Barnabé
São Barnabé foi um dos mais influentes companheiros da Igreja apostólica. Judeu levita natural de Chipre, chamava-se originalmente José, mas os apóstolos o apelidaram de Barnabé, “filho da consolação” (Atos 4,36). Embora não fizesse parte dos Doze, é chamado apóstolo: foi ele quem apresentou Saulo (São Paulo) aos discípulos, evangelizou Antioquia e acompanhou Paulo na primeira viagem missionária. Segundo a tradição, foi martirizado por apedrejamento em Salamina, em Chipre, por volta do ano 61. Sua festa é celebrada em 11 de junho.
A vida
Origem, nome e entrada na comunidade
Barnabé nasceu no século I, judeu da tribo de Levi, natural da ilha de Chipre. Seu nome original era José, mas os apóstolos o apelidaram de Barnabé, nome interpretado como “filho da consolação” (ou “filho da exortação”). Os Atos dos Apóstolos o descrevem como um homem de grande generosidade: possuindo um campo, vendeu-o e depôs o dinheiro aos pés dos apóstolos para o sustento da comunidade (Atos 4,36-37).
Quando Saulo de Tarso, recém-convertido, chegou a Jerusalém, os discípulos o temiam, lembrando o perseguidor que ele havia sido. Foi Barnabé quem se fez fiador de Saulo: tomando-o consigo, conduziu-o aos apóstolos e narrou como o Senhor lhe aparecera no caminho (Atos 9,26-27). Esse gesto abriu a São Paulo as portas da Igreja de Jerusalém.
Missão em Antioquia e a primeira viagem missionária
Ao saber que muitos se convertiam em Antioquia, a Igreja de Jerusalém enviou Barnabé para lá. Vendo a graça de Deus, ele se alegrou e foi a Tarso buscar Saulo, levando-o a Antioquia, onde ambos trabalharam juntos por um ano inteiro. Foi ali que “pela primeira vez os discípulos foram chamados cristãos” (Atos 11,22-26). Diante de uma fome anunciada, os fiéis de Antioquia organizaram uma coleta, que Barnabé e Saulo levaram aos presbíteros da Judeia (Atos 11,29-30).
Reconhecidos como profetas e doutores da Igreja de Antioquia (Atos 13,1), Barnabé e Saulo foram separados pelo Espírito Santo para a obra missionária. Partiram primeiro para Chipre, terra de Barnabé, e depois para a Ásia Menor, evangelizando Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe. Em Listra, após a cura de um paralítico, a multidão pagã os tomou por deuses: chamavam Barnabé de Júpiter (Zeus) e Paulo de Mercúrio (Hermes), e os dois mal conseguiram impedir que lhes oferecessem sacrifícios (Atos 14,8-18).
Concílio de Jerusalém e a separação de Paulo
Com o crescimento das conversões entre os gentios, surgiu a questão de se exigir deles a circuncisão e a observância da Lei mosaica. Barnabé e Paulo subiram a Jerusalém e, no Concílio de Jerusalém (Atos 15), defenderam a liberdade dos cristãos vindos do paganismo, obtendo decisão favorável. São Paulo recorda essa companhia em sua carta aos Gálatas 2,1-13.
Pouco depois, ao planejarem rever as comunidades fundadas, Paulo e Barnabé se desentenderam: Barnabé queria levar consigo o primo João Marcos, mas Paulo recusava, pois Marcos os havia abandonado na viagem anterior. Houve um forte desacordo (a “exacerbatio”, o “paroxismo”), e os dois se separaram; Barnabé, tomando Marcos, navegou para Chipre (Atos 15,36-39). São Jerônimo observa que, mesmo separado de Paulo, Barnabé “não deixou de cumprir a obra de pregar o Evangelho”.
Missão em Chipre, martírio e legado
Com João Marcos, Barnabé dedicou-se à evangelização de sua terra natal, sendo venerado como fundador e padroeiro da Igreja de Chipre. Segundo a tradição transmitida pelos Atos de Barnabé (obra do século V), ele foi apedrejado em Salamina, por volta do ano 61, selando com o sangue o testemunho do Evangelho. Uma tradição posterior conta que, em fins do século V, Barnabé apareceu em sonho ao bispo de Salamina, Antêmio, revelando o local de sua sepultura, onde se encontrou seu corpo com o Evangelho de São Mateus.
A Igreja sempre o considerou apóstolo, ainda que não pertencesse ao número dos Doze; uma antiga tradição, recolhida por Eusébio de Cesareia a partir de Clemente de Alexandria, o inclui entre os setenta (ou setenta e dois) discípulos enviados por Jesus. Há também a tradição — tida pelos estudiosos como tardia e pouco segura — que o liga à fundação da Sé de Milão. Sua festa é celebrada em 11 de junho.
O contexto em que viveu
A vida de São Barnabé desenrola-se na primeira geração cristã, quando o Evangelho começava a transpor as fronteiras de Jerusalém. Após o martírio de Santo Estêvão, a perseguição dispersou os discípulos, e o anúncio chegou à Fenícia, a Chipre e a Antioquia da Síria — terceira maior cidade do Império Romano e grande encruzilhada de povos —, onde, pela primeira vez, gentios em número significativo aderiram à fé.
Foi nesse cenário que emergiu a grande questão da Igreja nascente: deviam os convertidos do paganismo ser submetidos à circuncisão e à Lei de Moisés? O debate, que Barnabé e Paulo levaram ao Concílio de Jerusalém, definiu a abertura universal do cristianismo, libertando-o da exigência da observância judaica para os gentios.
Os Atos situam esse tempo sob perseguições concretas: a execução do apóstolo Tiago e a prisão de Pedro por ordem do rei Herodes Agripa I (Atos 12), e uma fome que atingiu a Judeia no reinado do imperador Cláudio (por volta de 45-46), ocasião da coleta solidária conduzida por Barnabé e Saulo.
A missão de Barnabé estendeu-se por Chipre — então província romana e sua terra natal — e por cidades da Ásia Menor, como Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, onde o ambiente religioso pagão greco-romano se manifestou de modo vivo no episódio de Listra, em que a multidão tomou os missionários por divindades do Olimpo. A tradição coloca o martírio de Barnabé por volta do ano 61, sob o império de Nero, no mesmo período em que a Igreja avançava por todo o Mediterrâneo.
Como reconhecer Barnabé na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
Cura do paralítico em Listra
Em Listra, durante a missão com Paulo, um homem paralítico de nascença foi curado; a multidão tomou os dois por deuses (Barnabé por Zeus, Paulo por Hermes) — Atos 14,8-13. Registro bíblico.
Aparição em sonho e descoberta das relíquias
Tradição: Barnabé apareceu em sonho ao arcebispo Antêmio de Chipre revelando o local do seu túmulo; ali foram achadas as relíquias com a cópia do Evangelho de Mateus sobre o peito, prova da identidade do santo.
Curas pelo Evangelho de Mateus
Tradição iconográfica e hagiográfica: Barnabé teria curado enfermos pousando sobre eles o exemplar do Evangelho de Mateus que carregava consigo.
Suas contribuições à teologia
São Barnabé é, antes de mais nada, um exemplo: a Escritura não nos legou nenhuma obra sua, mas nos deixou o retrato de um homem que Lucas resume numa frase luminosa — “era um homem de bem, cheio do Espírito Santo e de fé” (Atos 11,24). Sua “mensagem” não é uma doutrina escrita, mas uma vida.
Os Apóstolos lhe deram o sobrenome Barnabé, “que quer dizer filho da consolação” (Atos 4,36) — ou “filho do encorajamento”. E ele honrou esse nome: foi o homem que consola, que anima, que abre portas. Movido por essa caridade, vendeu um campo que possuía e depositou o dinheiro aos pés dos Apóstolos (Atos 4,37), tornando-se, nas palavras de Bento XVI, modelo de “desinteresse e generosidade”.
Sua coragem mais admirável foi humana e fraterna: quando toda a comunidade de Jerusalém ainda temia o antigo perseguidor, foi Barnabé quem “se fez garante da conversão de Saulo”, apresentando-o aos Apóstolos (Atos 9,27). Sem esse gesto de confiança, a Igreja talvez nunca tivesse recebido Paulo. Barnabé é o homem que descobre, avaliza e dá espaço ao dom alheio.
Esse mesmo discernimento o fez buscar Paulo em Tarso e levá-lo para Antioquia, onde “pela primeira vez os discípulos foram chamados cristãos” (Atos 11,26), e onde Barnabé era reconhecido como profeta e doutor. Ali se mostrou também a sua abertura aos gentios: foi um dos primeiros a acolher os pagãos convertidos e a defender, no Concílio de Jerusalém, que não se lhes impusesse o jugo da Lei.
Por fim, a sua magnanimidade: quando Paulo recusou levar João Marcos, que antes os havia abandonado, Barnabé não o abandonou — deu-lhe uma segunda chance e o tomou consigo (Atos 15,37-39). O “filho da consolação” foi sempre aquele que aposta nas pessoas. Eis o seu pensamento, todo feito de ação: ser, na Igreja, um construtor de pontes.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade apostólica do encorajamento e da generosidade
Barnabé não fundou uma escola de pensamento nem deixou escritos doutrinais: a sua espiritualidade é inteiramente evangélica e apostólica, vivida na primeira geração cristã. Caracteriza-se por três traços que brotam do seu próprio nome, 'filho da consolação' (ou do encorajamento): a generosidade radical com os bens, postos a serviço da comunidade (Atos 4,36-37); a consolação e o encorajamento fraternos, que o tornam capaz de confiar e avalizar os outros, como fez com Saulo recém-convertido (Atos 9,27) e com João Marcos, a quem deu nova oportunidade (Atos 15,37-39); e o zelo missionário aberto aos gentios, exercido em Antioquia e na primeira viagem com Paulo. É uma espiritualidade de comunhão e de ponte, que coloca a pessoa do irmão e a difusão do Evangelho acima do próprio protagonismo.
Barnabé inspira hoje quem é chamado a descobrir e a animar os dons dos outros: formadores, padrinhos de fé, líderes de comunidade, acompanhadores vocacionais. Num tempo de desconfiança e divisão, ele é modelo de reconciliação e de segunda chance, e de uma generosidade concreta que partilha os bens com os pobres e com a missão. Bento XVI o propôs como exemplo luminoso de desinteresse e de serviço silencioso à frente da evangelização, lembrando que a Igreja se constrói também com colaboradores generosos que não buscam o primeiro lugar.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Igreja Ortodoxa Autocéfala de Chipre
Igreja local de Chipre, cuja fundação a tradição atribui ao apóstolo Barnabé, nativo da ilha. Sua independência (autocefalia) foi reconhecida no Concílio de Éfeso (431) e reforçada sob o imperador Zenão (c. 478) após a descoberta das relíquias de Barnabé em Salamina; é uma das mais antigas Igrejas autocéfalas.
Tradição da Sé/Arquidiocese de Milão
Tradição (não comprovada historicamente) segundo a qual Barnabé teria pregado e sido o primeiro bispo de Milão, sendo por isso honrado na cidade. O Novo Testamento não confirma essa missão milanesa; trata-se de tradição antiga, distinta da tradição do martírio em Chipre.
Barnabitas (Clérigos Regulares de São Paulo)
Ordem de clérigos regulares fundada em Milão em 1530 por Santo Antônio Maria Zaccaria, canonicamente intitulada 'Clérigos Regulares de São Paulo'. Recebeu o nome popular de 'barnabitas' por sua ligação com a igreja de São Barnabé, em Milão, que passou à sua posse nos primeiros anos do instituto.
Mosteiro de São Barnabé (Salamina/Famagusta, Chipre)
Mosteiro erguido junto ao túmulo do apóstolo, perto de Salamina (região de Famagusta), com recursos do imperador Zenão; tornou-se o principal centro do culto a São Barnabé em Chipre.
Como a Igreja celebra Barnabé
Oração a Barnabé
São Barnabé, filho da consolação, que possuis o maravilhoso dom de acalmar e consolar os aflitos, venho a ti em busca de paz e alívio. Tu que foste um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé, ensina-me a ser firme em meu caráter, nas ciências e virtudes. Interceda por mim junto a Deus e que me seja concedida a graç...
Como o povo reza a Barnabé
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Memória litúrgica de São Barnabé (11 de junho) — Celebração universal da Igreja Católica em 11 de junho, com grau de Memória, cor litúrgica vermelha (de apóstolo/mártir) e Prefácio dos Apóstolos. Leituras próprias: At 11,21b-26;13,1-3; Sl 97(98); Mt 10,7-13.
- Invocado contra o granizo e as tempestades — Por antiga tradição, São Barnabé é invocado como protetor contra o granizo e as tempestades, especialmente em regiões agrícolas, pedindo-se sua intercessão pela proteção das colheitas.
- Patrono dos pacificadores — Pela mansidão com que reconciliava e encorajava os irmãos (o 'Filho da Consolação'), São Barnabé é invocado como pacificador e modelo dos que promovem a paz e a reconciliação.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
São Barnabé é venerado como padroeiro de Chipre e fundador tradicional da Igreja cipriota. Segundo a tradição, no fim do século V seu túmulo foi descoberto em Salamina com o Evangelho de São Mateus sobre o peito; o imperador Zenão confirmou então o estatuto autocéfalo da Igreja de Chipre, com privilégios ao arcebispo (manto púrpura, cetro e assinatura em tinta vermelha).
A tradição de Milão honra São Barnabé como primeiro bispo da cidade. Dessa veneração nasceu o nome dos Clérigos Regulares de São Paulo, conhecidos como Barnabitas, fundados por Santo Antônio Maria Zaccaria (Milão, 1530), por causa da igreja a ele dedicada.
Folclore inglês ligado ao dito “Barnaby bright, Barnaby bright, the longest day and the shortest night”: antes da reforma do calendário (1752), 11 de junho coincidia, no calendário juliano, com o dia mais longo do ano e marcava o início da ceifa do feno. Tradição cultural, não devoção católica romana propriamente dita.
O que Barnabé nos diz hoje
"Homens, por que fazeis isso? Também nós somos homens, da mesma condição que vós, e pregamos justamente para que vos convertais das coisas vãs ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles há."
— Atos 14,15 (Ave-Maria) — ditas por Barnabé e Paulo em Listra"José (a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que quer dizer Filho da Consolação), levita natural de Chipre, possuía um campo. Vendeu-o e trouxe o valor dele e depositou aos pés dos apóstolos."
— Atos 4,36-37 (Ave-Maria) — descrição do narrador dos AtosFrases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Era um homem de bem e cheio do Espírito Santo e de fé."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
Barnabé foi moldado, antes de tudo, pela comunidade apostólica de Jerusalém: levita originário de Chipre, foi um dos primeiros a aderir à fé após a Ressurreição, vivendo a comunhão de bens dos primórdios, ao ponto de vender o seu campo e o entregar aos Apóstolos (Atos 4,36-37). Foi nesse ambiente que aprendeu a generosidade e o serviço.Lucas o descreve como “cheio do Espírito Santo e de fé” (Atos 11,24): é o Espírito Santo a força que o move, fazendo-o reconhecer a graça de Deus onde ela se manifesta, inclusive entre os gentios de Antioquia.Pesaram também os seus laços pessoais: era primo de João Marcos, o evangelista (Colossenses 4,10), o que explica o seu empenho em formá-lo e dar-lhe nova chance; e, sobretudo, o encontro com Paulo, com quem partilhou anos de missão e que ajudou a introduzir na Igreja — uma relação de colaboração que marcou a vida de ambos.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
A influência de Barnabé na história da Igreja é desproporcional ao silêncio das fontes sobre a sua pessoa. Foi co-fundador, ao lado de Paulo, da grande missão aos gentios: da Igreja de Antioquia “foi enviado em missão juntamente com Paulo”, realizando a primeira viagem missionária (Bento XVI, Audiência de 31 de janeiro de 2007).Mais decisivo ainda: foi a “porta de entrada” de Paulo na Igreja. Quando a comunidade de Jerusalém ainda desconfiava do ex-perseguidor, Barnabé o tomou e o apresentou aos Apóstolos (Atos 9,27); e foi ele quem o foi buscar a Tarso para a missão de Antioquia. Sem Barnabé, humanamente falando, não haveria o Paulo apostólico que conhecemos.A tradição o venera como fundador e padroeiro da Igreja de Chipre, sua terra natal. A descoberta das suas relíquias em Salamina, no fim do século V, sob o imperador Zenão, com uma cópia do Evangelho de São Mateus, foi invocada para garantir a autocefalia (independência) da Igreja cipriota frente ao patriarcado de Antioquia. Diversas tradições também o apresentam como o primeiro bispo de Milão, ligando-o à origem daquela Sé ambrosiana.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
O incidente de Antioquia (Gálatas 2,11-13)
O próprio São Paulo relata que, em Antioquia, quando “alguns da parte de Tiago” chegaram, Pedro deixou de comer com os cristãos vindos do paganismo, “temendo os da circuncisão”. E acrescenta, com franqueza, que esse comportamento contagiou outros, “de maneira que mesmo Barnabé foi levado por eles a essa dissimulação” (Gálatas 2,13). É um episódio histórico, narrado sem retoques pela própria Escritura: até um homem santo como Barnabé pôde, num momento, ceder à pressão humana. A Igreja o lê com sobriedade, como sinal de que a santidade é caminho, não como mancha definitiva.
O desacordo agudo com Paulo (Atos 15,36-39)
No início da segunda viagem, Barnabé quis levar consigo João Marcos, que antes os havia deixado; Paulo recusou. “Surgiu então tal desacordo que se separaram um do outro: Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre” (Atos 15,39). Foi um conflito vivo entre dois santos — o “paroxismo” da tradição — que, longe de gerar inimizade, abriu duas frentes missionárias. O tempo deu razão à magnanimidade de Barnabé: o próprio Paulo, mais tarde, reconciliou-se com Marcos e o chamou de útil ao ministério.
As obras falsamente atribuídas a Barnabé
É preciso deixar claríssimo que Barnabé não deixou nenhuma obra escrita autêntica. Três textos circulam sob o seu nome, e nenhum é dele:
• A “Epístola de Barnabé”: a crítica a considera uma obra pseudepígrafa, isto é, atribuída a Barnabé mas não escrita por ele. O próprio texto não traz nenhum indício do seu autor, e a data de composição (em torno de 130, sob o imperador Adriano) é posterior à morte do Apóstolo — o que torna a autoria impossível.
• O “Evangelho de Barnabé”: é uma falsificação tardia, de origem medieval (séculos XIV-XVI). Sobrevive apenas num manuscrito italiano do início do séc. XVI e contém anacronismos flagrantes (alusões à Divina Comédia de Dante e ao Jubileu de 1300, citações que seguem a Vulgata de São Jerônimo). Os estudiosos são praticamente unânimes em considerá-lo falso e seguramente não escrito pelo Apóstolo.
• Os “Atos de Barnabé”: são um escrito apócrifo, composto provavelmente no século V em Chipre, e não uma fonte histórica de primeira mão sobre o Apóstolo.
Polêmicas ainda em aberto
Símbolo da identidade da Igreja de Chipre
Barnabé permanece o padroeiro nacional de Chipre e o coração da identidade da Igreja cipriota. A tradição que liga as suas relíquias e a cópia do Evangelho de Mateus à autocefalia da Igreja de Chipre continua a ser invocada como fundamento da independência e da dignidade apostólica daquela Igreja, viva ainda hoje na devoção e na vida eclesial da ilha.
Figura de encorajamento e reconciliação
Num tempo marcado por divisões, a figura do “filho da consolação” é redescoberta como modelo de reconciliação, de encorajamento e de comunhão. A sua ponte entre judeus e gentios, e a sua capacidade de dar segunda chance, são propostas como inspiração para o diálogo e a unidade — inclusive na recepção ecumênica, dado que é venerado tanto no Ocidente quanto nas Igrejas orientais.
O uso indevido do “Evangelho de Barnabé”
Um debate contemporâneo em aberto é o uso do apócrifo “Evangelho de Barnabé” por parte de certa apologética islâmica, que nele se apoia por negar a divindade, a crucifixão e a ressurreição de Cristo e por anunciar a vinda de Maomé. A resposta católica é serena e documentada: trata-se de uma falsificação medieval, repleta de anacronismos, sem qualquer ligação com o Apóstolo do século I, e que portanto nada prova sobre Jesus nem sobre o verdadeiro Barnabé.
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Túmulo de São Barnabé
Segundo a tradição, após o martírio em Salamina, o corpo de Barnabé foi sepultado em segredo por João Marcos sob uma alfarrobeira a oeste de Salamina, com uma cópia do Evangelho de Mateus sobre o peito. O túmulo ficou oculto por cerca de quatro séculos.
Mosteiro de São Barnabé (Apostolos Varnavas)
Sobre o local da descoberta das relíquias, o imperador Zenão financiou a construção de uma basílica; o conjunto monástico (Apostolos Varnavas) abriga uma capela com o túmulo do santo e é o principal centro do culto a São Barnabé.
Relíquias levadas a Constantinopla
Tradição: o arcebispo Antêmio teria levado relíquias de Barnabé a Constantinopla para apresentá-las ao imperador Zenão, episódio ligado à confirmação da autocefalia da Igreja de Chipre.
Relíquias atribuídas a São Barnabé em Milão
Tradição (não comprovada historicamente), ligada à lenda de Barnabé como primeiro bispo de Milão; relíquias presumidas são honradas na cidade. Registrar como tradição.
Onde está Barnabé hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Barnabé
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
Seu nome de batismo era José; 'Barnabé', dado pelos apóstolos, é interpretado como 'filho da consolação' ou 'filho da exortação' (Atos 4,36).
Levita de Chipre, vendeu um campo que possuía e depôs o dinheiro aos pés dos apóstolos (Atos 4,36-37).
Era primo de João Marcos, o evangelista (Colossenses 4,10); por causa dele rompeu temporariamente com Paulo.
Em Listra a multidão o tomou pelo deus Zeus (Júpiter) e a Paulo por Hermes (Atos 14,12); os dois rasgaram as vestes para impedir o sacrifício pagão.
Fundador tradicional da Igreja de Chipre: a descoberta de suas relíquias (478) reforçou o reconhecimento da autocefalia da Igreja cipriota, com privilégios ao arcebispo (manto púrpura, cetro e tinta vermelha).
Os Barnabitas (Clérigos Regulares de São Paulo) receberam esse apelido porque ficaram com a igreja de São Barnabé, em Milão, nos primeiros anos do instituto (fundado em 1530).
O chamado 'Evangelho de Barnabé' é uma falsificação tardia (séc. XIV-XVI), cheia de anacronismos — não é obra do Apóstolo.
É invocado como protetor contra o granizo e as tempestades, e como pacificador.
Suas obras no Codex
Fontes e referências
- vatican.va/archive/bible/nova_vulgata/documents/nova-vulgata_nt_actus-apostolorum_lt.html
- vatican.va/archive/bible/nova_vulgata/documents/nova-vulgata_nt_epist-galatas_lt.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070131.html
- newadvent.org/cathen/02300a.htm
- newadvent.org/cathen/01567a.htm
- newadvent.org/cathen/04589a.htm
- newadvent.org/cathen/02302a.htm
- newadvent.org/fathers/2708.htm
- newadvent.org/fathers/250101.htm
- catholic.com/encyclopedia/epistle-of-barnabas
- catholic.com/magazine/online-edition/why-the-gospel-of-barnabas-is-a-medieval-fake
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2025-06-11
- catholic.org/saints/saint.php?saint_id=211
- oca.org/saints/lives/2025/06/11/101691-apostle-barnabas-of-the-seventy
- revista.arautos.org/sao-barnabe-apostolo-fiel-testemunha-de-cristo-crucificado/
- christianiconography.info/barnabas.html
- en.wikipedia.org/wiki/Barnabas
- en.wikipedia.org/wiki/Monastery_of_Saint_Barnabas
- en.wikipedia.org/wiki/Gospel_of_Barnabas
- igrejamadalenacanoas.org/post/liturgia-s%C3%A3o-barnab%C3%A9
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