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Medalius · Santos · Roberto Belarmino
R. Roberto Belarmino

Anônimo, Escola Italiana (séc. XVII) · fonte · PD

Dia de festa
17 de setembro
Status canônico
Santo · canonizado por Pio XI
Elevado a Doutor da Igreja
1931, por Pio XI
Santo · Doutor da Igreja

Roberto Belarmino

Séc. XVI–XVII
Lugar: Roma
Estado de vida: religioso, sacerdote, bispo

São Roberto Belarmino (Roberto Bellarmino) foi um jesuíta italiano, cardeal, teólogo da Contrarreforma e Doutor da Igreja, nascido em 4 de outubro de 1542 em Montepulciano, na Toscana, e falecido em 17 de setembro de 1621 em Roma. Sobrinho do Papa Marcelo II por parte de mãe, entrou na Companhia de Jesus em 20 de setembro de 1560 e tornou-se um dos maiores controversistas católicos de seu tempo, sobretudo com as monumentais “Disputationes de controversiis christianae fidei” (1586–1593). Professor em Lovaina e titular da cátedra de Controvérsias no Colégio Romano, foi criado cardeal por Clemente VIII em 1599 e Arcebispo de Cápua de 1602 a 1605. Esteve no centro de episódios decisivos de sua época, como o caso de Galileu (1616), o processo de Giordano Bruno, o atrito com Sisto V sobre o poder temporal indireto do Papa e a polêmica com o rei Jaime I da Inglaterra. Foi beatificado em 1923, canonizado em 1930 e proclamado Doutor da Igreja em 1931 por Pio XI, sendo venerado como padroeiro dos catequistas. Está sepultado na igreja de Santo Inácio, em Roma, junto ao seu dirigido espiritual São Luís Gonzaga.

A vida

Infância, formação e entrada na Companhia de Jesus

Roberto Belarmino (em italiano, Roberto Bellarmino) nasceu em 4 de outubro de 1542, em Montepulciano, na Toscana, nos arredores de Siena. Era filho de Vincenzo Bellarmino e de Cinthia Cervini, irmã do cardeal Marcello Cervini — que viria a ser o Papa Marcelo II —, de modo que o futuro santo era sobrinho de um pontífice por parte de mãe.


Recebeu uma sólida formação humanística e, ainda jovem, ingressou na Companhia de Jesus em 20 de setembro de 1560. Fez seus estudos de filosofia e teologia entre o Colégio Romano, Pádua e Lovaina, centrados em São Tomás de Aquino e nos Padres da Igreja, o que marcaria definitivamente sua orientação teológica. Enviado a Lovaina em 1569, foi ali ordenado sacerdote em 25 de março de 1570, destacando-se como pregador e professor num ambiente de intenso confronto com as ideias da Reforma protestante.


Vida adulta e missão principal

Em 1576, Belarmino foi chamado de volta à Itália e encarregado da recém-criada cátedra de Controvérsias no Colégio Romano, que ocupou de 1576 a 1586. Dessas lições nasceu sua obra mais célebre, as Disputationes de controversiis christianae fidei adversus huius temporis haereticos (publicadas entre 1586 e 1593), exposição sistemática da fé católica frente às objeções protestantes que se tornou referência para a eclesiologia católica sobre a Revelação, a natureza da Igreja, os sacramentos e a antropologia teológica.


Em 1597, Clemente VIII o chamou a Roma e o fez seu teólogo, consultor do Santo Ofício e examinador de bispos. Desse período é também seu catecismo, a Doutrina cristã breve (1597–1598), acompanhada de uma Declaração mais ampla da doutrina cristã (1598) — obras de grande difusão, várias vezes aprovadas por papas e traduzidas em muitas línguas. Em 3 de março de 1599 foi criado cardeal por Clemente VIII. Em 18 de março de 1602 foi nomeado Arcebispo de Cápua, onde, por cerca de três anos, deu exemplo de zelo pastoral — pregando em sua catedral, visitando paróquias e convocando sínodos. Após participar dos conclaves de 1605, que elegeram Leão XI e Paulo V, renunciou à sé de Cápua e foi novamente chamado a Roma para servir na Cúria, entre outras funções como membro de várias Congregações romanas.


Lutas e controvérsias

A vida de Belarmino foi atravessada por grandes debates de seu tempo. Logo após ser feito cardeal, atuou como cardeal inquisidor no processo de Giordano Bruno, figurando entre os juízes e concorrendo na sentença que condenou Bruno como herege, queimado na fogueira em 1600. No caso de Galileu, em 1616, por ordem de Paulo V, Belarmino notificou Galileu do decreto que condenava a doutrina copernicana, advertindo-o de que a tese do movimento da Terra deveria ser sustentada apenas como hipótese enquanto não estivesse plenamente demonstrada.


Também enfrentou um delicado atrito com o Papa Sisto V: o pontífice, embora tivesse aceitado a dedicatória das Controvérsias, chegou a propor colocar seu primeiro volume no Índice, por este ensinar que a Santa Sé possui sobre as coisas temporais não um poder direto, mas apenas indireto. A morte de Sisto V interrompeu a medida, e a obra foi inocentada. Mais tarde, Belarmino esteve no centro da polêmica com o rei Jaime I da Inglaterra a respeito do juramento de fidelidade imposto aos católicos ingleses (1606): quando o próprio rei saiu em defesa do juramento, Belarmino respondeu com seus escritos, sustentando a liberdade da Igreja.


Últimos anos, morte e legado

Nos últimos anos, dedicou-se cada vez mais à vida espiritual e à composição de obras de piedade, como A elevação da mente a Deus (De ascensione mentis in Deum) e A arte de bem morrer (De arte bene moriendi), nas quais a oração, a contemplação e a conversão pessoal aparecem como fundamento de toda verdadeira reforma da Igreja. Faleceu em Roma, em 17 de setembro de 1621, aos 78 anos, em fama de santidade. Está sepultado na igreja de Santo Inácio, em Roma, próximo ao túmulo de seu dirigido espiritual São Luís Gonzaga.


Foi beatificado em 1923, canonizado em 1930 e proclamado Doutor da Igreja em 1931 pelo Papa Pio XI. É venerado como padroeiro dos catequistas, e sua festa litúrgica é celebrada em 17 de setembro. Sua obra teológica permanece um marco da apologética católica, e sua figura é lembrada como a de um homem de grande ciência aliada a profunda humildade e vida de oração.

Contexto

O contexto em que viveu

Roberto Belarmino viveu (1542–1621) no coração da Reforma Católica (Contrarreforma), a resposta da Igreja ao desafio da Reforma Protestante iniciada por Lutero em 1517. Nasceu em Montepulciano, na Toscana, em 4 de outubro de 1542 — apenas dois anos depois de o Papa Paulo III ter aprovado a Companhia de Jesus pela bula Regimini militantis Ecclesiae (27 de setembro de 1540), a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola que se tornaria a vanguarda intelectual e missionária da renovação católica.


A sua formação e a sua obra teológica desenrolam-se à sombra do Concílio de Trento (1545–1563), o grande concílio reformador que reafirmou a doutrina católica sobre a justificação, os sacramentos, a Escritura e a Tradição, e disciplinou a vida do clero. Belarmino entrou nos jesuítas em 1560, ainda durante os trabalhos do concílio, e a sua grande obra — as Disputationes de controversiis christianae fidei (1586–1593) — foi precisamente a sistematização e a defesa erudita dessa doutrina tridentina contra os teólogos protestantes da época.


Era um tempo de guerras de religião que dilaceravam a Europa — sobretudo a França, sacudida por décadas de conflito entre católicos e huguenotes, em que o próprio Belarmino esteve envolvido como teólogo da legação pontifícia enviada por Sisto V em 1590. A Europa dividia-se confessionalmente, e a controvérsia teológica era também uma batalha pela alma das nações.


Belarmino foi protagonista do tenso debate sobre as relações entre a Igreja e o Estado. Contra o galicanismo e o regalismo — correntes que exaltavam o poder do príncipe sobre a Igreja —, ele formulou a célebre doutrina do poder indireto do Papa nas coisas temporais. Esse debate explodiu no Interdito de Veneza (1606), em que enfrentou o servita Paolo Sarpi, defensor das pretensões da República contra Roma, e na polêmica com a Inglaterra de Jaime I: contra o juramento de fidelidade exigido aos católicos após a Conspiração da Pólvora (1605), e contra o escocês William Barclay, Belarmino escreveu o De potestate summi pontificis in rebus temporalibus (1610) — obra queimada em Paris pelos galicanos.


O seu tempo foi também o da Inglaterra protestante de Isabel I (1558–1603) e de Jaime I (1603–1625), monarcas sob os quais a fé católica era perseguida, e contra cujos teólogos Belarmino dirigiu boa parte da sua apologética.


Por fim, Belarmino viveu os primeiros embates entre a fé e a Revolução Científica. Publicado o De revolutionibus orbium coelestium de Copérnico em 1543, o heliocentrismo tornou-se questão candente no seu tempo. Como cardeal e teólogo do Santo Ofício, Belarmino interveio nos episódios iniciais do caso Galileu: escreveu a Foscarini em 1615 aconselhando prudência e, por ordem do Papa, transmitiu a Galileu a advertência de 1616, no mesmo ano em que a obra de Copérnico foi colocada no Índice. Anos antes, fora também um dos inquisidores no processo de Giordano Bruno, condenado e entregue ao braço secular, que o queimou em Roma em 1600. Cardeal, arcebispo de Cápua e teólogo de cinco papas, Belarmino morreu em Roma em 1621 e seria canonizado e proclamado Doutor da Igreja no século XX.

Iconografia

Como reconhecer Roberto Belarmino na arte sacra

Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.

🎩
Galero e mozeta de cardeal
O chapéu de abas largas (galero) e as vestes vermelhas de cardeal aludem à criação de Roberto Belarmino como cardeal pelo Papa Clemente VIII em 1599. O vermelho recorda a disposição do cardeal de derramar o próprio sangue pela fé — coerente com quem, mesmo na alta cúria romana, manteve vida pobre e austera.
📖
Livro
Atributo de Doutor da Igreja e de grande teólogo controversista. Remete às suas Disputationes de controversiis christianae fidei (as Controvérsias), obra monumental de defesa da fé católica diante das objeções protestantes, e ao seu catecismo amplamente difundido.
🪶
Pena de escritor
Sinal do incansável autor e mestre. Belarmino é frequentemente retratado escrevendo à sua mesa de estudo (como nas gravuras de Villamena e do Rijksmuseum), referência à sua vasta produção teológica, espiritual e catequética.
🔆
Monograma IHS
Emblema da Companhia de Jesus, à qual Belarmino pertenceu desde 1560. O IHS (de Jesus) identifica sua identidade jesuíta de sacerdote, professor e cardeal formado na espiritualidade inaciana.
🕊️
Pomba (De gemitu columbae)
Alusão à sua obra espiritual De gemitu columbae sive de bono lacrymarum (Sobre o gemido da pomba, ou sobre o bem das lágrimas), tratado sobre a compunção e o dom das lágrimas. A pomba evoca a alma penitente que geme diante de Deus.
✝️
Crucifixo
Centro da sua piedade. Belarmino escreveu De ascensione mentis in Deum (A subida da mente a Deus) e A arte de bem morrer, obras de profunda contemplação de Cristo; em seus últimos dias fixava os olhos no crucifixo e nas Chagas do Senhor.
😇
Auréola de santo
Sinal da santidade reconhecida pela Igreja: beatificado em 1923, canonizado por Pio XI em 1930 e proclamado Doutor da Igreja em 1931.
Cronologia

Linha do tempo

Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.

Vida do santo Mundo no mesmo período
1517
Reforma Protestante
Martinho Lutero divulga suas 95 teses, desencadeando a Reforma Protestante que dividiria a cristandade ocidental e provocaria a resposta da Igreja na Contrarreforma.
1540
Aprovação da Companhia de Jesus
O Papa Paulo III aprova a Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola, pela bula Regimini militantis Ecclesiae (27 de setembro de 1540); a ordem tornar-se-ia a vanguarda da reforma católica.
1542
Nascimento em Montepulciano
Roberto Francesco Romolo Bellarmino nasce em 4 de outubro de 1542, em Montepulciano (Toscana), sobrinho, por parte de mãe, do futuro Papa Marcelo II (Marcello Cervini).
1543
De revolutionibus de Copérnico
Nicolau Copérnico publica o De revolutionibus orbium coelestium, propondo o modelo heliocêntrico e iniciando a Revolução Científica que marcaria o tempo de Belarmino.
1545
Início do Concílio de Trento
Abre-se o Concílio de Trento, o grande concílio reformador que reafirmaria a doutrina católica contra a Reforma e disciplinaria a vida da Igreja; encerrar-se-ia em 1563.
1558
Isabel I sobe ao trono inglês
Isabel I torna-se rainha da Inglaterra (1558–1603), consolidando a Igreja protestante anglicana e a perseguição aos católicos, cenário contra o qual Belarmino dirigiria sua apologética.
1560
Entrada na Companhia de Jesus
Belarmino ingressa na Companhia de Jesus em 20 de setembro de 1560, fazendo os primeiros votos no dia seguinte, e estuda filosofia no Colégio Romano.
1563
Encerramento do Concílio de Trento
Encerra-se o Concílio de Trento, cuja doutrina Belarmino viria a sistematizar e defender em sua obra teológica.
1570
Ordenação sacerdotal em Lovaina
Belarmino é ordenado sacerdote em 25 de março de 1570, em Lovaina, onde logo se distingue como professor e pregador, o primeiro jesuíta a lecionar naquela universidade.
1576
Cátedra de Controvérsias no Colégio Romano
Chamado de volta à Itália, Belarmino assume a recém-criada cátedra de Controvérsias no Colégio Romano, onde lecionaria sobre os pontos disputados da fé contra os protestantes.
1586
Disputationes de controversiis
Começa a publicação das Disputationes de controversiis christianae fidei (1586–1593), grande síntese e defesa da doutrina católica tridentina, que lhe deu fama imediata em toda a Europa.
1592
Reitor do Colégio Romano
Belarmino é nomeado reitor do Colégio Romano; foi também pai espiritual de jovens jesuítas, entre eles São Luís Gonzaga.
1599
Criado cardeal por Clemente VIII
Em 3 de março de 1599, o Papa Clemente VIII cria Belarmino cardeal, com o título de Santa Maria in Via; passa a integrar o Santo Ofício, participando do processo de Giordano Bruno.
1600
Execução de Giordano Bruno
Em 17 de fevereiro de 1600, o ex-dominicano Giordano Bruno, condenado pela Inquisição — em cujo processo Belarmino atuou —, é entregue ao braço secular e queimado no Campo de’ Fiori, em Roma.
1602
Arcebispo de Cápua
Belarmino é nomeado arcebispo de Cápua em 18 de março de 1602 (ordenação episcopal em 21 de abril), governando a diocese como pastor exemplar até 1605.
1603
Jaime I rei da Inglaterra
Jaime I (VI da Escócia) sucede a Isabel I no trono inglês (1603–1625); sob ele se exigiria o juramento de fidelidade aos católicos, alvo das polêmicas de Belarmino.
1606
Interdito de Veneza
No conflito entre o Papa Paulo V e a República de Veneza (Interdito de 1606–1607), Belarmino defende as razões da Santa Sé contra o servita Paolo Sarpi, consultor da República.
1610
De potestate summi pontificis
Belarmino publica o De potestate summi pontificis in rebus temporalibus (1610), resposta a William Barclay e ao juramento de Jaime I, expondo a doutrina do poder indireto do Papa; a obra foi queimada em Paris pelos galicanos.
1615
Carta a Foscarini sobre o heliocentrismo
Em 12 de abril de 1615, Belarmino escreve ao carmelita Paolo Antonio Foscarini aconselhando que o heliocentrismo de Copérnico e Galileu fosse tratado como hipótese, e não como verdade física comprovada.
1616
Advertência a Galileu
Por ordem do Papa Paulo V, Belarmino transmite a Galileu, em fevereiro de 1616, a advertência para abandonar a doutrina heliocêntrica; no mesmo ano, o De revolutionibus de Copérnico é colocado no Índice.
1621
Morte em Roma
Belarmino morre em 17 de setembro de 1621, no noviciado jesuíta de Santo André no Quirinal (Sant'Andrea al Quirinale), em Roma, recitando o Credo e invocando o Senhor.
1923
Beatificação
O Papa Pio XI beatifica Roberto Belarmino em 13 de maio de 1923, depois de longo adiamento da causa por seus alcances políticos.
1930
Canonização
O Papa Pio XI canoniza Roberto Belarmino em 29 de junho de 1930, reconhecendo sua santidade e seu papel na Contrarreforma.
1931
Proclamado Doutor da Igreja
Em 17 de setembro de 1931, o Papa Pio XI proclama Roberto Belarmino Doutor da Igreja universal, coroando seu legado teológico.
Milagres

Milagres atribuídos à sua intercessão

Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.

Cura do menino Inácio De Lazzaris

Após exame, médicos e um cirurgião atestaram tratar-se de doença orgânica e de cura instantânea e perfeita, sendo um fenômeno não explicável por forças naturais comuns.

Cura de Arsilia Altissimi

Cura orgânica instantânea e perfeita, ocorrida após a invocação das orações e méritos de Belarmino.

Suas contribuições à teologia

O coração do pensamento de Roberto Belarmino está em sua grande obra, as Disputações sobre as Controvérsias da Fé Cristã contra os heréticos deste tempo (Disputationes de Controversiis Christianae Fidei, 1586–1593): a primeira tentativa de sistematizar as grandes controvérsias doutrinárias com a Reforma, organizando e defendendo a doutrina católica reafirmada pelo Concílio de Trento. Bento XVI lembra que as Controvérsias permanecem “um ponto de referência, ainda válido, para a eclesiologia católica” sobre a Revelação, a natureza da Igreja, os sacramentos e a antropologia teológica.


Sua eclesiologia é o ponto mais célebre: contra a tese protestante de uma Igreja apenas espiritual e invisível, Belarmino afirma a Igreja como sociedade visível, unida por três vínculos externos — a profissão da mesma fé, a comunhão dos mesmos sacramentos e a sujeição aos legítimos pastores, sobretudo ao Romano Pontífice. Daí sua famosa comparação: a Igreja é tão visível e palpável quanto a assembleia do povo romano, o reino da França ou a república de Veneza. Ao mesmo tempo, não reduz a Igreja ao exterior: explica seus aspectos invisíveis como Corpo Místico, valendo-se da analogia entre corpo e alma.


Em relação ao poder do Papa nas coisas temporais, Belarmino defendeu a doutrina do poder indireto: o Pontífice não tem poder temporal direto sobre o mundo, mas um poder indireto, em ordem ao bem espiritual das almas. Por negar o poder direto, o primeiro volume das Controvérsias chegou a ser ameaçado de inclusão no Índice pelo Papa Sisto V, que morreu antes de promulgar o decreto; a obra foi depois retirada do Índice.


Seu método é rigorosamente escriturístico, histórico e patrístico: expunha os argumentos dos adversários em sua forma mais forte e respondia com a síntese da Escritura, da história da Igreja e dos Padres, evitando — nota Bento XVI — todo tom polêmico e agressivo. No debate De Auxiliis sobre a graça e o livre-arbítrio (molinistas contra tomistas), manteve posição moderada: inclinado à sensibilidade jesuítica, sem aceitar inteiramente Molina nem a tese de Báñez de que Deus determina os atos humanos, aconselhou que a questão não fosse decidida por autoridade, mas deixada ao debate — como de fato Paulo V determinou em 1607, tolerando ambas as escolas.


Nos últimos anos, seu pensamento amadurece numa teologia contemplativa. No De ascensione mentis in Deum (“A subida da mente a Deus”, 1615), inspirado no Itinerário de São Boaventura, a mente sobe a Deus pela escada das criaturas, contemplando nelas o Criador; no De arte bene moriendi (“A arte de bem morrer”), aponta como norma segura para a boa vida e a boa morte a meditação regular e séria. Une-se assim, nele, o grande controversista e o homem de oração.

Espiritualidade

Espiritualidade e carisma

Escola espiritual

Espiritualidade inaciana

Formado na Companhia de Jesus, Roberto Belarmino bebeu da espiritualidade de Santo Inácio e dos Exercícios Espirituais, que marcam toda a sua vida e obra. Apesar dos altos cargos — teólogo, cardeal e arcebispo de Cápua —, era homem de intensa vida de oração, de notável humildade e pobreza pessoal: contentava-se com os aposentos mais simples, as vestes mais velhas e a comida mais pobre, e punha suas rendas a serviço dos necessitados. Sua espiritualidade culmina na contemplação de Deus a partir das criaturas, tema do tratado A subida da mente a Deus, e numa serena preparação para a morte, fruto da meditação regular sobre as verdades eternas, como ensina em A arte de bem morrer.

Como se vive hoje

A figura de Belarmino inspira hoje o ideal do teólogo orante: o homem que une ciência e santidade, rigor doutrinal e vida interior. É modelo de catequista — autor de catecismos amplamente difundidos — e de defensor sereno e respeitoso da fé, que expõe os argumentos do adversário com honestidade e responde sem agressividade. Lembra que o estudo da teologia só dá fruto quando nasce e termina na oração e na contemplação de Deus presente em toda a criação.

Família espiritual

Ordens, congregações e movimentos

Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.

1540

Companhia de Jesus (Jesuítas)

Ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola e companheiros, aprovada pelo Papa Paulo III com a bula Regimini militantis Ecclesiae em 27 de setembro de 1540. Roberto Belarmino entrou na Companhia de Jesus em 20 de setembro de 1560 e nela foi teólogo, professor e reitor do Colégio Romano, tornando-se um dos grandes expoentes jesuítas da Contrarreforma.

1551

Colégio Romano

Instituição de ensino superior dos jesuítas em Roma (futura Pontifícia Universidade Gregoriana), fundada por Santo Inácio em 1551. Belarmino foi seu professor de teologia (controvérsias) e reitor a partir de 1592, e ali exerceu a direção espiritual dos jovens jesuítas.

Vínculo com São Luís Gonzaga

Belarmino foi diretor espiritual de São Luís Gonzaga no Colégio Romano, acompanhando-o com afeto paternal até a morte do jovem jesuíta em 1591. Pediu para ser sepultado junto a ele — desejo cumprido na Igreja de Sant'Ignazio.

Obras escritas

Suas obras principais

Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.

Disputas sobre as controvérsias da fé cristã contra os hereges deste tempo

Disputationes de controversiis christianae fidei adversus huius temporis haereticos · 1586–1593 (3 volumes: Ingolstadt 1586, 1588, 1593)

Sua obra-prima e o tratado mais influente: defesa sistemática da doutrina católica frente ao protestantismo, nascida de suas aulas no Colégio Romano. Trata da Sagrada Escritura, da autoridade do Papa, dos concílios e da natureza da Igreja, dos sacramentos e (em volume posterior) da graça, do livre-arbítrio e da justificação. Tornou-se a resposta teológica de referência da Contrarreforma.

Gramática da língua hebraica

Institutiones linguae Hebraicae · 1578 (Roma; com numerosas reedições)

Manual de gramática hebraica compilado a partir dos melhores autores, redigido enquanto lecionava em Roma. Acompanha uma exercitação gramatical sobre um salmo. Obra de grande êxito, reimpressa muitas vezes ao longo dos séculos XVI–XVIII.

Doutrina cristã breve

Dottrina cristiana breve · 1597 (aprovado por Clemente VIII em 1598)

Catecismo breve, composto por ordem do Papa Clemente VIII, destinado aos alunos, com perguntas curtas do mestre e respostas acessíveis. Junto com o catecismo maior, recebeu aprovação papal e teve enorme difusão e traduções por séculos.

Declaração mais copiosa da doutrina cristã

Dichiarazione più copiosa della dottrina cristiana · 1598

Catecismo maior, por ordem de Clemente VIII, destinado aos mestres e catequistas: dividido em capítulos, com perguntas e respostas amplas (aqui o aluno pergunta e o mestre responde longamente). Complementa o catecismo breve do mesmo autor.

Resposta de Mateus Torto ao livro intitulado 'Triplici nodo triplex cuneus'

Responsio Matthaei Torti ad librum inscriptum Triplici nodo triplex cuneus · 1608 (sob o pseudônimo Matthaeus Tortus)

Réplica, a pedido do Papa, ao tratado anônimo do rei Jaime I da Inglaterra que defendia o Juramento de Fidelidade imposto aos católicos após a Conspiração da Pólvora. Publicada sob o nome de seu capelão Mateus Torto (Matthaeus Tortus).

Apologia em defesa de sua resposta ao livro de Jaime, rei da Grã-Bretanha

Apologia Roberti S.R.E. Cardinalis Bellarmini, pro responsione sua ad librum Iacobi Magnae Britanniae Regis · 1609 (reimpressa em 1610, sob o próprio nome)

Continuação da polêmica com Jaime I sobre o Juramento de Fidelidade: aqui Belarmino assume a autoria em seu próprio nome e refuta o prefácio monitório do rei, reeditando junto a resposta antes publicada como Matthaeus Tortus.

Tratado sobre o poder do Sumo Pontífice nas coisas temporais, contra Guilherme Barclay

Tractatus de potestate Summi Pontificis in rebus temporalibus, adversus Gulielmum Barclay · 1610

Resposta ao De potestate Papae (1609) de William Barclay, que negava o poder indireto do Papa em matérias temporais. Belarmino expõe sua célebre tese da potestas indirecta do Pontífice no temporal.

Sobre os escritores eclesiásticos

De scriptoribus ecclesiasticis · 1613 (Roma)

Catálogo histórico-crítico de autores eclesiásticos, com índices e uma breve cronologia. Obra de erudição patrística e literária, importante para a história da literatura cristã.

Sobre a ascensão da mente a Deus pelas escadas das coisas criadas

De ascensione mentis in Deum per scalas rerum creatarum · 1615

Opúsculo espiritual escrito durante os retiros anuais, inspirado no Itinerarium mentis in Deum de São Boaventura: uma subida contemplativa a Deus a partir da consideração das criaturas. Citado por Bento XVI como a Elevação da mente a Deus.

Sobre a eterna felicidade dos santos

De aeterna felicitate sanctorum · 1616

Opúsculo espiritual sobre a bem-aventurança eterna do céu e a felicidade dos santos na visão de Deus. Faz parte das Opuscula quinque redigidas em seus retiros.

Sobre o gemido da pomba, ou sobre o bem das lágrimas

De gemitu columbae sive de bono lacrimarum · 1617

Tratado espiritual em que a pomba que geme representa a Igreja: um vigoroso apelo à compunção, à penitência e ao dom das lágrimas. Mencionado por Bento XVI como o lamento da pomba.

Sobre as sete palavras proferidas por Cristo na cruz

De septem verbis a Christo in cruce prolatis · 1618

Meditação sobre as sete últimas palavras de Cristo na cruz, escrita como leitura espiritual e devocional. Integra as Opuscula quinque.

Sobre a arte de bem morrer

De arte bene moriendi · 1620

Última grande obra espiritual: ensina a arte de bem morrer apontando como norma segura a meditação regular e séria; uma boa morte é fruto de uma boa vida. Citada por Bento XVI nesse sentido.

Autobiografia (A vida do Cardeal Belarmino, escrita por ele mesmo)

Ven. R. Bellarmini S.R.E. Cardinalis vita quam ipse scripsit · ditada em 1613 (publicada postumamente)

Breve autobiografia ditada em 1613 a pedido dos padres Eudaemon-Joannis e Mutius Vitelleschi, relato de sua própria vida e vocação. Não foi impressa em vida.

Liturgia

Como a Igreja celebra Roberto Belarmino

Categoria litúrgica
Memória facultativa
Cor litúrgica
Branco
Dia
17 de Setembro
Coleta própriaMissal Romano, Próprio dos Santos, 17 de setembro (Comum dos Pastores / Comum dos Doutores da Igreja)
Para rezar

Oração a Roberto Belarmino

Ó Deus, que, para sustentar a fé católica da vossa Igreja, destes ao bispo São Roberto Belarmino ciência e força admiráveis, concedei, por sua intercessão, que o vosso povo se alegre de conservá-la sempre integralmente.

Coleta da Missa de São Roberto Belarmino (Missal Romano, 17 de setembro)
Novena

Novena a Roberto Belarmino

Nove dias de oração na companhia de São Roberto Belarmino, jesuíta, cardeal, Doutor da Igreja e padroeiro dos catequistas. A cada dia contemplamos uma faceta de sua vida — o amor à sabedoria, a defesa da fé, a humildade, o zelo pela catequese e a santa morte —, pedindo, por sua intercessão, fidelidade à fé da Igreja e amor à verdade. Reza-se de 8 a 16 de setembro, concluindo na véspera de sua festa, 17 de setembro.

I.

O desejo da sabedoria

Sabedoria 7,7 — "Assim implorei e a inteligência me foi dada, supliquei e o espírito da sabedoria veio a mim."

II.

A sabedoria acima de todos os bens

Sabedoria 7,8-9 — "Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da Sabedoria. Não compare..."

III.

Amar a verdade mais que tudo

Sabedoria 7,10 — "Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a cla..."

IV.

Mestre e catequista

Salmo 19,8 — "A lei do Senhor é perfeita, conforto para a alma; o testemunho do Senhor é verdadeiro, torna sábios..."

V.

A alegria dos mandamentos

Salmo 19,9 — "As ordens do Senhor são justas, alegram o coração; os mandamentos do Senhor são retos, iluminam os o..."

VI.

Pastor zeloso

Salmo 19,11 — "São mais desejáveis que o ouro, que todo o ouro fino; e mais doces que o mel, que o licor dos favos."

VII.

Defensor da fé

1 Pedro 3,15 — "Antes, santificai em vossos corações Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa d..."

VIII.

Humildade e pureza de coração

Mateus 5,8 — "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!"

IX.

A perseverança e a santa morte

2 Timóteo 4,7-8 — "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da ju..."

Devoções populares

Como o povo reza a Roberto Belarmino

Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.

Práticas devocionais

Tríduos, novenas e ladainhas

  • Padroado dos catequistas e catecúmenos — Por ter composto dois catecismos de grande influência, traduzidos para dezenas de línguas, São Roberto Belarmino é invocado como padroeiro dos catequistas e catecúmenos. Muitas paróquias e escolas de catequese o tomam como protetor, pedindo sua intercessão pelo ensino fiel e claro da fé.
Sacramentais

Medalhas e escapulários

  • Memória litúrgica de 17 de setembro — A Igreja celebra São Roberto Belarmino, bispo e Doutor da Igreja, como memória facultativa no dia 17 de setembro — data de sua morte, em 1621. A cor litúrgica é o branco, e a Missa pode usar o Comum dos Pastores (para um Bispo) ou o Comum dos Doutores da Igreja.

Tradições populares por região

Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.

IT Itália

Os restos de São Roberto Belarmino, revestidos com o traje vermelho dos cardeais, são venerados num altar lateral da Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma — capela do antigo Colégio Romano —, junto ao corpo de seu discípulo São Luís Gonzaga, conforme o próprio santo havia pedido.

IT Itália

É lembrado com devoção em Montepulciano (Toscana), sua cidade natal, e na arquidiocese de Cápua, que governou como arcebispo de 1602 a 1605.

Mensagem

O que Roberto Belarmino nos diz hoje

"Ó alma, o teu exemplar é Deus, beleza infinita, luz sem sombras, esplendor que supera aquele da lua e do sol. Eleva os olhos a Deus, em quem se encontram os arquétipos de todas as coisas e do qual, como de uma fonte de fecundidade infinita, deriva esta variedade quase infinita das coisas. Por isso deves concluir: quem encontra Deus, encontra tudo; quem perde Deus, perde tudo."

— De ascensione mentis in Deum (A Ascensão da Mente a Deus pela Escada das Coisas Criadas), 1615

"Se tens sabedoria, compreendes que foste criado para a glória de Deus e para a tua salvação eterna. Esta é a tua finalidade, este é o centro da tua alma, este é o tesouro do teu coração."

— De ascensione mentis in Deum, grad. 1 (1615)

"Visto que a morte nada mais é que o fim da vida, é certo que todos os que vivem bem até ao fim morrem bem; nem pode morrer mal quem nunca viveu mal."

— De arte bene moriendi, Livro I, cap. 1 (1620) — tradução do original latino

"Se houvesse uma verdadeira demonstração de que o sol está no centro do mundo e a terra no terceiro céu, e que não é o sol que gira em torno da terra, mas a terra em torno do sol, então seria necessário proceder com grande cautela ao explicar as passagens da Escritura que parecem contrárias, e dizer antes que não as entendemos do que afirmar ser falso aquilo que foi demonstrado."

— Carta a Paolo Antonio Foscarini, 12 de abril de 1615 — tradução
Frases célebres

Frases para guardar e compartilhar

Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.

Todas 2 Deus, primazia de Deus 1 boa morte, boa vida 1

"Quem encontra Deus, encontra tudo; quem perde Deus, perde tudo."

De ascensione mentis in Deum (1615)

"Quem vive bem, morre bem; e quem vive mal, morre mal."

De arte bene moriendi (A Arte de Bem Morrer), Livro I, cap. 1 (1620) — tradução do original latino
Influência

A rede de influências espirituais

Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.

Quem o influenciou

Mestres e encontros decisivos

A formação de Belarmino uniu as grandes correntes da tradição católica. Entrou na Companhia de Jesus em 1560, e a espiritualidade inaciana e a pedagogia jesuíta moldaram toda a sua vida; estudou filosofia no Colégio Romano e teologia em Pádua (1567) e Lovaina (1569). Como primeiro jesuíta a lecionar na Universidade de Lovaina, teve por base de seu curso a Suma Teológica de São Tomás de Aquino, de quem foi devoto expositor — o tomismo é o alicerce de seu pensamento. Em Lovaina enfrentou ainda as doutrinas de Miguel Bayo (Baianismo) sobre a graça, o que o aproximou do estudo aprofundado de Santo Agostinho e dos Padres da Igreja.Sua teologia bebe diretamente da Sagrada Escritura, dos Padres e dos concílios; foi firme defensor das reformas do Concílio de Trento e escreveu o prefácio da nova Vulgata Sisto-Clementina, cuja revisão havia sido desejada por Trento. Assim, São Tomás, os Padres, a Escritura, Santo Inácio e a Companhia de Jesus, e o Concílio de Trento são as raízes que formaram o teólogo da Contrarreforma.

Quem ele influenciou

Discípulos e herdeiros através dos séculos

Roberto Belarmino tornou-se uma das figuras mais influentes da Igreja pós-Tridentina e a principal referência da apologética e da eclesiologia católicas da Contrarreforma. Sua obra monumental, as Disputationes de Controversiis Christianae Fidei (3 vols., 1586–1593), foi a primeira tentativa de sistematizar de modo abrangente as controvérsias com os reformadores e causou uma impressão imensa em toda a Europa; sua força foi sentida de tal modo na Alemanha e na Inglaterra que universidades protestantes chegaram a fundar cátedras dedicadas a refutá-la.Maior ainda foi o alcance de seu catecismo (a Dottrina Cristiana breve, 1597, em versões breve e mais ampla), escrito por ordem do Papa Clemente VIII e aprovado por ele: usado como texto catequético padrão por séculos, foi impresso em centenas de edições e traduzido para dezenas de línguas — inclusive, pela Propaganda Fide, em idiomas tão diversos quanto o árabe, o siríaco, o etíope, o georgiano, o albanês e o maltês —, servindo de instrumento de evangelização aos missionários. Belarmino exerceu ainda profunda influência na teologia política, com sua doutrina do poder “indireto” do Papa nos assuntos temporais, discutida por pensadores posteriores. Canonizado por Pio XI em 1930 e declarado Doutor da Igreja universal em 1931, é hoje venerado como padroeiro dos catequistas.

Debates

Debates e controvérsias

As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).

Controvérsias históricas

Os grandes embates de seu tempo

O caso Galileu (1615–1616)

Belarmino tomou parte na fase inicial do caso Galileu. Em carta de 12 de abril de 1615 ao carmelita Paolo Antonio Foscarini — defensor do heliocentrismo —, advertiu que tratar o sistema de Copérnico como mera hipótese matemática “não oferece perigo”, mas afirmá-lo como realidade física seria perigoso. Ao mesmo tempo, reconheceu que, “se houvesse uma verdadeira demonstração de que o sol está no centro”, seria “necessário proceder com grande cautela ao explicar as passagens da Escritura que parecem contrárias”. Quando o Santo Ofício condenou o heliocentrismo, em 1616, coube a Belarmino, por dever oficial, notificar a Galileu a advertência para que não defendesse nem sustentasse a tese copernicana.


O processo de Giordano Bruno (1599–1600)

Consultor do Santo Ofício desde 1592 e cardeal a partir de 1599, Belarmino integrou o tribunal inquisitorial no processo de Giordano Bruno. Reduziu a longa lista de proposições atribuídas a Bruno a um conjunto de teses que este deveria abjurar; diante da recusa do filósofo em retratar-se, concorreu na sentença que o condenou, e Bruno foi entregue ao braço secular e queimado em Roma, no Campo de’ Fiori, em 17 de fevereiro de 1600.


O atrito com Sisto V (1590)

O primeiro volume das Controvérsias sustentava que a Santa Sé possui sobre os assuntos temporais não um poder direto, mas apenas um poder “indireto”. Por isso, em 1590, o Papa Sisto V — que antes acolhera bem a obra — propôs colocar esse volume no Índice dos livros proibidos. A condenação foi evitada pela morte do pontífice antes de promulgar o decreto; seu sucessor reexaminou a obra e inocentou Belarmino.


A polêmica com Jaime I da Inglaterra e William Barclay

Entre 1606 e 1610, Belarmino envolveu-se na controvérsia do juramento de fidelidade exigido aos católicos ingleses pelo rei Jaime I, que negava o poder papal de deposição; respondeu ao próprio rei e a seus teólogos. Quando o jurista escocês William Barclay negou todo poder temporal ao Papa, Belarmino replicou com o De potestate Summi Pontificis in rebus temporalibus (1610), defendendo o poder indireto. A obra desagradou aos galicanos, e o Parlamento de Paris ordenou que fosse queimada publicamente por decreto de 26 de novembro de 1610 — episódio que mostra como Belarmino foi acusado, em momentos diversos, de “regalista demais” e de “papalista demais”.


O Interdito de Veneza e Paolo Sarpi (1606–1607)

Na disputa entre o Papa Paulo V e a República de Veneza — o Interdito de 1606, motivado por leis venezianas que restringiam imunidades e propriedades eclesiásticas —, Belarmino foi um dos principais defensores da legitimidade do interdito, numa “guerra de panfletos” em que, do lado veneziano, se destacou o servita Paolo Sarpi. A contenda terminou com a suspensão do interdito e a reconciliação em abril de 1607.

Controvérsias contemporâneas

Polêmicas ainda em aberto

A releitura do caso Galileu hoje

O papel de Belarmino é central no debate contemporâneo sobre ciência e fé. Em 31 de outubro de 1992, ao receber a Pontifícia Academia das Ciências, São João Paulo II encerrou os trabalhos da comissão que reexaminara o caso Galileu. O Papa observou que Belarmino havia recomendado “interpretar com grande circunspecção” toda passagem bíblica que parecesse afirmar a imobilidade da Terra, e reconheceu que “o erro dos teólogos da época” foi não distinguir formalmente entre a Sagrada Escritura e sua interpretação, transpondo indevidamente para o campo da fé uma questão de investigação científica. Por isso a carta de Belarmino a Foscarini, com sua abertura à revisão da exegese diante de uma demonstração verdadeira, é hoje frequentemente citada como sinal de discernimento no diálogo ciência-fé.


Doutor da Igreja e padroeiro dos catequistas

Declarado Doutor da Igreja em 1931 por Pio XI, Belarmino é invocado como padroeiro dos catequistas — atualidade reforçada pela centralidade da catequese na missão evangelizadora da Igreja, da qual seu catecismo foi modelo por séculos.


Debate sobre teologia política

A doutrina belarminiana do poder “indireto” do Papa e a afirmação de que os governantes temporais não recebem sua autoridade diretamente de Deus, mas mediante o consentimento dos governados, continuam a ser objeto de estudo na história do pensamento político e nas discussões sobre as relações entre Igreja e Estado.

Relíquias

Relíquias e locais de devoção

Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.

sepultamento original

Primeiro sepultamento na Igreja do Gesù

Igreja do Gesù, Roma, Itália · 1621 – 1923

São Roberto Belarmino morreu em 17 de setembro de 1621, aos 78 anos, no noviciado jesuíta de Sant'Andrea al Quirinale, em Roma, para onde se retirara no fim da vida. Seu corpo foi inicialmente sepultado na Igreja do Gesù — a igreja-mãe da Companhia de Jesus em Roma —, onde permaneceu até 1923, quando foi transladado para a Igreja de Santo Inácio.

translacao

Translação para a Igreja de Santo Inácio (Sant'Ignazio)

Igreja de Santo Inácio de Loyola em Campo Marzio, Roma, Itália · 1923 – hoje

Em 1923, ano de sua beatificação, os restos mortais de Belarmino foram transladados para a Igreja de Sant'Ignazio di Loyola in Campo Marzio (capela do antigo Colégio Romano). O corpo repousa na Capela de São Joaquim, num altar lateral junto ao de seu dirigido espiritual São Luís Gonzaga — conforme o próprio Belarmino havia pedido. Está exposto atrás de uma urna de vidro, revestido das vestes vermelhas de cardeal, com o rosto e as mãos cobertos por uma máscara de prata.

Onde está Roberto Belarmino hoje

Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).

Igreja do Gesù, Roma, Itália
1621 – 1923
Igreja de Santo Inácio de Loyola em Campo Marzio, Roma, Itália
1923 – hoje
Local atual (Arca) Sepultamento original Pontos secundários
Curiosidades

Curiosidades sobre Roberto Belarmino

Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.

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Era sobrinho de um papa: sua mãe, Cinzia Cervini, era irmã do cardeal Marcello Cervini, eleito Papa Marcelo II em 1555 — pontificado brevíssimo, de apenas 22 dias. Roberto tinha então cerca de 13 anos.

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Foi diretor espiritual de São Luís Gonzaga, que acompanhou paternalmente até a morte do jovem jesuíta (1591); depois promoveu sua causa de beatificação. Pediu para ser sepultado junto a ele — e seu corpo repousa hoje na igreja de Santo Inácio, em Roma, ao lado de São Luís Gonzaga, como ele próprio havia desejado.

📖

Seu catecismo Dottrina Cristiana breve (1597) tornou-se um dos mais usados da história: foi traduzido em cerca de 60 línguas e empregado por missionários jesuítas por mais de três séculos, com centenas de edições.

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Cardeal, mas de extrema caridade: usava os tecidos e tapeçarias que forravam as paredes de seus aposentos para vestir os pobres, dizendo que as paredes não vão pegar resfriado. Vivia com o mínimo essencial e morreu pobre.

Sua canonização demorou quase três séculos. A causa foi aberta logo após sua morte (1627), mas travou repetidas vezes por razões sobretudo políticas: sua doutrina do poder indireto do papa nas questões temporais incomodava as cortes regalistas. Só foi beatificado em 1923 e canonizado em 1930 por Pio XI.

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Seu nome batizou um objeto: o Bellarmine jug (caneco Bartmann), uma jarra de grés com a máscara de um homem barbado, fabricada na região de Colônia nos séculos XVI–XVII. Protestantes do norte da Europa apelidaram esses canecos de Bellarmines para ridicularizar o cardeal de longa barba, ferrenho adversário da Reforma.

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Participou da comissão de revisão da Vulgata e escreveu o prefácio da edição Sisto-Clementina — prefácio que permaneceu na edição clementina usada por séculos. Sugeriu, com diplomacia, manter a edição sob o nome de Sisto V para evitar constrangimento com as correções anteriores.

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De estatura baixa e aparência jovial, ainda muito jovem causava sensação no púlpito: sua pequena estatura somada à enorme erudição fazia dele uma espécie de menino prodígio pregando. O filósofo Thomas Hobbes, que o viu em 1614, descreveu-o como um velhinho magro e baixo.

Para estudar mais

Fontes e referências

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Veja também

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