitária à heresia ariana, quando boa parte do episcopado e dos imperadores favorecia o arianismo, deu origem à célebre expressão 'Athanasius contra mundum' — 'Atanásio contra o mundo'.
O famoso 'Credo Atanasiano' (Quicumque vult) leva o seu nome, mas não foi escrito por ele: é um texto latino de origem ocidental, composto provavelmente no século V/VI, atribuído a Atanásio por ser ele o grande campeão da fé trinitária.
Escreveu a 'Vida de Santo Antão', um dos maiores best-sellers da literatura cristã antiga; logo traduzida para o latim, espalhou o ideal monástico pelo Oriente e Ocidente e teve papel na conversão de Santo Agostinho, relatada nas Confissões (livro VIII).
É venerado como santo por católicos, ortodoxos, ortodoxos orientais (coptas), pela Igreja do Oriente, anglicanos e luteranos — uma figura de raríssimo consenso entre as confissões cristãs.
É honrado como um dos quatro grandes Padres (e Doutores) da Igreja grega, ao lado de São Basílio Magno, São Gregório Nazianzeno e São João Crisóstomo.
Participou do Concílio de Niceia (325) com cerca de 27 anos, ainda como simples diácono e secretário do bispo Alexandre — sem ser sacerdote — e três anos depois tornou-se Patriarca de Alexandria, antes mesmo da idade canônica de 30 anos.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/02035a.htm
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070620.html
- britannica.com/biography/Saint-Athanasius
- oca.org/saints/lives/2012/05/02/101269-saint-athanasius-the-great-patriarch-of-alexandria
- newadvent.org/cathen/01707c.htm
- newadvent.org/fathers/2802.htm
- newadvent.org/fathers/2801.htm
- newadvent.org/fathers/2806039.htm
- newadvent.org/fathers/28161.htm
- newadvent.org/fathers/26013.htm
- ccel.org/ccel/schaff/npnf203/npnf203.iv.viii.iii.v.html
- newadvent.org/fathers/3005.htm
- fourthcentury.com/de-decretis-on-the-council-of-nicaea/
- en.wikipedia.org/wiki/Athanasius_of_Alexandria
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2026-05-02
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=67
- praymorenovenas.com/st-athanasius-novena
- pocketterco.com.br/santo/santo-atanasio
- catholicsaints.info/saint-athanasius-of-alexandria/
- en.wikipedia.org/wiki/San_Zaccaria,_Venice
- christianhistoryinstitute.org/magazine/article/athanasius-defines-new-testament
- catholic.com/magazine/online-edition/athanasius-contra-mundum-the-courage-to-act-alone
- gaudiumpress.org/content/historia-oracao-e-frases-de-santo-atanasio-de-alexandria/
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