João Crisóstomo
São João Crisóstomo (c. 349–407) foi Padre da Igreja grego, arcebispo de Constantinopla e Doutor da Igreja, tido como o maior pregador da cristandade antiga — daí o sobrenome "Boca de Ouro" (Crisóstomo). Formado na retórica em Antioquia, notabilizou-se pelas suas homilias bíblicas, pela vida austera e pela intransigente reforma moral do clero e da corte imperial. Sua coragem em denunciar os abusos dos poderosos custou-lhe dois exílios, o segundo dos quais o levou à morte numa marcha forçada, com as últimas palavras "Glória a Deus por todas as coisas".
A vida
Infância, formação e conversão
João nasceu em Antioquia, na Síria, por volta de 349 (alguns autores indicam 347). Tendo perdido o pai ainda menino, foi criado na fé por sua mãe, a piedosa viúva Santa Antusa, que cuidou pessoalmente de sua educação. Jovem brilhante, estudou retórica sob Libânio, o mais célebre orador pagão de seu tempo, que chegou a vê-lo como possível sucessor.
Atraído por Cristo, recebeu o batismo por volta dos vinte anos e logo se voltou para a vida ascética. Retirou-se durante quatro anos junto aos eremitas das montanhas próximas a Antioquia e depois passou mais dois anos sozinho numa caverna, em oração e penitência. O rigor extremo desse período arruinou-lhe a saúde, deixando-lhe um mal de estômago que o acompanharia por toda a vida e o obrigou a regressar à cidade.
Diácono, presbítero e o pregador de Antioquia
De volta a Antioquia, foi ordenado diácono por volta de 381 pelo bispo Melécio e, em 386, presbítero por Flaviano. Durante cerca de doze anos exerceu o ministério da pregação na cidade, conquistando fama extraordinária pela clareza, pela força moral e pela exposição das Escrituras.
Na Quaresma de 387, diante do terror que se abateu sobre Antioquia após a população derrubar as estátuas imperiais, pronunciou as célebres Homilias sobre as Estátuas, consolando e exortando o povo. Foi por essa eloquência sem igual que mais tarde recebeu o sobrenome Crisóstomo, isto é, "Boca de Ouro".
Arcebispo de Constantinopla, reformas e conflitos
Em 398 foi levado quase à força de Antioquia a Constantinopla e sagrado bispo da capital do Império do Oriente. À frente da maior sé do Oriente, empenhou-se numa rigorosa reforma do clero e dos costumes, dando ele próprio o exemplo com extrema austeridade na residência episcopal e generosidade para com os pobres.
Sua franqueza em denunciar o luxo e os abusos da corte chocou-se com a imperatriz Eudóxia e atraiu a inimizade do poderoso patriarca Teófilo de Alexandria. Em 403, Teófilo reuniu o chamado Sínodo do Carvalho (Synodus ad Quercum), nos arredores de Constantinopla, que decretou a sua deposição.
Exílio, morte e legado
Esse primeiro exílio durou pouco: um abalo no palácio imperial assustou a imperatriz, e o povo, revoltado, forçou o seu retorno. Mas a paz foi breve. Em 24 de junho de 404, João foi enviado a um segundo exílio, este definitivo, primeiro para Cucuso, na Armênia, e depois rumo ao distante Pítio.
Esgotado pela marcha forçada, morreu em Comana do Ponto em 14 de setembro de 407, com as últimas palavras: "Glória a Deus por todas as coisas". Reabilitado pela Igreja, teve as relíquias transladadas com grande pompa para Constantinopla em 27 de janeiro de 438, sob o imperador Teodósio II. Venerado como um dos quatro grandes Doutores gregos, foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa São Pio V em 1568.
O contexto em que viveu
João Crisóstomo viveu na transição dos séculos IV e V, num Império Romano já oficialmente cristão depois de Constantino e do Édito de Tessalônica de Teodósio. Era, porém, um cristianismo ainda em formação institucional, marcado por intensas controvérsias doutrinárias e por uma relação cada vez mais estreita — e tensa — entre o poder eclesiástico e o poder imperial.
Nesse tempo o Império já se dividia, de fato, entre Oriente e Ocidente. À morte de Teodósio (395), o Oriente coube ao fraco imperador Arcádio, cuja corte em Constantinopla era dominada por sua esposa, a imperatriz Eudóxia, e por funcionários ávidos de luxo e influência — exatamente o ambiente que a pregação reformadora de João viria a confrontar.
Antioquia, onde nasceu e se formou, e Constantinopla, sua sé episcopal, eram dois dos maiores centros do mundo cristão. A elevação de Constantinopla a "Nova Roma" alimentava uma forte rivalidade entre as sés, sobretudo com a antiga e poderosa sé de Alexandria, então governada pelo ambicioso patriarca Teófilo, que jamais aceitou a primazia da capital.
Esse choque eclesiástico-político ganhou contornos doutrinários com a controvérsia origenista: Teófilo perseguiu monges egípcios acusados de seguir Orígenes, e os chamados "Irmãos Longos", fugindo a Constantinopla, foram acolhidos por João. O episódio deu a Teófilo o pretexto para se voltar contra o arcebispo e, aliado à corte, articular a sua condenação no Sínodo do Carvalho.
Espiritual e teologicamente, João Crisóstomo representa o ápice da era patrística grega, herdeiro da escola exegética de Antioquia, voltada à interpretação literal e histórica das Escrituras. Sua obra homilética, vastíssima, tornou-se referência permanente para a pregação e a moral cristãs.
Ao fundo, o mundo mediterrâneo vivia crescente instabilidade: pressões nas fronteiras e movimentos de povos germânicos prenunciavam as grandes transformações que, poucas décadas depois, levariam ao colapso do Império no Ocidente.
Como reconhecer João Crisóstomo na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Suas contribuições à teologia
O núcleo do pensamento de João Crisóstomo é a centralidade da Palavra de Deus pregada e explicada ao povo. Formado na escola exegética de Antioquia, privilegiou o sentido literal-histórico e gramatical das Escrituras, em contraposição à interpretação alegórica de Orígenes e da escola de Alexandria, sem contudo excluir o sentido espiritual quando o próprio autor sagrado o sugeria. Suas centenas de homilias sobre Mateus, João, Atos e as cartas de São Paulo fizeram dele o maior comentarista bíblico da Igreja antiga.
Insistia que as Escrituras não eram reservadas ao clero ou aos monges, mas pertenciam a todos os fiéis: exortava os leigos a lerem a Bíblia em casa, convicto de que a ignorância das Escrituras é a raiz de muitos males. Para Crisóstomo, a liturgia é o lugar onde a comunidade se constrói com a Palavra e a Eucaristia, e o batismo faz de cada cristão membro vivo do Corpo de Cristo.
A doutrina social é o traço mais ardente de sua pregação. Para Crisóstomo, a esmola não é favor opcional, mas dever de justiça: os bens são confiados aos ricos para serem partilhados, e reter o supérfluo é roubar o pobre. Quem honra o altar revestido de ouro e despreza o pobre faminto contradiz a si mesmo, pois o mesmo Cristo que disse "isto é o meu corpo" disse também "tive fome e não me destes de comer".
Crisóstomo elevou também a dignidade e a tremenda responsabilidade do sacerdócio. Em seu célebre tratado "Sobre o Sacerdócio", descreve o ministério como um múnus mais sublime que o dos anjos, exigindo integridade moral à altura do mistério que o sacerdote toca no altar. Por sua doutrina eucarística, foi chamado "Doutor da Eucaristia": ensinou sem ambiguidade a Presença Real e a transformação operada pelas palavras da consagração.
Por fim, todo o seu pensamento converge para a reforma moral concreta: a coerência entre fé e vida, a conversão do coração, a crítica ao luxo e à vaidade, a defesa da família como pequena Igreja e a responsabilidade de cada um pela salvação do próximo. Sua exegese foi pastoral antes de especulativa, transmitindo fielmente a tradição e a sã doutrina da Igreja.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade antioquena e pastoral
A espiritualidade de João Crisóstomo nasceu da ascese radical da sua juventude: depois de formado, retirou-se por cerca de quatro anos junto aos eremitas do monte próximo a Antioquia e viveu mais dois anos sozinho numa gruta, em penitência extrema, dedicando-se a meditar os Evangelhos e sobretudo as Cartas de São Paulo, até que a saúde arruinada o obrigasse a voltar à cidade. Dessa raiz monástica brota uma espiritualidade que une indissoluvelmente a Palavra de Deus, a penitência, a Eucaristia e a caridade concreta com os pobres como caminho de santidade. Para Crisóstomo, não há vida interior autêntica sem coerência entre a fé professada e a vida vivida: o cristão é templo de Deus, mas reconhece igualmente Cristo no irmão faminto e nu, de modo que o sacramento do altar se prolonga no sacramento do irmão. É uma santidade encarnada, ascética e socialmente responsável, em que a oração, o jejum, a leitura assídua da Escritura e a partilha dos bens formam um só movimento de configuração a Cristo.
Ao cristão de hoje, a espiritualidade de Crisóstomo recorda primeiro que a Bíblia está ao alcance de todos e deve ser lida e vivida pelos leigos, não apenas estudada por especialistas. Recorda, em seguida, que a fé é inseparável da justiça: a partilha dos bens e o cuidado dos pobres não são opção devocional, mas exigência do Evangelho, e neles se reconhece o próprio Cristo. Recorda ainda a coragem profética diante do poder, ele que pagou com o exílio a recusa de calar diante dos abusos da corte. E recorda, enfim, que a caridade concreta, a austeridade pessoal e a coerência de vida são o teste decisivo da autenticidade cristã.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Três Santos Hierarcas
Tríade venerada no Oriente com São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno (o Teólogo). A festa conjunta (30 de janeiro) foi instituída sob o imperador Aleixo I Comneno (c. 1100), após a visão de 1084 a São João Mauropo, metropolita de Eucaíta, em que os três apareceram juntos declarando que entre eles não há discórdia nem rivalidade diante de Deus.
Os quatro grandes Doutores da Igreja Grega
Com Santo Atanásio de Alexandria, São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno, forma o grupo dos quatro grandes Doutores e Padres da Igreja Grega — paralelo oriental dos quatro grandes Doutores latinos. O reconhecimento como Doutores foi formalizado em 1568, sob São Pio V.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Sobre o Sacerdócio
Diálogo em seis livros sobre a dignidade e a responsabilidade do sacerdócio; uma das suas obras mais célebres. Exalta a sublimidade do ofício sacerdotal por causa da Eucaristia que o sacerdote toca no altar.
Homilias sobre as Estátuas
Pregadas em Antioquia durante a crise após a população, revoltada com novos impostos, derrubar as estátuas do imperador Teodósio; sermões de consolação e exortação até a chegada do perdão imperial trazido pelo bispo Flaviano.
Homilias sobre o Evangelho de São Mateus
Comentário homilético completo do Evangelho de Mateus; o mais antigo comentário grego integral do livro que chegou até nós, célebre pelas exortações morais sobre a esmola e a Eucaristia.
Homilias sobre o Evangelho de São João
Série de homilias expositivas sobre o quarto Evangelho, com forte acento na divindade de Cristo.
Homilias sobre os Atos dos Apóstolos
Único comentário patrístico grego completo dos Atos que sobreviveu; preservado por taquígrafos, com transmissão textual menos polida.
Homilias sobre as Epístolas de São Paulo
Comentou homileticamente todas as cartas paulinas (Romanos, 1-2 Coríntios, Gálatas em 34 homilias, etc.); base da reputação de Crisóstomo como o maior intérprete antigo de São Paulo.
Sobre a vã glória e a educação dos filhos
Tratado sobre a vaidade mundana e o modo cristão de educar os filhos; um dos textos patrísticos mais importantes sobre pedagogia.
Carta a uma jovem viúva
Carta de consolação a uma viúva jovem, sobre o luto cristão, a esperança da ressurreição e a fidelidade ao esposo falecido.
Cartas do exílio (a Olímpia, diaconisa)
Cerca de 238 cartas escritas durante o exílio, das quais 17 dirigidas à diaconisa Olímpia; preciosas pelo conteúdo espiritual e pela intimidade pastoral.
Que ninguém é prejudicado senão por si mesmo
Tratado escrito no exílio: argumenta que nenhum mal externo pode realmente ferir a alma virtuosa — só o próprio pecado a prejudica.
Discursos contra os judaizantes
Oito discursos polêmicos dirigidos a cristãos de Antioquia que frequentavam sinagogas e festas judaicas. Documento histórico de retórica polêmica antiga, lido hoje com cautela e no seu contexto, à luz da declaração conciliar Nostra aetate.
Homilia Pascal (Catequese Pascal)
Célebre homilia lida nas Matinas da Páscoa nas Igrejas bizantinas ("Se alguém é piedoso..."). A tradição a atribui a Crisóstomo, mas a crítica questiona a autoria; entra como obra tradicionalmente atribuída.
Divina Liturgia de São João Crisóstomo
Principal liturgia eucarística do rito bizantino. A tradição a atribui a Crisóstomo; historicamente, ele provavelmente reformou e adaptou um texto antigo, mais do que compôs do zero a forma atual. Atribuição honorífica consolidada.
Como a Igreja celebra João Crisóstomo
Oração a João Crisóstomo
Creio, Senhor e confesso, que em verdade Tu És Cristo, Filho de Deus vivo e que vieste ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Creio ainda que este é o Teu Puríssimo Corpo e que este é o Teu próprio precioso Sangue. Suplico-Te, pois, tem misericórdia de mim e perdoa-me as minhas faltas voluntári...
Novena a João Crisóstomo
Esta novena honra São João Crisóstomo, Padre grego, Arcebispo de Constantinopla e Doutor da Igreja, chamado "Boca de Ouro" pela sua eloquência ao serviço do Evangelho. Patrono dos pregadores, defensor dos pobres, mestre da Eucaristia e modelo de coragem profética diante do poder, ele nos ensina a amar a Palavra de Deus e a glorificá-Lo em todas as coisas. Durante nove dias, peçamos a sua intercessão.
A Palavra de Deus
Mt 5,3 — "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!"
A eloquência a serviço da fé
1Cor 9,16 — "Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não an..."
A caridade com os pobres
Mt 25,40 — "E o Rei lhes responderá: Em verdade vos digo: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmã..."
A austeridade e a ascese
1Cor 9,27 — "Mas castigo o meu corpo e o reduzo à servidão, de medo de que, depois de ter pregado aos outros, ven..."
O sacerdócio
Lc 12,33 — "Vendei o que possuís e dai esmola. Fazei para vós bolsas que não se gastam, um tesouro inesgotável n..."
A coragem profética diante do poder
2Tm 4,2 — "Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, ameaça, exorta, com toda a paciência e..."
A perseverança no sofrimento e no exílio
Mt 5,10 — "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!"
A Eucaristia
1Cor 11,26 — "Assim, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor,..."
Glória a Deus por todas as coisas
1Cor 10,31 — "Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus..."
Como o povo reza a João Crisóstomo
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Patrono dos pregadores e oradores sacros — Por sua eloquência incomparável, que lhe valeu o título de "Crisóstomo" ("Boca de Ouro"), São João foi proclamado patrono dos pregadores e oradores sacros pelo Papa São Pio X, em 8 de julho de 1908. Pregadores, oradores e estudantes da Palavra recorrem à sua intercessão.
Medalhas e escapulários
- Divina Liturgia de São João Crisóstomo — A Divina Liturgia atribuída a São João Crisóstomo é a celebração eucarística mais usada nas Igrejas Ortodoxas e Católicas Orientais de rito bizantino, rezada na maior parte do ano litúrgico. É um dos maiores legados espirituais do santo.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
No Oriente cristão, São João Crisóstomo é venerado junto com São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno na festa dos Três Santos Hierarcas, em 30 de janeiro. A celebração conjunta foi instituída por volta de 1100 pelo imperador Aleixo I Comneno, após os três aparecerem em visão a São João Mauropo (1084) declarando-se iguais diante de Deus.
As relíquias de São João Crisóstomo, levadas para Roma após o saque de Constantinopla pelos cruzados (1204), foram restituídas pelo Papa São João Paulo II ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu I em 27 de novembro de 2004, num gesto ecumênico. Hoje são veneradas na igreja patriarcal de São Jorge, no Fanar (Istambul).
O que João Crisóstomo nos diz hoje
"Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando está nu. Não o honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora o desprezas a sofrer de frio e nudez."
— Homilia 50 sobre o Evangelho de Mateus, 4"Aquele que está sentado nas alturas com o Pai é, naquela hora, tomado nas mãos de todos, e Se entrega aos que desejam abraçá-Lo e recebê-Lo."
— Sobre o Sacerdócio, Livro III, 4"Os que habitam a terra e nela têm a sua morada receberam a missão de administrar as coisas do Céu, e receberam uma autoridade que Deus não deu nem aos anjos nem aos arcanjos."
— Sobre o Sacerdócio, Livro III, 5"Quantos dizem hoje: eu quisera ver a sua forma, a sua aparência, as suas vestes, as suas sandálias. Eis que tu O vês, tu O tocas, tu O comes."
— Homilia 82 sobre o Evangelho de Mateus, 4Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro."
"Glória a Deus por todas as coisas."
"A leitura das Escrituras é uma grande defesa contra o pecado; a ignorância das Escrituras é um grande precipício e um abismo profundo."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
A primeira formadora de João foi a sua mãe, Santa Antusa, que, viúva ainda jovem, o educou na fé cristã transmitindo-lhe uma requintada sensibilidade humana e uma profunda fé, ao mesmo tempo em que lhe garantia acesso às melhores escolas de Antioquia. No plano da cultura profana, teve por mestre Libânio, o mais célebre orador pagão de seu tempo e tenaz defensor do paganismo em declínio; dele Crisóstomo recebeu a formação retórica que faria dele o maior orador da antiguidade grega tardia.A conversão decisiva veio do encontro com o bispo Melécio de Antioquia, por volta de 367, cujo caráter o cativou de tal modo que começou a afastar-se dos estudos profanos para dedicar-se à Escritura; por Melécio foi batizado e instituído leitor. No "Asceterion" formou-se na exegese sob o famoso Diodoro, depois bispo de Tarso, mestre do método gramatical-histórico da escola de Antioquia, oposto à interpretação alegórica de Orígenes.Por fim, foi profundamente marcado pela tradição ascética e monástica da região: viveu como anacoreta em rigorosa penitência, alimentando-se da meditação dos Evangelhos e das Cartas de São Paulo, que permaneceram o coração de toda a sua pregação.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
João Crisóstomo é unanimemente reconhecido como o maior pregador da Igreja antiga; o próprio epíteto "Crisóstomo" — "Boca de Ouro" — consagra a fama de sua eloquência. Suas homilias, transmitidas em enorme volume, tornaram-se referência permanente para a pregação cristã e para a teologia pastoral, e sua autoridade foi invocada já no Concílio de Éfeso (431) e nos concílios posteriores.Seu nome está ligado à Divina Liturgia de São João Crisóstomo, a celebração eucarística mais usada no rito bizantino até hoje, tanto pelos ortodoxos quanto pelos católicos de tradição bizantina. A tradição atribui-lhe a redação de uma forma mais breve derivada da Liturgia de São Basílio; por sua concisão, a partir do séc. XIII ela suplantou as demais e tornou-se a liturgia ordinária da Igreja bizantina. As precisões críticas recomendam falar de "liturgia atribuída a Crisóstomo", fruto de revisão de textos anteriores mais do que de composição inteiramente original.É contado entre os quatro grandes Doutores gregos e, no Oriente, é um dos Três Santos Hierarcas, celebrados em conjunto com São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno em 30 de janeiro — festa instituída por volta de 1100 para afirmar a igual dignidade dos três mestres. O Papa Bento XVI chamou-o "Doutor da Eucaristia" e destacou sua contribuição exegética com o conceito de condescendência divina (synkatábasis), pelo qual a Palavra de Deus se faz plenamente linguagem humana.Sua influência sobre a doutrina social cristã é igualmente decisiva: foi pioneiro em propor a comunidade primitiva dos Atos dos Apóstolos como modelo de sociedade, antecipando temas centrais do ensino social da Igreja sobre a destinação universal dos bens e o primado da pessoa, mesmo do escravo e do pobre.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
Conflito com a imperatriz Eudóxia e a corte
Arcebispo de Constantinopla a partir de 398, Crisóstomo empreendeu uma reforma severa: reduziu os gastos da casa episcopal, disciplinou o clero e empregou os recursos poupados em obras de caridade, como hospitais para os pobres. Suas pregações contra o luxo e a extravagância dos ricos voltaram contra ele a imperatriz Eudóxia, esposa de Arcádio, cujas riquezas e moral foram alvo de suas críticas; o atrito tornou-se irreversível, e a corte passou a articular a sua deposição.
Rivalidade com Teófilo de Alexandria
O patriarca Teófilo de Alexandria, da sé rival, foi o principal artífice da queda de Crisóstomo. Convocado a Constantinopla para responder por acusações, inverteu os papéis e, aliando-se aos inimigos de João na corte, articulou contra ele um processo eclesiástico.
A controvérsia origenista e os "Irmãos Longos"
Teófilo havia perseguido como origenistas certos monges egípcios chamados "Irmãos Longos", que se refugiaram em Constantinopla buscando o amparo de Crisóstomo. O patriarca de Alexandria, em vez de prestar contas, valeu-se politicamente da situação, transformando a controvérsia origenista em arma contra João.
O Sínodo do Carvalho (403) e os exílios
Em 403, Teófilo presidiu, junto a Constantinopla e com bispos seus aliados, o chamado Sínodo do Carvalho, que reuniu uma longa lista de acusações inverossímeis. Crisóstomo recusou-se a comparecer e foi deposto e exilado por Arcádio; voltou logo, em meio ao clamor popular e ao temor da própria Eudóxia de um castigo divino. Nova deposição sobreveio em 404: exilado para Cucuso, na Armênia, e depois conduzido rumo a Pítio, morreu pelo caminho em Comana do Ponto, em 14 de setembro de 407.
O cisma joanita
Após a sua morte, seus partidários — os "joanitas" — recusaram a comunhão com os bispos que haviam participado de sua condenação, gerando um cisma que se arrastou por décadas em Constantinopla. A reconciliação foi gradual: o arcebispo Proclo pregou em sua honra, e as suas relíquias foram trasladadas em triunfo a Constantinopla em 438, selando a reabilitação de sua memória.
Polêmicas ainda em aberto
A doutrina social de Crisóstomo hoje
A leitura atual de Crisóstomo redescobre nele um precursor do ensino social da Igreja. Bento XVI sublinhou que ele percebeu não bastar dar esmola, sendo necessário criar uma nova estrutura, um novo modelo de sociedade segundo os princípios do Evangelho, propondo a comunidade dos Atos como paradigma e afirmando o primado da pessoa — inclusive do escravo e do pobre — sobre o Estado. Sua crítica ao contraste entre o luxo dos ricos e a indigência dos pobres permanece atualíssima nos debates sobre justiça econômica e destinação dos bens.
As homilias "Adversus Judaeos" e o repúdio ao antissemitismo
As oito homilias "Adversus Judaeos" (387) são hoje objeto de recepção crítica. Pregadas em Antioquia, dirigiam-se primordialmente a cristãos judaizantes da própria comunidade que continuavam a frequentar festas e jejuns judaicos, e empregavam o gênero retórico convencional do vitupério (psogos), de linguagem deliberadamente violenta. Reconhece-se hoje o seu impacto histórico no desenvolvimento do antijudaísmo cristão. A Igreja, na declaração conciliar Nostra aetate (1965), rejeitou a acusação coletiva contra os judeus e condena o antissemitismo, lendo essas homilias no seu contexto histórico do séc. IV e sem endossar a sua retórica.
Ponte ecumênica entre Oriente e Ocidente
Crisóstomo é hoje figura de unidade entre as Igrejas. Em 27 de novembro de 2004, João Paulo II devolveu ao Patriarcado Ecumênico de Constantinopla as relíquias de João Crisóstomo e de Gregório Nazianzeno, levadas a Roma após a Quarta Cruzada (1204); o Papa qualificou o gesto como ocasião abençoada para purificar as memórias feridas e fortalecer o caminho da reconciliação.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Teólogos
- Pregadores
- Oradores Sagrados
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento original em Comana do Ponto
São João Crisóstomo morreu no exílio em Comana do Ponto, em 14 de setembro de 407, durante a marcha forçada rumo ao seu novo local de degredo. Foi ali sepultado, onde os seus restos permaneceram por cerca de trinta anos.
Translação a Constantinopla — Igreja dos Santos Apóstolos
Em 438, sob o imperador Teodósio II, filho de Eudóxia, os restos de São João Crisóstomo foram trasladados de volta a Constantinopla, a sua sede episcopal, e depositados na Igreja dos Santos Apóstolos. A festa litúrgica da translação é celebrada em 27 de janeiro.
Levadas a Roma após a Quarta Cruzada — Basílica de São Pedro
A maior parte das relíquias foi levada de Constantinopla pelos cruzados em 1204 (Quarta Cruzada) para Roma. Conforme recordou Bento XVI, passaram a repousar na Capela do Coro dos Cônegos da Basílica de São Pedro, onde permaneceram cerca de oito séculos.
Devolução ao Patriarcado Ecumênico — Catedral de São Jorge, Fanar
Em 27 de novembro de 2004, o Papa São João Paulo II devolveu parte considerável das relíquias de São João Crisóstomo (com as de São Gregório Nazianzeno) ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu I. As relíquias foram levadas a Constantinopla e hoje são veneradas na Catedral Patriarcal de São Jorge, no Fanar. O Vaticano reteve uma pequena porção.
Crânio venerado no Mosteiro de Vatopedi, Monte Atos
Segundo a tradição ortodoxa, o crânio de São João Crisóstomo é guardado no Mosteiro de Vatopedi, no Monte Atos, num relicário de prata, e é creditado com curas. A tradição diz que a orelha permaneceu incorrupta, em alusão à lenda do Apóstolo Paulo que lhe falava ao ouvido. Esta relíquia teria escapado ao saque dos cruzados de 1204.
Onde está João Crisóstomo hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre João Crisóstomo
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
"Crisóstomo" significa "Boca de Ouro" (do grego Chrysóstomos), epíteto póstumo dado por causa da sua eloquência. O sobrenome aparece pela primeira vez na "Constituição" do Papa Vigílio, no ano 553.
Estudou retórica em Antioquia sob Libânio, o maior orador pagão do seu tempo. A tradição, relatada pelo historiador Sozomeno, conta que Libânio, no leito de morte, ao ser perguntado quem deveria sucedê-lo, teria respondido: "João, se os cristãos não o tivessem roubado de nós."
Viveu como anacoreta numa caverna perto de Antioquia por dois anos. As vigílias e os jejuns excessivos no frio arruinaram a sua saúde, deixando-lhe um problema de estômago que o acompanhou pelo resto da vida.
As suas últimas palavras, ditas ao morrer no exílio em Comana do Ponto (14 de setembro de 407), foram: "Glória a Deus por todas as coisas", conforme registrado por Paládio.
A Divina Liturgia de São João Crisóstomo é a celebração eucarística mais usada no rito bizantino — a liturgia normal dos cristãos ortodoxos e católicos bizantinos, reservando-se a de São Basílio Magno a poucas ocasiões do ano.
Em 8 de julho de 1908, o Papa São Pio X proclamou-o patrono dos pregadores e oradores sacros.
As suas relíquias, levadas de Constantinopla por cruzados em 1204, foram devolvidas pelo Papa João Paulo II ao Patriarca Ecumênico Bartolomeu I em 27 de novembro de 2004, junto com as de São Gregório Nazianzeno.
Tem datas de festa diferentes: 13 de setembro no rito romano (transferida do dia 14 para não coincidir com a Exaltação da Santa Cruz); no Oriente, 13 de novembro (celebração principal) e 27 de janeiro (translação das relíquias).
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/08452b.htm
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070919.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070926.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/letters/2007/documents/hf_ben-xvi_let_20070810_giovanni-crisostomo.html
- vatican.va/content/john-paul-ii/en/letters/2004/documents/hf_jp-ii_let_20041127_consegna-reliquie.html
- newadvent.org/fathers/200150.htm
- newadvent.org/fathers/200182.htm
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- liturgiadashoras.online/vesperas-da-memoria-de-sao-joao-crisostomo/
- liturgies.net/saints/johnchrysostom/catholicreadings.htm
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