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Medalius · Codex de Personalidades · Afonso Maria de Ligório
Afonso Maria de Ligório

Autor desconhecido (gravura napolitana, séc. XVIII) · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
1696–1787 (91 anos)
Lugar
Região de Nápoles
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Teologia moral — Equiprobabilismo
Idioma principal
Italiano e Latim
Santo · Doutor da Igreja

Afonso Maria de Ligório

1696–1787
Doutor Zelantíssimo Doutor da Igreja C.Ss.R. (Congregação do Santíssimo Redentor)

Santo Afonso Maria de Ligório (em italiano, Sant'Alfonso Maria de' Liguori; nome de batismo Alfonso Maria Antonio Giovanni Cosma Damiano Michele Gaspare de' Liguori) nasceu em 27 de setembro de 1696, em Marianella, próximo de Nápoles, no Reino de Nápoles, e morreu em 1 de agosto de 1787, em Nocera dei Pagani. Filho de família nobre napolitana, foi prodígio precoce: doutorou-se em direito civil e canônico aos 16 anos, em 21 de janeiro de 1713, e tornou-se um dos advogados mais brilhantes da capital, dizendo-se que em oito anos de foro jamais perdeu uma causa. Em 1723, abalado por uma causa perdida por um detalhe que lhe escapara, abandonou a advocacia, vestiu o hábito clerical em 23 de outubro daquele ano e foi ordenado sacerdote em 21 de dezembro de 1726. Dedicou-se aos pobres de Nápoles, criando as “Capelas Vespertinas”, e em 9 de novembro de 1732 fundou em Scala a Congregação do Santíssimo Redentor (Redentoristas, C.Ss.R.), cuja Regra e Instituto foram aprovados por Bento XIV em 1749. Grande teólogo moral, propôs o equiprobabilismo como via média entre o rigorismo jansenista e o laxismo, e escreveu obras célebres como a Teologia Moral, As Glórias de Maria, as Visitas ao Santíssimo Sacramento e Preparação para a Morte. Em 1762 foi nomeado bispo de Santa Ágata dos Godos por Clemente XIII, renunciando à diocese em 1775 por doença, com autorização de Pio VI. Beatificado em 1816 por Pio VII e canonizado em 1839 por Gregório XVI, foi proclamado Doutor da Igreja em 1871 por Pio IX e padroeiro dos confessores e moralistas em 1950 por Pio XII.

Biografia

Infância, formação e o abandono da advocacia

Santo Afonso Maria de Ligório nasceu em 27 de setembro de 1696, na casa de campo da família em Marianella, perto de Nápoles, no Reino de Nápoles, e foi batizado dois dias depois na igreja de Nossa Senhora das Virgens, em Nápoles. Era o primogênito de uma antiga e nobre família napolitana; seu pai, Dom Giuseppe de' Liguori, era oficial da marinha e capitão das galeras reais. Menino prodígio, dotado também para a música — tocava cravo com perfeição de mestre aos treze anos —, dedicou-se ao direito e, aos dezesseis anos, em 21 de janeiro de 1713, formou-se doutor em direito civil e canônico, ainda que os estatutos fixassem idade mínima maior. Tornou-se um dos mais célebres advogados da capital, e diz-se que, em oito anos de foro, jamais perdeu uma causa. Em 1723, porém, ao defender um caso importante, viu-se confrontado com uma prova decisiva que lhe escapara, perdendo a causa; abalado, exclamou: “Mundo, eu te conheço agora; foro, nunca mais me verás”. Recolhido em oração no Hospital dos Incuráveis, sentiu o chamado divino e, em 23 de outubro de 1723, vestiu o hábito clerical, contra a vontade do pai.


Sacerdócio e a fundação dos Redentoristas

Iniciados os estudos teológicos, foi ordenado sacerdote em 21 de dezembro de 1726. Pregou em Nápoles e arredores, dando missões e dedicando-se especialmente aos pobres e abandonados, os lazzaroni da cidade: com a ajuda de leigos, organizou-os em uma rede de oração e instrução cristã conhecida como as “Capelas Vespertinas” (Cappelle serotine). Ao tomar contato com os pastores e camponeses espiritualmente abandonados das montanhas em torno de Scala, na costa amalfitana, concebeu a obra de sua vida. Em 9 de novembro de 1732, em um pequeno hospício pertencente às religiosas de Scala, deu início à Congregação do Santíssimo Redentor (Redentoristas, C.Ss.R.), voltada à evangelização dos mais pobres e abandonados por meio das missões populares. Após anos de dificuldades e divisões internas, a Regra e o Instituto foram aprovados pelo Papa Bento XIV em 1749.


Teólogo moral, escritor e bispo

Afonso foi um dos maiores teólogos morais da Igreja. Diante da tensão entre o rigorismo de inspiração jansenista e o laxismo, propôs uma via média que chamou de equiprobabilismo, segundo a qual, em caso de dúvida, só se isenta da obrigação quando as opiniões a favor e contra a lei são iguais ou quase iguais. Sua influência espalhou-se sobretudo pela monumental Teologia Moral (Theologia Moralis, 1748), reeditada e ampliada por toda a vida, e por obras de profunda devoção popular como As Glórias de Maria, as Visitas ao Santíssimo Sacramento e à Bem-Aventurada Virgem Maria e Preparação para a Morte. Em 1762, obrigado pela obediência ao Papa Clemente XIII, aceitou ser nomeado bispo de Santa Ágata dos Godos (Sant'Agata dei Goti), onde empreendeu uma intensa reforma da diocese, do clero e da catequese dos pobres. Esgotado por enfermidades, renunciou à diocese em 1775, com a autorização do Papa Pio VI, retirando-se para uma casa de sua congregação em Pagani.


Últimos anos, a crise do “Regolamento” e legado

Os últimos anos foram marcados pelo sofrimento. Uma terrível crise de artrite reumática, agravada entre 1768 e 1769, deixou-o paralítico e curvou-lhe de tal modo o pescoço e a coluna que essa cabeça inclinada se tornou traço de seus retratos. Em 1780, na chamada crise do “Regolamento”, o santo, já idoso e doente, foi enganado a assinar uma versão alterada da Regra; em consequência, Pio VI reconheceu como Redentoristas apenas os religiosos dos Estados Pontifícios, e o próprio Afonso viu-se, paradoxalmente, excluído da congregação que fundara. A esse golpe somou-se uma dura provação espiritual, uma verdadeira “noite escura da alma” nos seus derradeiros anos. Faleceu santamente em 1 de agosto de 1787, em Nocera dei Pagani, ao tocar o Ângelus do meio-dia, com quase noventa e um anos. Declarado Venerável em 1796, foi beatificado em 1816 por Pio VII e canonizado em 1839 por Gregório XVI. Em 1871 foi proclamado Doutor da Igreja por Pio IX e, em 1950, declarado padroeiro dos confessores e moralistas por Pio XII.

Contexto

O contexto em que viveu

A vida de Afonso Maria de Ligório (1696–1787) transcorreu inteiramente no Reino de Nápoles do século XVIII, um território que mudou de mãos repetidas vezes em sua época. Por dois séculos, Nápoles fora governada por vice-reis a serviço da coroa espanhola, e o reino era tratado sobretudo como fonte de rendas, em meio a um lento declínio econômico. Com a Guerra de Sucessão Espanhola (1701–1714), o reino passou para a esfera dos Habsburgo da Áustria, tornando-se um vice-reino austríaco pelo Tratado de Utrecht (1713). A virada decisiva veio em 1734: aproveitando a Guerra de Sucessão da Polônia, Carlos de Bourbon — filho de Filipe V de Espanha e de Isabel Farnésio — conquistou Nápoles, derrotou os austríacos e restabeleceu um reino independente e soberano dos Bourbon, do qual foi rei até 1759.


Esse novo Estado bourbônico abraçou o espírito do despotismo esclarecido, patrocinando reformas para modernizar o reino. Em 1759, ao herdar o trono espanhol como Carlos III, Carlos renunciou às coroas de Nápoles e da Sicília, deixando-as a seu terceiro filho, Fernando IV, então uma criança, sob um conselho de regência. A política do reino esteve por décadas nas mãos do ministro Bernardo Tanucci (chefe do governo de 1755 a 1776), o mais zeloso dos regalistas: empenhado em afirmar a supremacia do Estado sobre a Igreja, restringiu a jurisdição dos bispos, suprimiu conventos e mosteiros, aboliu os dízimos e reduziu os tributos devidos à Cúria Romana, ultrapassando de longe o que previa a Concordata de 1741 com a Santa Sé.


O século era também o do Iluminismo e do racionalismo, que punham em causa as verdades tradicionais da fé — clima contra o qual boa parte da obra de Afonso, inclusive sua defesa intelectual da mariologia, se ergueria. No campo da teologia moral, dois extremos opostos dividiam a prática dos confessores: de um lado, o rigorismo de inspiração jansenista, que retratava Deus como distante e severo e tratava os penitentes mais como réus a punir do que como almas a salvar; de outro, o laxismo, que afrouxava em excesso as exigências da consciência. Foi para superar esses dois polos que Afonso elaboraria seu sistema moral, o equiprobabilismo.


No plano religioso e social, o cenário mais marcante era o abandono espiritual dos pobres do campo. Enquanto as cidades dispunham de clero, vastas populações rurais ficavam sem assistência. Buscando repouso nas montanhas por volta de 1730, Afonso encontrou nos arredores de Scala, na costa de Amalfi, cabreiros e pastores totalmente desamparados, mais pobres e mais esquecidos do que as crianças de rua de Nápoles. Foi a esses abandonados que ele decidiu dedicar-se, dando origem em 1732 à Congregação do Santíssimo Redentor, voltada às missões entre os mais necessitados do interior do reino.


A relação entre a Igreja e os tronos católicos atravessava, em toda a Europa, sua fase mais tensa. As cortes bourbônicas pressionavam por concessões, e a campanha contra a Companhia de Jesus culminou na sua expulsão sucessiva de Portugal (1759), França (1764), Espanha e Nápoles (1767), até que, cedendo à pressão das cortes Bourbon, o papa Clemente XIV decretou a supressão universal da Companhia de Jesus pelo breve Dominus ac Redemptor, em 21 de julho de 1773. Era o mesmo ambiente regalista que poria em risco a própria sobrevivência dos Redentoristas no reino: a aprovação régia tornou-se condição para a existência legal do instituto, e a corte exigiria reescrever a regra — pano de fundo da grave controvérsia do Regolamento que amarguraria os últimos anos do santo.

Fatos contextuais
Nascimento em Marianella
Afonso Maria de Ligório nasce em 27 de setembro de 1696, em Marianella, perto de...
Doutor em direito aos 16 anos
Em 21 de janeiro de 1713, com apenas 16 anos, recebe o grau de Doutor em Direito...
A causa perdida e a renúncia ao foro
Após anos de prática forense sem perder uma causa, perde um grande processo por...
Ordenação sacerdotal
É ordenado sacerdote em 21 de dezembro de 1726, aos 30 anos, em Nápoles. Dedica-...
Fundação da Congregação do Santíssimo Redentor
Em 9 de novembro de 1732, em Scala, funda a Congregação do Santíssimo Redentor (...

Suas contribuições à teologia

No coração do pensamento de Santo Afonso Maria de Ligório está a teologia moral, na qual ele traçou uma via média entre dois extremos da sua época: o rigorismo (ligado ao probabiliorismo e ao espírito jansenista), que sufocava as consciências sob o peso da lei, e o laxismo, que as afrouxava em excesso. Sua solução foi o sistema do equiprobabilismo: é lícito seguir a opinião provável a favor da liberdade quando ela é igualmente ou quase igualmente provável que a opinião contrária favorável à lei. Essa doutrina, exposta na monumental Theologia Moralis (em nove volumes, editada de 1748 a 1785), valeu-lhe o título de “príncipe dos moralistas” e fez dele o padroeiro dos moralistas e confessores (proclamado por Pio XII em 1950). Para Afonso, formado como advogado e depois como pastor de confissão, o confessor deve ser pai e médico das almas, não carrasco: firme na verdade objetiva, mas guiando o penitente à virtude sem o lançar no desespero.


Outro pilar do seu pensamento é a oração como meio necessário da salvação. Na célebre obra Del gran mezzo della preghiera (“O grande meio da oração”, 1759) — que ele considerava o mais útil de todos os seus escritos — Afonso resume sua tese numa máxima famosa: “Quem reza se salva; quem não reza se condena.” A oração é, segundo ele, “o meio necessário e seguro de obter a salvação e todas as graças de que precisamos para alcançá-la”; sem ela é dificílimo, até impossível, salvar-se, mas rezando a salvação torna-se segura e fácil.


Profundamente mariano, Afonso compôs As Glórias de Maria (Le glorie di Maria, 1750), comentário à Salve Rainha e defesa teológica da devoção à Mãe de Deus num tempo em que o jansenismo a criticava. Nela exalta Maria como medianeira e advogada dos fiéis: por sua maternidade divina, Maria coopera na salvação dos homens e exerce no céu a missão de medianeira universal — não uma mediação de justiça, própria de Cristo, mas de graça e intercessão, sempre subordinada à única mediação salvífica do Filho.


Por fim, o pensamento afonsiano é eminentemente afetivo e cristocêntrico, voltado ao amor a Jesus na sua Paixão e na Eucaristia. Suas obras ascéticas — as Visitas ao Santíssimo Sacramento, A Prática do Amor a Jesus Cristo e a Preparação para a Morte — em linguagem simples e acessível ao povo, recomendam a oração afetiva, breves jaculatórias e atos de amor mais do que a meditação puramente discursiva. Para Afonso, toda a vida cristã se resume em conhecer e corresponder ao amor de Deus, contemplado sobretudo em Cristo crucificado e presente no Sacramento do altar.

"Quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena. Todos os bem-aventurados (exceto as crianças) salvaram-se pela oração; todos os condenados perderam-se por não rezar: se tivessem rezado, não se teriam perdido." O Grande Meio da Oração (Del gran mezzo della preghiera), Parte I, cap. 1 ("A Necessidade da Oração")
Influência

Quem ele influenciou

A herança mais visível de Santo Afonso é a Congregação do Santíssimo Redentor (Redentoristas, C.Ss.R.), que ele fundou em 9 de novembro de 1732, em Scala, e que Bento XIV aprovou em 1749. Nascida para anunciar a Boa Nova aos pobres por meio das missões populares, a Congregação está hoje presente em cerca de 82 países nos cinco continentes, com mais de 5.500 membros, dedicados às missões paroquiais, aos santuários, ao ministério pastoral e à opção pelos pobres, difundindo também a devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.O impacto mais profundo, porém, está na teologia moral. Sua Theologia Moralis propôs uma síntese equilibrada entre as exigências da lei de Deus e os dinamismos da consciência e da liberdade humana, opondo-se ao legalismo e ao rigorismo de então. Esse pensamento prudente tornou-se gradualmente a referência da moral católica e foi base de formação de gerações de confessores. Para custodiar e difundir essa doutrina, os Redentoristas fundaram em Roma, em 1949, a Academia Alfonsiana, hoje instituto superior de teologia moral.Afonso ocupa lugar singular entre os Doutores da Igreja: canonizado em 1839 e proclamado Doutor por Pio IX em 1871, foi declarado por Pio XII, em 1950, padroeiro dos confessores e dos moralistas. Sua influência espiritual difundiu-se ainda por obras de enorme alcance popular, sobretudo As Glórias de Maria, na devoção mariana, e a prática das Visitas ao Santíssimo Sacramento, na devoção eucarística.A família espiritual que ele gerou deu à Igreja vários santos: São Clemente Maria Hofbauer, que levou os Redentoristas para além dos Alpes; São João Nepomuceno Neumann, bispo de Filadélfia; e São Gerardo Majella, irmão leigo modelo de obediência e caridade.

Debates

Debates e controvérsias

A crise do “Regolamento” e a exclusão da própria Congregação (1779–1781)

Os últimos anos de Afonso foram amargurados por um conflito entre o governo bourbônico de Nápoles e a Santa Sé. Para obter o reconhecimento legal da Congregação no Reino, exigiu-se a reformulação da Regra num texto chamado “Regolamento”. Já com cerca de oitenta e cinco anos, aleijado, surdo e quase cego, Afonso foi traído pelos próprios colaboradores — sobretudo os consultores gerais Angelo Maione e Fabrizio Cimino — e levado a assinar, em 1780, um texto profundamente adulterado, que chegava a suprimir os votos religiosos, julgando estar aprovando a Regra fiel.


O Papa Pio VI, vendo nisso mais um abuso da corte de Nápoles, reagiu por decreto de 22 de setembro de 1780 (confirmado em 1781) reconhecendo apenas as casas dos Estados Pontifícios como a verdadeira Congregação do Santíssimo Redentor, sob novo superior. Assim, o próprio fundador ficou excluído da Ordem que criara — cortado dela pelo mesmo Papa que viria a declará-lo “Venerável”. Nesse estado de exclusão viveu seus últimos anos e morreu em 1787. A Congregação só foi reunificada sob uma única cabeça em 1793, depois de sua morte.

O debate sobre seu sistema moral

O equiprobabilismo de Afonso foi disputado contra os rigoristas e jansenistas de um lado e os probabilistas de outro. A controvérsia, porém, foi resolvida em seu favor pela própria Santa Sé: seus escritos foram examinados nos processos de beatificação (1816) e canonização (1839) sem que se encontrasse erro digno de censura, e por decreto de 22 de julho de 1831 permitiu-se aos confessores seguir qualquer das opiniões de Santo Afonso sem ter de pesar as razões em que se baseavam. Ao proclamá-lo Doutor em 1871, Pio IX declarou que ele, no labirinto das opiniões teológicas demasiado severas e demasiado frouxas, abriu um caminho que os diretores de almas podem trilhar em segurança.

Para estudar mais

Fontes e referências

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