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Medalius · Codex de Personalidades · Roberto Belarmino
Roberto Belarmino

Anônimo, Escola Italiana (séc. XVII) · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
1542–1621 (79 anos)
Lugar
Roma
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Escolástica / teologia da controvérsia da Contrarreforma
Idioma principal
Latim
Santo · Doutor da Igreja

Roberto Belarmino

1542–1621
Doutor da Igreja Companhia de Jesus (S.J.)

São Roberto Belarmino (Roberto Bellarmino) foi um jesuíta italiano, cardeal, teólogo da Contrarreforma e Doutor da Igreja, nascido em 4 de outubro de 1542 em Montepulciano, na Toscana, e falecido em 17 de setembro de 1621 em Roma. Sobrinho do Papa Marcelo II por parte de mãe, entrou na Companhia de Jesus em 20 de setembro de 1560 e tornou-se um dos maiores controversistas católicos de seu tempo, sobretudo com as monumentais “Disputationes de controversiis christianae fidei” (1586–1593). Professor em Lovaina e titular da cátedra de Controvérsias no Colégio Romano, foi criado cardeal por Clemente VIII em 1599 e Arcebispo de Cápua de 1602 a 1605. Esteve no centro de episódios decisivos de sua época, como o caso de Galileu (1616), o processo de Giordano Bruno, o atrito com Sisto V sobre o poder temporal indireto do Papa e a polêmica com o rei Jaime I da Inglaterra. Foi beatificado em 1923, canonizado em 1930 e proclamado Doutor da Igreja em 1931 por Pio XI, sendo venerado como padroeiro dos catequistas. Está sepultado na igreja de Santo Inácio, em Roma, junto ao seu dirigido espiritual São Luís Gonzaga.

Biografia

Infância, formação e entrada na Companhia de Jesus

Roberto Belarmino (em italiano, Roberto Bellarmino) nasceu em 4 de outubro de 1542, em Montepulciano, na Toscana, nos arredores de Siena. Era filho de Vincenzo Bellarmino e de Cinthia Cervini, irmã do cardeal Marcello Cervini — que viria a ser o Papa Marcelo II —, de modo que o futuro santo era sobrinho de um pontífice por parte de mãe.


Recebeu uma sólida formação humanística e, ainda jovem, ingressou na Companhia de Jesus em 20 de setembro de 1560. Fez seus estudos de filosofia e teologia entre o Colégio Romano, Pádua e Lovaina, centrados em São Tomás de Aquino e nos Padres da Igreja, o que marcaria definitivamente sua orientação teológica. Enviado a Lovaina em 1569, foi ali ordenado sacerdote em 25 de março de 1570, destacando-se como pregador e professor num ambiente de intenso confronto com as ideias da Reforma protestante.


Vida adulta e missão principal

Em 1576, Belarmino foi chamado de volta à Itália e encarregado da recém-criada cátedra de Controvérsias no Colégio Romano, que ocupou de 1576 a 1586. Dessas lições nasceu sua obra mais célebre, as Disputationes de controversiis christianae fidei adversus huius temporis haereticos (publicadas entre 1586 e 1593), exposição sistemática da fé católica frente às objeções protestantes que se tornou referência para a eclesiologia católica sobre a Revelação, a natureza da Igreja, os sacramentos e a antropologia teológica.


Em 1597, Clemente VIII o chamou a Roma e o fez seu teólogo, consultor do Santo Ofício e examinador de bispos. Desse período é também seu catecismo, a Doutrina cristã breve (1597–1598), acompanhada de uma Declaração mais ampla da doutrina cristã (1598) — obras de grande difusão, várias vezes aprovadas por papas e traduzidas em muitas línguas. Em 3 de março de 1599 foi criado cardeal por Clemente VIII. Em 18 de março de 1602 foi nomeado Arcebispo de Cápua, onde, por cerca de três anos, deu exemplo de zelo pastoral — pregando em sua catedral, visitando paróquias e convocando sínodos. Após participar dos conclaves de 1605, que elegeram Leão XI e Paulo V, renunciou à sé de Cápua e foi novamente chamado a Roma para servir na Cúria, entre outras funções como membro de várias Congregações romanas.


Lutas e controvérsias

A vida de Belarmino foi atravessada por grandes debates de seu tempo. Logo após ser feito cardeal, atuou como cardeal inquisidor no processo de Giordano Bruno, figurando entre os juízes e concorrendo na sentença que condenou Bruno como herege, queimado na fogueira em 1600. No caso de Galileu, em 1616, por ordem de Paulo V, Belarmino notificou Galileu do decreto que condenava a doutrina copernicana, advertindo-o de que a tese do movimento da Terra deveria ser sustentada apenas como hipótese enquanto não estivesse plenamente demonstrada.


Também enfrentou um delicado atrito com o Papa Sisto V: o pontífice, embora tivesse aceitado a dedicatória das Controvérsias, chegou a propor colocar seu primeiro volume no Índice, por este ensinar que a Santa Sé possui sobre as coisas temporais não um poder direto, mas apenas indireto. A morte de Sisto V interrompeu a medida, e a obra foi inocentada. Mais tarde, Belarmino esteve no centro da polêmica com o rei Jaime I da Inglaterra a respeito do juramento de fidelidade imposto aos católicos ingleses (1606): quando o próprio rei saiu em defesa do juramento, Belarmino respondeu com seus escritos, sustentando a liberdade da Igreja.


Últimos anos, morte e legado

Nos últimos anos, dedicou-se cada vez mais à vida espiritual e à composição de obras de piedade, como A elevação da mente a Deus (De ascensione mentis in Deum) e A arte de bem morrer (De arte bene moriendi), nas quais a oração, a contemplação e a conversão pessoal aparecem como fundamento de toda verdadeira reforma da Igreja. Faleceu em Roma, em 17 de setembro de 1621, aos 78 anos, em fama de santidade. Está sepultado na igreja de Santo Inácio, em Roma, próximo ao túmulo de seu dirigido espiritual São Luís Gonzaga.


Foi beatificado em 1923, canonizado em 1930 e proclamado Doutor da Igreja em 1931 pelo Papa Pio XI. É venerado como padroeiro dos catequistas, e sua festa litúrgica é celebrada em 17 de setembro. Sua obra teológica permanece um marco da apologética católica, e sua figura é lembrada como a de um homem de grande ciência aliada a profunda humildade e vida de oração.

Contexto

O contexto em que viveu

Roberto Belarmino viveu (1542–1621) no coração da Reforma Católica (Contrarreforma), a resposta da Igreja ao desafio da Reforma Protestante iniciada por Lutero em 1517. Nasceu em Montepulciano, na Toscana, em 4 de outubro de 1542 — apenas dois anos depois de o Papa Paulo III ter aprovado a Companhia de Jesus pela bula Regimini militantis Ecclesiae (27 de setembro de 1540), a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola que se tornaria a vanguarda intelectual e missionária da renovação católica.


A sua formação e a sua obra teológica desenrolam-se à sombra do Concílio de Trento (1545–1563), o grande concílio reformador que reafirmou a doutrina católica sobre a justificação, os sacramentos, a Escritura e a Tradição, e disciplinou a vida do clero. Belarmino entrou nos jesuítas em 1560, ainda durante os trabalhos do concílio, e a sua grande obra — as Disputationes de controversiis christianae fidei (1586–1593) — foi precisamente a sistematização e a defesa erudita dessa doutrina tridentina contra os teólogos protestantes da época.


Era um tempo de guerras de religião que dilaceravam a Europa — sobretudo a França, sacudida por décadas de conflito entre católicos e huguenotes, em que o próprio Belarmino esteve envolvido como teólogo da legação pontifícia enviada por Sisto V em 1590. A Europa dividia-se confessionalmente, e a controvérsia teológica era também uma batalha pela alma das nações.


Belarmino foi protagonista do tenso debate sobre as relações entre a Igreja e o Estado. Contra o galicanismo e o regalismo — correntes que exaltavam o poder do príncipe sobre a Igreja —, ele formulou a célebre doutrina do poder indireto do Papa nas coisas temporais. Esse debate explodiu no Interdito de Veneza (1606), em que enfrentou o servita Paolo Sarpi, defensor das pretensões da República contra Roma, e na polêmica com a Inglaterra de Jaime I: contra o juramento de fidelidade exigido aos católicos após a Conspiração da Pólvora (1605), e contra o escocês William Barclay, Belarmino escreveu o De potestate summi pontificis in rebus temporalibus (1610) — obra queimada em Paris pelos galicanos.


O seu tempo foi também o da Inglaterra protestante de Isabel I (1558–1603) e de Jaime I (1603–1625), monarcas sob os quais a fé católica era perseguida, e contra cujos teólogos Belarmino dirigiu boa parte da sua apologética.


Por fim, Belarmino viveu os primeiros embates entre a fé e a Revolução Científica. Publicado o De revolutionibus orbium coelestium de Copérnico em 1543, o heliocentrismo tornou-se questão candente no seu tempo. Como cardeal e teólogo do Santo Ofício, Belarmino interveio nos episódios iniciais do caso Galileu: escreveu a Foscarini em 1615 aconselhando prudência e, por ordem do Papa, transmitiu a Galileu a advertência de 1616, no mesmo ano em que a obra de Copérnico foi colocada no Índice. Anos antes, fora também um dos inquisidores no processo de Giordano Bruno, condenado e entregue ao braço secular, que o queimou em Roma em 1600. Cardeal, arcebispo de Cápua e teólogo de cinco papas, Belarmino morreu em Roma em 1621 e seria canonizado e proclamado Doutor da Igreja no século XX.

Fatos contextuais
Reforma Protestante
Martinho Lutero divulga suas 95 teses, desencadeando a Reforma Protestante que d...
Aprovação da Companhia de Jesus
O Papa Paulo III aprova a Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola...
Nascimento em Montepulciano
Roberto Francesco Romolo Bellarmino nasce em 4 de outubro de 1542, em Montepulci...
De revolutionibus de Copérnico
Nicolau Copérnico publica o De revolutionibus orbium coelestium, propondo o mode...
Início do Concílio de Trento
Abre-se o Concílio de Trento, o grande concílio reformador que reafirmaria a dou...

Suas contribuições à teologia

O coração do pensamento de Roberto Belarmino está em sua grande obra, as Disputações sobre as Controvérsias da Fé Cristã contra os heréticos deste tempo (Disputationes de Controversiis Christianae Fidei, 1586–1593): a primeira tentativa de sistematizar as grandes controvérsias doutrinárias com a Reforma, organizando e defendendo a doutrina católica reafirmada pelo Concílio de Trento. Bento XVI lembra que as Controvérsias permanecem “um ponto de referência, ainda válido, para a eclesiologia católica” sobre a Revelação, a natureza da Igreja, os sacramentos e a antropologia teológica.


Sua eclesiologia é o ponto mais célebre: contra a tese protestante de uma Igreja apenas espiritual e invisível, Belarmino afirma a Igreja como sociedade visível, unida por três vínculos externos — a profissão da mesma fé, a comunhão dos mesmos sacramentos e a sujeição aos legítimos pastores, sobretudo ao Romano Pontífice. Daí sua famosa comparação: a Igreja é tão visível e palpável quanto a assembleia do povo romano, o reino da França ou a república de Veneza. Ao mesmo tempo, não reduz a Igreja ao exterior: explica seus aspectos invisíveis como Corpo Místico, valendo-se da analogia entre corpo e alma.


Em relação ao poder do Papa nas coisas temporais, Belarmino defendeu a doutrina do poder indireto: o Pontífice não tem poder temporal direto sobre o mundo, mas um poder indireto, em ordem ao bem espiritual das almas. Por negar o poder direto, o primeiro volume das Controvérsias chegou a ser ameaçado de inclusão no Índice pelo Papa Sisto V, que morreu antes de promulgar o decreto; a obra foi depois retirada do Índice.


Seu método é rigorosamente escriturístico, histórico e patrístico: expunha os argumentos dos adversários em sua forma mais forte e respondia com a síntese da Escritura, da história da Igreja e dos Padres, evitando — nota Bento XVI — todo tom polêmico e agressivo. No debate De Auxiliis sobre a graça e o livre-arbítrio (molinistas contra tomistas), manteve posição moderada: inclinado à sensibilidade jesuítica, sem aceitar inteiramente Molina nem a tese de Báñez de que Deus determina os atos humanos, aconselhou que a questão não fosse decidida por autoridade, mas deixada ao debate — como de fato Paulo V determinou em 1607, tolerando ambas as escolas.


Nos últimos anos, seu pensamento amadurece numa teologia contemplativa. No De ascensione mentis in Deum (“A subida da mente a Deus”, 1615), inspirado no Itinerário de São Boaventura, a mente sobe a Deus pela escada das criaturas, contemplando nelas o Criador; no De arte bene moriendi (“A arte de bem morrer”), aponta como norma segura para a boa vida e a boa morte a meditação regular e séria. Une-se assim, nele, o grande controversista e o homem de oração.

"Ó alma, o teu exemplar é Deus, beleza infinita, luz sem sombras, esplendor que supera aquele da lua e do sol. Eleva os olhos a Deus, em quem se encontram os arquétipos de todas as coisas e do qual, como de uma fonte de fecundidade infinita, deriva esta variedade quase infinita das coisas. Por isso deves concluir: quem encontra Deus, encontra tudo; quem perde Deus, perde tudo." De ascensione mentis in Deum (A Ascensão da Mente a Deus pela Escada das Coisas Criadas), 1615
Influência

Quem ele influenciou

Roberto Belarmino tornou-se uma das figuras mais influentes da Igreja pós-Tridentina e a principal referência da apologética e da eclesiologia católicas da Contrarreforma. Sua obra monumental, as Disputationes de Controversiis Christianae Fidei (3 vols., 1586–1593), foi a primeira tentativa de sistematizar de modo abrangente as controvérsias com os reformadores e causou uma impressão imensa em toda a Europa; sua força foi sentida de tal modo na Alemanha e na Inglaterra que universidades protestantes chegaram a fundar cátedras dedicadas a refutá-la.Maior ainda foi o alcance de seu catecismo (a Dottrina Cristiana breve, 1597, em versões breve e mais ampla), escrito por ordem do Papa Clemente VIII e aprovado por ele: usado como texto catequético padrão por séculos, foi impresso em centenas de edições e traduzido para dezenas de línguas — inclusive, pela Propaganda Fide, em idiomas tão diversos quanto o árabe, o siríaco, o etíope, o georgiano, o albanês e o maltês —, servindo de instrumento de evangelização aos missionários. Belarmino exerceu ainda profunda influência na teologia política, com sua doutrina do poder “indireto” do Papa nos assuntos temporais, discutida por pensadores posteriores. Canonizado por Pio XI em 1930 e declarado Doutor da Igreja universal em 1931, é hoje venerado como padroeiro dos catequistas.

Debates

Debates e controvérsias

O caso Galileu (1615–1616)

Belarmino tomou parte na fase inicial do caso Galileu. Em carta de 12 de abril de 1615 ao carmelita Paolo Antonio Foscarini — defensor do heliocentrismo —, advertiu que tratar o sistema de Copérnico como mera hipótese matemática “não oferece perigo”, mas afirmá-lo como realidade física seria perigoso. Ao mesmo tempo, reconheceu que, “se houvesse uma verdadeira demonstração de que o sol está no centro”, seria “necessário proceder com grande cautela ao explicar as passagens da Escritura que parecem contrárias”. Quando o Santo Ofício condenou o heliocentrismo, em 1616, coube a Belarmino, por dever oficial, notificar a Galileu a advertência para que não defendesse nem sustentasse a tese copernicana.


O processo de Giordano Bruno (1599–1600)

Consultor do Santo Ofício desde 1592 e cardeal a partir de 1599, Belarmino integrou o tribunal inquisitorial no processo de Giordano Bruno. Reduziu a longa lista de proposições atribuídas a Bruno a um conjunto de teses que este deveria abjurar; diante da recusa do filósofo em retratar-se, concorreu na sentença que o condenou, e Bruno foi entregue ao braço secular e queimado em Roma, no Campo de’ Fiori, em 17 de fevereiro de 1600.


O atrito com Sisto V (1590)

O primeiro volume das Controvérsias sustentava que a Santa Sé possui sobre os assuntos temporais não um poder direto, mas apenas um poder “indireto”. Por isso, em 1590, o Papa Sisto V — que antes acolhera bem a obra — propôs colocar esse volume no Índice dos livros proibidos. A condenação foi evitada pela morte do pontífice antes de promulgar o decreto; seu sucessor reexaminou a obra e inocentou Belarmino.


A polêmica com Jaime I da Inglaterra e William Barclay

Entre 1606 e 1610, Belarmino envolveu-se na controvérsia do juramento de fidelidade exigido aos católicos ingleses pelo rei Jaime I, que negava o poder papal de deposição; respondeu ao próprio rei e a seus teólogos. Quando o jurista escocês William Barclay negou todo poder temporal ao Papa, Belarmino replicou com o De potestate Summi Pontificis in rebus temporalibus (1610), defendendo o poder indireto. A obra desagradou aos galicanos, e o Parlamento de Paris ordenou que fosse queimada publicamente por decreto de 26 de novembro de 1610 — episódio que mostra como Belarmino foi acusado, em momentos diversos, de “regalista demais” e de “papalista demais”.


O Interdito de Veneza e Paolo Sarpi (1606–1607)

Na disputa entre o Papa Paulo V e a República de Veneza — o Interdito de 1606, motivado por leis venezianas que restringiam imunidades e propriedades eclesiásticas —, Belarmino foi um dos principais defensores da legitimidade do interdito, numa “guerra de panfletos” em que, do lado veneziano, se destacou o servita Paolo Sarpi. A contenda terminou com a suspensão do interdito e a reconciliação em abril de 1607.

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