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Medalius · Codex de Personalidades · Venâncio Fortunato
Venâncio Fortunato

Imprimerie A. Dupré, Poitiers (1856); autor desconhecido · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
530–609 (79 anos)
Lugar
Poitiers
Estado canônico
Santo
Escola
Poesia latina cristã tardo-antiga / hagiografia merovíngia
Idioma principal
Latim
Santo

Venâncio Fortunato

530–609
O último poeta latino da Antiguidade

São Venâncio Fortunato (Venantius Honorius Clementianus Fortunatus, c. 530 – c. 600/609) foi um poeta latino, hinógrafo e hagiógrafo nascido perto de Treviso, no norte da Itália, considerado um dos últimos grandes representantes da cultura clássica latina no Ocidente e o maior poeta da Gália merovíngia. Formado em Ravena e curado de uma doença nos olhos pela intercessão de São Martinho de Tours, peregrinou à Gália para venerar o túmulo do santo e fixou-se em Poitiers, onde foi sacerdote, capelão e amigo de Santa Radegunda e da abadessa Inês, do Mosteiro da Santa Cruz. É autor dos célebres hinos Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei avançam”) e Pange lingua gloriosi proelii, compostos por ocasião da chegada de uma relíquia da Vera Cruz a Poitiers, além da Vita Sancti Martini e de numerosas vidas de santos. Eleito bispo de Poitiers por volta de 599/600, morreu no início do século VII e é venerado como santo, com festa em 14 de dezembro.

Biografia

Infância, formação e a cura pelos olhos de São Martinho

Venâncio Honório Clementiano Fortunato nasceu por volta de 530 (algumas fontes situam o nascimento entre 530 e 540) em Duplavilis, perto de Treviso, na região do Vêneto, no norte da Itália. Parte de sua juventude foi passada em Aquileia, importante centro eclesiástico, antes de seguir para Ravena, então capital bizantina na Itália, onde recebeu uma sólida educação clássica em gramática, retórica, poesia e direito, formando-se na tradição dos poetas latinos como Virgílio, Horácio e Ovídio.


Ainda em Ravena, Fortunato sofreu de uma grave doença nos olhos, que o levou quase à cegueira. Segundo a tradição, foi curado milagrosamente pela intercessão de São Martinho de Tours, ao ungir os olhos com o óleo da lâmpada que ardia diante do altar de São Martinho. Esse favor recebido marcou profundamente sua vida e despertou nele o desejo de peregrinar ao túmulo do santo na Gália, em ação de graças.


Peregrinação à Gália e chegada a Poitiers

Por gratidão pela cura, Fortunato empreendeu, por volta de 565, uma longa peregrinação rumo ao túmulo de São Martinho, em Tours. Em vez de uma rota direta, atravessou os Alpes e percorreu boa parte da Gália merovíngia, passando, entre outras cidades, por Mogúncia (Mainz), Colônia, Tréveris, Metz, Verdun, Reims, Soissons e Paris, compondo versos em honra de santos e de nobres benfeitores ao longo do caminho. Sua passagem coincidiu com o casamento do rei Sigeberto e da rainha Brunilda, por volta de 566, em cuja corte foi acolhido com honras.


Depois de venerar o túmulo de São Martinho em Tours, Fortunato chegou a Poitiers, atraído pela fama de Santa Radegunda e de seu mosteiro. Ali nasceu uma profunda e duradoura amizade espiritual com a antiga rainha Radegunda, fundadora do Mosteiro da Santa Cruz, e com a abadessa Inês (Agnes). Fortunato chamava Radegunda de “mãe” e Inês de “irmã”, tornando-se conselheiro, capelão e secretário da comunidade.


Sacerdócio, poesia e os grandes hinos

Em Poitiers, Fortunato foi ordenado sacerdote e tornou-se capelão do Mosteiro da Santa Cruz. Sua produção poética é vasta, reunida sobretudo na coleção conhecida como Carmina (ou Miscellanea), em onze livros, que abrange epitáfios, panegíricos, poemas de amizade e composições religiosas, fazendo dele o mais importante poeta latino de sua época.


Por volta de 568/569, a rainha Radegunda recebeu do imperador bizantino Justino II uma relíquia da Vera Cruz, destinada ao Mosteiro da Santa Cruz, em Poitiers. Para a solene recepção dessa relíquia, Fortunato compôs seus dois hinos mais célebres: Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei avançam”) e Pange lingua gloriosi proelii (“Canta, ó língua, o combate glorioso”). Esses hinos entraram para a liturgia da Igreja, especialmente nas celebrações da Paixão e da Exaltação da Santa Cruz, sendo cantados por séculos na Semana Santa. A ele se atribui também o canto pascal Salve festa dies. Além da poesia, escreveu a Vita Sancti Martini, um poema em quatro livros sobre São Martinho, e diversas vidas de santos em prosa, entre elas as de Santo Albino, São Hilário, São Germano, São Medardo, São Paterno e a própria Santa Radegunda.


Bispado de Poitiers, morte e legado

Por volta de 599/600, já idoso, Fortunato foi eleito bispo de Poitiers, sucedendo na sede episcopal. Exerceu o episcopado por poucos anos e faleceu no início do século VII, em data incerta, geralmente situada entre 600 e 609. Embora nunca tenha passado por um processo formal de canonização, foi sempre venerado como santo, com culto imemorial, e é comemorado no Martirológio Romano em 14 de dezembro.


Seu legado é imenso: como um dos últimos grandes representantes da cultura clássica latina no Ocidente e fundador, de certo modo, da poesia litúrgica medieval, Fortunato exerceu influência duradoura sobre a himnografia da Igreja. Seus hinos da Santa Cruz permanecem entre os mais belos e cantados do repertório litúrgico cristão até os dias atuais.

Contexto

O contexto em que viveu

Venâncio Fortunato nasceu em uma Itália em ruínas. O Império Romano do Ocidente havia caído em 476, e a península, agora sob domínio ostrogótico, foi devastada pelas longas Guerras Góticas (535–554), em que o imperador bizantino Justiniano tentou reconquistá-la. O conflito despovoou cidades, destruiu a sociedade urbana e arruinou a economia, mergulhando a Itália em um longo declínio.


Mal terminada a guerra, em 568 os lombardos, povo germaníco liderado por Alboíno, invadiram a península fragilizada e ocuparam grande parte do norte da Itália. Essa invasão tornou praticamente impossível o retorno de Fortunato à sua terra natal, e ele permaneceu para sempre na Gália.


A Gália merovíngia, para onde Fortunato emigrou por volta de 565, era um mosaico de reinos francos divididos entre os filhos de Clotário I: Austrásia, Nêustria e Borgonha, sob reis como Sigeberto I, Quilperico I e Gontrão. Era um mundo de cortes rivais, intrigas e violência, mas também de fervor cristão. Nesse cenário, Fortunato encontrou seus dois grandes apoios: Santa Radegunda, princesa turíngia e ex-esposa do rei Clotário I, que renunciara à corte para fundar o Mosteiro da Santa Cruz em Poitiers, e Gregório de Tours, bispo e grande historiador dos francos, que se tornou seu amigo e o incentivou a publicar seus poemas.


Por volta de 569, o imperador bizantino Justino II e a imperatriz Sofia enviaram a Radegunda uma relíquia da Vera Cruz, vinda de Constantinopla. A chegada solene dessa relíquia a Poitiers, com cerimônia organizada pelo rei Sigeberto, foi a ocasião para que Fortunato compusesse seus mais célebres hinos à Cruz, o Vexilla Regis e o Pange Lingua, que a Igreja viria a adotar em sua liturgia da Paixão.


Foi também um tempo de transição para a língua latina. A poesia clássica chegava ao fim, e Fortunato é frequentemente chamado o último dos poetas latinos da Gália, uma ponte entre a Antiguidade e a cultura literária da Idade Média. Em meio à decadência das letras seculares, a Igreja e os mosteiros tornavam-se os guardiões da cultura, preservando o saber e a poesia que dariam origem ao mundo medieval.

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Suas contribuições à teologia

O cerne da obra de Venâncio Fortunato é uma teologia poética da Cruz: ele compôs os primeiros grandes hinos cristãos dedicados à Santa Cruz — o Vexilla Regis e o Pange lingua gloriosi proelii — por ocasião da chegada de uma relíquia da Verdadeira Cruz, enviada pelo imperador bizantino Justino II a Santa Radegunda e levada em procissão solene ao mosteiro de Santa Cruz, em Poitiers, em 19 de novembro de 569.


Nesses hinos a Cruz não é instrumento de derrota, mas troféu da vitória e árvore real: Cristo reina como Rei do alto do madeiro. Fortunato canta o cumprimento da profecia davídica com a expressão «Regnavit a ligno Deus» — «Deus reinou (do alto) do madeiro» — e celebra a Cruz como a árvore nobre entre todas («Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis»), a árvore que carrega o «doce lenho» (dulce lignum) da Redenção, evocando a árvore da vida.


Para Fortunato a poesia está a serviço do louvor litúrgico e da memória dos santos: além dos hinos, escreveu a vasta Vita Sancti Martini (poema em quatro livros sobre São Martinho de Tours) e numerosas vidas de santos em prosa, fazendo da arte poética uma ponte entre a cultura clássica latina e a fé cristã.

"Vexilla regis prodeunt, / fulget crucis mysterium, / quo carne carnis conditor / suspensus est patibulo. (Avançam os estandartes do Rei, / resplandece o mistério da cruz, / na qual o Criador da carne, em carne, / foi suspenso no patíbulo.)" Vexilla Regis prodeunt, estrofe 1 (Venâncio Fortunato, séc. VI; texto original)
Influência

Quem ele influenciou

A influência de Venâncio Fortunato é enorme e sobretudo litúrgica. O seu hino Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei avançam”) tornou-se um dos cânticos mais célebres da Igreja latina: o Breviário Romano o atribuía às Vésperas do tempo da Paixão, do sábado antes do Domingo da Paixão até a Quinta-feira Santa, e às festas da Santa Cruz (Invenção, 3 de maio; Exaltação, 14 de setembro), sendo também cantado na Sexta-feira Santa.O seu Pange lingua gloriosi proelii entrou na liturgia da Semana Santa e é cantado inteiro na cerimônia da Adoração da Cruz na Sexta-feira Santa. Esse hino inspirou diretamente o Pange lingua gloriosi corporis mysterium que São Tomás de Aquino compôs para a festa de Corpus Christi, que imita a marcha triunfante do hino de Fortunato.A tradição litúrgica também lhe atribui hinos marianos como o O gloriosa Domina e o Quem terra pontus aethera, incorporados ao Breviário e ao Pequeno Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria (atribuição antiga, embora alguns estudiosos a contestem). A sua poesia forneceu o modelo para boa parte da poesia latina carolíngia e medieval posterior. Por essa posição de charneira, é frequentemente chamado “o último poeta da Antiguidade e o primeiro poeta da Idade Média”.

Debates

Debates e controvérsias

Questões históricas e de crítica literária

Discute-se a natureza do seu culto e da sua “canonização”: ao que tudo indica, nada de semelhante a uma canonização no sentido moderno chegou a ocorrer; depois da morte, Fortunato passou a receber o título de santo, sendo venerado como tal em algumas dioceses italianas e francesas, com festa em 14 de dezembro.


Há também imprecisão quanto à data da morte, situada pelas fontes por volta de 600, embora alguns proponham até cerca de 609.


No plano literário, a crítica mais antiga censurou a sua poesia de corte como adulação aos governantes francos, além de apontar versificação monótona e faltas de prosódia; a atribuição de alguns hinos lhe é, ainda, contestada — os hinos marianos Quem terra pontus aethera / O gloriosa, por exemplo, não aparecem nos manuscritos das suas obras e figuram entre as peças a ele atribuídas sem prova definitiva.

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