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Barnabé
🏛 Padre da Igreja
Período
10–61 (51 anos)
Lugar
Antioquia / Chipre
Estado canônico
Santo
Obras catalogadas
1 no Codex
Santo

Barnabé

10–61
Filho da Consolação

São Barnabé foi um dos mais influentes companheiros da Igreja apostólica. Judeu levita natural de Chipre, chamava-se originalmente José, mas os apóstolos o apelidaram de Barnabé, “filho da consolação” (Atos 4,36). Embora não fizesse parte dos Doze, é chamado apóstolo: foi ele quem apresentou Saulo (São Paulo) aos discípulos, evangelizou Antioquia e acompanhou Paulo na primeira viagem missionária. Segundo a tradição, foi martirizado por apedrejamento em Salamina, em Chipre, por volta do ano 61. Sua festa é celebrada em 11 de junho.

Biografia

Origem, nome e entrada na comunidade

Barnabé nasceu no século I, judeu da tribo de Levi, natural da ilha de Chipre. Seu nome original era José, mas os apóstolos o apelidaram de Barnabé, nome interpretado como “filho da consolação” (ou “filho da exortação”). Os Atos dos Apóstolos o descrevem como um homem de grande generosidade: possuindo um campo, vendeu-o e depôs o dinheiro aos pés dos apóstolos para o sustento da comunidade (Atos 4,36-37).

Quando Saulo de Tarso, recém-convertido, chegou a Jerusalém, os discípulos o temiam, lembrando o perseguidor que ele havia sido. Foi Barnabé quem se fez fiador de Saulo: tomando-o consigo, conduziu-o aos apóstolos e narrou como o Senhor lhe aparecera no caminho (Atos 9,26-27). Esse gesto abriu a São Paulo as portas da Igreja de Jerusalém.


Missão em Antioquia e a primeira viagem missionária

Ao saber que muitos se convertiam em Antioquia, a Igreja de Jerusalém enviou Barnabé para lá. Vendo a graça de Deus, ele se alegrou e foi a Tarso buscar Saulo, levando-o a Antioquia, onde ambos trabalharam juntos por um ano inteiro. Foi ali que “pela primeira vez os discípulos foram chamados cristãos” (Atos 11,22-26). Diante de uma fome anunciada, os fiéis de Antioquia organizaram uma coleta, que Barnabé e Saulo levaram aos presbíteros da Judeia (Atos 11,29-30).

Reconhecidos como profetas e doutores da Igreja de Antioquia (Atos 13,1), Barnabé e Saulo foram separados pelo Espírito Santo para a obra missionária. Partiram primeiro para Chipre, terra de Barnabé, e depois para a Ásia Menor, evangelizando Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe. Em Listra, após a cura de um paralítico, a multidão pagã os tomou por deuses: chamavam Barnabé de Júpiter (Zeus) e Paulo de Mercúrio (Hermes), e os dois mal conseguiram impedir que lhes oferecessem sacrifícios (Atos 14,8-18).


Concílio de Jerusalém e a separação de Paulo

Com o crescimento das conversões entre os gentios, surgiu a questão de se exigir deles a circuncisão e a observância da Lei mosaica. Barnabé e Paulo subiram a Jerusalém e, no Concílio de Jerusalém (Atos 15), defenderam a liberdade dos cristãos vindos do paganismo, obtendo decisão favorável. São Paulo recorda essa companhia em sua carta aos Gálatas 2,1-13.

Pouco depois, ao planejarem rever as comunidades fundadas, Paulo e Barnabé se desentenderam: Barnabé queria levar consigo o primo João Marcos, mas Paulo recusava, pois Marcos os havia abandonado na viagem anterior. Houve um forte desacordo (a “exacerbatio”, o “paroxismo”), e os dois se separaram; Barnabé, tomando Marcos, navegou para Chipre (Atos 15,36-39). São Jerônimo observa que, mesmo separado de Paulo, Barnabé “não deixou de cumprir a obra de pregar o Evangelho”.


Missão em Chipre, martírio e legado

Com João Marcos, Barnabé dedicou-se à evangelização de sua terra natal, sendo venerado como fundador e padroeiro da Igreja de Chipre. Segundo a tradição transmitida pelos Atos de Barnabé (obra do século V), ele foi apedrejado em Salamina, por volta do ano 61, selando com o sangue o testemunho do Evangelho. Uma tradição posterior conta que, em fins do século V, Barnabé apareceu em sonho ao bispo de Salamina, Antêmio, revelando o local de sua sepultura, onde se encontrou seu corpo com o Evangelho de São Mateus.

A Igreja sempre o considerou apóstolo, ainda que não pertencesse ao número dos Doze; uma antiga tradição, recolhida por Eusébio de Cesareia a partir de Clemente de Alexandria, o inclui entre os setenta (ou setenta e dois) discípulos enviados por Jesus. Há também a tradição — tida pelos estudiosos como tardia e pouco segura — que o liga à fundação da Sé de Milão. Sua festa é celebrada em 11 de junho.

Contexto

O contexto em que viveu

A vida de São Barnabé desenrola-se na primeira geração cristã, quando o Evangelho começava a transpor as fronteiras de Jerusalém. Após o martírio de Santo Estêvão, a perseguição dispersou os discípulos, e o anúncio chegou à Fenícia, a Chipre e a Antioquia da Síria — terceira maior cidade do Império Romano e grande encruzilhada de povos —, onde, pela primeira vez, gentios em número significativo aderiram à fé.


Foi nesse cenário que emergiu a grande questão da Igreja nascente: deviam os convertidos do paganismo ser submetidos à circuncisão e à Lei de Moisés? O debate, que Barnabé e Paulo levaram ao Concílio de Jerusalém, definiu a abertura universal do cristianismo, libertando-o da exigência da observância judaica para os gentios.


Os Atos situam esse tempo sob perseguições concretas: a execução do apóstolo Tiago e a prisão de Pedro por ordem do rei Herodes Agripa I (Atos 12), e uma fome que atingiu a Judeia no reinado do imperador Cláudio (por volta de 45-46), ocasião da coleta solidária conduzida por Barnabé e Saulo.


A missão de Barnabé estendeu-se por Chipre — então província romana e sua terra natal — e por cidades da Ásia Menor, como Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe, onde o ambiente religioso pagão greco-romano se manifestou de modo vivo no episódio de Listra, em que a multidão tomou os missionários por divindades do Olimpo. A tradição coloca o martírio de Barnabé por volta do ano 61, sob o império de Nero, no mesmo período em que a Igreja avançava por todo o Mediterrâneo.

Fatos contextuais
Venda do campo e doação aos apóstolos
Barnabé (José, levita de Chipre, chamado pelos apóstolos 'filho da consolação'),...
Apresenta Saulo aos apóstolos
Quando os discípulos temiam Saulo recém-convertido, Barnabé tornou-se seu fiador...
Enviado a Antioquia e busca de Paulo em Tarso
A Igreja de Jerusalém envia Barnabé a Antioquia; vendo a graça de Deus, ele part...
Perseguição de Herodes Agripa I
Herodes Agripa I move perseguição contra a Igreja: faz decapitar o apóstolo Tiag...
Fome no Império sob Cláudio
Grande fome predita por Ágabo e ocorrida no reinado do imperador Cláudio (c. 45-...

Suas contribuições à teologia

São Barnabé é, antes de mais nada, um exemplo: a Escritura não nos legou nenhuma obra sua, mas nos deixou o retrato de um homem que Lucas resume numa frase luminosa — “era um homem de bem, cheio do Espírito Santo e de fé” (Atos 11,24). Sua “mensagem” não é uma doutrina escrita, mas uma vida.


Os Apóstolos lhe deram o sobrenome Barnabé, “que quer dizer filho da consolação” (Atos 4,36) — ou “filho do encorajamento”. E ele honrou esse nome: foi o homem que consola, que anima, que abre portas. Movido por essa caridade, vendeu um campo que possuía e depositou o dinheiro aos pés dos Apóstolos (Atos 4,37), tornando-se, nas palavras de Bento XVI, modelo de “desinteresse e generosidade”.


Sua coragem mais admirável foi humana e fraterna: quando toda a comunidade de Jerusalém ainda temia o antigo perseguidor, foi Barnabé quem “se fez garante da conversão de Saulo”, apresentando-o aos Apóstolos (Atos 9,27). Sem esse gesto de confiança, a Igreja talvez nunca tivesse recebido Paulo. Barnabé é o homem que descobre, avaliza e dá espaço ao dom alheio.


Esse mesmo discernimento o fez buscar Paulo em Tarso e levá-lo para Antioquia, onde “pela primeira vez os discípulos foram chamados cristãos” (Atos 11,26), e onde Barnabé era reconhecido como profeta e doutor. Ali se mostrou também a sua abertura aos gentios: foi um dos primeiros a acolher os pagãos convertidos e a defender, no Concílio de Jerusalém, que não se lhes impusesse o jugo da Lei.


Por fim, a sua magnanimidade: quando Paulo recusou levar João Marcos, que antes os havia abandonado, Barnabé não o abandonou — deu-lhe uma segunda chance e o tomou consigo (Atos 15,37-39). O “filho da consolação” foi sempre aquele que aposta nas pessoas. Eis o seu pensamento, todo feito de ação: ser, na Igreja, um construtor de pontes.

"Homens, por que fazeis isso? Também nós somos homens, da mesma condição que vós, e pregamos justamente para que vos convertais das coisas vãs ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo quanto neles há." Atos 14,15 (Ave-Maria) — ditas por Barnabé e Paulo em Listra
Codex

Obras catalogadas

Influência

Quem ele influenciou

A influência de Barnabé na história da Igreja é desproporcional ao silêncio das fontes sobre a sua pessoa. Foi co-fundador, ao lado de Paulo, da grande missão aos gentios: da Igreja de Antioquia “foi enviado em missão juntamente com Paulo”, realizando a primeira viagem missionária (Bento XVI, Audiência de 31 de janeiro de 2007).Mais decisivo ainda: foi a “porta de entrada” de Paulo na Igreja. Quando a comunidade de Jerusalém ainda desconfiava do ex-perseguidor, Barnabé o tomou e o apresentou aos Apóstolos (Atos 9,27); e foi ele quem o foi buscar a Tarso para a missão de Antioquia. Sem Barnabé, humanamente falando, não haveria o Paulo apostólico que conhecemos.A tradição o venera como fundador e padroeiro da Igreja de Chipre, sua terra natal. A descoberta das suas relíquias em Salamina, no fim do século V, sob o imperador Zenão, com uma cópia do Evangelho de São Mateus, foi invocada para garantir a autocefalia (independência) da Igreja cipriota frente ao patriarcado de Antioquia. Diversas tradições também o apresentam como o primeiro bispo de Milão, ligando-o à origem daquela Sé ambrosiana.

Debates

Debates e controvérsias

O incidente de Antioquia (Gálatas 2,11-13)

O próprio São Paulo relata que, em Antioquia, quando “alguns da parte de Tiago” chegaram, Pedro deixou de comer com os cristãos vindos do paganismo, “temendo os da circuncisão”. E acrescenta, com franqueza, que esse comportamento contagiou outros, “de maneira que mesmo Barnabé foi levado por eles a essa dissimulação” (Gálatas 2,13). É um episódio histórico, narrado sem retoques pela própria Escritura: até um homem santo como Barnabé pôde, num momento, ceder à pressão humana. A Igreja o lê com sobriedade, como sinal de que a santidade é caminho, não como mancha definitiva.


O desacordo agudo com Paulo (Atos 15,36-39)

No início da segunda viagem, Barnabé quis levar consigo João Marcos, que antes os havia deixado; Paulo recusou. “Surgiu então tal desacordo que se separaram um do outro: Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre” (Atos 15,39). Foi um conflito vivo entre dois santos — o “paroxismo” da tradição — que, longe de gerar inimizade, abriu duas frentes missionárias. O tempo deu razão à magnanimidade de Barnabé: o próprio Paulo, mais tarde, reconciliou-se com Marcos e o chamou de útil ao ministério.


As obras falsamente atribuídas a Barnabé

É preciso deixar claríssimo que Barnabé não deixou nenhuma obra escrita autêntica. Três textos circulam sob o seu nome, e nenhum é dele:

• A “Epístola de Barnabé”: a crítica a considera uma obra pseudepígrafa, isto é, atribuída a Barnabé mas não escrita por ele. O próprio texto não traz nenhum indício do seu autor, e a data de composição (em torno de 130, sob o imperador Adriano) é posterior à morte do Apóstolo — o que torna a autoria impossível.

• O “Evangelho de Barnabé”: é uma falsificação tardia, de origem medieval (séculos XIV-XVI). Sobrevive apenas num manuscrito italiano do início do séc. XVI e contém anacronismos flagrantes (alusões à Divina Comédia de Dante e ao Jubileu de 1300, citações que seguem a Vulgata de São Jerônimo). Os estudiosos são praticamente unânimes em considerá-lo falso e seguramente não escrito pelo Apóstolo.

• Os “Atos de Barnabé”: são um escrito apócrifo, composto provavelmente no século V em Chipre, e não uma fonte histórica de primeira mão sobre o Apóstolo.

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