Papa São Leão I, o Grande
São Leão I, dito o Grande (Leo Magnus), foi Papa de 440 a 461 e é venerado como Padre e Doutor da Igreja. Toscano de origem, exerceu antes o diaconato e o arquidiaconato da Igreja de Roma sob os papas Celestino I e Sisto III, e foi eleito pontífice quando estava em missão na Gália. Grande pastor da Antiguidade tardia, defendeu vigorosamente o primado da Sé de Pedro e a integridade da fé contra heresias como o maniqueísmo, o priscilianismo e o pelagianismo. Sua maior glória doutrinal foi o «Tomo a Flaviano» (449), que orientou o Concílio de Calcedônia (451) na condenação do monofisismo de Êutiques e na definição das duas naturezas de Cristo numa só Pessoa, levando os bispos a aclamarem «Pedro falou pela boca de Leão». Defensor de Roma, saiu ao encontro de Átila, o huno (452), e intercedeu diante de Genserico e dos vândalos (455); morreu em 10 de novembro de 461, foi o primeiro papa sepultado na basílica de São Pedro e foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV em 1754.
A vida
Origens, formação e diaconato
Segundo o Liber Pontificalis, Leão era natural da Toscana, filho de um certo Quinciano. Antes do pontificado, exerceu funções de relevo na Igreja de Roma como diácono e arquidiácono, servindo sob os papas Celestino I (422–432) e Sisto III (432–440), e ganhando ampla autoridade na administração eclesiástica.
Sua estatura era tal que o próprio imperador Valentiniano III o enviou em missão à Gália para apaziguar um grave conflito entre o general Aécio (Aëtius) e o prefeito Albino, cuja rivalidade ameaçava a defesa do Império. Foi durante essa missão que sobreveio a eleição que mudaria a história da Igreja.
Pontificado e missão (440–461)
Sisto III morreu em 19 de agosto de 440, enquanto Leão ainda se encontrava na Gália. O clero e o povo de Roma escolheram-no por sucessor; de volta à Cidade, foi consagrado em 29 de setembro de 440. O seu pontificado durou mais de vinte e um anos e é tido como um dos mais importantes da história da Igreja.
Leão afirmou com vigor o primado da Sé de Pedro e desdobrou intensa ação pastoral e doutrinal contra os erros do tempo. Em Roma, conduziu pessoalmente, em 443, uma investigação contra os maniqueus refugiados na cidade. Combateu o pelagianismo, exigindo a abjuração formal desse erro. E, em 21 de julho de 447, escreveu a longa Carta 15 a Turíbio, bispo de Astorga, na Espanha, refutando ponto por ponto os erros dos priscilianistas.
Lutas doutrinais e o Concílio de Calcedônia
O maior embate de Leão foi contra o monofisismo do monge Êutiques, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus. Em resposta, o papa redigiu a célebre Carta 28 a Flaviano, bispo de Constantinopla — o «Tomo de Leão», datado de 13 de junho de 449 —, que expõe com clareza a doutrina das duas naturezas, divina e humana, unidas numa só Pessoa de Cristo.
- Em 449, o chamado «Sínodo dos Ladrões» (Latrocínio de Éfeso) reabilitou Êutiques e rejeitou o Tomo, num conciliábulo que Leão condenou energicamente.
- Em 451, o Concílio de Calcedônia, com a participação de centenas de bispos, aceitou solenemente o Tomo de Leão e definiu que em Cristo as duas naturezas subsistem «sem confusão e sem separação».
Ao ouvir a leitura do Tomo, os Padres conciliares prorromperam na famosa aclamação: «Pedro falou pela boca de Leão», reconhecendo na palavra do papa a voz do próprio Apóstolo.
Defesa de Roma e últimos anos
Leão não foi apenas guardião da fé, mas também defensor da cidade. Em 452, à frente de uma delegação romana, saiu ao encontro de Átila, chefe dos hunos, na região de Mântua, junto ao rio Mincio, e dissuadiu-o de prosseguir na guerra contra a Itália. Em 455, quando os vândalos de Genserico tomaram Roma, sua intercessão não pôde impedir o saque, mas obteve que a cidade não fosse incendiada e que se poupassem as grandes basílicas e a população. Em torno desses episódios históricos formou-se também, com o tempo, uma camada de tradição piedosa e lendária.
Leão morreu em 10 de novembro de 461 e foi sepultado junto à basílica de São Pedro, sendo o primeiro papa ali enterrado. Pela grandeza de seus escritos e de sua ação, recebeu o epíteto de «o Grande» e, em 1754, o papa Bento XIV o proclamou Doutor da Igreja.
O contexto em que viveu
O pontificado de São Leão Magno (440–461) transcorreu no crepúsculo do Império Romano do Ocidente. Em 24 de agosto de 410, os visigodos de Alarico haviam saqueado Roma — a primeira vez em mais de oitocentos anos que a Cidade Eterna caía diante de um inimigo —, abalando profundamente a confiança do mundo antigo e levando Santo Agostinho a escrever A Cidade de Deus. Ao longo do século V, a pressão dos povos germânicos sobre as fronteiras se intensificava, o poder civil dos imperadores do Ocidente (sob Valentiniano III) definhava, e o vácuo de autoridade em Roma era cada vez mais preenchido pela figura do bispo de Roma.
Sobre esse cenário de desagregação irromperam duas das maiores ameaças militares da época. Em 452, os hunos de Átila, o «Flagelo de Deus», invadiram o norte da Itália depois de devastarem a Gália; e em 455, os vândalos de Genserico, senhores do norte da África desde a tomada de Cartago, lançaram-se por mar contra Roma, saqueando-a por duas semanas. Em ambos os momentos, na ausência de uma defesa imperial eficaz, foi o papa Leão quem saiu ao encontro dos invasores — diante de Átila às margens do Mincio e diante de Genserico às portas de Roma — para interceder pela cidade e por seu povo.
No Oriente, o palco era ocupado pelas grandes controvérsias cristológicas. O nestorianismo, que separava em Cristo as duas naturezas a ponto de negar a Maria o título de Mãe de Deus, já fora condenado no Concílio de Éfeso (431). Surgia agora o erro oposto, o monofisismo do arquimandrita Êutiques, que confundia as duas naturezas em uma só. Foi para refutar esse erro que Leão enviou a Flaviano de Constantinopla o seu célebre Tomo (449), expondo com precisão a fé na única pessoa de Cristo em duas naturezas, divina e humana.
A questão atravessou o conturbado «Latrocínio de Éfeso» (449), assembleia tumultuada que Leão repudiou, e desembocou no Concílio de Calcedônia (451), convocado pelo imperador do Oriente, Marciano. Ali, perante centenas de bispos, o Tomo de Leão foi aclamado como expressão da fé católica, com a famosa exclamação: «Pedro falou pela boca de Leão». Nesse entrelaçamento entre o império moribundo do Ocidente, as invasões bárbaras e as disputas doutrinais do Oriente, consolidou-se de modo decisivo a autoridade da Sé de Roma — razão pela qual Leão recebeu o epíteto de «Magno» e, em 1754, foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV.
Como reconhecer Papa São Leão I, o Grande na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
O encontro com Átila e a retirada dos hunos
Em 452, Leão Magno integrou (com o cônsul Genádio Avieno e o prefeito Mêmio Emílio Trigécio) a embaixada enviada a Átila, rei dos hunos, encontrando-o no norte da Itália, junto ao rio Mincio, nas proximidades de Mântua. Após o encontro, Átila desistiu de marchar sobre Roma e retirou-se da Itália — núcleo histórico do episódio. À sua volta formou-se uma camada lendária, registrada já por Paulo Diácono e popularizada na arte (Rafael; Algardi): conta a tradição que durante a negociação apareceram São Pedro e São Paulo de espada em punho, visíveis a Átila, ameaçando-o de morte se atacasse Roma. As fontes apresentam essa aparição expressamente como lenda piedosa, não como fato comprovado.
A intercessão diante de Genserico e dos vândalos
Em 455, quando Roma foi tomada pelos vândalos de Genserico, Leão Magno não conseguiu impedir o saque da cidade, mas a sua intercessão obteve a promessa de que a cidade não seria incendiada e que as vidas dos habitantes seriam poupadas; pelo seu influxo foram reprimidos o assassínio e o incêndio durante o saque. Episódio histórico, revestido de aura prodigiosa pela tradição.
Suas contribuições à teologia
O coração do pensamento de São Leão Magno é a cristologia das duas naturezas numa só pessoa. Contra Êutiques e o monofisismo, Leão expôs no Tomo a Flaviano (Carta 28) que em Cristo há um só e mesmo Filho, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem que a união anule o que é próprio de cada natureza: «Sem detrimento das propriedades de cada natureza e substância que então se reuniram numa só pessoa, a majestade assumiu a humildade, a força a fraqueza, a eternidade a mortalidade.» Daí a sua fórmula célebre — agit enim utraque forma cum alterius communione quod proprium est — «cada forma realiza, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio: o Verbo operando o que é do Verbo, e a carne executando o que é da carne». Lida no Concílio de Calcedônia (451), esta carta foi aclamada pelos Padres: «Pedro falou pela boca de Leão.»
Leão é também o grande teólogo do primado petrino. Para ele, Pedro não cessa de viver e de governar na sua Sé: «o bem-aventurado Pedro, perseverando na firmeza da Rocha que recebeu, não abandonou o leme da Igreja» (Sermão 3). Aquilo que se decide retamente em Roma, dizia, é obra e mérito daquele «cujo poder vive e cuja autoridade prevalece na sua Sé» (Sermão 3). O Sucessor de Pedro exerce assim, em nome do Apóstolo, uma solicitude por toda a Igreja, fundamento visível da unidade da fé.
A sua soteriologia brota da contemplação do mistério da Encarnação, celebrado sobretudo nos sermões do Natal e da Páscoa. Para Leão, a liturgia não recorda apenas um fato passado, mas o atualiza; como observa Bento XVI relendo os seus sermões, os mistérios celebrados devem ser acolhidos «não tanto como algo do passado, mas como um acontecimento do presente». O Verbo fez-se homem para devolver ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do demônio pela nova vida da graça. Dessa convicção nasce o seu apelo mais conhecido, no sermão do Natal: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade e, feito participante da natureza divina, não queiras voltar, por uma conduta degenerada, à antiga baixeza» (Sermão 21).
Em Leão, doutrina e vida pastoral são inseparáveis: a fé na dupla natureza de Cristo fundamenta a caridade concreta. Foi um incansável pregador da paz e do amor, ligando a vida litúrgica — os jejuns das Têmporas, a Quaresma, a Páscoa, Pentecostes — à oração, ao jejum e à esmola, e socorrendo o povo em tempos de fome, guerra e exílio. Em síntese, como observa Bento XVI relendo-o, «na fé aprendemos a caridade».
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade patrística romana (leonina)
A marca espiritual de São Leão Magno é a centralidade absoluta do mistério de Cristo encarnado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Dessa contemplação cristológica brota a consciência da dignidade do cristão remido, chamado a tornar-se participante da natureza divina e a não regressar à antiga baixeza do pecado. É uma espiritualidade profundamente litúrgica e pastoral, expressa nos seus sermões para o Natal, a Quaresma, a Paixão, a Páscoa, Pentecostes e os jejuns das Têmporas, em que os mistérios celebrados são vistos como atualizados aqui e agora. A vida cristã, para Leão, traduz-se concretamente em oração, jejum e esmola, e na caridade ativa para com os pobres, os famintos e os refugiados, ancorada na fé e no serviço da unidade da Igreja em torno da Sé de Pedro.
A mensagem de São Leão Magno continua atual ao recordar que a unidade da fé se funda na confissão correta de quem é Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e no ministério do Sucessor de Pedro como sinal e serviço dessa comunhão. Convida o cristão de hoje a redescobrir a sua altíssima dignidade de filho de Deus, recebida no batismo, e a vivê-la com coerência. Lembra ainda que a verdadeira doutrina nunca é abstrata: deve encarnar-se numa vida de caridade concreta, de oração e de solidariedade com os que sofrem.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Sé de Pedro / papas chamados «o Grande»
Leão I integra o restrito grupo de pontífices honrados pela tradição com o título de «o Grande». Foi o primeiro papa assim recordado; com ele a tradição reconhece também Gregório I e Nicolau I. Leão e Gregório são, além disso, os únicos dois papas declarados Doutores da Igreja.
Papas a quem serviu como diácono (Celestino I e Sisto III)
Antes de ser eleito papa em 440, Leão foi diácono da Igreja Romana sob Celestino I (422–432) e prestou serviço também durante o pontificado de Sisto III (432–440), de quem foi colaborador de confiança em questões doutrinais.
Colaboradores doutrinais (Próspero de Aquitânia e João Cassiano)
Próspero de Aquitânia foi secretário/notário de Leão e teve participação na redação do Tomo a Flaviano. João Cassiano, a pedido do então diácono Leão, escreveu o tratado «De Incarnatione Domini contra Nestorium» (c. 430/431) contra a heresia nestoriana.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Sermões (Tratados)
Coleção de cerca de 96 sermões autênticos (transmitidos também sob o título Tractatus), pregados ao povo de Roma ao longo do pontificado. Notáveis pela profundidade doutrinal, clareza de dicção e estilo elevado. Acompanham o ano litúrgico e o governo da Igreja: os aniversários de sua ordenação (com a sua doutrina do primado de Pedro), as Coletas (esmolas), os jejuns das Têmporas, a Natividade, a Epifania, a Quaresma, a Paixão, a Ressurreição, a Ascensão, Pentecostes e as festas dos Apóstolos Pedro e Paulo.
Cartas
Coleção epistolar de grande importância para a história da Igreja: chegaram até nós cerca de 143 cartas de Leão (além de cerca de 30 cartas a ele endereçadas). Documentam o governo da Igreja, a disciplina eclesiástica, o exercício do primado romano e as controvérsias cristológicas e priscilianista do tempo.
Tomo de Leão (Carta a Flaviano — Carta 28)
A peça cristológica central de Leão: carta dogmática endereçada a Flaviano, bispo de Constantinopla, contra o monofisismo de Êutiques. Expõe e confirma a doutrina da Encarnação e da união das duas naturezas — divina e humana — na única Pessoa de Cristo. É a Carta 28 (Epistola XXVIII) de sua coleção; lida e aclamada no Concílio de Calcedônia (451), que a acolheu como expressão da fé católica sobre a Pessoa de Cristo.
Como a Igreja celebra Papa São Leão I, o Grande
Novena a Papa São Leão I, o Grande
Novena de nove dias em honra ao Papa São Leão I, o Grande, Doutor da Igreja, cuja festa se celebra em 10 de novembro. Ao longo de nove dias contemplamos a santidade de São Leão — o servo fiel que respondeu ao chamado de Deus, defendeu a unidade e a verdade da Igreja, combateu as heresias, foi artífice da paz, exerceu a caridade para com os pobres e refugiados, confrontou com coragem Átila, o huno, e pregou com eloquência o Evangelho. Por sua intercessão, pedimos a graça de servir a Deus com a mesma fidelidade. (Adaptada de Pray More Novenas.)
Responder ao chamado de Deus
Servir com fidelidade e crescer na virtude
O serviço dedicado à Igreja como Papa
Combater as heresias e defender a verdade
Artífice da paz
As obras de caridade para com os necessitados
A coragem na defesa da fé e do povo
A pregação eloquente do Evangelho
Uma vida inteira de serviço à Igreja
Como o povo reza a Papa São Leão I, o Grande
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Memória litúrgica de São Leão Magno (10 de novembro) — A Igreja celebra a memória obrigatória de São Leão Magno em 10 de novembro, data de sua morte (461). Na Missa do dia reza-se a Coleta própria, e um de seus sermões ou cartas é proclamado no Ofício das Leituras da Liturgia das Horas. É a forma central e universal de devoção ao santo.
- Devoção ao primado de Pedro e à unidade da Igreja — São Leão é invocado como modelo e protetor da unidade da Igreja e da autoridade do Sucessor de Pedro. Ensinou com vigor a primazia romana e é lembrado pela aclamação dos Padres de Calcedônia: «Pedro falou pela boca de Leão». Por isso é invocado pela fidelidade à fé e pela comunhão da Igreja.
- Intercessão pela defesa da fé contra as heresias — Pelo seu combate ao monofisismo, ao maniqueísmo e ao pelagianismo, e pelo célebre «Tomo a Flaviano» que fundamentou a definição de Calcedônia sobre as duas naturezas de Cristo, São Leão é invocado pela preservação da verdadeira doutrina e pela firmeza na fé diante do erro.
- Intercessão pela paz e pela reconciliação — Conhecido por sua habilidade de promover a paz desde o diaconato e por ter detido Átila e moderado os vândalos de Genserico, São Leão é invocado como protetor nas situações de conflito e nas intenções pela paz e pela reconciliação.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
São Leão Magno foi sepultado na Basílica de São Pedro, no Vaticano, sendo o primeiro Papa ali enterrado. Sua memória está ligada ao culto a São Pedro e à sé romana, e seus restos repousam em altar próprio dentro da Basílica.
O que Papa São Leão I, o Grande nos diz hoje
"Sem detrimento, portanto, das propriedades de uma e outra natureza e substância que então se reuniram numa só pessoa, a majestade assumiu a humildade, a força a fraqueza, a eternidade a mortalidade; e, para pagar a dívida da nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível, a fim de que um só e mesmo Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, pudesse morrer segundo uma e não morrer segundo a outra."
— Tomo a Flaviano (Carta 28), III"Pois cada forma realiza, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio: o Verbo operando o que é do Verbo, e a carne executando o que é da carne. Uma resplandece com milagres, a outra sucumbe às injúrias."
— Tomo a Flaviano (Carta 28), IV"Reconhece, ó cristão, a tua dignidade; e, feito participante da natureza divina, não queiras voltar à antiga baixeza por uma conduta degenerada. Lembra-te de que Cabeça e de que Corpo és membro."
— Sermão 21 (Sobre a Natividade do Senhor, I), 3"Permanece a ordenação da Verdade, e o bem-aventurado Pedro, perseverando na firmeza da Rocha que recebeu, não abandonou o leme da Igreja que lhe foi confiado."
— Sermão 3 (Aniversário de sua elevação ao pontificado), IIIFrases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Se algo é por nós retamente feito e retamente decretado, se algo se obtém da misericórdia de Deus pelas nossas súplicas diárias, é obra e mérito daquele cujo poder vive e cuja autoridade prevalece na sua Sé."
"A solidez daquela fé que foi louvada no príncipe dos Apóstolos é perpétua; e assim como permanece o que Pedro creu em Cristo, assim permanece o que Cristo instituiu em Pedro."
"Esta é a fé dos Pais e dos Apóstolos; por Leão falou Pedro."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
Leão formou-se na tradição patrística latina anterior — Agostinho, Ambrósio e Hilário de Poitiers —, cuja teologia trinitária e cristológica está na raiz do seu pensamento. A sua carreira eclesiástica deu-se ao serviço da Sé Romana: foi diácono sob o papa Celestino I (422–432) e prestou relevante serviço ao papa Sisto III (432–440), chegando a arquidiácono antes da própria eleição ao pontificado em 440.Ainda diácono/arquidiácono, por volta de 430–431, Leão encomendou a João Cassiano o tratado De Incarnatione Domini contra Nestorium, em defesa da doutrina ortodoxa contra os erros de Nestório — sinal do seu envolvimento precoce nas controvérsias cristológicas. Na própria cristologia, é devedor de Cirilo de Alexandria, cuja afirmação da unidade da pessoa de Cristo Leão integrou e equilibrou com a ênfase latina na distinção das duas naturezas, plasmada depois no Tomo.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
O maior legado de São Leão Magno é teológico: o seu Tomo a Flaviano (449), epístola dogmática sobre as duas naturezas em Cristo, tornou-se a base da definição cristológica do Concílio de Calcedônia (451). Lido perante os Padres conciliares, foi aclamado como expressão da fé apostólica — «por meio de Leão, Pedro falou» —, e a fórmula calcedoniana de Cristo «em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação» permanece normativa para toda a Igreja católica e para a generalidade das Igrejas que recebem o concílio.Leão consolidou também, em termos doutrinais e jurídicos, o primado da Sé Romana. Apresentando-se como herdeiro autêntico do apóstolo Pedro, articulou com clareza inédita a autoridade do Bispo de Roma sobre toda a Igreja, ideia reforçada no seu pontificado por atos como o edito de Valentiniano III (445), que reconhecia o primado romano. Essa elaboração tornou-se referência permanente na teologia do primado petrino.A sua obra homilética e epistolar — cerca de uma centena de sermões e perto de cento e cinquenta cartas, em latim límpido e elevado — constitui um monumento da prosa cristã latina e fonte litúrgica. O chamado «Sacramentário Leoniano» (mais corretamente Sacramentário Veronense) leva o seu nome, embora a atribuição direta a Leão seja hoje considerada incerta: a coletânea não é dele na sua totalidade, ainda que algumas orações possam refletir o seu estilo. Leão é, ademais, um dos pouquíssimos papas chamados «o Grande» e foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV em 1754.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
A heresia monofisita e o «Latrocínio de Éfeso» (449)
O contexto imediato do Tomo foi a controvérsia em torno de Êutiques, arquimandrita de Constantinopla, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus (monofisismo/eutiquianismo). No sínodo de Éfeso de 449, manipulado em favor de Êutiques, recusou-se a leitura do Tomo de Leão; o papa repudiou energicamente essa assembleia, designando-a como o «Latrocínio» (Latrocinium) — o «Sínodo dos Ladrões». O Concílio de Calcedônia (451) viria a rejeitar a heresia de Êutiques.
O Cânon 28 de Calcedônia
O Concílio aprovou, na 16.ª sessão, a disposição habitualmente chamada Cânon 28, que conferia a Constantinopla («nova Roma») prerrogativas e o segundo lugar de honra, logo após Roma. Os legados romanos protestaram, invocando instruções expressas de Leão. O papa ratificou os decretos doutrinais (a 21 de março de 453), mas recusou confirmar o Cânon 28, declarando-o nulo por contrariar os cânones de Niceia e as prerrogativas das Sés de Alexandria e Antioquia.
Primado romano e Oriente
A questão do Cânon 28 inscreve-se na tensão mais ampla entre o primado da Sé Romana, vigorosamente defendido por Leão, e a crescente posição eclesiástica de Constantinopla como capital imperial — um foco de divergência que atravessaria os séculos seguintes nas relações entre Roma e o Oriente.
O encontro com Átila (452) e a embaixada a Genserico (455): histórico e lendário
Em 452, Leão integrou, com os enviados Avieno e Trigécio, a embaixada que se encontrou com Átila, rei dos Hunos, no norte da Itália; na sequência, Átila retirou-se da península. É historicamente atestado que houve o encontro e a retirada, mas as causas são discutidas: a par da intervenção de Leão, fatores como peste, fome e a ameaça de reforços romanos terão pesado. A camada lendária — a aparição dos apóstolos Pedro e Paulo de espada em punho a aterrorizar Átila — é tradição posterior, não relato histórico (é o tema, por exemplo, do afresco de Rafael no Vaticano).
Em 455, perante os Vândalos de Genserico, Leão saiu ao encontro do invasor. Não conseguiu evitar o saque de Roma, mas, segundo Próspero de Aquitânia, obteve que se poupasse a população, se evitassem incêndios e mortes e não se torturassem os cativos. O grau de «moderação» do saque é objeto de debate historiográfico.
Polêmicas ainda em aberto
Relevância atual
Leão Magno permanece uma referência no diálogo ecumênico sobre o primado petrino: a sua articulação do papel de Roma e a aclamação calcedoniana «por meio de Leão, Pedro falou» são frequentemente evocadas tanto por católicos como por interlocutores ortodoxos e protestantes ao discutir a natureza e os limites do primado. Bento XVI, na audiência de 5 de março de 2008, recordou-o como incansável defensor e promotor do primado romano.
A recepção de Calcedônia e os diálogos cristológicos modernos
O Tomo e a definição de Calcedônia estão também no centro do diálogo com as Igrejas pré-calcedonianas (Ortodoxas Orientais, de tradição miafisita), que historicamente não receberam o concílio, dando origem a uma divisão que perdura há quinze séculos. Acordos cristológicos recentes — como a declaração comum de Paulo VI e do papa copta Shenouda III (1973) e a Declaração de Acordo sobre Cristologia entre a Igreja Católica e a Igreja Copta Ortodoxa (1988), bem como os diálogos entre Ortodoxos calcedonianos e Ortodoxos Orientais (declarações de 1989 e 1990) — reconheceram que as diferentes fórmulas cristológicas não traduzem, em muitos casos, uma divergência substancial na fé sobre Cristo, reaproximando posições outrora opostas.
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento no pórtico da antiga Basílica de São Pedro
São Leão Magno morreu em 10 de novembro de 461 e foi sepultado no pórtico (vestíbulo) da antiga Basílica de São Pedro, no Vaticano. Foi o primeiro papa a ser sepultado na própria basílica de São Pedro.
Translação por ordem do Papa Sérgio I (688)
Em 688, o Papa Sérgio I mandou transferir os restos de Leão Magno do pórtico para o interior da basílica, erigindo um altar próprio sobre eles, para devolver à sepultura a proeminência que os sepultamentos papais posteriores haviam ofuscado.
Altar de São Leão Magno na atual Basílica de São Pedro
Os restos de Leão I foram trasladados para a nova (atual) Basílica de São Pedro por vontade do Papa Paulo V (r. 1605–1621) e colocados sob o Altar de São Leão Magno, na Capela de Nossa Senhora da Coluna. Ali repousam, combinadas, as relíquias dos quatro papas Leão (I, II, III e IV) e do Papa Gregório XIII. O altar é encimado pelo grande relevo em mármore de Alessandro Algardi (1646–1653) que representa o encontro de Leão Magno com Átila (a «Fuga d'Attila»), o único alto-relevo desse porte na basílica.
Onde está Papa São Leão I, o Grande hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Papa São Leão I, o Grande
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
É um dos pouquíssimos papas honrados pela tradição com o título de «o Grande» — foi o primeiro a ser assim recordado, e a tradição o aplica também a Gregório I e Nicolau I.
No Concílio de Calcedônia (451), ao ouvir o «Tomo a Flaviano» de Leão sobre as duas naturezas de Cristo, os Padres conciliares aclamaram em uníssono: «Pedro falou pela boca de Leão».
Foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV em 1754; junto com Gregório Magno, é um dos apenas dois papas reconhecidos como Doutores da Igreja.
Em 452 saiu ao encontro de Átila, rei dos Hunos, perto de Mântua, e o demoveu de prosseguir a invasão da Itália — episódio em que a tradição narra a aparição de São Pedro e São Paulo de espada em punho ao lado do papa.
O encontro com Átila foi imortalizado na arte: o afresco de Rafael «O Encontro de Leão Magno e Átila» (1513–1514) na Stanza di Eliodoro do Vaticano, e o grande relevo em mármore de Alessandro Algardi (1646–1653) na Basílica de São Pedro.
Morreu em 10 de novembro de 461 e foi o primeiro papa sepultado na antiga Basílica de São Pedro; suas relíquias repousam hoje no Altar de São Leão Magno na basílica atual.
Sua festa na Igreja Latina era celebrada em 11 de abril e, na reforma do calendário (1969), passou para 10 de novembro, dia de sua morte; no Oriente é celebrado em 18 de fevereiro.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/09154b.htm
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080305.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080305.html
- newadvent.org/fathers/3604028.htm
- newadvent.org/fathers/360321.htm
- newadvent.org/fathers/360303.htm
- newadvent.org/cathen/03555a.htm
- newadvent.org/cathen/13369b.htm
- la.wikisource.org/wiki/Epistola_ad_Flavianum
- documentacatholicaomnia.eu/04z/z_0440-0461__SS_Leo_I._Magnus__Epistolae__MLT.pdf.html
- britannica.com/biography/Saint-Leo-I
- ewtn.com/catholicism/library/st-leo-the-great-6360
- catholic.com/magazine/online-edition/leo-the-great-versus-attila-the-hun
- en.wikipedia.org/wiki/Tome_of_Leo
- en.wikipedia.org/wiki/Pope_Leo_I
- museivaticani.va/content/museivaticani/en/collezioni/musei/stanze-di-raffaello/stanza-di-eliodoro/incontro-di-leone-magno-con-attila.html
- stpetersbasilica.info/Altars/LeotheGreat/LeotheGreat.htm
- praymorenovenas.com/pope-st-leo-the-great-novena
- hojeediadeliturgia.wordpress.com/2016/11/02/liturgia-da-memoria-de-sao-leao-magno/
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=191
- cnbb.org.br/10-de-novembro-igreja-celebra-memoria-de-sao-leao-magno-45o-papa-e-doutor-da-igreja/
- paulus.com.br/portal/santo/sao-leao-magno-papa-e-doutor-da-igreja/
- catholicsaints.info/pope-saint-leo-the-great/
- pocketterco.com.br/santo/sao-leao-magno
Links externos abrem em nova aba.
Outros santos próximos
Encontrou algo incorreto?
Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.