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Medalius · Santos · Vitorino de Pettau
V. Vitorino de Pettau

Mihael Napotnik (1850-1922), obra de 1888; reprodução de obra 2D em domínio público · fonte · PD

Dia de festa
2 de novembro
Status canônico
Santo
Santo

Vitorino de Pettau

Primeiro exegeta latino · Séc. III–IV
Lugar: Pettau (Poetovio), atual Ptuj, Eslovênia
Estado de vida: bispo, martir

São Vitorino de Pettau foi bispo de Pettau (Poetovio, hoje Ptuj, na Eslovênia), na Panônia, e é reconhecido como o primeiro exegeta da Igreja a escrever em latim. Provavelmente de origem grega — segundo São Jerônimo, dominava melhor o grego do que o latim —, escreveu comentários a vários livros da Sagrada Escritura, entre eles o "Commentarius in Apocalypsin", o mais antigo comentário latino ao Apocalipse que chegou até nós. Padre da Igreja dos séculos III-IV, sustentou o milenarismo, motivo pelo qual São Jerônimo mais tarde reeditou seu comentário expurgando essas ideias e o papa Gelásio incluiu suas obras entre os apócrifos. Morreu mártir durante a perseguição de Diocleciano, por volta de 303/304. Sua festa é celebrada em 2 de novembro.

A vida

Origem, formação e episcopado

São Vitorino foi bispo de Pettau — a antiga Poetovio (também grafada Petabium), hoje Ptuj, na Eslovênia —, cidade situada às margens do rio Drava, na Panônia, junto à fronteira entre o Oriente e o Ocidente do Império Romano. Sua origem é discutida: a tradição o aponta como provavelmente de origem grega, e São Jerônimo registra que ele conhecia melhor o grego do que o latim, o que explica por que suas obras, embora ricas em conteúdo, eram mais notáveis pela matéria do que pelo estilo. Floresceu em torno do final do século III, exercendo seu ministério episcopal num período de consolidação da Igreja e às vésperas da grande perseguição de Diocleciano.


Obra exegética e ministério

Vitorino é reconhecido como o primeiro exegeta da Igreja a escrever em latim, ocupando por isso um lugar de honra entre os escritores eclesiásticos. Segundo São Jerônimo, no De viris illustribus, compôs comentários a numerosos livros da Sagrada Escritura — entre eles o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, Isaías, Ezequiel, Habacuc, o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos e o Apocalipse de João —, além de uma obra contra todas as heresias e muitas outras. Dessa vasta produção, sobreviveram essencialmente duas obras: o Commentarius in Apocalypsin (Comentário ao Apocalipse), o mais antigo comentário latino a esse livro bíblico, e um fragmento do tratado De fabrica mundi (Sobre a criação do mundo), conservado num códice medieval. As demais obras se perderam.


Milenarismo e a revisão de São Jerônimo

À semelhança de muitos cristãos de seu tempo, Vitorino sustentou o milenarismo (ou quiliasmo), herança de autores anteriores como Papias e Santo Irineu — a expectativa de um reino terreno de Cristo por mil anos. Por essa razão, suas obras foram colocadas entre os apócrifos pelo papa Gelásio, no chamado Decretum Gelasianum. Mais tarde, por volta do ano 400, São Jerônimo reeditou o Commentarius in Apocalypsin de Vitorino: acrescentou um breve prólogo e reescreveu os comentários aos últimos capítulos, substituindo as passagens de teor milenarista por interpretações conformes à doutrina não-milenarista que ele próprio defendia. É graças a essa transmissão que a obra exegética de Vitorino chegou até nós.


Martírio e legado

Vitorino selou seu testemunho com o sangue: recebeu, segundo São Jerônimo, a coroa do martírio durante a perseguição movida pelo imperador Diocleciano, por volta dos anos 303/304. Como mártir dos primeiros séculos, não passou por um processo formal de canonização. A Igreja venera sua memória em 2 de novembro. Seu legado é singular na história da exegese cristã: pioneiro do comentário bíblico em língua latina, abriu o caminho que mais tarde seria trilhado por grandes Padres latinos, e seu comentário ao Apocalipse permanece como precioso testemunho da leitura cristã antiga das Escrituras.

Contexto

O contexto em que viveu

São Vitorino foi bispo de Poetovio (Petabium, hoje Ptuj, na Eslovênia), uma das cidades mais importantes da província romana da Panônia, situada num cruzamento estratégico do rio Drava. Elevada a colônia por Trajano em 103 d.C. com o nome de Colonia Ulpia Traiana Poetovio, foi base da Legio XIII Gemina e um próspero centro urbano romano, ponto de encontro de tradições latinas, gregas e orientais.


Vitorino floresceu por volta de 270, num período em que o cristianismo do Ocidente ainda dava seus primeiros passos como cultura própria. No meio cristão culto, o grego permanecia a língua dominante da teologia e da exegese, enquanto o latim apenas começava a emergir como língua literária da fé. Vitorino é lembrado justamente por ter sido o primeiro exegeta a escrever em latim; ainda assim, como observou São Jerônimo, dominava melhor o grego, de modo que suas obras eram mais notáveis pelo conteúdo do que pelo estilo.


Sua interpretação das Escrituras bebia diretamente da tradição grega — Papias de Hierápolis, Santo Irineu, Hipólito de Roma e, sobretudo, Orígenes. Dele restaram principalmente o Comentário ao Apocalipse, o mais antigo comentário latino sobre esse livro, e o breve tratado De fabrica mundi (Sobre a obra do mundo), uma leitura simbólica da semana da criação. Como muitos contemporâneos, Vitorino partilhava o milenarismo (quiliasmo), a expectativa de um reino terreno de Cristo com os santos após a ressurreição — corrente então difundida e que remontava a Papias e Irineu.


O fim de sua vida coincidiu com a Grande Perseguição de Diocleciano. O primeiro édito imperial contra os cristãos foi publicado em fevereiro de 303, em Nicomédia, ordenando a destruição das igrejas, a queima das Escrituras e a perda de direitos dos fiéis; éditos posteriores mandaram prender o clero e exigiram sacrifícios aos deuses. Foi nesse contexto que Vitorino, bispo de Poetovio, recebeu a coroa do martírio, por volta de 303/304.


O destino de sua obra refletiu as mudanças doutrinais da Igreja antiga. Como o milenarismo foi sendo rejeitado — o Credo de Constantinopla (381) já proclamava um reino "que não terá fim" —, por volta de 400 São Jerônimo reeditou o Comentário ao Apocalipse, substituindo o final quiliástico por uma interpretação espiritual; assim chegaram até nós duas versões, a original e a de Jerônimo. Mais tarde, o Decretum Gelasianum (séc. V/VI) chegou a classificar obras atribuídas a Vitorino entre os apócrifos, precisamente por causa do milenarismo. A Igreja, porém, conservou sua memória de bispo e mártir, registrado no Martirológio Romano em 2 de novembro.

Iconografia

Como reconhecer Vitorino de Pettau na arte sacra

Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.

👑
Vestes pontificais
Vitorino era bispo de Pettau (Poetovio, hoje Ptuj). As vestes episcopais são seu principal atributo iconográfico, identificando-o como pastor da Igreja primitiva.
Báculo pastoral
O bastão pastoral do bispo, símbolo de seu múnus de guiar o rebanho da diocese de Pettau.
🌴
Palma do martírio
Vitorino morreu mártir sob a perseguição de Diocleciano (c. 303/304). A palma é seu atributo de mártir, expressamente registrado na iconografia.
📖
Livro / rolo
Vitorino foi o primeiro exegeta latino e autor do Commentarius in Apocalypsin e do De fabrica mundi. O livro ou rolo representa sua obra de comentador da Sagrada Escritura.
🖋️
Pena de escriba
Atributo do escritor e exegeta, lembrando que São Jerônimo o incluiu em seu catálogo de escritores eclesiásticos (De viris illustribus).
😇
Auréola (nimbo)
Nimbo de santidade, indicando seu reconhecimento como santo e Padre da Igreja, venerado em 2 de novembro.
Cronologia

Linha do tempo

Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.

Vida do santo Mundo no mesmo período
103
Poetovio elevada a colônia romana
O imperador Trajano concede estatuto de cidade a Poetovio (hoje Ptuj, Eslovênia), chamando-a Colonia Ulpia Traiana Poetovio. Situada num cruzamento do rio Drava, na província da Panônia, foi base da Legio XIII Gemina e importante centro urbano romano.
270
Vitorino floresce como bispo e escritor eclesiástico
Segundo a Catholic Encyclopedia, Vitorino floresceu por volta de 270. Bispo de Poetovio, na Panônia, tornou-se o primeiro exegeta a escrever em latim, embora dominasse melhor o grego. Sua data de nascimento é desconhecida.
270
Obra exegética: o Comentário ao Apocalipse
Como bispo, Vitorino compôs comentários a vários livros da Escritura. Restaram sobretudo o Comentário ao Apocalipse — o mais antigo comentário latino sobre esse livro (datado por estudiosos c. 258-260) — e o tratado De fabrica mundi. Sua exegese apoiava-se em Papias, Irineu, Hipólito e, especialmente, Orígenes, e era marcada pelo milenarismo.
303
Início da Grande Perseguição de Diocleciano
Em fevereiro de 303, em Nicomédia, é publicado o primeiro édito de Diocleciano contra os cristãos: destruição das igrejas, queima das Escrituras e perda de direitos. Éditos seguintes mandam prender o clero (303) e exigem sacrifícios aos deuses (304).
304
Martírio de São Vitorino
Durante a perseguição de Diocleciano, Vitorino, bispo de Poetovio, recebe a coroa do martírio (c. 303/304), conforme atesta São Jerônimo: "ad extremum martyrio coronatus est".
313
Édito de Milão
Constantino e Licínio proclamam a liberdade religiosa no Império, encerrando as grandes perseguições aos cristãos, anos após o martírio de Vitorino.
381
Credo de Constantinopla rejeita o milenarismo
O Primeiro Concílio de Constantinopla afirma que o Reino de Cristo "não terá fim", consolidando a rejeição eclesial ao quiliasmo (milenarismo) que marcava obras como as de Vitorino.
400
São Jerônimo reedita o Comentário ao Apocalipse
Por volta do ano 400, Jerônimo revisa o Comentário ao Apocalipse de Vitorino, substituindo o final milenarista por uma interpretação espiritual e acrescentando material de Ticônio. Por isso chegaram até nós duas versões da obra: a original e a hieronimiana.
500
Decretum Gelasianum classifica suas obras como apócrifas
No séc. V/VI, o Decretum Gelasianum lista obras atribuídas a Vitorino entre os apócrifos, por causa do milenarismo. A Igreja, porém, manteve sua memória de bispo e mártir, registrada no Martirológio Romano em 2 de novembro.

Suas contribuições à teologia

O núcleo do pensamento de São Vitorino de Pettau, primeiro exegeta latino, é uma leitura tipológica e simbólica da Escritura, marcada por forte interesse aritmológico — a interpretação dos números bíblicos. No De fabrica mundi (Sobre a criação do mundo), Vitorino estrutura toda a sua reflexão em torno do número sete: a partir dos sete dias da criação, vê na semana um padrão divinamente ordenado que rege o curso da história, culminando no sétimo dia — o sábado abençoado e consagrado por Deus — como meta do trabalho e figura do descanso escatológico ainda futuro.


Sua contribuição exegética mais célebre é o princípio da recapitulação aplicado ao Apocalipse. Vitorino sustentou que o livro não narra os acontecimentos em sequência cronológica contínua: as mesmas realidades são repetidas sob imagens diversas. Como ele próprio escreve, “não devemos considerar a ordem do que é dito, porque frequentemente o Espírito Santo, quando já percorreu até o fim dos últimos tempos, retorna de novo aos mesmos tempos e completa o que antes deixara de dizer”. Assim, por exemplo, as sete taças não seguem cronologicamente as sete trombetas, mas falam mais intensamente dos mesmos eventos.


No campo escatológico, Vitorino professou o milenarismo (quiliasmo): a expectativa de um reino de Cristo com os santos após a ressurreição, ligando o número milenário à plenitude da consumação. Sua cristologia e toda a sua exegese repousam sobre autores gregos anteriores — Papias, Santo Irineu, Hipólito de Roma e, sobretudo, Orígenes.

Espiritualidade

Espiritualidade e carisma

Escola espiritual

Exegese patrística latina

A espiritualidade de São Vitorino nasce de uma leitura simbólica e tipológica da Sagrada Escritura, herdeira dos Padres gregos (especialmente Orígenes). Para ele, a Bíblia é um todo coerente em que os números — sobretudo o número sete — revelam o plano de Deus: os sete dias da criação anunciam o ritmo da história e o sétimo dia, o sábado abençoado, prefigura o descanso definitivo em Deus. Cristo é o centro de toda a Escritura, e o Apocalipse, lido pelo princípio da recapitulação, mostra repetidamente a mesma vitória do Cordeiro. É uma espiritualidade fortemente escatológica: vive na expectativa vigilante da consumação do reino de Cristo, coroada pelo testemunho do martírio.

Como se vive hoje

Vitorino lembra ao cristão de hoje que a Escritura se lê inteira à luz de Cristo, e que a história caminha para um descanso e uma plenitude que ainda não possuímos. Seu amor pela Palavra, a paciência de buscar o sentido espiritual por trás da letra e a sua esperança escatológica convidam a viver o tempo presente com vigilância e confiança. E o seu martírio mostra que o estudo da fé e a entrega da própria vida pertencem ao mesmo seguimento de Cristo.

Obras escritas

Suas obras principais

Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.

Comentário ao Apocalipse

Commentarius in Apocalypsin · séc. III (c. 258-260)

Obra mais importante de São Vitorino e o mais antigo comentário latino conhecido ao Apocalipse de São João — única de suas obras exegéticas que sobreviveu em forma extensa. Tem caráter milenarista (quiliasta). Por volta do ano 400, São Jerônimo fez uma recensão do texto, expurgando a interpretação milenarista dos mil anos (Ap 20) e substituindo-a por leitura espiritualizante, com acréscimos de Ticônio; por isso o comentário circulou em duas versões (a original e a revisada por Jerônimo).

Sobre a criação do mundo

De fabrica mundi · séc. III (antes de c. 304)

Tratado sobre a semana da criação, com leitura simbólica do número sete. Sobrevive como fragmento, conservado num único manuscrito medieval — o Codex Lambethanus 414 (séc. IX) —, a partir do qual foi publicado por W. Cave em 1688. É um dos dois únicos textos de Vitorino que chegaram até nós.

Comentários bíblicos (perdidos)

Commentarii in Genesim, Exodum, Leviticum, Isaiam, Ezechielem, Habacuc, Ecclesiasten, Canticum Canticorum · séc. III (antes de c. 304)

Série de comentários a livros da Sagrada Escritura atribuídos a Vitorino por São Jerônimo (De viris illustribus, cap. 74): Gênesis, Êxodo, Levítico, Isaías, Ezequiel, Habacuc, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos. Todos se perderam (sobrevivem apenas extratos). A Catholic Encyclopedia acrescenta um comentário a São Mateus a essa lista, ausente na versão de Jerônimo no New Advent.

Contra todas as heresias

Adversus omnes haereses · séc. III (antes de c. 304)

Tratado polêmico contra as heresias de seu tempo, mencionado por São Jerônimo na lista das obras de Vitorino (De viris illustribus, cap. 74). Não sobreviveu; sua autenticidade é discutida (um texto homônimo transmitido entre as obras de Tertuliano costuma ser atribuído a Pseudo-Tertuliano, não a Vitorino).

Liturgia

Como a Igreja celebra Vitorino de Pettau

Categoria litúrgica
Memória facultativa
Cor litúrgica
Vermelho
Dia
2 de Novembro
Antífona de entradaEste Santo lutou até à morte pela lei de seu Deus e não temeu as ameaças dos ímpios, pois se apoiava numa rocha inabalável.
Antífona de comunhãoQuem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me, diz o Senhor.
Coleta própriaComum de Um Mártir
Devoções populares

Como o povo reza a Vitorino de Pettau

Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.

Sacramentais

Medalhas e escapulários

  • Memória no Martirológio Romano (2 de novembro) — São Vitorino de Pettau é comemorado no Martyrologium Romanum em 2 de novembro como bispo de Poetovio e mártir sob Diocleciano (c. 303/304). Não consta do Calendário Romano Geral; sua observância litúrgica usa o Comum dos Mártires.

Tradições populares por região

Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.

Eslovênia

Na Igreja católica na Eslovênia, a festa de São Vitorino de Ptuj — tradicionalmente a 2 de novembro — é celebrada um dia depois, a 3 de novembro, por o dia 2 coincidir com a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (Finados). É venerado como bispo de Poetovio (atual Ptuj) e primeiro comentador latino da Sagrada Escritura.

Mensagem

O que Vitorino de Pettau nos diz hoje

"Não devemos atentar para a ordem do que é dito, porque com frequência o Espírito Santo, tendo percorrido até o fim dos últimos tempos, retorna de novo aos mesmos tempos e completa o que antes deixara de dizer. Nem devemos procurar uma ordem no Apocalipse, mas seguir o sentido daquilo que é profetizado."

— Commentarius in Apocalypsin, sobre Ap 7

"Estas são as vinte e quatro testemunhas dos dias e das noites que se assentam diante do trono de Deus, com coroas de ouro sobre as cabeças, e a quem o Apocalipse de João, apóstolo e evangelista, chama anciãos."

— De fabrica mundi (Sobre a criação do mundo), sobre Ap 4,4
Frases célebres

Frases para guardar e compartilhar

Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.

Todas 3 Quatro seres viventes, quatro Evangelhos 1 Cristo, o Verbo, criação por meio do Filho 1 Criação, seis dias, número sete, descanso do sétimo dia 1

"Os quatro seres viventes são os quatro Evangelhos."

Commentarius in Apocalypsin, sobre Ap 4,6

"O autor de toda a criação é Jesus. Seu nome é o Verbo; pois assim diz o seu Pai: "O meu coração proferiu uma boa palavra.""

De fabrica mundi (Sobre a criação do mundo)

"Deus produziu toda aquela massa para o ornamento da sua majestade em seis dias; e ao sétimo dia, que consagrou com uma bênção."

De fabrica mundi (Sobre a criação do mundo), 1
Influência

A rede de influências espirituais

Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.

Quem o influenciou

Mestres e encontros decisivos

A exegese de São Vitorino baseia-se largamente em autores gregos anteriores. As fontes católicas e os estudos modernos identificam como seus principais inspiradores Papias de Hierápolis, Santo Irineu de Lião, Hipólito de Roma e, sobretudo, Orígenes.De Papias e Irineu herdou também a tradição milenarista anterior — a expectativa de um reino terreno de Cristo com os santos após a ressurreição —, corrente difundida entre os Padres dos primeiros séculos, na qual se inscrevem igualmente Apolinário, Tertuliano e Lactâncio.

Quem ele influenciou

Discípulos e herdeiros através dos séculos

O peso histórico de São Vitorino está em seu pioneirismo: foi o primeiro exegeta a escrever em latim, e seu Comentário ao Apocalipse (composto por volta de 258–260) é o mais antigo comentário latino ao livro do Apocalipse que sobreviveu — testemunho precioso da interpretação ocidental mais primitiva desse livro.Seu princípio da recapitulação tornou-se um marco da exegese apocalíptica: foi retomado por Ticônio em seu influente comentário (c. 385) e, por essa via, moldou toda a tradição latina posterior. O próprio São Jerônimo reverenciou e revisou sua obra; Cassiodoro menciona Vitorino em suas Institutiones; e seu legado reaparece em comentadores medievais como São Beda, o Venerável, e Beato de Liébana.Jerônimo registrou que suas obras, “embora nobres no pensamento, são inferiores no estilo”, porque Vitorino não dominava o latim tão bem quanto o grego — o que não impediu sua influência duradoura na história da exegese cristã do Ocidente.

Debates

Debates e controvérsias

As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).

Controvérsias históricas

Os grandes embates de seu tempo

O milenarismo (quiliasmo)

São Vitorino professou o milenarismo: a crença num reino terreno de Cristo com os santos após a ressurreição, antes do fim definitivo. Era uma opinião difundida e tolerada na sua época, partilhada por Papias, Irineu, Tertuliano e Lactâncio. A Igreja viria a afastar essa expectativa de um reino temporalmente limitado, sobretudo a partir da profissão de fé do Concílio de Constantinopla (381), que confessa que o reino de Cristo “não terá fim”.


A recensão de São Jerônimo

Por volta de 400, São Jerônimo compôs um breve prólogo e revisou o Comentário ao Apocalipse de Vitorino, melhorando-lhe a linguagem, acrescentando material de Ticônio e substituindo o final quiliástico (sobre o reino milenar de Ap 20) por uma interpretação espiritualizante. Trata-se de uma questão de transmissão textual: durante séculos circulou sobretudo a versão revista por Jerônimo; o texto original só foi recuperado na edição crítica do século XX.


O Decretum Gelasianum

O Decretum Gelasianum (séc. V–VI) arrolou as obras de Vitorino entre os apócrifos — não por causa da pessoa, mas por causa do milenarismo de seus escritos. O decreto censura as obras, sem negar a Vitorino o culto de mártir.


A autenticidade de “Adversus omnes haereses”

Jerônimo atribui a Vitorino um tratado Contra todas as heresias. Sobreviveu um opúsculo com esse título, transmitido entre as obras de Tertuliano (por isso chamado “Pseudo-Tertuliano”); sua atribuição a Vitorino é discutida pelos estudiosos.


Santo e mártir, não herege

É essencial distinguir: São Vitorino não é um herege condenado, mas um Padre da Igreja venerado como santo e mártir, morto na perseguição de Diocleciano. O milenarismo era, no seu tempo, opinião comum e tolerada, não doutrina formalmente condenada. A Igreja conserva sua memória e celebra-lhe a festa; o que foi posto de lado foi a opinião milenarista, não o seu testemunho de fé.

Controvérsias contemporâneas

Polêmicas ainda em aberto

Vitorino lido hoje

O estudo moderno de São Vitorino renasceu com a edição crítica de Johannes Haussleiter (CSEL 49, 1916), que pela primeira vez separou nitidamente o texto original de Vitorino da recensão feita por Jerônimo, imprimindo-os em paralelo. Essa recuperação permitiu ouvir de novo a voz do próprio bispo de Pettau, antes encoberta pela revisão hieronimiana.


A pesquisa prosseguiu com a edição de Martine Dulaey (Victorin de Poetovio. Sur l’Apocalypse, Sources Chrétiennes 423, 1997) e com estudos como os de Francis X. Gumerlock. Hoje há grande interesse acadêmico por Vitorino como autor do mais antigo comentário latino ao Apocalipse, pelo seu princípio da recapitulação — central na história da interpretação do livro — e pelo seu lugar fundador na história da exegese latina e da escatologia cristã primitiva.

Curiosidades

Curiosidades sobre Vitorino de Pettau

Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.

📜

É considerado o primeiro exegeta a escrever em latim — abriu o caminho da exegese bíblica latina antes mesmo de São Jerônimo e Santo Agostinho.

🗣️

Embora bispo no Ocidente latino, dominava melhor o grego que o latim. Por isso São Jerônimo observou que suas obras eram mais notáveis pelo conteúdo do que pelo estilo.

✍️

Por volta do ano 400, São Jerônimo retrabalhou o final do Comentário ao Apocalipse de Vitorino, substituindo a interpretação milenarista por uma leitura espiritualizante — por isso a obra sobrevive em duas versões.

⚠️

Mesmo sendo santo e mártir, suas obras foram listadas entre os apócrifos pelo Decretum Gelasianum, por causa do milenarismo presente em sua exegese.

📖

Seu tratado De fabrica mundi (Sobre a criação do mundo) sobreviveu num único manuscrito medieval do século IX, o Codex Lambethanus 414 (Biblioteca do Palácio de Lambeth).

🇸🇮

Foi bispo de Poetovio (lat. Petavium; al. Pettau), cidade que hoje corresponde a Ptuj, na Eslovênia.

Para estudar mais

Fontes e referências

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