Imprimerie A. Dupré, Poitiers (1856); autor desconhecido · fonte · PD
Venâncio Fortunato
São Venâncio Fortunato (Venantius Honorius Clementianus Fortunatus, c. 530 – c. 600/609) foi um poeta latino, hinógrafo e hagiógrafo nascido perto de Treviso, no norte da Itália, considerado um dos últimos grandes representantes da cultura clássica latina no Ocidente e o maior poeta da Gália merovíngia. Formado em Ravena e curado de uma doença nos olhos pela intercessão de São Martinho de Tours, peregrinou à Gália para venerar o túmulo do santo e fixou-se em Poitiers, onde foi sacerdote, capelão e amigo de Santa Radegunda e da abadessa Inês, do Mosteiro da Santa Cruz. É autor dos célebres hinos Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei avançam”) e Pange lingua gloriosi proelii, compostos por ocasião da chegada de uma relíquia da Vera Cruz a Poitiers, além da Vita Sancti Martini e de numerosas vidas de santos. Eleito bispo de Poitiers por volta de 599/600, morreu no início do século VII e é venerado como santo, com festa em 14 de dezembro.
A vida
Infância, formação e a cura pelos olhos de São Martinho
Venâncio Honório Clementiano Fortunato nasceu por volta de 530 (algumas fontes situam o nascimento entre 530 e 540) em Duplavilis, perto de Treviso, na região do Vêneto, no norte da Itália. Parte de sua juventude foi passada em Aquileia, importante centro eclesiástico, antes de seguir para Ravena, então capital bizantina na Itália, onde recebeu uma sólida educação clássica em gramática, retórica, poesia e direito, formando-se na tradição dos poetas latinos como Virgílio, Horácio e Ovídio.
Ainda em Ravena, Fortunato sofreu de uma grave doença nos olhos, que o levou quase à cegueira. Segundo a tradição, foi curado milagrosamente pela intercessão de São Martinho de Tours, ao ungir os olhos com o óleo da lâmpada que ardia diante do altar de São Martinho. Esse favor recebido marcou profundamente sua vida e despertou nele o desejo de peregrinar ao túmulo do santo na Gália, em ação de graças.
Peregrinação à Gália e chegada a Poitiers
Por gratidão pela cura, Fortunato empreendeu, por volta de 565, uma longa peregrinação rumo ao túmulo de São Martinho, em Tours. Em vez de uma rota direta, atravessou os Alpes e percorreu boa parte da Gália merovíngia, passando, entre outras cidades, por Mogúncia (Mainz), Colônia, Tréveris, Metz, Verdun, Reims, Soissons e Paris, compondo versos em honra de santos e de nobres benfeitores ao longo do caminho. Sua passagem coincidiu com o casamento do rei Sigeberto e da rainha Brunilda, por volta de 566, em cuja corte foi acolhido com honras.
Depois de venerar o túmulo de São Martinho em Tours, Fortunato chegou a Poitiers, atraído pela fama de Santa Radegunda e de seu mosteiro. Ali nasceu uma profunda e duradoura amizade espiritual com a antiga rainha Radegunda, fundadora do Mosteiro da Santa Cruz, e com a abadessa Inês (Agnes). Fortunato chamava Radegunda de “mãe” e Inês de “irmã”, tornando-se conselheiro, capelão e secretário da comunidade.
Sacerdócio, poesia e os grandes hinos
Em Poitiers, Fortunato foi ordenado sacerdote e tornou-se capelão do Mosteiro da Santa Cruz. Sua produção poética é vasta, reunida sobretudo na coleção conhecida como Carmina (ou Miscellanea), em onze livros, que abrange epitáfios, panegíricos, poemas de amizade e composições religiosas, fazendo dele o mais importante poeta latino de sua época.
Por volta de 568/569, a rainha Radegunda recebeu do imperador bizantino Justino II uma relíquia da Vera Cruz, destinada ao Mosteiro da Santa Cruz, em Poitiers. Para a solene recepção dessa relíquia, Fortunato compôs seus dois hinos mais célebres: Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei avançam”) e Pange lingua gloriosi proelii (“Canta, ó língua, o combate glorioso”). Esses hinos entraram para a liturgia da Igreja, especialmente nas celebrações da Paixão e da Exaltação da Santa Cruz, sendo cantados por séculos na Semana Santa. A ele se atribui também o canto pascal Salve festa dies. Além da poesia, escreveu a Vita Sancti Martini, um poema em quatro livros sobre São Martinho, e diversas vidas de santos em prosa, entre elas as de Santo Albino, São Hilário, São Germano, São Medardo, São Paterno e a própria Santa Radegunda.
Bispado de Poitiers, morte e legado
Por volta de 599/600, já idoso, Fortunato foi eleito bispo de Poitiers, sucedendo na sede episcopal. Exerceu o episcopado por poucos anos e faleceu no início do século VII, em data incerta, geralmente situada entre 600 e 609. Embora nunca tenha passado por um processo formal de canonização, foi sempre venerado como santo, com culto imemorial, e é comemorado no Martirológio Romano em 14 de dezembro.
Seu legado é imenso: como um dos últimos grandes representantes da cultura clássica latina no Ocidente e fundador, de certo modo, da poesia litúrgica medieval, Fortunato exerceu influência duradoura sobre a himnografia da Igreja. Seus hinos da Santa Cruz permanecem entre os mais belos e cantados do repertório litúrgico cristão até os dias atuais.
O contexto em que viveu
Venâncio Fortunato nasceu em uma Itália em ruínas. O Império Romano do Ocidente havia caído em 476, e a península, agora sob domínio ostrogótico, foi devastada pelas longas Guerras Góticas (535–554), em que o imperador bizantino Justiniano tentou reconquistá-la. O conflito despovoou cidades, destruiu a sociedade urbana e arruinou a economia, mergulhando a Itália em um longo declínio.
Mal terminada a guerra, em 568 os lombardos, povo germaníco liderado por Alboíno, invadiram a península fragilizada e ocuparam grande parte do norte da Itália. Essa invasão tornou praticamente impossível o retorno de Fortunato à sua terra natal, e ele permaneceu para sempre na Gália.
A Gália merovíngia, para onde Fortunato emigrou por volta de 565, era um mosaico de reinos francos divididos entre os filhos de Clotário I: Austrásia, Nêustria e Borgonha, sob reis como Sigeberto I, Quilperico I e Gontrão. Era um mundo de cortes rivais, intrigas e violência, mas também de fervor cristão. Nesse cenário, Fortunato encontrou seus dois grandes apoios: Santa Radegunda, princesa turíngia e ex-esposa do rei Clotário I, que renunciara à corte para fundar o Mosteiro da Santa Cruz em Poitiers, e Gregório de Tours, bispo e grande historiador dos francos, que se tornou seu amigo e o incentivou a publicar seus poemas.
Por volta de 569, o imperador bizantino Justino II e a imperatriz Sofia enviaram a Radegunda uma relíquia da Vera Cruz, vinda de Constantinopla. A chegada solene dessa relíquia a Poitiers, com cerimônia organizada pelo rei Sigeberto, foi a ocasião para que Fortunato compusesse seus mais célebres hinos à Cruz, o Vexilla Regis e o Pange Lingua, que a Igreja viria a adotar em sua liturgia da Paixão.
Foi também um tempo de transição para a língua latina. A poesia clássica chegava ao fim, e Fortunato é frequentemente chamado o último dos poetas latinos da Gália, uma ponte entre a Antiguidade e a cultura literária da Idade Média. Em meio à decadência das letras seculares, a Igreja e os mosteiros tornavam-se os guardiões da cultura, preservando o saber e a poesia que dariam origem ao mundo medieval.
Como reconhecer Venâncio Fortunato na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
Cura da doença dos olhos pela intercessão de São Martinho de Tours
Enquanto estudava em Ravena, Venâncio foi acometido de grave doença nos olhos e correu risco de cegueira. Curou-se ao aplicar nos olhos o óleo de uma lâmpada que ardia diante da imagem (altar) de São Martinho de Tours. Em gratidão, empreendeu a peregrinação ao túmulo de São Martinho, em Tours — viagem que o levou definitivamente à Gália.
Suas contribuições à teologia
O cerne da obra de Venâncio Fortunato é uma teologia poética da Cruz: ele compôs os primeiros grandes hinos cristãos dedicados à Santa Cruz — o Vexilla Regis e o Pange lingua gloriosi proelii — por ocasião da chegada de uma relíquia da Verdadeira Cruz, enviada pelo imperador bizantino Justino II a Santa Radegunda e levada em procissão solene ao mosteiro de Santa Cruz, em Poitiers, em 19 de novembro de 569.
Nesses hinos a Cruz não é instrumento de derrota, mas troféu da vitória e árvore real: Cristo reina como Rei do alto do madeiro. Fortunato canta o cumprimento da profecia davídica com a expressão «Regnavit a ligno Deus» — «Deus reinou (do alto) do madeiro» — e celebra a Cruz como a árvore nobre entre todas («Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis»), a árvore que carrega o «doce lenho» (dulce lignum) da Redenção, evocando a árvore da vida.
Para Fortunato a poesia está a serviço do louvor litúrgico e da memória dos santos: além dos hinos, escreveu a vasta Vita Sancti Martini (poema em quatro livros sobre São Martinho de Tours) e numerosas vidas de santos em prosa, fazendo da arte poética uma ponte entre a cultura clássica latina e a fé cristã.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade da Cruz e mariana (himnódia latina)
A espiritualidade de Venâncio Fortunato é, antes de tudo, uma espiritualidade da Cruz: contemplar o madeiro da Paixão como trono real de Cristo, árvore da vida e troféu da vitória sobre a morte. Foi por ocasião da chegada de uma relíquia da Verdadeira Cruz a Poitiers (569) que compôs o Vexilla Regis e o Pange lingua gloriosi proelii. A essa dimensão une-se uma forte nota mariana: a tradição litúrgica lhe atribui hinos de louvor à Virgem como O gloriosa Domina e Quem terra pontus aethera (atribuição antiga, embora discutida pelos estudiosos). Outro traço central é a amizade espiritual: em Poitiers viveu uma amizade casta e profunda com Santa Radegunda — a quem chamava “mãe” — e com a abadessa Inês — a quem chamava “irmã” —, fazendo da troca de cartas, versos e pequenos presentes um exercício de afeto cristão. Em tudo isso, o louvor a Deus passa pela beleza e pela poesia.
Hoje essa espiritualidade permanece viva sobretudo na liturgia: o Vexilla Regis ainda é cantado no tempo da Paixão e na Sexta-feira Santa, e o Pange lingua de Fortunato continua na tradição da Adoração da Cruz, alimentando a devoção à Santa Cruz. Sua amizade espiritual com Radegunda inspira a redescoberta da amizade casta entre homem e mulher consagrados a Deus. E o seu modo de louvar a Deus pela beleza dos versos convida os cristãos de hoje a reconhecer na arte e na poesia um caminho de oração e de memória dos santos.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Mosteiro da Santa Cruz de Poitiers (círculo de Santa Radegunda)
Venâncio não fundou nem pertenceu a uma ordem religiosa. Seu lar e ambiente espiritual foi o Mosteiro da Santa Cruz (Sainte-Croix) de Poitiers, fundado por Santa Radegunda. Ali atuou como capelão, conselheiro e administrador, num círculo literário-espiritual merovíngio que incluía Radegunda — a quem chamava de “mãe” — e a abadessa Inês (Agnes), a quem chamava de “irmã”. Para esse mosteiro, ao receber-se uma relíquia da Vera Cruz, compôs os hinos Vexilla Regis e Pange lingua.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Poemas (Miscelânea)
Coleção da poesia ocasional de Fortunato em onze livros, reunindo epitáfios, panegíricos, poemas de amizade e composições religiosas dirigidas a bispos, reis e amigos. O Livro IV é inteiramente de epitáfios. É a principal fonte da sua obra poética.
Vida de São Martinho
Poema épico-hagiográfico em quatro livros de hexâmetros (2.243 versos) sobre São Martinho de Tours, escrito a pedido de Gregório de Tours. Parafraseia em verso a Vita prosaica de Sulpício Severo.
Hino Vexilla Regis prodeunt
Hino processional à Santa Cruz, cantado pela primeira vez na recepção de uma relíquia da Vera Cruz enviada por Justino II a Santa Radegunda, em Poitiers (19 de novembro de 569). Adotado pela liturgia da Igreja no tempo da Paixão.
Hino Pange lingua gloriosi proelii
Hino da Paixão e da Santa Cruz, adotado pela liturgia (cantado inteiro na Adoração da Cruz, na Sexta-feira Santa). NÃO confundir com o Pange lingua gloriosi corporis mysterium eucarístico de São Tomás de Aquino (séc. XIII), que nele se inspirou.
Vida de Santa Radegunda
Vida em prosa de Santa Radegunda, rainha, amiga de Fortunato e fundadora do mosteiro de Santa Cruz em Poitiers. É a mais conhecida das suas vidas em prosa.
Vida de São Hilário de Poitiers
Vida em prosa de Santo Hilário, bispo de Poitiers, acompanhada de um livro de seus milagres, escrita em prosa rítmica.
Vida de São Germano de Paris
Vida em prosa de São Germano, bispo de Paris (falecido em 576), escrita em prosa rítmica.
Vida de São Marcelo de Paris
Vida em prosa de São Marcelo, bispo de Paris.
Vida de Santo Albino de Angers
Vida em prosa de Santo Albino (Aubin), bispo de Angers.
Vida de São Paterno de Avranches
Vida em prosa de São Paterno, bispo de Avranches.
Vida de São Medardo
Vida em prosa de São Medardo, bispo de Noyon/Vermand.
Comentário ao Pai-Nosso
Exposição em prosa sobre a Oração do Senhor (Pai-Nosso), uma das duas obras teológicas em prosa de Fortunato, com forte polêmica contra o semipelagianismo.
Comentário ao Símbolo (Credo)
Exposição em prosa sobre o Símbolo dos Apóstolos (Credo), apoiada na Expositio symboli de Rufino de Aquileia.
Como a Igreja celebra Venâncio Fortunato
Como o povo reza a Venâncio Fortunato
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Hinos da Santa Cruz na liturgia (Vexilla Regis e Pange lingua) — Autor dos hinos “Vexilla Regis prodeunt” e “Pange, lingua, gloriosi proelium certaminis”, compostos para a chegada de uma relíquia da Vera Cruz a Poitiers. Permanecem na liturgia católica — cantados no Tempo da Paixão / Semana Santa e na Exaltação da Santa Cruz —, sendo a forma mais difundida de devoção ligada ao santo.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
Sob o pontificado de Gregório XVI, as seis paróquias de Valdobbiadene — terra natal do santo, no Vêneto — obtiveram um rescrito da Congregação dos Ritos autorizando a celebração da festa de São Venâncio Fortunato, originalmente em 14 de dezembro e depois transferida para 15 de dezembro, estendida à diocese de Pádua. Persiste como devoção e festa local.
Foi bispo de Poitiers (Aquitânia), onde morreu e foi sepultado na Basílica de Saint-Hilaire; sua memória é celebrada em 14 de dezembro em algumas dioceses francesas. Um epitáfio composto por Paulo Diácono (c. 785) já o proclamava “santo e bem-aventurado”.
Nascido por volta de 530 em Valdobbiadene, no território de Treviso, é celebrado na região vêneta como o “bispo-poeta”, objeto de memória cívica e religiosa local.
O que Venâncio Fortunato nos diz hoje
"Vexilla regis prodeunt, / fulget crucis mysterium, / quo carne carnis conditor / suspensus est patibulo. (Avançam os estandartes do Rei, / resplandece o mistério da cruz, / na qual o Criador da carne, em carne, / foi suspenso no patíbulo.)"
— Vexilla Regis prodeunt, estrofe 1 (Venâncio Fortunato, séc. VI; texto original)"Impleta sunt quae concinit / David fideli carmine, / dicendo nationibus: / regnavit a ligno Deus. (Cumpriu-se o que cantou Davi / em seu fiel poema, / dizendo às nações: / reinou Deus a partir do lenho.)"
— Vexilla Regis prodeunt, estrofe “regnavit a ligno Deus” (texto original de Fortunato; verso suprimido na revisão do Breviário de 1632)"Pange, lingua, gloriosi / proelium certaminis, / et super crucis trophaeo / dic triumphum nobilem, / qualiter redemptor orbis / immolatus vicerit. (Canta, ó língua, o combate / do glorioso embate, / e sobre o troféu da cruz / proclama o nobre triunfo: / como o Redentor do mundo, / imolado, venceu.)"
— Pange lingua gloriosi proelium certaminis, estrofe 1 (Venâncio Fortunato, séc. VI)"Crux fidelis, inter omnes / arbor una nobilis: / nulla silva talem profert / fronde, flore, germine; / dulce lignum, dulces clavos, / dulce pondus sustinet. (Cruz fiel, entre todas / a única árvore nobre: / nenhuma floresta produz tal árvore / em fronde, flor e germe; / doce lenho, doces cravos, / sustentas um doce peso.)"
— Pange lingua gloriosi proelium certaminis — refrão “Crux fidelis” (Adoração da Cruz, Sexta-feira Santa)A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
Venâncio Fortunato recebeu em Ravena a formação literária clássica tradicional do fim da Antiguidade — retórica, gramática e direito — e a sua obra revela familiaridade com os grandes poetas latinos clássicos, como Virgílio, Horácio, Ovídio, Estácio e Marcial.Marcou-o profundamente São Martinho de Tours: ainda em Ravena foi milagrosamente curado de uma doença dos olhos pela intercessão de São Martinho, o que o levou a empreender a peregrinação até Tours e a dedicar-lhe a sua Vita Sancti Martini. Em Poitiers, foi moldado pelo ambiente monástico e pela amizade espiritual com Santa Radegunda e com a abadessa Inês, no mosteiro de Santa Cruz.No campo da himnódia cristã, situa-se na esteira dos grandes modelos da poesia latina cristã anterior, como Sedúlio, Prudêncio e Santo Ambrósio, que haviam consolidado a tradição do hino litúrgico em latim.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
A influência de Venâncio Fortunato é enorme e sobretudo litúrgica. O seu hino Vexilla Regis prodeunt (“Os estandartes do Rei avançam”) tornou-se um dos cânticos mais célebres da Igreja latina: o Breviário Romano o atribuía às Vésperas do tempo da Paixão, do sábado antes do Domingo da Paixão até a Quinta-feira Santa, e às festas da Santa Cruz (Invenção, 3 de maio; Exaltação, 14 de setembro), sendo também cantado na Sexta-feira Santa.O seu Pange lingua gloriosi proelii entrou na liturgia da Semana Santa e é cantado inteiro na cerimônia da Adoração da Cruz na Sexta-feira Santa. Esse hino inspirou diretamente o Pange lingua gloriosi corporis mysterium que São Tomás de Aquino compôs para a festa de Corpus Christi, que imita a marcha triunfante do hino de Fortunato.A tradição litúrgica também lhe atribui hinos marianos como o O gloriosa Domina e o Quem terra pontus aethera, incorporados ao Breviário e ao Pequeno Ofício da Bem-Aventurada Virgem Maria (atribuição antiga, embora alguns estudiosos a contestem). A sua poesia forneceu o modelo para boa parte da poesia latina carolíngia e medieval posterior. Por essa posição de charneira, é frequentemente chamado “o último poeta da Antiguidade e o primeiro poeta da Idade Média”.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
Questões históricas e de crítica literária
Discute-se a natureza do seu culto e da sua “canonização”: ao que tudo indica, nada de semelhante a uma canonização no sentido moderno chegou a ocorrer; depois da morte, Fortunato passou a receber o título de santo, sendo venerado como tal em algumas dioceses italianas e francesas, com festa em 14 de dezembro.
Há também imprecisão quanto à data da morte, situada pelas fontes por volta de 600, embora alguns proponham até cerca de 609.
No plano literário, a crítica mais antiga censurou a sua poesia de corte como adulação aos governantes francos, além de apontar versificação monótona e faltas de prosódia; a atribuição de alguns hinos lhe é, ainda, contestada — os hinos marianos Quem terra pontus aethera / O gloriosa, por exemplo, não aparecem nos manuscritos das suas obras e figuram entre as peças a ele atribuídas sem prova definitiva.
Polêmicas ainda em aberto
Debates contemporâneos em aberto
A erudição recente promoveu uma ampla redescoberta de Venâncio Fortunato como figura-chave da transição entre a Antiguidade tardia e a Idade Média, reavaliando inclusive a sua poesia de panegírico, antes desqualificada como mera bajulação. Estudos como os de Michael Roberts (The Humblest Sparrow: The Poetry of Venantius Fortunatus) leem agora essa obra no seu contexto próprio.
Multiplicaram-se as edições e traduções modernas: a edição bilingüe completa dos Poems por Michael Roberts (Dumbarton Oaks Medieval Library 46, Harvard University Press, 2017) e as traduções de Judith George tornaram acessível o conjunto da sua poesia, antes conhecido apenas por algumas peças isoladas.
Permanece também em debate o lugar dos seus hinos após as reformas litúrgicas do século XX: o Vexilla Regis, outrora cantado em todo o tempo da Paixão, manteve presença mais ampla na forma extraordinária do Rito Romano do que no calendário ordinário reformado, motivando discussões sobre a preservação desse patrimônio hínico.
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento na Basílica de Saint-Hilaire-le-Grand
À sua morte, Venâncio Fortunato foi sepultado na Basílica de Santo Hilário (Saint-Hilaire-le-Grand), em Poitiers, junto ao túmulo do santo bispo a quem havia escrito uma “Vida”. Por volta de 785, a pedido do abade Apro, Paulo Diácono compôs o seu epitáfio, tratando-o já como santo e bem-aventurado. Durante as Guerras de Religião, os huguenotes saquearam Poitiers e dispersaram os ossos do santo em 1562, de modo que não restou sepultura íntegra.
Onde está Venâncio Fortunato hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Venâncio Fortunato
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
Foi curado de uma doença que quase o cegou aplicando nos olhos o óleo de uma lâmpada que ardia diante da imagem de São Martinho de Tours, em Ravena — e por gratidão peregrinou ao túmulo do santo, em Tours.
É frequentemente chamado “o último poeta da Antiguidade e o primeiro da Idade Média”, por estar a cavalo entre o mundo clássico latino e o medieval.
Compôs o hino Pange lingua gloriosi proelium certaminis, em honra da Cruz; séculos depois, esse hino inspirou o Pange lingua gloriosi corporis mysterium de São Tomás de Aquino, cantado na festa de Corpus Christi.
Seus hinos Vexilla Regis e Pange lingua nasceram da chegada de uma relíquia da Vera Cruz, enviada pelo imperador Justino II ao mosteiro de Radegunda, em Poitiers.
Era tão ligado às religiosas de Poitiers que chamava Santa Radegunda de “mãe” e a abadessa Inês de “irmã”; trocavam continuamente cartas, poemas e iguarias.
Deixou em verso descrições vivas de banquetes e comidas francas — leite, ovos, manteiga, frutas, legumes ao molho —, retrato raro da gastronomia merovíngia, e via o partilhar do alimento como sinal de amizade.
Por volta de 785, o historiador lombardo Paulo Diácono compôs seu epitáfio e já o tratava como santo e bem-aventurado, inserindo o poema na sua Historia Langobardorum.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/06149a.htm
- newadvent.org/cathen/15396a.htm
- newadvent.org/cathen/11441c.htm
- britannica.com/biography/Venantius-Fortunatus
- treccani.it/enciclopedia/santo-venanzio-fortunato_(Dizionario-Biografico)/
- santiebeati.it/dettaglio/81350
- encyclopedia.com/reference/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/venantius-fortunatus-saint
- encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/fortunatus-venantius-honorius-clementianus
- thelatinlibrary.com/venantius.html
- catholicsaints.info/saint-venantius-fortunatus/
- en.wikipedia.org/wiki/Venantius_Fortunatus
- it.wikipedia.org/wiki/Venanzio_Fortunato
- en.wikipedia.org/wiki/Pange_lingua_gloriosi_proelium_certaminis
- domedieval.org/books/poems-venantius-fortunatus/
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