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Medalius · Santos · São Luís Maria Grignion de Montfort
L. São Luís Maria Grignion de Montfort

Orphelinat Notre-Dame de Montfort (autor desconhecido); Wikimedia Commons · fonte · PD

Dia de festa
28 de abril
Status canônico
Santo · canonizado por Pio XII
Santo

São Luís Maria Grignion de Montfort

Apóstolo de Maria · Séc. XVII–XVIII
Lugar: Oeste da França (Bretanha, Vendeia, Poitou)
Estado de vida: sacerdote

São Luís Maria Grignion de Montfort (Montfort-sur-Meu, 31 de janeiro de 1673 — Saint-Laurent-sur-Sèvre, 28 de abril de 1716) foi um sacerdote, missionário, fundador e escritor mariano francês, considerado um dos maiores apóstolos da devoção a Maria na história da Igreja. Formado pelos jesuítas em Rennes e no seminário de Saint-Sulpice, em Paris, foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1700 e, em 1706, recebeu do Papa Clemente XI o título de “missionário apostólico”, percorrendo então o oeste da França pregando missões populares. Fundou a Companhia de Maria (Missionários Montfortinos) e as Filhas da Sabedoria, e da sua obra nasceriam também os Irmãos de São Gabriel. Escreveu obras espirituais que se tornaram clássicos, entre elas o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, O Segredo de Maria e O Segredo do Rosário, nas quais propõe a consagração total a Jesus por Maria que inspirou o lema “Totus Tuus” de São João Paulo II. Beatificado por Leão XIII em 22 de janeiro de 1888 e canonizado por Pio XII em 20 de julho de 1947, não é Doutor da Igreja; sua memória litúrgica é celebrada em 28 de abril. Seus restos mortais repousam na basílica de Saint-Laurent-sur-Sèvre, na Vendeia.

A vida

Infância, formação e ordenação

Luís Maria Grignion nasceu em 31 de janeiro de 1673 em Montfort-sur-Meu, pequena cidade a oeste de Rennes, na Bretanha, França. Foi o filho mais velho sobrevivente da numerosa família de Jean-Baptiste Grignion e de sua esposa Jeanne Robert; mais tarde adotaria o nome do lugar de nascimento, passando a chamar-se Luís Maria de Montfort. Desde a infância destacou-se pela devoção ao Santíssimo Sacramento e à Virgem Maria, a cujo nome acrescentou o seu na Crisma.


Aos doze anos foi enviado como aluno ao colégio jesuíta de São Tomás Becket, em Rennes, onde fez bons estudos e amadureceu as inclinações que marcariam sua vida. Por intermédio de um benfeitor, partiu a pé rumo a Paris, por volta do fim de 1693, para estudar teologia no célebre Seminário de Saint-Sulpice. Foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1700, oficialmente para a diocese de Saint-Malo, e celebrou sua primeira Missa no altar da Santíssima Virgem, na igreja de Saint-Sulpice.


Vida adulta e missão principal

Após breve passagem pela comunidade de Saint-Clément, em Nantes, exerceu em Poitiers o ministério de capelão de hospital, dedicando-se aos pobres e doentes. Ali conheceu a jovem Maria Luísa Trichet, que sentia o chamado à vida religiosa e com quem, em 1703, lançou as bases da congregação das Filhas da Sabedoria.


Em 1706, diante das oposições que encontrava, partiu em peregrinação a Roma para consultar o Papa Clemente XI sobre o que deveria fazer. O Papa o enviou de volta à França com o título de missionário apostólico. A partir de então, durante cerca de dezesseis anos de ministério, pregou missões populares por toda a região oeste da França — Bretanha, Nantes, Luçon, Saintes, La Rochelle e Vendeia —, multiplicando confrarias e erguendo cruzeiros e calvários como lembranças permanentes das missões. Reuniu também os primeiros companheiros sacerdotes na Companhia de Maria (Missionários Montfortinos), e do grupo de irmãos leigos que se reuniram em torno dele nasceriam mais tarde os Irmãos de São Gabriel.


Lutas, oposições e perseguições

O zelo ardente de Montfort e sua pregação mariana e popular suscitaram forte oposição, sobretudo da parte de meios jansenistas e galicanos, que o viam com desconfiança. Em diversas dioceses recebeu proibições de pregar, e missões inteiras lhe foram vedadas por bispos.


O episódio mais célebre foi o do monumental calvário erguido em Pontchâteau, fruto do trabalho de milhares de fiéis: às vésperas de sua bênção, a obra foi proibida e, por ordem régia, mandada destruir. A perseguição chegou ao extremo do atentado contra sua vida: em La Rochelle, puseram veneno em sua tigela de caldo. Embora tenha sobrevivido, sua saúde ficou abalada. Em meio a tudo isso, manteve por divisa o lema “Só Deus” (Dieu Seul).


Últimos anos, morte e legado

Em abril de 1716, então com 43 anos, Montfort chegou a Saint-Laurent-sur-Sèvre, na Vendeia, para iniciar o que seria sua última missão. Ali adoeceu e morreu em 28 de abril de 1716, sendo sepultado entre grande concurso de fiéis; logo se espalharam relatos de milagres junto ao seu túmulo. Seus restos mortais repousam hoje na basílica de Saint-Laurent-sur-Sèvre, ao lado da Beata Maria Luísa de Jesus.


Entre suas obras, destaca-se o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, cujo manuscrito permaneceu desconhecido por mais de um século e foi descoberto em 1842, dando enorme impulso à difusão de sua espiritualidade. Dessa obra brota o ideal da consagração total a Jesus por Maria, sintetizado na expressão “Totus Tuus”, que São João Paulo II adotaria como lema pessoal. Montfort foi beatificado por Leão XIII em 22 de janeiro de 1888 e canonizado por Pio XII em 20 de julho de 1947. Não é Doutor da Igreja; sua memória litúrgica é celebrada em 28 de abril.

Contexto

O contexto em que viveu

São Luís Maria Grignion de Montfort nasceu em 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha, e morreu em 1716, em Saint-Laurent-sur-Sèvre. Sua vida transcorreu quase inteira sob o longo reinado de Luís XIV, o “Rei-Sol” (1643–1715), e seus últimos meses já no início do reinado de Luís XV. Foi a época do apogeu do absolutismo monárquico francês e de fortes tensões entre a Coroa e Roma, marcadas pelo galicanismo — a defesa de “liberdades” da Igreja da França face à autoridade pontifícia —, clima que o próprio Montfort enfrentaria ao buscar, contra obstáculos políticos e eclesiásticos, a aprovação e o amparo da Santa Sé para o seu apostolado.


O cenário religioso era dominado pela controvérsia do jansenismo, corrente rigorista de inspiração no bispo Cornélio Jansênio e ligada ao mosteiro de Port-Royal, que acentuava a indignidade humana, a escassez da graça e um acesso restritivo aos sacramentos. A disputa atingiu seu ponto culminante com a bula Unigenitus, promulgada pelo papa Clemente XI em 8 de setembro de 1713, que condenou 101 proposições extraídas das Réflexions morales de Pasquier Quesnel, a pedido do próprio Luís XIV. Contra esse rigorismo, Montfort pregou incansavelmente a misericórdia divina, a confiança filial e a devoção mariana e ao Santo Rosário.


Montfort formou-se no célebre seminário de Saint-Sulpice, em Paris, instituição fundada por Jean-Jacques Olier, onde estudou em fins do século XVII, sendo ordenado sacerdote em junho de 1700. Ali bebeu diretamente da Escola Francesa de Espiritualidade, grande corrente da Contrarreforma iniciada pelo cardeal Pierre de Bérulle (1575–1629), fundador do Oratório francês, e prolongada por Olier, Charles de Condren e São João Eudes. Centrada no mistério da Encarnação, na vida interior, na santidade sacerdotal e no lugar de Maria no plano da salvação, essa escola promoveu a renovação do clero segundo o Concílio de Trento. O historiador Henri Brémond chamou Montfort de “o último dos grandes berullianos”.


Herdeiro dessa renovação pós-tridentina, Montfort consagrou-se às missões populares no oeste rural da França — o Poitou, a região da futura Vendeia, a Bretanha, Nantes e La Rochelle. Conhecido como “o bom Padre de Montfort”, percorreu o campo reevangelizando paróquias com pregações vivas, procissões, cânticos e o apelo à renovação das promessas batismais, vivendo entre os pobres, num contexto de carências espirituais e de instabilidade social da França rural.


No coração de seu apostolado estava a devoção ao Santo Rosário, que ele difundiu e organizou em confrarias após ingressar, em 1710, na Ordem Terceira de São Domingos. Essa devoção inseria-se na tradição mariana revigorada pela Contrarreforma, especialmente após a vitória cristã na Batalha de Lepanto (1571), atribuída pelo papa São Pio V à intercessão de Nossa Senhora invocada pelo Rosário — origem da festa que viria a chamar-se de Nossa Senhora do Rosário. Pregando a misericórdia e a entrega total a Cristo por Maria, Montfort opôs ao pessimismo jansenista uma espiritualidade de confiança, deixando obras como O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem e O Segredo do Rosário.

Iconografia

Como reconhecer São Luís Maria Grignion de Montfort na arte sacra

Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.

📿
Rosário
Montfort foi o grande apóstolo do Rosário: ingressou na Ordem Terceira de São Domingos e obteve licença não só para pregá-lo, mas para fundar confrarias do Rosário, e escreveu “O Segredo do Rosário”. Por isso é quase sempre representado segurando ou exibindo o terço.
✝️
Crucifixo / Cruz
Apaixonado pela Cruz, ergueu o imenso Calvário de Pontchâteau e fundou os Amigos da Cruz (Amis de la Croix). O crucifixo na mão — recordando o que recebeu de Clemente XI em 1706 — exprime sua espiritualidade da Sabedoria da Cruz e da pregação penitencial.
👸
Imagem de Nossa Senhora / Consagração mariana
Mestre da consagração “a Jesus por Maria” e do lema “Totus Tuus”, ensinava que Maria é o caminho mais seguro, fácil e perfeito de ir a Cristo. Frequentemente aparece com uma estatueta ou imagem da Virgem, ou apontando para ela.
📖
Livro (Tratado da Verdadeira Devoção)
Autor do “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, d'“O Segredo de Maria” e d'“O Segredo do Rosário”, clássicos da espiritualidade mariana. O livro na mão simboliza sua obra doutrinal.
Vestes sacerdotais e de missionário
Padre missionário itinerante, pregou missões populares da Bretanha à Vendeia, ganhando o nome de “o bom Padre de Montfort”. É retratado em batina e vestes de pregador missionário.
😇
Auréola de santo
Beatificado por Leão XIII em 1888 e canonizado por Pio XII em 1947; a auréola indica sua santidade reconhecida pela Igreja.
Cronologia

Linha do tempo

Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.

Vida do santo Mundo no mesmo período
1643
Início do reinado de Luís XIV
Luís XIV torna-se rei da França; seu longo reinado absolutista (o “Rei-Sol”) é o pano de fundo político de toda a vida de Montfort.
1673
Nascimento em Montfort-sur-Meu
Luís Maria Grignion nasce em 31 de janeiro de 1673, na pequena cidade de Montfort-sur-Meu, na Bretanha (França), e é batizado no dia seguinte.
1685
Estudos no colégio jesuíta de Rennes
A partir dos doze anos é enviado como aluno ao Colégio jesuíta de São Tomás Becket, em Rennes, onde recebe formação humanística e desperta sua vocação.
1693
Ida a pé a Paris
No fim de 1693 parte a pé para Paris para estudar teologia, doando pelo caminho suas roupas aos pobres em sinal de abandono à Providência.
1695
Seminário de Saint-Sulpice
Por volta de 1695 entra no seminário de Saint-Sulpice, em Paris, onde se forma na espiritualidade da escola francesa (berulliana) e aprofunda a devoção mariana.
1700
Ordenação sacerdotal
É ordenado padre em 5 de junho de 1700, aos 27 anos, na igreja de Saint-Sulpice, em Paris, celebrando a primeira Missa no altar da Virgem.
1701
Capelão do hospital de Poitiers; encontro com Maria Luísa Trichet
Torna-se capelão do Hospital Geral de Poitiers, onde conhece Maria Luísa Trichet, que se tornaria a “Primeira Filha da Sabedoria”.
1703
Início das Filhas da Sabedoria
Em 2 de fevereiro de 1703, Maria Luísa Trichet recebe das mãos de Montfort o hábito religioso, marco do início das Filhas da Sabedoria, dedicadas ao ensino e ao cuidado dos pobres.
1705
Primeiro membro da Companhia de Maria
Reúne em torno de si o irmão Mathurin Rangeard, considerado o primeiro membro da Companhia de Maria (Missionários Montfortinos).
1706
Peregrinação a Roma; nomeado “Missionário Apostólico”
Diante de oposições, peregrina a Roma; o Papa Clemente XI confirma sua vocação e lhe confere o título e a autoridade de “Missionário Apostólico”, enviando-o de volta à França.
1710
Calvário de Pontchâteau
Entre outubro de 1709 e setembro de 1710, milhares de voluntários erguem o Calvário de Pontchâteau sob sua direção; dias antes da bênção, por ordem de Luís XIV, manda-se destruí-lo.
1710
Ingresso na Ordem Terceira de São Domingos
Em novembro de 1710, Montfort ingressa na Ordem Terceira de São Domingos e obtém licença para pregar o Rosário e fundar confrarias do Rosário.
1712
Redação do “Tratado da Verdadeira Devoção”
Atribui-se ao outono de 1712, durante o retiro no eremitério de Saint-Éloi em La Rochelle, a redação do seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”.
1713
Bula Unigenitus contra o jansenismo
Em 8 de setembro de 1713, o Papa Clemente XI promulga a bula Unigenitus, condenando 101 proposições jansenistas de Pasquier Quesnel; Montfort prega a ortodoxia católica contra o jansenismo então difundido na França.
1715
Consolidação das fundações; profissão religiosa
Em 1715 consolidam-se suas fundações: as primeiras Filhas da Sabedoria fazem os votos religiosos e juntam-se à Companhia de Maria os primeiros padres (Vatel e Mulot); do grupo de irmãos leigos nasceria a congregação dos Irmãos de São Gabriel.
1715
Morte de Luís XIV
Em 1º de setembro de 1715 morre Luís XIV, o “Rei-Sol”, encerrando o mais longo reinado de um monarca soberano da história europeia.
1716
Morte em Saint-Laurent-sur-Sèvre
Morre em 28 de abril de 1716, em Saint-Laurent-sur-Sèvre (Vendeia), aos 43 anos, esgotado pelas missões populares.
1842
Redescoberta do manuscrito do Tratado
Em 22 de abril de 1842, o Pe. Rautureau encontra na casa-mãe de Saint-Laurent-sur-Sèvre o manuscrito perdido do “Tratado da Verdadeira Devoção”; é publicado em 1843.
1888
Beatificação por Leão XIII
É beatificado em 22 de janeiro de 1888 pelo Papa Leão XIII.
1947
Canonização por Pio XII
É canonizado em 20 de julho de 1947 pelo Papa Pio XII.
2002
Citado na Rosarium Virginis Mariae
Na carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (2002), São João Paulo II cita Montfort como autor de uma excelente obra sobre o Rosário e reconhece nele a inspiração do seu lema “Totus Tuus”.
Milagres

Milagres atribuídos à sua intercessão

Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.

Multiplicação de alimento em tempo de fome

Tradição hagiográfica: durante períodos de fome, Montfort teria multiplicado fragmentos de pão e alimento para saciar as multidões de pobres e mendigos que o cercavam em suas missões.

Sobrevivência ao envenenamento em La Rochelle

Atestado pela Enciclopédia Católica: em La Rochelle puseram veneno na sua tigela de caldo; apesar do antídoto que tomou, sua saúde ficou permanentemente comprometida. Considerada um sinal da proteção divina sobre o missionário.

Dom de profecia e pressentimento de perigo

Atestado pela Enciclopédia Católica: Montfort mostrou em várias ocasiões o dom da profecia; numa delas, pressentiu malfeitores escondidos numa rua para assassiná-lo e escapou tomando outro caminho.

1716

Milagres no túmulo de Saint-Laurent-sur-Sèvre

Logo após o seu sepultamento na igreja paroquial de Saint-Laurent-sur-Sèvre (1716), surgiram relatos de milagres e graças obtidas junto ao seu túmulo, que se tornou local de peregrinação.

1888

Milagres aprovados para a beatificação (Leão XIII)

Para a beatificação (1888) a Santa Sé reconheceu curas atribuídas à sua intercessão, entre elas a de irmãs Filhas da Sabedoria de graves paralisias e doenças da medula, e a da menina Reine Mallé, de artrite tubercular do quadril.

1947

Milagres aprovados para a canonização (Pio XII)

Para a canonização (1947) foram reconhecidos dois milagres: a cura da Ir. Gerard of Calvary, em Romsey (Inglaterra), em 1927, de lesão tuberculosa com tuberculose pulmonar; e a cura da Ir. Marie Thérèse, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, em 1934, de meningite tuberculosa.

Suas contribuições à teologia

O coração do pensamento de São Luís Maria Grignion de Montfort é a consagração total a Jesus Cristo por Maria, que ele chama de “santa escravidão de amor”. Para Montfort, este é o caminho mais perfeito, mais seguro e mais fácil para a união plena com Cristo: aquela devoção é a mais perfeita que mais perfeitamente nos conforma, une e consagra a Jesus Cristo; ora, sendo Maria a mais conformada a Jesus, quanto mais uma alma é consagrada a Maria, mais é consagrada a Jesus. Trata-se de uma renovação radical das promessas batismais, na qual a pessoa se entrega inteiramente a Maria, e por Maria a Jesus, dando-lhe corpo, alma, bens interiores e exteriores e até o valor de suas boas obras (Tratado da Verdadeira Devoção, n. 120-121).


Maria nunca é, para Montfort, um fim em si mesma, mas o caminho seguro e mais curto para Jesus. Ele a apresenta como o meio mais seguro, mais fácil, mais curto e mais perfeito de ir a Cristo e de O encontrar perfeitamente. É deste princípio “Ad Jesum per Mariam” (a Jesus por Maria) que nasce a fórmula “Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt” — “Sou todo vosso, e tudo o que tenho é vosso, ó amabilíssimo Jesus, por Maria, vossa santa Mãe” — que inspirou o lema Totus Tuus de São João Paulo II.


Toda essa devoção, porém, está ordenada a um único fim: Jesus Cristo, a Sabedoria Eterna e Encarnada de Deus. Esta é a ideia que dá forma a toda a sua espiritualidade, desenvolvida em sua obra mais antiga, O Amor da Sabedoria Eterna. Para Montfort, conhecer Jesus Cristo, Sabedoria encarnada, é conhecer tudo o que é necessário; e a devoção a Maria é o maior de todos os meios e o mais admirável de todos os segredos para obter e conservar a Sabedoria divina.


O Rosário e a renovação das promessas do Batismo são meios concretos privilegiados deste caminho. Montfort, fervoroso pregador do Rosário e autor d'O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, o propõe como uma contemplação de Cristo na escola de Maria. A consagração que ele ensina é, em sua essência, uma renovação perfeita dos votos e promessas do santo Batismo.


Por fim, Montfort une à sua doutrina mariana uma intensa espiritualidade da Cruz. Em sua Carta aos Amigos da Cruz, escrita para as associações que fundou em suas missões, medita as palavras de Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Tudo culmina em seu lema, repetido continuamente em seus escritos e cartas: “Só Deus” (Dieu Seul) — a expressão suprema de uma vida totalmente entregue, por Maria, à glória de Deus.

Espiritualidade

Espiritualidade e carisma

Escola espiritual

Espiritualidade mariana montfortina (Escola Francesa)

A espiritualidade montfortina é uma corrente da grande Escola Francesa de espiritualidade do século XVII, da qual Montfort foi herdeiro, tendo bebido em autores como Bérulle, Olier e Boudon. Seu princípio organizador é o cristocentrismo: Jesus Cristo, a Sabedoria Eterna e Encarnada de Deus, é o fim único de toda devoção. Seu método próprio é a consagração total a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, a chamada “santa escravidão de amor”, entendida como renovação perfeita das promessas do Batismo. Maria não é fim, mas o caminho mais seguro, fácil, curto e perfeito para a união com Cristo (“a Jesus por Maria”). A devoção é alimentada pelo Rosário, pela imitação das virtudes de Maria e pela participação na Cruz, vivida pelos “Amigos da Cruz”. Tudo se resume no lema “Só Deus” (Dieu Seul), expressão de uma vida inteiramente ordenada à glória de Deus.

Como se vive hoje

A espiritualidade montfortina permanece viva por meio das Famílias Montfortinas — a Companhia de Maria (Missionários Montfortinos), as Filhas da Sabedoria e os Irmãos de São Gabriel. Seu impacto maior no século XX veio de São João Paulo II, cujo lema “Totus Tuus” foi inspirado no Tratado da Verdadeira Devoção e que recomendou Montfort na encíclica Redemptoris Mater e na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae. O Tratado, redescoberto em 1842, difundiu-se mundialmente e é hoje texto de referência do movimento da consagração mariana e dos programas de consagração de 33 dias.

Família espiritual

Ordens, congregações e movimentos

Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.

✝️
1705

Companhia de Maria (Missionários Montfortinos, S.M.M.)

Sociedade de padres e irmãos missionários sonhada por Montfort e iniciada em 1705 com o seu primeiro discípulo, o irmão Mathurin Rangeard. Montfort redigiu a sua Regra. À sua morte (1716), o grupo ainda era diminuto; os padres Adrien Vatel e René Mulot continuaram a obra. A congregação foi reorganizada no séc. XIX pelo Pe. Gabriel Deshayes e canonicamente aprovada com as Filhas da Sabedoria em 1853.

📿
1703

Filhas da Sabedoria (Filles de la Sagesse)

Congregação feminina fundada por São Luís Maria Grignion de Montfort em 2 de fevereiro de 1703, em Poitiers, tendo como primeira Filha da Sabedoria e cofundadora a Beata Marie-Louise Trichet (Madre Maria Luísa de Jesus). Dedicada à imitação da Sabedoria Encarnada, serve sobretudo os pobres e os doentes em obras de caridade, escolas e hospitais.

📖

Irmãos de São Gabriel (Montfort Brothers of St. Gabriel)

Congregação de irmãos educadores com raízes nas escolas para crianças pobres ligadas às missões de Montfort (escola de La Rochelle, 1715), mas que ele não fundou formalmente como instituto. O ramo foi reorganizado de fato no séc. XIX pelo Pe. Gabriel Deshayes (superior geral 1821-1841), com nova Regra e casa própria em Saint-Laurent-sur-Sèvre; a separação jurídica da Companhia de Maria ocorreu em 21 de setembro de 1842.

✝️

Amigos da Cruz (Amis de la Croix)

Associação leiga ligada às missões de Montfort, reunindo os fiéis mais fervorosos para se apoiarem mutuamente no seguimento de Cristo Crucificado. A ela Montfort endereçou a sua célebre “Carta aos Amigos da Cruz”. A tradição situa a sua formação durante as missões, por volta de 1708.

Obras escritas

Suas obras principais

Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem

Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge · redigido c. 1712; manuscrito perdido e redescoberto em 1842; publicado em 1843

Obra mais célebre e madura de Montfort, redigida provavelmente em 1712 e tida por muitos como sua obra-prima mariológica. Propõe a consagração total a Jesus pelas mãos de Maria (a “santa escravidão de amor”). Ficou praticamente desconhecida por mais de um século até o manuscrito ser encontrado por acaso em 1842, na casa-mãe da Companhia de Maria em Saint-Laurent-sur-Sèvre. Dela vem o lema “Totus Tuus”, adotado por São João Paulo II.

O Segredo de Maria

Le Secret de Marie · redigido em vida; publicação póstuma

Apresentação breve, em forma de carta a uma religiosa, da mesma doutrina do Tratado da Verdadeira Devoção. Revela o “segredo” da santidade: encontrá-la em Maria, mediante a consagração total. Inclui a célebre metáfora do “molde de Deus” e orações finais a Jesus e a Maria.

O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário

Le Secret admirable du très saint Rosaire · redigido em vida; não publicado em vida

Tratado popular sobre o valor, o poder e o modo de rezar dignamente o Rosário, organizado em dezenas (“rosas”). Valeu-lhe o título de apóstolo do Rosário e inclui ao final métodos práticos de recitação, recolhendo abundantes exemplos da tradição.

O Amor da Sabedoria Eterna

L'Amour de la Sagesse Éternelle · obra de juventude, redigida em vida; publicação póstuma

Obra de juventude que dá, segundo a fonte montfortina oficial, “o contexto essencial de todos os outros escritos” de Montfort: nela identifica Jesus Cristo com a Sabedoria Eterna e Encarnada de Deus e expõe os meios para adquiri-la, entre eles a tenra devoção a Maria. É tida como sua obra-síntese inicial; ao final traz um Ato de Consagração a Jesus pelas mãos de Maria.

Carta aos Amigos da Cruz

Lettre circulaire aux Amis de la Croix · redigida durante as missões (em vida)

Carta-circular dirigida aos membros das associações dos “Amigos da Cruz” que fundou nas missões. É uma meditação sobre as palavras de Cristo (“quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”), apresentando a abnegação e a participação na Cruz como caminho do verdadeiro discípulo.

Oração Abrasada

Prière embrasée · composta provavelmente para o fim da vida

Súplica ardente a Deus para que conceda missionários (“uma pequena companhia de sacerdotes”) sob o estandarte de Maria, dedicados à pregação aos pobres. Descreve os “apóstolos dos últimos tempos” e forma, com a Regra e a Carta aos membros, o tríptico fundador dos Missionários Montfortinos.

Cânticos

Cantiques · compostos ao longo das missões (em vida); 164 hinos preservados

Vasto conjunto de hinos populares (164 preservados, muitos com trinta ou mais estrofes) que Montfort compôs para as suas missões, frequentemente adaptados a melodias da época. Tinham finalidade catequética e eram cantados em procissões e dramatizações, sendo fonte importante para conhecer a sua espiritualidade.

Regra dos Padres Missionários da Companhia de Maria

Règle des prêtres missionnaires de la Compagnie de Marie · redigida c. 1710-1713

Regra original da Companhia de Maria (Missionários Montfortinos), escrita possivelmente antes mesmo de qualquer sacerdote se juntar a ele. Prevê a disponibilidade itinerante para a pregação aos pobres. Com a Oração Abrasada e a Carta aos membros, forma o “tríptico” aceito pela Santa Sé como fonte da Regra atual.

Regra das Filhas da Sabedoria

Règle des Filles de la Sagesse · redigida em 1715

Regra original da congregação feminina das Filhas da Sabedoria, redigida em 1715. Inspirada em mestres como São Francisco de Sales e São Vicente de Paulo, é seguida de “Conselhos” pessoais do próprio Montfort, incluindo orientações para as escolas de caridade.

Cartas

Lettres · escritas ao longo da vida (c. 1694-1716); 34 preservadas

Conjunto das cartas pessoais conservadas (apenas 34, ou fragmentos, a 14 destinatários, sobretudo seu diretor M. Leschassier, sua irmã e Marie-Louise Trichet). Iluminam especialmente o início da sua vida sacerdotal e ajudam a compreender o autor por trás das obras.

Liturgia

Como a Igreja celebra São Luís Maria Grignion de Montfort

Categoria litúrgica
Memória facultativa
Cor litúrgica
Branco
Dia
28 de Abril
Coleta própriaMissal Romano, 28 de abril (Coleta própria)
Para rezar

Oração a São Luís Maria Grignion de Montfort

Lembrai-Vos, Senhor, da Vossa Congregação, que desde o princípio Vos pertenceu e em quem pensastes desde toda a eternidade; que seguráveis na Vossa mão onipotente quando, com uma palavra, tiráveis do nada o universo; e que escondíeis ainda em Vosso coração quando Vosso Filho, morrendo na cruz, a consagrou por Sua morte...

Novena

Novena a São Luís Maria Grignion de Montfort

Nove dias de oração na escola de São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), padre missionário francês, apóstolo do Rosário e mestre da consagração total a Jesus por Maria (“Totus Tuus”). Esta novena, composta a partir dos fatos confirmados da sua vida e da sua espiritualidade, conduz o fiel a confiar na Providência, a amar a Santíssima Virgem, a abraçar a Cruz e a viver para a glória da Sabedoria Eterna, que é Cristo. Pode ser rezada nos nove dias que antecedem a sua memória litúrgica, em 28 de abril.

Ir para o site
I.

Confiança na Divina Providência

Mt 6,33 — "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em ac..."

II.

Devoção à Santíssima Virgem Maria

Jo 19,27 — "Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe.” E, daquela hora em diante, o discípulo a recebeu em sua..."

III.

Consagração total a Jesus por Maria (Totus Tuus)

Lc 1,38 — "Disse então Maria: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.”"

IV.

O Santo Rosário

Lc 1,46-47 — "Então disse Maria: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvad..."

V.

A Sabedoria Eterna, que é Cristo

1Cor 1,23-24 — "Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, poder de Deus e sabedoria de Deus."

VI.

O amor à Cruz

Mt 16,24 — "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me."

VII.

Zelo missionário pela salvação das almas

Mc 16,15 — "E disse-lhes: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.”"

VIII.

Pobreza e abandono em Deus

Mt 5,3 — "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus."

IX.

Perseverança e santa morte

2Tm 4,7 — "Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé."

Devoções populares

Como o povo reza a São Luís Maria Grignion de Montfort

Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.

Práticas devocionais

Tríduos, novenas e ladainhas

  • Consagração total a Jesus por Maria — A prática mais célebre ligada a São Luís de Montfort, exposta no “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”: entregar-se inteiramente a Jesus pelas mãos de Maria, como renovação plena das promessas do Batismo. No Tratado, Montfort propõe um tempo de preparação de “ao menos um mês”; a difundida preparação de “33 dias” é uma padronização e adaptação posterior dessa proposta, popularizada na prática devocional contemporânea.
  • O Santo Rosário e as confrarias do Rosário — Pregador incansável do Rosário, Montfort fundou confrarias do Santo Rosário nas missões que dirigia e deixou a obra “O Segredo do Rosário”. A devoção montfortina associa firmemente a consagração a Maria à reza diária e meditada do Rosário, contemplando com Nossa Senhora os mistérios da vida de Cristo.
Sacramentais

Medalhas e escapulários

  • Memória litúrgica de 28 de abril — São Luís Maria Grignion de Montfort é celebrado pela Igreja em 28 de abril, dia da sua morte (1716), como memória facultativa. Na Missa do dia reza-se a coleta que pede a graça de meditar os mistérios do amor de Deus e trabalhar na edificação da Igreja, a exemplo do santo.

Tradições populares por região

Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.

FR França

Em Saint-Laurent-sur-Sèvre (Vendeia, França) encontra-se o túmulo do santo, na basílica de São Luís de Montfort, ao lado do túmulo da Beata Marie-Louise Trichet; é meta das Peregrinações Montfortinas, onde São João Paulo II rezou em 1996. O Calvário de Pontchâteau, grande monumento à Cruz erguido por Montfort em 1709-1710, é outro importante centro de peregrinação ligado à sua memória.

BR Brasil

A Companhia de Maria (Missionários Montfortinos, S.M.M.), fundada por Montfort, está presente no Brasil desde os anos 1960, atuando em paróquias de periferias e regiões de missão. Os montfortinos difundem no país os dois grandes ensinamentos do santo: a renovação das promessas do Batismo e a consagração a Jesus pelas mãos de Maria.

Mensagem

O que São Luís Maria Grignion de Montfort nos diz hoje

"Foi por meio da Santíssima Virgem Maria que Jesus veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo."

— Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 1

"A consagração perfeita a Jesus nada mais é do que uma perfeita e completa consagração de si mesmo à Santíssima Virgem, e é nisto que consiste a devoção que ensino; ou, por outras palavras, é a perfeita renovação dos votos e promessas do santo batismo."

— Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 120

"Para ir a Jesus, devemos ir a Maria, nossa medianeira de intercessão. Para ir a Deus Pai, devemos ir a Jesus, nosso Mediador de redenção."

— Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 86

"Esta devoção é um caminho suave, breve, perfeito e seguro para alcançar a união com Nosso Senhor, na qual consiste a perfeição cristã."

— Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 152

"Devemos fazer tudo por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de o fazermos mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus."

— Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 257

"Maria é o eco maravilhoso de Deus. Quanto mais alguém se une a ela, tanto mais eficazmente ela o une a Deus. Quando dizemos “Maria”, ela faz ressoar “Deus”."

— O Segredo de Maria, n. 21

"Maria é chamada por Santo Agostinho, e o é de fato, o “molde vivo de Deus”. Maria é o grande molde de Deus, formado pelo Espírito Santo; todo aquele que nele se lança e se deixa moldar adquire todos os traços de Jesus Cristo."

— O Segredo de Maria, n. 16-17

"Jamais alguém que reze o seu Rosário todos os dias se tornará um herege formal nem será desencaminhado pelo demônio. Esta é uma afirmação que eu assinaria com o meu sangue."

— O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário, n. 78

"Um Amigo da Cruz é alguém escolhido por Deus, dentre milhares que vivem apenas segundo a razão e os sentidos, para ser totalmente divino, elevado acima da mera razão e inteiramente oposto às coisas materiais, vivendo à luz da fé pura e inspirado por um profundo amor à Cruz."

— Carta aos Amigos da Cruz, n. 4

"Ele fixou de tal modo a sua morada na Cruz, que não O encontrareis em parte alguma deste mundo senão na Cruz. De tal modo Se incorporou e uniu à Cruz, que com toda a verdade podemos dizer: a Sabedoria é a Cruz, e a Cruz é a Sabedoria."

— O Amor da Sabedoria Eterna, n. 180

"Eu vos escolho hoje, ó Maria, na presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Senhora. Entrego-me e consagro-me a vós, em corpo e alma, com tudo o que possuo, dando-vos pleno direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem reserva alguma."

— O Amor da Sabedoria Eterna, n. 223-227 (Ato de Consagração)
Frases célebres

Frases para guardar e compartilhar

Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.

Todas 1 consagração total, Totus tuus 1

"Sou todo vosso, e tudo o que tenho é vosso, ó amabilíssimo Jesus, por Maria, vossa santa Mãe. (Tuus totus ego sum, et omnia mea tua sunt.)"

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 233
Influência

A rede de influências espirituais

Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.

Quem o influenciou

Mestres e encontros decisivos

Montfort é herdeiro direto da Escola Francesa de espiritualidade. Formou-se com os sulpicianos em Paris, na linha do cardeal Pierre de Bérulle e de Jean-Jacques Olier (Saint-Sulpice); a crítica chama-o “um dos melhores herdeiros e testemunhas da escola francesa”, e o historiador Henri Brémond definiu-o como “o último dos grandes berullianos”. De Bérulle e Olier — que haviam feito voto de servidão a Maria e a Jesus — recebe o tema da consagração; de São João Eudes toma a unidade do “um só coração” de Jesus e Maria.A fonte imediata da sua “santa escravidão” mariana é Henri-Marie Boudon e a obra Dieu Seul, ou a santa escravidão da admirável Mãe de Deus, cujo contato teve, segundo os estudiosos montfortinos, influência decisiva e permanente na sua vida e nas suas obras — daí também o seu lema “Só Deus” (Dieu Seul). Montfort foi ainda marcado pela tradição dominicana e do Rosário: como Olier, era terciário dominicano, e dela herdou a pregação itinerante e a devoção ao Rosário, na linha de São Domingos.Por fim, ancorou a sua doutrina na tradição patrística e medieval. No “Tratado da Verdadeira Devoção” invoca repetidamente os Padres da Igreja e cita, entre outros, Santo Agostinho, São Bernardo e São João Damasceno, mostrando que a sua devoção mariana se enraíza na Tradição e não em invenção pessoal.

Quem ele influenciou

Discípulos e herdeiros através dos séculos

A herança institucional de Montfort sobreviveu à sua morte prematura (1716): apesar de, ao morrer, suas fundações contarem com pouquíssimos membros, hoje a “Família Montfortina” reúne três congregações. A Companhia de Maria (Montfortinos, padres e irmãos missionários) e as Filhas da Sabedoria (fundadas em 1703 com a Beata Maria Luísa Trichet, dedicadas aos pobres, doentes e à instrução) foram fundadas pelo próprio santo; os Irmãos de São Gabriel, nascidos das pequenas escolas que Montfort abrira para crianças pobres e reorganizados no séc. XIX pelo Pe. Gabriel Deshayes, completam o tríplice ramo. São João Paulo II saudou os três superiores gerais “da Companhia de Maria, dos Irmãos de São Gabriel e das Filhas da Sabedoria”, agradecendo “pela crescente influência deste santo missionário”.A marca mais célebre de Montfort recai sobre São João Paulo II. Em “Dom e Mistério”, o Papa narra que, seminarista oculto durante a ocupação nazista, leu e releu o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem” e que essa leitura foi “um momento decisivo (um ponto de viragem) da minha vida”. Dele extraiu o lema episcopal e pontifício “Totus Tuus”: na Carta apostólica “Rosarium Virginis Mariae” (n. 15) afirma que o lema “é por certo inspirado na doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort”, e na encíclica “Redemptoris Mater” (n. 48) recorda “a figura de São Luís Maria Grignion de Montfort, que propõe a consagração a Cristo pelas mãos de Maria, como meio eficaz para os cristãos viverem fielmente os compromissos do Batismo”.Montfort tornou-se mestre reconhecido da consagração mariana e da espiritualidade do Rosário. Pio XII, ao canonizá-lo em 1947, propôs-o como modelo de devoção mariana autêntica, definindo “a Cruz de Jesus e a Mãe de Jesus” como “os dois polos da sua vida pessoal e do seu apostolado”, e apresentou-o como “o guia que vos conduz a Maria e de Maria a Jesus”. Em “Rosarium Virginis Mariae” (n. 8), João Paulo II lembra-o como “autor de uma excelente obra sobre o Rosário”. Hoje seu Tratado alimenta o movimento mundial de consagração total a Jesus por Maria, retomado por santos do séc. XX, como São Maximiliano Kolbe, e por inúmeros fiéis.

Debates

Debates e controvérsias

As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).

Controvérsias históricas

Os grandes embates de seu tempo

Oposição jansenista e galicana; proibições de pregar

A pregação de Montfort, mariana, cristocêntrica e popular, chocou-se com o jansenismo rigorista e com correntes galicanas e calvinistas da França do seu tempo. Pio XII recordou que ele suportou “o ódio e as perseguições da parte dos calvinistas e dos jansenistas” e foi posto diante do mundo “como sinal de contradição… incompreendido por uns, exaltado por outros”. A Enciclopédia Católica regista que os jansenistas, irritados com o seu êxito, conseguiam com as suas intrigas o seu banimento do distrito em que estava pregando uma missão — chegando ele a sofrer interdições episcopais de pregar.


O Calvário de Pontchâteau mandado destruir (1710)

Montfort ergueu, com o trabalho gratuito de centenas de camponeses durante cerca de quinze meses, um monumental Calvário em Pontchâteau. Os jansenistas convenceram o governo de que se tratava de uma fortaleza capaz de socorrer rebeldes, e o rei mandou demoli-lo e restaurar o terreno: segundo a Enciclopédia Católica, “por vários meses, quinhentos camponeses, vigiados por uma companhia de soldados, foram obrigados a executar a obra de destruição”. Recebida a notícia, o santo limitou-se a exclamar: “Bendito seja Deus!”.


Tentativa de envenenamento em La Rochelle

O êxito missionário rendeu-lhe atentados. A Enciclopédia Católica narra que em La Rochelle alguns miseráveis puseram veneno na sua tigela de caldo e, apesar do antídoto que tomou, a sua saúde ficou para sempre comprometida. Houve ainda emboscada para assassiná-lo, da qual escapou ao tomar outro caminho por pressentimento.


A linguagem da “escravidão” mariana

A expressão “santa escravidão” de Maria gerou estranheza e suspeita. A Igreja esclareceu tratar-se de uma “escravidão de amor”, livre e cristocêntrica: o próprio Montfort fala da “escravidão de amor e de livre escolha” e adverte que, se a devoção a Nossa Senhora desviasse de Nosso Senhor, deveríamos rejeitá-la como ilusão diabólica. João Paulo II reformulou o aparente paradoxo: “o facto de ‘não ser livre’ no amor não é sentido como escravidão, mas como afirmação da liberdade e da sua realização”.

Controvérsias contemporâneas

Polêmicas ainda em aberto

Uma devoção mariana cristocêntrica, não “mariolatria”

A recepção do “Tratado da Verdadeira Devoção” nos séculos XX–XXI consolidou-o como clássico, mas também enfrentou o equívoco de o julgar excessivo ou “mariolatria”. O magistério responde que a devoção montfortina é radicalmente cristocêntrica: Maria leva a Cristo. Pio XII ensinou que a verdadeira devoção “tende essencialmente para a união com Jesus, sob a condução de Maria”; o próprio Montfort declara que, se estabelecemos a sólida devoção a Nossa Senhora, é apenas para estabelecer mais perfeitamente a devoção a Nosso Senhor, oferecendo um caminho suave mas seguro para chegar a Jesus Cristo.


A atualidade da consagração mariana e o “Totus Tuus”

O pontificado de São João Paulo II — todo selado pelo lema montfortino “Totus Tuus” — projetou mundialmente a consagração total a Jesus por Maria. Hoje a prática conhece renovações em massa em paróquias e movimentos, apoiada por obras de divulgação que adaptam o método de preparação de Montfort, frequentemente em 33 dias, apresentando-o ao lado de figuras como São Maximiliano Kolbe, Madre Teresa de Calcutá e João Paulo II. O próprio João Paulo II reconheceu ter experimentado “tão poderosamente na própria vida” este princípio mariano, sinal da permanente atualidade da espiritualidade montfortina.

Relíquias

Relíquias e locais de devoção

Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.

sepultamento original

Sepultamento na igreja paroquial de Saint-Laurent

Igreja paroquial de Saint-Laurent (antiga), Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França · 1716

São Luís Maria foi sepultado no dia seguinte à sua morte (1716), na igreja paroquial de Saint-Laurent, diante do altar de Nossa Senhora. A basílica atual foi erguida sobre o seu túmulo, mantido no mesmo lugar; ao demolir-se a antiga igreja para construir a basílica, a orientação do templo foi girada cerca de 90 graus, mas o túmulo permaneceu no local original.

translacao

Túmulo de honra na Basílica de São Luís Maria de Montfort

Basílica Saint-Louis-Marie-Grignion-de-Montfort, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França · Cripta iniciada em 1888; ciborium inaugurado em 28 de abril de 1922; basílica consagrada em 1962-1963

Sobre o sepulcro do santo foi erguida a basílica romano-bizantina. A cripta começou em 1888 (ano da beatificação), com a primeira pedra em 30 de setembro de 1889. Em 28 de abril de 1922, Mons. Garnier, bispo de Luçon, inaugurou e benzeu o ciborium (baldaquino) que encima os túmulos de São Luís Maria de Montfort e da Beata Marie-Louise Trichet. A basílica foi consagrada em 1962-1963 e elevada a basílica menor por João XXIII.

translacao

Túmulo da Beata Marie-Louise Trichet ao lado

Basílica Saint-Louis-Marie-Grignion-de-Montfort, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França · Falecida em 28 de abril de 1759; túmulo junto ao do santo

Ao lado do túmulo de São Luís Maria repousa o da Madre Marie-Louise de Jésus (Marie-Louise Trichet), cofundadora com ele das Filhas da Sabedoria, falecida também em 28 de abril, no ano de 1759, 43 anos depois de Montfort. Os dois túmulos ficam lado a lado sob o mesmo ciborium.

peregrinacao

Centro de peregrinação montfortina — visita de João Paulo II

Basílica Saint-Louis-Marie-Grignion-de-Montfort, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França · Visita de João Paulo II em 19 de setembro de 1996

A basílica é o principal centro de peregrinação montfortina, recebendo milhares de peregrinos por ano. Em 19 de setembro de 1996, o papa João Paulo II — ligado desde a juventude à espiritualidade montfortina — veio recolher-se em oração diante dos túmulos de São Luís Maria de Montfort e da Beata Marie-Louise.

peregrinacao

Calvário de Pontchâteau

Lande de la Madeleine, Pontchâteau, Loire-Atlantique, França · Erguido por Montfort em 1709-1710; reconstruído em 1821

Monumental calvário concebido por São Luís Maria de Montfort, que pregou uma missão na região de Pontchâteau em 1709. De outubro de 1709 a setembro de 1710, milhares de voluntários ergueram o monumento. Destruído por ordem de Luís XIV, foi reconstruído (bênção em 1821) e ampliado entre 1888 e 1913 pelo missionário montfortino Pe. Jacques Barré. Permanece um destacado local de peregrinação ligado a Montfort.

Onde está São Luís Maria Grignion de Montfort hoje

Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).

Igreja paroquial de Saint-Laurent (antiga), Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França
1716
Basílica Saint-Louis-Marie-Grignion-de-Montfort, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França
Cripta iniciada em 1888; ciborium inaugurado em 28 de abril de 1922; basílica consagrada em 1962-1963
Basílica Saint-Louis-Marie-Grignion-de-Montfort, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França
Falecida em 28 de abril de 1759; túmulo junto ao do santo
Basílica Saint-Louis-Marie-Grignion-de-Montfort, Saint-Laurent-sur-Sèvre, Vendeia, França
Visita de João Paulo II em 19 de setembro de 1996
Local atual (Arca) Sepultamento original Pontos secundários
Curiosidades

Curiosidades sobre São Luís Maria Grignion de Montfort

Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.

📿

O lema “Totus Tuus” (Todo Teu) de São João Paulo II foi inspirado em São Luís de Montfort. O Papa afirmou que ler o Tratado da Verdadeira Devoção foi “um ponto de viragem decisivo na minha vida”.

📜

O manuscrito da sua obra-prima, o “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, ficou escondido por mais de cem anos — guardado em arcas durante a Revolução Francesa — e só foi descoberto por acaso em 22 de abril de 1842, na casa-mãe dos Missionários da Companhia de Maria.

✍️

Acrescentou o nome “Maria” ao seu próprio na Crisma, por amor à Virgem; a partir de então sempre assinou “Luís-Maria de Montfort”.

Mandou erguer o monumental Calvário de Pontchâteau, em que centenas de camponeses trabalharam diariamente, sem pagamento, por cerca de quinze meses. Pouco antes da bênção, o rei Luís XIV ordenou que tudo fosse demolido.

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Em La Rochelle, alguns malfeitores puseram veneno na sua tigela de caldo; apesar do antídoto que tomou, a sua saúde ficou para sempre debilitada.

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O Papa Clemente XI concedeu-lhe o título de “Missionário Apostólico” e enviou-o de volta à França; em cerca de dezesseis anos de ministério, pregou missões populares em quase duzentas paróquias.

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Deixou três famílias religiosas que perduram até hoje: a Companhia de Maria (Missionários Montfortinos), as Filhas da Sabedoria e os Irmãos de São Gabriel.

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Compôs 164 cânticos populares, muitos com trinta ou mais estrofes, usados como ferramenta de catequese adaptada ao povo simples das aldeias a quem pregava nas missões.

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Grande apóstolo do Rosário, ingressou na Ordem Terceira de São Domingos em novembro de 1710 e pediu licença não só para pregar o Rosário, mas também para fundar confrarias do Rosário por onde passasse.

Para estudar mais

Fontes e referências

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Veja também

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