Alexandre de Alexandria
Santo Alexandre de Alexandria (c. 250 – 326/328) foi o 19º bispo e patriarca de Alexandria, ocupando a sé de 313 até a morte. É lembrado sobretudo por ter sido o primeiro a condenar formalmente o presbítero Ário, convocando por volta de 320–321 um sínodo de cerca de cem bispos que o excomungou por negar a divindade do Filho. Figura central na preparação e nos trabalhos do Concílio de Niceia (325), foi mestre e protetor do jovem diácono Atanásio, a quem indicou como sucessor no leito de morte.
Biografia
Infância, formação e ascensão
Acredita-se que Alexandre tenha nascido por volta de 250, provavelmente na própria Alexandria, então um dos maiores centros intelectuais e cristãos do Império Romano. Formou-se no ambiente da Igreja alexandrina, herdeira da célebre Escola Catequética, e atravessou como clérigo as sangrentas perseguições dos imperadores Galério e Maximino. Tornou-se presbítero e testemunha (confessor) da fé naquele tempo de provação.
Na sucessão episcopal de Alexandria seguiram-se a Pedro de Alexandria (martirizado em 311) o bispo Aquilas (Achillas) e, à morte deste, em 313, Alexandre foi eleito bispo e patriarca da cidade, tornando-se o décimo nono na lista dos sucessores de São Marcos. As fontes o descrevem como homem de doutrina e vida apostólicas, brando, afável e extremamente caridoso para com os pobres.
Episcopado e missão principal
À frente da importante sé de Alexandria, Alexandre governou o clero e o povo com mansidão e zelo. Os antigos historiadores eclesiásticos — Sócrates Escolástico, Sozomeno e Teodoreto — bem como o próprio testemunho de Santo Atanásio, transmitem a imagem de um pastor de fé e fervor, dedicado à instrução e ao governo da Igreja.
Foi durante seu episcopado que percebeu e formou o jovem diácono Atanásio, futuro doutor da Igreja e debelador do arianismo. Alexandre o teve em alta estima, fez dele seu secretário, levou-o consigo a Niceia e nele depositou a confiança de continuar a defesa da fé ortodoxa.
A controvérsia ariana e o sínodo de Alexandria
A grande crise de seu episcopado eclodiu por volta de 318–319. O presbítero Ário, que pregava em Alexandria, opôs-se ao ensino de Alexandre sobre a unidade da Santíssima Trindade e passou a sustentar que o Filho era uma criatura, feito do nada, e que houve um tempo em que Ele não existia. Alexandre, descrito como um dos mais mansos dos homens, recorreu primeiro a exortações para reconduzir Ário à verdade.
Persistindo Ário na obstinação, Alexandre convocou um sínodo de cerca de cem bispos do Egito e da Líbia em Alexandria (por volta de 320–321), no qual Ário e seus seguidores foram condenados e excomungados. O bispo difundiu então cartas encíclicas — entre elas a dirigida a Alexandre de Bizâncio — defendendo que o Filho é da mesma substância do Pai que o gerou. Ário apelou a bispos simpáticos, sobretudo a Eusébio de Nicomédia, e a disputa alastrou-se por todo o Oriente. A esse conflito veio juntar-se o cisma meleciano, herdado de seus predecessores, que acabou aliando-se aos arianos contra Alexandre.
Concílio de Niceia, últimos anos e legado
Para resolver a controvérsia, o imperador Constantino convocou o primeiro Concílio Ecumênico em Niceia (325), ao qual acorreram cerca de 318 padres. Alexandre teve papel de destaque entre os ortodoxos, levando consigo Atanásio; o concílio condenou o arianismo e proclamou o Credo que confessa o Filho consubstancial ao Pai (homooúsios). A Alexandre chega a ser atribuída a redação dos atos do concílio.
Pouco depois de Niceia, Alexandre faleceu. As fontes divergem quanto à data: a Catholic Encyclopedia e parte da tradição registram o ano de 326 (a festa litúrgica é a 26 de fevereiro; o dia da morte é dado como 17 de abril), enquanto a cronologia moderna, ligada à eleição de Atanásio em 328, situa a morte nesse ano. No leito de morte, recomendou ao clero e ao povo a escolha de Atanásio como sucessor. Seu legado é o de ter sido o primeiro grande baluarte da fé nicena, lançando os fundamentos da luta antiariana que seu discípulo levaria adiante por décadas.
O contexto em que viveu
O episcopado de Alexandre coincidiu com uma das maiores viragens da história cristã. Depois de décadas de perseguições — a de Diocleciano (303) e as de Galério e Maximino, que ele próprio atravessou como clérigo —, o cristianismo passou subitamente da clandestinidade à liberdade. O Edito de Milão (313), acordado por Constantino e Licínio no mesmo ano em que Alexandre assumiu a sé, garantiu a tolerância religiosa e inaugurou a chamada viragem constantiniana, em que o Império deixou de perseguir a Igreja e começou a interessar-se diretamente por suas questões doutrinais.
Alexandria era então uma das maiores cidades do Império e um efervescente centro intelectual cristão. Sua Escola Catequética, ilustrada por nomes como Panteno, Clemente e Orígenes, fizera dela um polo de teologia especulativa e de debate sobre a relação entre o Pai e o Filho. Foi precisamente nesse ambiente que surgiu o arianismo: o presbítero Ário negou a eternidade e a plena divindade do Verbo, sustentando que o Filho fora criado e tivera um começo. A questão tornou-se a grande crise teológica do início do século IV, dividindo bispos, fiéis e cidades por todo o Oriente.
Ao mesmo tempo, o Egito cristão estava abalado pelo cisma meleciano. Melécio de Licópolis, deposto por Pedro de Alexandria por ordenações irregulares e pela questão do tratamento dos que apostataram na perseguição (os lapsi), criara uma hierarquia paralela. Esse cisma, ainda vivo no tempo de Alexandre, enredou-se com a disputa ariana, agravando a divisão que o bispo de Alexandria teve de enfrentar.
A convergência dessas crises levou Constantino a convocar, em 325, o primeiro Concílio Ecumênico da história, em Niceia. Ali cerca de 318 padres definiram a consubstancialidade do Filho com o Pai (homooúsios) e formularam o Credo Niceno, além de tratarem da data da Páscoa e do cisma meleciano. Alexandre de Alexandria foi um dos protagonistas desse momento fundador, abrindo caminho para a obra que seu discípulo Atanásio consolidaria nas décadas seguintes.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O coração da doutrina de Santo Alexandre é a defesa da plena divindade e da eternidade do Filho de Deus contra a heresia de Ário. Onde Ário afirmava que houve um tempo em que o Filho não existia, e que Ele teria sido feito do nada, Alexandre ensina o contrário: o Filho é gerado do Pai, não criado, e por isso é coeterno com Ele. Em sua carta doutrinal a Alexandre de Bizâncio (preservada por Teodoreto), afirma que o Filho é de igual dignidade com o Pai e da mesma substância do Deus que o gerou, possuindo perfeita semelhança em todas as coisas com o Pai e sendo imutável e inalterável, suficiente em si e perfeito, como o Pai.
Alexandre distingue cuidadosamente gerar de criar: o Filho não é ingênito, pois só o Pai é ingênito; mas tampouco é uma criatura tirada do que não tem ser. O Filho é gerado eternamente do Pai autoexistente. Ao mesmo tempo, recusa o erro oposto de dois princípios ingênitos: há um único Pai ingênito, e o Filho é dele eternamente gerado. Suas fórmulas — o Filho como imagem exata da pessoa do Pai e resplendor da sua glória, em nada dele diferindo — são precursoras diretas do homooúsios (consubstancial) definido em Niceia.
Na encíclica a todos os bispos (a Henos Sōmatos, preservada por Sócrates), Alexandre resume a fé católica: crer no Filho unigênito de Deus, gerado não das coisas que não são, mas daquele que é o Pai. Insiste na correlação eterna do Pai e do Filho, pois o Pai é sempre Pai precisamente porque o Filho está sempre com Ele. Para Alexandre, negar a eternidade do Filho é dissolver a própria paternidade eterna de Deus e, portanto, a unidade da Trindade.
"Que o Filho de Deus não foi criado a partir do que não existe, e que nunca houve um tempo em que Ele não existisse, é claramente ensinado por João Evangelista." Epístola a Alexandre de Bizâncio (em Teodoreto, Hist. Ecl. I.3)
Quem ele influenciou
A influência de Santo Alexandre é decisiva para toda a história da fé cristã. Foi ele o primeiro a identificar e condenar formalmente a heresia ariana, reunindo um sínodo em Alexandria (c. 320–321) com cerca de cem bispos do Egito e da Líbia que excomungaram Ário e seus seguidores. Ao circular suas cartas encíclicas, transformou uma disputa local na grande questão doutrinal que mobilizaria toda a Igreja e levaria ao Concílio de Niceia.Em Niceia (325), Alexandre foi uma das figuras centrais do lado ortodoxo, e a sua teologia — o Filho gerado, não feito, da mesma substância do Pai — está na raiz da formulação do Credo niceno, que define o Filho gerado, não feito, consubstancial ao Pai.Sua maior herança humana foi Santo Atanásio: jovem diácono e secretário de Alexandre, acompanhou-o a Niceia e, no leito de morte, foi por ele indicado para a sucessão na sé de Alexandria. Atanásio levaria adiante por décadas a batalha de Alexandre contra o arianismo, de modo que a obra de Alexandre se prolonga em todo o legado atanasiano.
Debates e controvérsias
A controvérsia ariana e a excomunhão de Ário
A grande controvérsia da vida de Alexandre foi com o presbítero Ário, que sustentava ser o Filho uma criatura feita do nada, afirmando que houve um tempo em que o Filho não existia. Alexandre tentou primeiro reconduzi-lo; diante da obstinação, reuniu um sínodo em Alexandria (c. 320–321) com cerca de cem bispos do Egito e da Líbia e excomungou Ário e seus seguidores, depondo-os do clero. Alexandre está aqui claramente do lado ortodoxo: a sua condenação de Ário foi depois ratificada pela Igreja universal em Niceia.
O cisma meleciano
Alexandre herdou de seus predecessores Pedro e Aquilas o conflito com Melécio (Meletius) de Licópolis, que durante a perseguição usurpara funções patriarcais, ordenando bispos e clérigos fora de sua jurisdição. Atanásio testemunha que Melécio manteve sua posição cismática também contra os seus sucessores imediatos, Aquilas e Alexandre. O Concílio de Niceia tentou resolver o cisma com medidas moderadas, mas os melecianos acabaram se aliando aos arianos.
Tensões com Eusébio de Nicomédia
Ário, condenado por Alexandre, encontrou apoio em bispos influentes, sobretudo Eusébio de Nicomédia, que se opôs à condenação e patrocinou a causa ariana. Em Niceia, Eusébio de Nicomédia esteve entre os poucos bispos que resistiram ao termo consubstancial. Em todas essas disputas, Alexandre representa o lado ortodoxo, posteriormente vindicado pela Igreja.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/01296a.htm
- newadvent.org/cathen/01707c.htm
- newadvent.org/cathen/10164a.htm
- newadvent.org/cathen/11771a.htm
- newadvent.org/cathen/05011a.htm
- newadvent.org/fathers/26011.htm
- newadvent.org/fathers/27021.htm
- newadvent.org/fathers/0622.htm
- en.wikisource.org/wiki/Ante-Nicene_Fathers/Volume_VI/Alexander_of_Alexandria
- ewtn.com/catholicism/library/st-alexander-confessor-patriarch-of-alexandria-5171
- catholic.org/saints/saint.php?saint_id=1246
- encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/alexander-patriarch-alexandria-st
- fourthcentury.com/urkunde-4b/
- fourthcentury.com/urkunde-14/
- orthodoxwiki.org/Alexander_of_Alexandria
- st-takla.org/books/en/church/synaxarium/08-bermodah/22-baramouda-alexander.html
- en.wikipedia.org/wiki/Pope_Alexander_I_of_Alexandria
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