Papa São Leão I, o Grande
São Leão I, dito o Grande (Leo Magnus), foi Papa de 440 a 461 e é venerado como Padre e Doutor da Igreja. Toscano de origem, exerceu antes o diaconato e o arquidiaconato da Igreja de Roma sob os papas Celestino I e Sisto III, e foi eleito pontífice quando estava em missão na Gália. Grande pastor da Antiguidade tardia, defendeu vigorosamente o primado da Sé de Pedro e a integridade da fé contra heresias como o maniqueísmo, o priscilianismo e o pelagianismo. Sua maior glória doutrinal foi o «Tomo a Flaviano» (449), que orientou o Concílio de Calcedônia (451) na condenação do monofisismo de Êutiques e na definição das duas naturezas de Cristo numa só Pessoa, levando os bispos a aclamarem «Pedro falou pela boca de Leão». Defensor de Roma, saiu ao encontro de Átila, o huno (452), e intercedeu diante de Genserico e dos vândalos (455); morreu em 10 de novembro de 461, foi o primeiro papa sepultado na basílica de São Pedro e foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV em 1754.
Biografia
Origens, formação e diaconato
Segundo o Liber Pontificalis, Leão era natural da Toscana, filho de um certo Quinciano. Antes do pontificado, exerceu funções de relevo na Igreja de Roma como diácono e arquidiácono, servindo sob os papas Celestino I (422–432) e Sisto III (432–440), e ganhando ampla autoridade na administração eclesiástica.
Sua estatura era tal que o próprio imperador Valentiniano III o enviou em missão à Gália para apaziguar um grave conflito entre o general Aécio (Aëtius) e o prefeito Albino, cuja rivalidade ameaçava a defesa do Império. Foi durante essa missão que sobreveio a eleição que mudaria a história da Igreja.
Pontificado e missão (440–461)
Sisto III morreu em 19 de agosto de 440, enquanto Leão ainda se encontrava na Gália. O clero e o povo de Roma escolheram-no por sucessor; de volta à Cidade, foi consagrado em 29 de setembro de 440. O seu pontificado durou mais de vinte e um anos e é tido como um dos mais importantes da história da Igreja.
Leão afirmou com vigor o primado da Sé de Pedro e desdobrou intensa ação pastoral e doutrinal contra os erros do tempo. Em Roma, conduziu pessoalmente, em 443, uma investigação contra os maniqueus refugiados na cidade. Combateu o pelagianismo, exigindo a abjuração formal desse erro. E, em 21 de julho de 447, escreveu a longa Carta 15 a Turíbio, bispo de Astorga, na Espanha, refutando ponto por ponto os erros dos priscilianistas.
Lutas doutrinais e o Concílio de Calcedônia
O maior embate de Leão foi contra o monofisismo do monge Êutiques, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus. Em resposta, o papa redigiu a célebre Carta 28 a Flaviano, bispo de Constantinopla — o «Tomo de Leão», datado de 13 de junho de 449 —, que expõe com clareza a doutrina das duas naturezas, divina e humana, unidas numa só Pessoa de Cristo.
- Em 449, o chamado «Sínodo dos Ladrões» (Latrocínio de Éfeso) reabilitou Êutiques e rejeitou o Tomo, num conciliábulo que Leão condenou energicamente.
- Em 451, o Concílio de Calcedônia, com a participação de centenas de bispos, aceitou solenemente o Tomo de Leão e definiu que em Cristo as duas naturezas subsistem «sem confusão e sem separação».
Ao ouvir a leitura do Tomo, os Padres conciliares prorromperam na famosa aclamação: «Pedro falou pela boca de Leão», reconhecendo na palavra do papa a voz do próprio Apóstolo.
Defesa de Roma e últimos anos
Leão não foi apenas guardião da fé, mas também defensor da cidade. Em 452, à frente de uma delegação romana, saiu ao encontro de Átila, chefe dos hunos, na região de Mântua, junto ao rio Mincio, e dissuadiu-o de prosseguir na guerra contra a Itália. Em 455, quando os vândalos de Genserico tomaram Roma, sua intercessão não pôde impedir o saque, mas obteve que a cidade não fosse incendiada e que se poupassem as grandes basílicas e a população. Em torno desses episódios históricos formou-se também, com o tempo, uma camada de tradição piedosa e lendária.
Leão morreu em 10 de novembro de 461 e foi sepultado junto à basílica de São Pedro, sendo o primeiro papa ali enterrado. Pela grandeza de seus escritos e de sua ação, recebeu o epíteto de «o Grande» e, em 1754, o papa Bento XIV o proclamou Doutor da Igreja.
O contexto em que viveu
O pontificado de São Leão Magno (440–461) transcorreu no crepúsculo do Império Romano do Ocidente. Em 24 de agosto de 410, os visigodos de Alarico haviam saqueado Roma — a primeira vez em mais de oitocentos anos que a Cidade Eterna caía diante de um inimigo —, abalando profundamente a confiança do mundo antigo e levando Santo Agostinho a escrever A Cidade de Deus. Ao longo do século V, a pressão dos povos germânicos sobre as fronteiras se intensificava, o poder civil dos imperadores do Ocidente (sob Valentiniano III) definhava, e o vácuo de autoridade em Roma era cada vez mais preenchido pela figura do bispo de Roma.
Sobre esse cenário de desagregação irromperam duas das maiores ameaças militares da época. Em 452, os hunos de Átila, o «Flagelo de Deus», invadiram o norte da Itália depois de devastarem a Gália; e em 455, os vândalos de Genserico, senhores do norte da África desde a tomada de Cartago, lançaram-se por mar contra Roma, saqueando-a por duas semanas. Em ambos os momentos, na ausência de uma defesa imperial eficaz, foi o papa Leão quem saiu ao encontro dos invasores — diante de Átila às margens do Mincio e diante de Genserico às portas de Roma — para interceder pela cidade e por seu povo.
No Oriente, o palco era ocupado pelas grandes controvérsias cristológicas. O nestorianismo, que separava em Cristo as duas naturezas a ponto de negar a Maria o título de Mãe de Deus, já fora condenado no Concílio de Éfeso (431). Surgia agora o erro oposto, o monofisismo do arquimandrita Êutiques, que confundia as duas naturezas em uma só. Foi para refutar esse erro que Leão enviou a Flaviano de Constantinopla o seu célebre Tomo (449), expondo com precisão a fé na única pessoa de Cristo em duas naturezas, divina e humana.
A questão atravessou o conturbado «Latrocínio de Éfeso» (449), assembleia tumultuada que Leão repudiou, e desembocou no Concílio de Calcedônia (451), convocado pelo imperador do Oriente, Marciano. Ali, perante centenas de bispos, o Tomo de Leão foi aclamado como expressão da fé católica, com a famosa exclamação: «Pedro falou pela boca de Leão». Nesse entrelaçamento entre o império moribundo do Ocidente, as invasões bárbaras e as disputas doutrinais do Oriente, consolidou-se de modo decisivo a autoridade da Sé de Roma — razão pela qual Leão recebeu o epíteto de «Magno» e, em 1754, foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O coração do pensamento de São Leão Magno é a cristologia das duas naturezas numa só pessoa. Contra Êutiques e o monofisismo, Leão expôs no Tomo a Flaviano (Carta 28) que em Cristo há um só e mesmo Filho, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem que a união anule o que é próprio de cada natureza: «Sem detrimento das propriedades de cada natureza e substância que então se reuniram numa só pessoa, a majestade assumiu a humildade, a força a fraqueza, a eternidade a mortalidade.» Daí a sua fórmula célebre — agit enim utraque forma cum alterius communione quod proprium est — «cada forma realiza, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio: o Verbo operando o que é do Verbo, e a carne executando o que é da carne». Lida no Concílio de Calcedônia (451), esta carta foi aclamada pelos Padres: «Pedro falou pela boca de Leão.»
Leão é também o grande teólogo do primado petrino. Para ele, Pedro não cessa de viver e de governar na sua Sé: «o bem-aventurado Pedro, perseverando na firmeza da Rocha que recebeu, não abandonou o leme da Igreja» (Sermão 3). Aquilo que se decide retamente em Roma, dizia, é obra e mérito daquele «cujo poder vive e cuja autoridade prevalece na sua Sé» (Sermão 3). O Sucessor de Pedro exerce assim, em nome do Apóstolo, uma solicitude por toda a Igreja, fundamento visível da unidade da fé.
A sua soteriologia brota da contemplação do mistério da Encarnação, celebrado sobretudo nos sermões do Natal e da Páscoa. Para Leão, a liturgia não recorda apenas um fato passado, mas o atualiza; como observa Bento XVI relendo os seus sermões, os mistérios celebrados devem ser acolhidos «não tanto como algo do passado, mas como um acontecimento do presente». O Verbo fez-se homem para devolver ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do demônio pela nova vida da graça. Dessa convicção nasce o seu apelo mais conhecido, no sermão do Natal: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade e, feito participante da natureza divina, não queiras voltar, por uma conduta degenerada, à antiga baixeza» (Sermão 21).
Em Leão, doutrina e vida pastoral são inseparáveis: a fé na dupla natureza de Cristo fundamenta a caridade concreta. Foi um incansável pregador da paz e do amor, ligando a vida litúrgica — os jejuns das Têmporas, a Quaresma, a Páscoa, Pentecostes — à oração, ao jejum e à esmola, e socorrendo o povo em tempos de fome, guerra e exílio. Em síntese, como observa Bento XVI relendo-o, «na fé aprendemos a caridade».
"Sem detrimento, portanto, das propriedades de uma e outra natureza e substância que então se reuniram numa só pessoa, a majestade assumiu a humildade, a força a fraqueza, a eternidade a mortalidade; e, para pagar a dívida da nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível, a fim de que um só e mesmo Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, pudesse morrer segundo uma e não morrer segundo a outra." Tomo a Flaviano (Carta 28), III
Quem ele influenciou
O maior legado de São Leão Magno é teológico: o seu Tomo a Flaviano (449), epístola dogmática sobre as duas naturezas em Cristo, tornou-se a base da definição cristológica do Concílio de Calcedônia (451). Lido perante os Padres conciliares, foi aclamado como expressão da fé apostólica — «por meio de Leão, Pedro falou» —, e a fórmula calcedoniana de Cristo «em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação» permanece normativa para toda a Igreja católica e para a generalidade das Igrejas que recebem o concílio.Leão consolidou também, em termos doutrinais e jurídicos, o primado da Sé Romana. Apresentando-se como herdeiro autêntico do apóstolo Pedro, articulou com clareza inédita a autoridade do Bispo de Roma sobre toda a Igreja, ideia reforçada no seu pontificado por atos como o edito de Valentiniano III (445), que reconhecia o primado romano. Essa elaboração tornou-se referência permanente na teologia do primado petrino.A sua obra homilética e epistolar — cerca de uma centena de sermões e perto de cento e cinquenta cartas, em latim límpido e elevado — constitui um monumento da prosa cristã latina e fonte litúrgica. O chamado «Sacramentário Leoniano» (mais corretamente Sacramentário Veronense) leva o seu nome, embora a atribuição direta a Leão seja hoje considerada incerta: a coletânea não é dele na sua totalidade, ainda que algumas orações possam refletir o seu estilo. Leão é, ademais, um dos pouquíssimos papas chamados «o Grande» e foi proclamado Doutor da Igreja por Bento XIV em 1754.
Debates e controvérsias
A heresia monofisita e o «Latrocínio de Éfeso» (449)
O contexto imediato do Tomo foi a controvérsia em torno de Êutiques, arquimandrita de Constantinopla, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus (monofisismo/eutiquianismo). No sínodo de Éfeso de 449, manipulado em favor de Êutiques, recusou-se a leitura do Tomo de Leão; o papa repudiou energicamente essa assembleia, designando-a como o «Latrocínio» (Latrocinium) — o «Sínodo dos Ladrões». O Concílio de Calcedônia (451) viria a rejeitar a heresia de Êutiques.
O Cânon 28 de Calcedônia
O Concílio aprovou, na 16.ª sessão, a disposição habitualmente chamada Cânon 28, que conferia a Constantinopla («nova Roma») prerrogativas e o segundo lugar de honra, logo após Roma. Os legados romanos protestaram, invocando instruções expressas de Leão. O papa ratificou os decretos doutrinais (a 21 de março de 453), mas recusou confirmar o Cânon 28, declarando-o nulo por contrariar os cânones de Niceia e as prerrogativas das Sés de Alexandria e Antioquia.
Primado romano e Oriente
A questão do Cânon 28 inscreve-se na tensão mais ampla entre o primado da Sé Romana, vigorosamente defendido por Leão, e a crescente posição eclesiástica de Constantinopla como capital imperial — um foco de divergência que atravessaria os séculos seguintes nas relações entre Roma e o Oriente.
O encontro com Átila (452) e a embaixada a Genserico (455): histórico e lendário
Em 452, Leão integrou, com os enviados Avieno e Trigécio, a embaixada que se encontrou com Átila, rei dos Hunos, no norte da Itália; na sequência, Átila retirou-se da península. É historicamente atestado que houve o encontro e a retirada, mas as causas são discutidas: a par da intervenção de Leão, fatores como peste, fome e a ameaça de reforços romanos terão pesado. A camada lendária — a aparição dos apóstolos Pedro e Paulo de espada em punho a aterrorizar Átila — é tradição posterior, não relato histórico (é o tema, por exemplo, do afresco de Rafael no Vaticano).
Em 455, perante os Vândalos de Genserico, Leão saiu ao encontro do invasor. Não conseguiu evitar o saque de Roma, mas, segundo Próspero de Aquitânia, obteve que se poupasse a população, se evitassem incêndios e mortes e não se torturassem os cativos. O grau de «moderação» do saque é objeto de debate historiográfico.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/09154b.htm
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080305.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080305.html
- newadvent.org/fathers/3604028.htm
- newadvent.org/fathers/360321.htm
- newadvent.org/fathers/360303.htm
- newadvent.org/cathen/03555a.htm
- newadvent.org/cathen/13369b.htm
- la.wikisource.org/wiki/Epistola_ad_Flavianum
- documentacatholicaomnia.eu/04z/z_0440-0461__SS_Leo_I._Magnus__Epistolae__MLT.pdf.html
- britannica.com/biography/Saint-Leo-I
- ewtn.com/catholicism/library/st-leo-the-great-6360
- catholic.com/magazine/online-edition/leo-the-great-versus-attila-the-hun
- en.wikipedia.org/wiki/Tome_of_Leo
- en.wikipedia.org/wiki/Pope_Leo_I
- museivaticani.va/content/museivaticani/en/collezioni/musei/stanze-di-raffaello/stanza-di-eliodoro/incontro-di-leone-magno-con-attila.html
- stpetersbasilica.info/Altars/LeotheGreat/LeotheGreat.htm
- praymorenovenas.com/pope-st-leo-the-great-novena
- hojeediadeliturgia.wordpress.com/2016/11/02/liturgia-da-memoria-de-sao-leao-magno/
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=191
- cnbb.org.br/10-de-novembro-igreja-celebra-memoria-de-sao-leao-magno-45o-papa-e-doutor-da-igreja/
- paulus.com.br/portal/santo/sao-leao-magno-papa-e-doutor-da-igreja/
- catholicsaints.info/pope-saint-leo-the-great/
- pocketterco.com.br/santo/sao-leao-magno
Links externos abrem em nova aba.
Outras personalidades
Encontrou algo incorreto?
Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.
Conheça mais pessoas.
O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.