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Medalius · Codex de Personalidades · São Luís Maria Grignion de Montfort
São Luís Maria Grignion de Montfort

Orphelinat Notre-Dame de Montfort (autor desconhecido); Wikimedia Commons · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
1673–1716 (43 anos)
Lugar
Oeste da França (Bretanha, Vendeia, Poitou)
Estado canônico
Santo
Escola
Escola francesa de espiritualidade; espiritualidade mariana montfortina
Idioma principal
Francês
Santo

São Luís Maria Grignion de Montfort

1673–1716
Apóstolo de Maria S.M.M. (Companhia de Maria)

São Luís Maria Grignion de Montfort (Montfort-sur-Meu, 31 de janeiro de 1673 — Saint-Laurent-sur-Sèvre, 28 de abril de 1716) foi um sacerdote, missionário, fundador e escritor mariano francês, considerado um dos maiores apóstolos da devoção a Maria na história da Igreja. Formado pelos jesuítas em Rennes e no seminário de Saint-Sulpice, em Paris, foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1700 e, em 1706, recebeu do Papa Clemente XI o título de “missionário apostólico”, percorrendo então o oeste da França pregando missões populares. Fundou a Companhia de Maria (Missionários Montfortinos) e as Filhas da Sabedoria, e da sua obra nasceriam também os Irmãos de São Gabriel. Escreveu obras espirituais que se tornaram clássicos, entre elas o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, O Segredo de Maria e O Segredo do Rosário, nas quais propõe a consagração total a Jesus por Maria que inspirou o lema “Totus Tuus” de São João Paulo II. Beatificado por Leão XIII em 22 de janeiro de 1888 e canonizado por Pio XII em 20 de julho de 1947, não é Doutor da Igreja; sua memória litúrgica é celebrada em 28 de abril. Seus restos mortais repousam na basílica de Saint-Laurent-sur-Sèvre, na Vendeia.

Biografia

Infância, formação e ordenação

Luís Maria Grignion nasceu em 31 de janeiro de 1673 em Montfort-sur-Meu, pequena cidade a oeste de Rennes, na Bretanha, França. Foi o filho mais velho sobrevivente da numerosa família de Jean-Baptiste Grignion e de sua esposa Jeanne Robert; mais tarde adotaria o nome do lugar de nascimento, passando a chamar-se Luís Maria de Montfort. Desde a infância destacou-se pela devoção ao Santíssimo Sacramento e à Virgem Maria, a cujo nome acrescentou o seu na Crisma.


Aos doze anos foi enviado como aluno ao colégio jesuíta de São Tomás Becket, em Rennes, onde fez bons estudos e amadureceu as inclinações que marcariam sua vida. Por intermédio de um benfeitor, partiu a pé rumo a Paris, por volta do fim de 1693, para estudar teologia no célebre Seminário de Saint-Sulpice. Foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1700, oficialmente para a diocese de Saint-Malo, e celebrou sua primeira Missa no altar da Santíssima Virgem, na igreja de Saint-Sulpice.


Vida adulta e missão principal

Após breve passagem pela comunidade de Saint-Clément, em Nantes, exerceu em Poitiers o ministério de capelão de hospital, dedicando-se aos pobres e doentes. Ali conheceu a jovem Maria Luísa Trichet, que sentia o chamado à vida religiosa e com quem, em 1703, lançou as bases da congregação das Filhas da Sabedoria.


Em 1706, diante das oposições que encontrava, partiu em peregrinação a Roma para consultar o Papa Clemente XI sobre o que deveria fazer. O Papa o enviou de volta à França com o título de missionário apostólico. A partir de então, durante cerca de dezesseis anos de ministério, pregou missões populares por toda a região oeste da França — Bretanha, Nantes, Luçon, Saintes, La Rochelle e Vendeia —, multiplicando confrarias e erguendo cruzeiros e calvários como lembranças permanentes das missões. Reuniu também os primeiros companheiros sacerdotes na Companhia de Maria (Missionários Montfortinos), e do grupo de irmãos leigos que se reuniram em torno dele nasceriam mais tarde os Irmãos de São Gabriel.


Lutas, oposições e perseguições

O zelo ardente de Montfort e sua pregação mariana e popular suscitaram forte oposição, sobretudo da parte de meios jansenistas e galicanos, que o viam com desconfiança. Em diversas dioceses recebeu proibições de pregar, e missões inteiras lhe foram vedadas por bispos.


O episódio mais célebre foi o do monumental calvário erguido em Pontchâteau, fruto do trabalho de milhares de fiéis: às vésperas de sua bênção, a obra foi proibida e, por ordem régia, mandada destruir. A perseguição chegou ao extremo do atentado contra sua vida: em La Rochelle, puseram veneno em sua tigela de caldo. Embora tenha sobrevivido, sua saúde ficou abalada. Em meio a tudo isso, manteve por divisa o lema “Só Deus” (Dieu Seul).


Últimos anos, morte e legado

Em abril de 1716, então com 43 anos, Montfort chegou a Saint-Laurent-sur-Sèvre, na Vendeia, para iniciar o que seria sua última missão. Ali adoeceu e morreu em 28 de abril de 1716, sendo sepultado entre grande concurso de fiéis; logo se espalharam relatos de milagres junto ao seu túmulo. Seus restos mortais repousam hoje na basílica de Saint-Laurent-sur-Sèvre, ao lado da Beata Maria Luísa de Jesus.


Entre suas obras, destaca-se o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cujo manuscrito permaneceu desconhecido por mais de um século e foi descoberto em 1842, dando enorme impulso à difusão de sua espiritualidade. Dessa obra brota o ideal da consagração total a Jesus por Maria, sintetizado na expressão “Totus Tuus”, que São João Paulo II adotaria como lema pessoal. Montfort foi beatificado por Leão XIII em 22 de janeiro de 1888 e canonizado por Pio XII em 20 de julho de 1947. Não é Doutor da Igreja; sua memória litúrgica é celebrada em 28 de abril.

Contexto

O contexto em que viveu

São Luís Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha, e morreu em 1716, em Saint-Laurent-sur-Sèvre. Sua vida transcorreu quase inteira sob o longo reinado de Luís XIV, o “Rei-Sol” (1643–1715), e seus últimos meses já no início do reinado de Luís XV. Foi a época do apogeu do absolutismo monárquico francês e de fortes tensões entre a Coroa e Roma, marcadas pelo galicanismo — a defesa de “liberdades” da Igreja da França face à autoridade pontifícia —, clima que o próprio Montfort enfrentaria ao buscar, contra obstáculos políticos e eclesiásticos, a aprovação e o amparo da Santa Sé para o seu apostolado.


O cenário religioso era dominado pela controvérsia do jansenismo, corrente rigorista de inspiração no bispo Cornélio Jansênio e ligada ao mosteiro de Port-Royal, que acentuava a indignidade humana, a escassez da graça e um acesso restritivo aos sacramentos. A disputa atingiu seu ponto culminante com a bula Unigenitus, promulgada pelo papa Clemente XI em 8 de setembro de 1713, que condenou 101 proposições extraídas das Réflexions morales de Pasquier Quesnel, a pedido do próprio Luís XIV. Contra esse rigorismo, Montfort pregou incansavelmente a misericórdia divina, a confiança filial e a devoção mariana e ao Santo Rosário.


Montfort formou-se no célebre seminário de Saint-Sulpice, em Paris, instituição fundada por Jean-Jacques Olier, onde estudou em fins do século XVII, sendo ordenado sacerdote em junho de 1700. Ali bebeu diretamente da Escola Francesa de Espiritualidade, grande corrente da Contrarreforma iniciada pelo cardeal Pierre de Bérulle (1575–1629), fundador do Oratório francês, e prolongada por Olier, Charles de Condren e São João Eudes. Centrada no mistério da Encarnação, na vida interior, na santidade sacerdotal e no lugar de Maria no plano da salvação, essa escola promoveu a renovação do clero segundo o Concílio de Trento. O historiador Henri Brémond chamou Montfort de “o último dos grandes berullianos”.


Herdeiro dessa renovação pós-tridentina, Montfort consagrou-se às missões populares no oeste rural da França — o Poitou, a região da futura Vendeia, a Bretanha, Nantes e La Rochelle. Conhecido como “o bom Padre de Montfort”, percorreu o campo reevangelizando paróquias com pregações vivas, procissões, cânticos e o apelo à renovação das promessas batismais, vivendo entre os pobres, num contexto de carências espirituais e de instabilidade social da França rural.


No coração de seu apostolado estava a devoção ao Santo Rosário, que ele difundiu e organizou em confrarias após ingressar, em 1710, na Ordem Terceira de São Domingos. Essa devoção inseria-se na tradição mariana revigorada pela Contrarreforma, especialmente após a vitória cristã na Batalha de Lepanto (1571), atribuída pelo papa São Pio V à intercessão de Nossa Senhora invocada pelo Rosário — origem da festa que viria a chamar-se de Nossa Senhora do Rosário. Pregando a misericórdia e a entrega total a Cristo por Maria, Montfort opôs ao pessimismo jansenista uma espiritualidade de confiança, deixando obras como O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem e O Segredo do Rosário.

Fatos contextuais
Início do reinado de Luís XIV
Luís XIV torna-se rei da França; seu longo reinado absolutista (o “Rei-Sol”) é o...
Nascimento em Montfort-sur-Meu
Luís Maria Grignion nasce em 31 de janeiro de 1673, na pequena cidade de Montfor...
Estudos no colégio jesuíta de Rennes
A partir dos doze anos é enviado como aluno ao Colégio jesuíta de São Tomás Beck...
Ida a pé a Paris
No fim de 1693 parte a pé para Paris para estudar teologia, doando pelo caminho...
Seminário de Saint-Sulpice
Por volta de 1695 entra no seminário de Saint-Sulpice, em Paris, onde se forma n...

Suas contribuições à teologia

O coração do pensamento de São Luís Maria Grignion de Montfort é a consagração total a Jesus Cristo por Maria, que ele chama de “santa escravidão de amor”. Para Montfort, este é o caminho mais perfeito, mais seguro e mais fácil para a união plena com Cristo: aquela devoção é a mais perfeita que mais perfeitamente nos conforma, une e consagra a Jesus Cristo; ora, sendo Maria a mais conformada a Jesus, quanto mais uma alma é consagrada a Maria, mais é consagrada a Jesus. Trata-se de uma renovação radical das promessas batismais, na qual a pessoa se entrega inteiramente a Maria, e por Maria a Jesus, dando-lhe corpo, alma, bens interiores e exteriores e até o valor de suas boas obras (Tratado da Verdadeira Devoção, n. 120-121).


Maria nunca é, para Montfort, um fim em si mesma, mas o caminho seguro e mais curto para Jesus. Ele a apresenta como o meio mais seguro, mais fácil, mais curto e mais perfeito de ir a Cristo e de O encontrar perfeitamente. É deste princípio “Ad Jesum per Mariam” (a Jesus por Maria) que nasce a fórmula “Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt” — “Sou todo vosso, e tudo o que tenho é vosso, ó amabilíssimo Jesus, por Maria, vossa santa Mãe” — que inspirou o lema Totus Tuus de São João Paulo II.


Toda essa devoção, porém, está ordenada a um único fim: Jesus Cristo, a Sabedoria Eterna e Encarnada de Deus. Esta é a ideia que dá forma a toda a sua espiritualidade, desenvolvida em sua obra mais antiga, O Amor da Sabedoria Eterna. Para Montfort, conhecer Jesus Cristo, Sabedoria encarnada, é conhecer tudo o que é necessário; e a devoção a Maria é o maior de todos os meios e o mais admirável de todos os segredos para obter e conservar a Sabedoria divina.


O Rosário e a renovação das promessas do Batismo são meios concretos privilegiados deste caminho. Montfort, fervoroso pregador do Rosário e autor d'O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, o propõe como uma contemplação de Cristo na escola de Maria. A consagração que ele ensina é, em sua essência, uma renovação perfeita dos votos e promessas do santo Batismo.


Por fim, Montfort une à sua doutrina mariana uma intensa espiritualidade da Cruz. Em sua Carta aos Amigos da Cruz, escrita para as associações que fundou em suas missões, medita as palavras de Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Tudo culmina em seu lema, repetido continuamente em seus escritos e cartas: “Só Deus” (Dieu Seul) — a expressão suprema de uma vida totalmente entregue, por Maria, à glória de Deus.

"Foi por meio da Santíssima Virgem Maria que Jesus veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo." Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 1
Influência

Quem ele influenciou

A herança institucional de Montfort sobreviveu à sua morte prematura (1716): apesar de, ao morrer, suas fundações contarem com pouquíssimos membros, hoje a “Família Montfortina” reúne três congregações. A Companhia de Maria (Montfortinos, padres e irmãos missionários) e as Filhas da Sabedoria (fundadas em 1703 com a Beata Maria Luísa Trichet, dedicadas aos pobres, doentes e à instrução) foram fundadas pelo próprio santo; os Irmãos de São Gabriel, nascidos das pequenas escolas que Montfort abrira para crianças pobres e reorganizados no séc. XIX pelo Pe. Gabriel Deshayes, completam o tríplice ramo. São João Paulo II saudou os três superiores gerais “da Companhia de Maria, dos Irmãos de São Gabriel e das Filhas da Sabedoria”, agradecendo “pela crescente influência deste santo missionário”.A marca mais célebre de Montfort recai sobre São João Paulo II. Em “Dom e Mistério”, o Papa narra que, seminarista oculto durante a ocupação nazista, leu e releu o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” e que essa leitura foi “um momento decisivo (um ponto de viragem) da minha vida”. Dele extraiu o lema episcopal e pontifício “Totus Tuus”: na Carta apostólica “Rosarium Virginis Mariae” (n. 15) afirma que o lema “é por certo inspirado na doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort”, e na encíclica “Redemptoris Mater” (n. 48) recorda “a figura de São Luís Maria Grignion de Montfort, que propõe a consagração a Cristo pelas mãos de Maria, como meio eficaz para os cristãos viverem fielmente os compromissos do Batismo”.Montfort tornou-se mestre reconhecido da consagração mariana e da espiritualidade do Rosário. Pio XII, ao canonizá-lo em 1947, propôs-o como modelo de devoção mariana autêntica, definindo “a Cruz de Jesus e a Mãe de Jesus” como “os dois polos da sua vida pessoal e do seu apostolado”, e apresentou-o como “o guia que vos conduz a Maria e de Maria a Jesus”. Em “Rosarium Virginis Mariae” (n. 8), João Paulo II lembra-o como “autor de uma excelente obra sobre o Rosário”. Hoje seu Tratado alimenta o movimento mundial de consagração total a Jesus por Maria, retomado por santos do séc. XX, como São Maximiliano Kolbe, e por inúmeros fiéis.

Debates

Debates e controvérsias

Oposição jansenista e galicana; proibições de pregar

A pregação de Montfort, mariana, cristocêntrica e popular, chocou-se com o jansenismo rigorista e com correntes galicanas e calvinistas da França do seu tempo. Pio XII recordou que ele suportou “o ódio e as perseguições da parte dos calvinistas e dos jansenistas” e foi posto diante do mundo “como sinal de contradição… incompreendido por uns, exaltado por outros”. A Enciclopédia Católica regista que os jansenistas, irritados com o seu êxito, conseguiam com as suas intrigas o seu banimento do distrito em que estava pregando uma missão — chegando ele a sofrer interdições episcopais de pregar.


O Calvário de Pontchâteau mandado destruir (1710)

Montfort ergueu, com o trabalho gratuito de centenas de camponeses durante cerca de quinze meses, um monumental Calvário em Pontchâteau. Os jansenistas convenceram o governo de que se tratava de uma fortaleza capaz de socorrer rebeldes, e o rei mandou demoli-lo e restaurar o terreno: segundo a Enciclopédia Católica, “por vários meses, quinhentos camponeses, vigiados por uma companhia de soldados, foram obrigados a executar a obra de destruição”. Recebida a notícia, o santo limitou-se a exclamar: “Bendito seja Deus!”.


Tentativa de envenenamento em La Rochelle

O êxito missionário rendeu-lhe atentados. A Enciclopédia Católica narra que em La Rochelle alguns miseráveis puseram veneno na sua tigela de caldo e, apesar do antídoto que tomou, a sua saúde ficou para sempre comprometida. Houve ainda emboscada para assassiná-lo, da qual escapou ao tomar outro caminho por pressentimento.


A linguagem da “escravidão” mariana

A expressão “santa escravidão” de Maria gerou estranheza e suspeita. A Igreja esclareceu tratar-se de uma “escravidão de amor”, livre e cristocêntrica: o próprio Montfort fala da “escravidão de amor e de livre escolha” e adverte que, se a devoção a Nossa Senhora desviasse de Nosso Senhor, deveríamos rejeitá-la como ilusão diabólica. João Paulo II reformulou o aparente paradoxo: “o facto de ‘não ser livre’ no amor não é sentido como escravidão, mas como afirmação da liberdade e da sua realização”.

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