Pintor não identificado, séc. XVII (retrato contemporâneo, c. 1673) · fonte · PD
João Eudes
São João Eudes (Jean Eudes) foi um sacerdote e missionário francês, nascido em Ri, na Normandia, em 14 de novembro de 1601, e falecido em Caen em 19 de agosto de 1680. Após estudar com os jesuítas em Caen, entrou no Oratório de Jesus fundado pelo Cardeal de Bérulle em 1623 e foi ordenado padre em 1625, distinguindo-se no cuidado dos doentes durante as pestes de 1627 e 1631. Incansável pregador de missões populares na Normandia, fundou a Ordem de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio (Caen, 1641), para o amparo das mulheres arrependidas, e a Congregação de Jesus e Maria, os Eudistas (Caen, 1643), dedicada à formação do clero em seminários. Foi o grande apóstolo do culto litúrgico aos Sagrados Corações, celebrando pela primeira vez a festa do Coração de Maria em 1648 e a do Coração de Jesus em 1672, e autor da obra “O Coração Admirável”. Beatificado por Pio X em 1909 e canonizado por Pio XI em 1925, é honrado como pai, doutor e apóstolo do culto litúrgico aos Corações de Jesus e Maria.
Biografia
Infância, formação e vocação
João Eudes (Jean Eudes) nasceu em 14 de novembro de 1601, em Ri, perto de Argentan, na Normandia, França, no seio de uma família camponesa profundamente cristã. Fez seus estudos com os jesuítas em Caen, onde se destacou pela inteligência e pela piedade. Atraído pela vida sacerdotal e pela renovação espiritual do clero francês, ingressou no Oratório de Jesus, fundado pelo Cardeal Pierre de Bérulle, em 25 de março de 1623, sendo ordenado sacerdote em 20 de dezembro de 1625. Logo no início de seu ministério, entregou-se com heroísmo ao cuidado dos doentes durante as graves pestes de 1627 e 1631, administrando os sacramentos aos moribundos; para não contaminar seus confrades, chegou a viver isolado, abrigando-se num grande tonel no meio de um campo.
Missionário e fundador
Dotado de extraordinária eloquência, João Eudes consagrou cerca de meio século à pregação de missões populares, sobretudo na Normandia, totalizando mais de cem missões ao longo da vida. Comovido com a situação das mulheres que desejavam abandonar a prostituição e fazer penitência, fundou em 1641, em Caen, a Ordem de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, confiada a religiosas, para acolhê-las e reconduzi-las à vida cristã. Preocupado igualmente com a formação do clero, e com a aprovação que obteve para tanto, deixou o Oratório e fundou, também em Caen, em 25 de março de 1643, a Congregação de Jesus e Maria, cujos membros ficaram conhecidos como Eudistas, dedicada à educação dos sacerdotes em seminários e à pregação de missões.
Apóstolo dos Sagrados Corações
São João Eudes é reconhecido como o grande apóstolo do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria. Convencido de que o amor de Deus se revela no Coração sacerdotal de Cristo e no Coração materno de Maria, foi o primeiro a compor missas e ofícios próprios em sua honra. Celebrou pela primeira vez a festa do Coração de Maria em 8 de fevereiro de 1648, durante uma missão em Autun, e a festa do Sagrado Coração de Jesus em 20 de outubro de 1672 — anos antes das aparições a Santa Margarida Maria Alacoque em Paray-le-Monial. Dessa devoção nasceu sua obra mais célebre, O Coração Admirável da Santíssima Mãe de Deus (Le Cœur Admirable), tida como o primeiro livro escrito sobre a devoção aos Sagrados Corações.
Últimos anos e legado
Apesar de oposições e dificuldades que enfrentou em vida, João Eudes perseverou na obra dos seminários e na difusão do culto aos Corações de Jesus e Maria. Faleceu em Caen, em 19 de agosto de 1680. Foi beatificado pelo Papa Pio X em 25 de abril de 1909 e canonizado pelo Papa Pio XI em 31 de maio de 1925, na mesma cerimônia que elevou aos altares o Cura d'Ars, São João Maria Vianney. A Igreja o saúda como pai, doutor e apóstolo do culto litúrgico aos Corações de Jesus e Maria; seu legado permanece vivo nos Eudistas e nas religiosas de Nossa Senhora da Caridade, na obra de formação do clero e na devoção aos Sagrados Corações. Sua memória litúrgica é celebrada em 19 de agosto.
O contexto em que viveu
São João Eudes viveu inteiramente dentro do “Grand Siècle” francês, a época em que a monarquia caminhava rumo ao absolutismo. Nasceu sob o reinado de Luís XIII, cujo governo foi dominado pelo cardeal Richelieu, ministro principal de 1624 a 1642, empenhado em afirmar o poder real e quebrar a influência da alta nobreza e dos Parlements. Morto Richelieu em 1642 e o rei no ano seguinte, a regência coube a Ana de Áustria, em nome do menino Luís XIV, tendo por ministro o cardeal Mazarino. Foi sob esse governo que estourou a Fronda (1648–1653), série de guerras civis da nobreza e dos magistrados contra a Coroa; seu fracasso preparou justamente a via do absolutismo do reinado pessoal de Luís XIV, no qual o santo viria a falecer em 1680.
No plano religioso, a França do século XVII aplicava com atraso as reformas do Concílio de Trento, encerrado em 1563. Entre suas determinações mais decisivas estava a obrigação de cada diocese formar adequadamente o seu clero em seminários e a exigência de que os pastores se dedicassem à pregação. A realidade francesa, porém, era de um clero muitas vezes mal formado e de campos espiritualmente abandonados, situação que João Eudes constatou pessoalmente e que daria sentido à sua obra missionária e à fundação dos Eudistas, congregação voltada precisamente à formação dos padres.
Esse esforço de reforma encontrou sua mola mestra na chamada Escola Francesa de espiritualidade. Seu iniciador foi o cardeal Pierre de Bérulle, que em 11 de novembro de 1611, em Paris, fundou o Oratório de Jesus, sociedade de sacerdotes sem votos religiosos consagrada à perfeição sacerdotal, inspirada no Oratório de São Filipe Néri em Roma. Dessa corrente, centrada na adoração do Verbo encarnado e na santidade do sacerdócio, brotaram as grandes congregações do século: os Lazaristas de São Vicente de Paulo, os Sulpicianos de Jean-Jacques Olier (fundador de São Sulpício) e os próprios Eudistas. Charles de Condren, sucessor de Bérulle à frente do Oratório, foi mestre espiritual desse meio. É nesse ambiente — no qual o jovem Eudes ingressou no Oratório — que se forjou a sua devoção aos Sagrados Corações.
Foi também um tempo de provação. A Normandia, terra natal do santo, sofreu duras epidemias de peste: por volta de 1627 João Eudes assistiu os doentes na região de Argentan, e em 1631, quando a peste atingiu Caen, socorreu os apestados — chegando, segundo a tradição, a passar as noites dentro de um tonel no campo para não contaminar os confrades. No plano doutrinal despontava o jansenismo: o Augustinus de Cornélio Jansênio, bispo de Ypres, foi publicado postumamente em 1640 e propagado em torno da abadia de Port-Royal, defendendo uma visão rigorista da graça e desencorajando a frequência aos sacramentos. A pregação de Eudes, centrada na misericórdia e na confiança no Coração de Cristo, situava-se em clara tensão com esse rigorismo.
Por fim, o século XVII viu nascer no plano litúrgico a devoção aos Sagrados Corações, e João Eudes figura como seu precursor. Antes mesmo das aparições a Santa Margarida Maria Alacoque em Paray-le-Monial (1673–1675), ele compôs Missa e Ofício próprios: celebrou pela primeira vez a festa do Coração de Maria em 8 de fevereiro de 1648, em Autun, e a festa do Sagrado Coração de Jesus em 1672. Por isso o Papa Leão XIII, em 1903, ao proclamar suas virtudes heroicas, viria a saudá-lo como autor do culto litúrgico dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
São João Eudes é reconhecido pela Igreja como o pai, doutor e apóstolo do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Muito antes das aparições privadas a Santa Margarida Maria Alacoque (1673–1675), Eudes compôs e celebrou os primeiros textos litúrgicos próprios em honra desses Corações: a Missa e o Ofício do Coração de Maria, celebrados pela primeira vez em 1648, e a Missa e o Ofício do Sagrado Coração de Jesus, com festa observada em 20 de outubro de 1672 com a aprovação de muitos bispos da França. Sua contribuição é, portanto, primeiramente litúrgica e pública — distinta, embora harmônica, do impulso místico que viria de Paray-le-Monial.
Sua teologia brota da Escola Francesa de espiritualidade, na qual se formou no Oratório sob a direção de Pierre de Bérulle e de Charles de Condren. Dela recebe o cristocentrismo radical: a adoração do Verbo Encarnado e a vida nos “estados e mistérios” de Jesus. O cristão é chamado a “viver Jesus” (vivre Jésus), deixando que Cristo continue e consume nele os seus estados — Encarnação, vida oculta, Paixão, morte, Ressurreição e vida gloriosa —, de modo que a vida do Salvador se prolongue nos seus membros.
Desse princípio nasce sua visão do sacerdócio e da formação do clero. Tendo deixado o Oratório, fundou em Caen, em 1643, a Congregação de Jesus e Maria (os Eudistas), dedicada à educação dos sacerdotes e às missões, abrindo seminários para esse fim. Para Eudes, o sacerdócio é prolongamento do sacerdócio de Cristo: os padres são chamados a fazer nascer e formar Jesus Cristo nos corações dos homens e a fazê-lo aí viver e reinar.
Por fim, sua devoção mariana é inseparável da cristológica: o Coração de Maria é contemplado em unidade com o Coração de Jesus. No tratado O Admirável Coração da Santíssima Mãe de Deus — tido como o primeiro livro escrito sobre a devoção aos Sagrados Corações — Eudes funda a contemplação do Coração de Maria e a íntima unidade dos dois Corações, raiz remota da posterior devoção ao Imaculado Coração de Maria unido ao Sagrado Coração de Jesus.
"Considera que Nosso Senhor Jesus Cristo é a tua verdadeira cabeça e que tu és um dos seus membros. Ele pertence-te como a cabeça pertence aos seus membros; tudo o que é dele é teu: o seu espírito, o seu coração, o seu corpo e a sua alma, e todas as suas faculdades. De tudo isto te deves servir como de coisa tua, para servir, louvar, amar e glorificar a Deus. Tu pertences-lhe como os membros pertencem à cabeça. Por isso ele deseja ardentemente servir-se de tudo o que há em ti, como se fosse seu, para o serviço e a glória do Pai." Tratado do Admirável Coração de Jesus, livro 1, cap. 5 (citado no Catecismo da Igreja Católica, n. 1698)
Quem ele influenciou
São João Eudes é reconhecido pela Igreja como o pai, doutor e apóstolo do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Anterior às revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, foi ele quem compôs e celebrou os primeiros Ofícios e Missas próprios desses Corações: a festa do Coração de Maria em 1648 e a do Coração de Jesus em 20 de outubro de 1672. Na encíclica Haurietis Aquas (1956), Pio XII registra expressamente que a São João Eudes se deve o primeiro ofício litúrgico celebrado em honra do Sagrado Coração de Jesus, cuja festa solene, com a aprovação de muitos bispos da França, foi observada pela primeira vez no dia 20 de outubro de 1672.Fundou a Congregação de Jesus e Maria (Eudistas), em Caen, em 25 de março de 1643, voltada à formação do clero diocesano em seminários — então uma novidade pedida pelo Concílio de Trento — e às missões paroquiais. A Congregação perdura hoje: cerca de quinhentos eudistas em torno de vinte países e em quatro continentes (França, África, América Latina, América do Norte e Filipinas), com centenas de associados leigos, dedicados a seminários, paróquias, educação católica, formação de leigos e centros espirituais.Em 1641 fundou também a Ordem de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, para acolher e ajudar mulheres que desejavam mudar de vida. Dessa fundação deriva, no século XIX, a Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor de Angers: Santa Maria Eufrásia Pelletier, formada na Ordem de Nossa Senhora da Caridade e na tradição espiritual eudista, reorganizou a obra sob um governo central para enviar irmãs ao mundo inteiro, sendo a casa-mãe de Angers aprovada por Gregório XVI em 1835.
Debates e controvérsias
A saída do Oratório e a fundação dos Eudistas (1643)
Como superior da casa do Oratório em Caen, João Eudes quis fundar ali um seminário e obteve o apoio do bispo de Bayeux e do Cardeal Richelieu. O projeto contava com o aval do Pe. de Condren, então superior geral, mas seu sucessor, o Pe. Bourgoing, opôs-se à iniciativa. Após muita oração e conselho, Eudes decidiu deixar o Oratório e, em 25 de março de 1643, fundou a Congregação de Jesus e Maria, o que gerou tensão com a congregação de Bérulle.
Oposição ao culto litúrgico dos Corações
Ao difundir a devoção e os novos Ofícios e Missas dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, João Eudes enfrentou oposição, em particular da parte dos jansenistas, contrários a essa piedade afetiva e à novidade do culto. A aprovação romana plena do culto litúrgico levaria muito tempo a consolidar-se, e a obra de Eudes foi reconhecida sobretudo pelos papas posteriores.
Fontes e referências
- vatican.va/content/pius-xii/en/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_15051956_haurietis-aquas.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090819.html
- vatican.va/archive/ENG0015/__P5D.HTM
- newadvent.org/cathen/05596a.htm
- newadvent.org/cathen/05596b.htm
- britannica.com/biography/Saint-John-Eudes
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=135
- bible.usccb.org/bible/readings/0819-memorial-john-eudes.cfm
- liturgies.net/saints/johneudes/readings.htm
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2017-08-19
- encyclopedia.com/people/philosophy-and-religion/roman-catholic-and-orthodox-churches-general-biographies/john-eudes
- eudistes.fr/
- cjm-eudistes.org/
- eudistsusa.org/about-us
- fr.wikipedia.org/wiki/Saint_Jean_Eudes
- en.wikipedia.org/wiki/John_Eudes
- fr.wikipedia.org/wiki/%C3%89glise_Notre-Dame-de-la-Gloriette_de_Caen
- bayeuxlisieux.catholique.fr/diocese/communautes/notre-dame-de-charite-du-bon-pasteur/
- catholicsaints.info/saint-john-eudes/
- catholicnewsagency.com/saint/st-john-eudes-568
- en.wikipedia.org/wiki/Mary_Euphrasia_Pelletier
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