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Medalius · Codex de Personalidades · João Bosco
João Bosco

Atribuída a Carlo Felice Deasti, Turim, 1880 · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
1815–1888 (73 anos)
Lugar
Turim (Valdocco), Itália
Estado canônico
Santo
Escola
Pedagogia salesiana / Sistema Preventivo
Idioma principal
Italiano
Santo

João Bosco

1815–1888
Pai e Mestre da Juventude Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos — S.D.B.)

São João Bosco (Giovanni Melchiorre Bosco), conhecido como Dom Bosco, foi um sacerdote, educador e fundador italiano, nascido em 16 de agosto de 1815 no povoado dos Becchi, em Castelnuovo d'Asti (Piemonte, Itália), e ordenado presbítero em 5 de junho de 1841. Tendo perdido o pai aos dois anos e sido criado pela mãe, Margarida Occhiena (a “Mamãe Margarida”), dedicou a vida aos meninos pobres, órfãos e aprendizes da Turim industrial, a quem reunia com jogos, números de saltimbanco e catequese. Em Turim deu início ao Oratório de São Francisco de Sales, fixado definitivamente no bairro de Valdocco em 1846, e elaborou o Sistema Preventivo de educação, fundado na razão, na religião e na amorevolezza (bondade amorosa). Em 18 de dezembro de 1859 fundou a Sociedade de São Francisco de Sales (os Salesianos) e, em 5 de agosto de 1872, com Santa Maria Domingas Mazzarello, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, criando também os Cooperadores Salesianos e enviando, a partir de 1875, missionários à Argentina e à Patagônia. Devoto ardente de Maria Auxiliadora, ergueu em Turim a basílica dedicada a esse título, consagrada em 1868. Faleceu em Turim a 31 de janeiro de 1888; foi beatificado por Pio XI em 2 de junho de 1929 e canonizado pelo mesmo papa em 1º de abril de 1934. A Igreja o venera como Pai e Mestre da Juventude, título recolhido na própria oração da sua Missa e destacado por São João Paulo II na carta Iuvenum Patris (1988).

Biografia

Infância, formação e vocação

João Melquior Bosco nasceu em 16 de agosto de 1815 no povoado dos Becchi, pertencente ao município de Castelnuovo d'Asti, na região do Piemonte, então Reino da Sardenha. Filho de camponeses pobres, perdeu o pai, Francisco Bosco, quando tinha pouco mais de dois anos, ficando aos cuidados da mãe, Margarida Occhiena, a “Mamãe Margarida”, que teve papel decisivo em sua formação cristã. Os primeiros anos passou-os como pastor, recebendo a primeira instrução do pároco local.


Aos nove anos teve o sonho que marcaria toda a sua vida: viu uma multidão de meninos pobres que brincavam e blasfemavam, e uma figura lhe disse que deveria ganhá-los “não com pancadas, mas com a mansidão e a caridade”. Desde jovem, para reunir e catequizar os companheiros, aprendeu números de saltimbanco e malabarismo — equilibrava objetos, caminhava na corda bamba e fazia jogos — e, ao final, repetia para todos o sermão que ouvira na missa e convidava-os a rezar. Em 1835 entrou no seminário de Chieri e, após seis anos de estudo, foi ordenado sacerdote em 5 de junho de 1841, na véspera da Santíssima Trindade, pelo arcebispo Luigi Fransoni, de Turim.


O Oratório e a missão com a juventude

Em Turim, acompanhando o seu diretor espiritual Dom José Cafasso nas visitas às prisões, Dom Bosco impressionou-se com a sorte dos meninos abandonados e resolveu dedicar a vida a resgatá-los. Em 8 de dezembro de 1841, festa da Imaculada Conceição, na sacristia da igreja de São Francisco de Assis, encontrou o jovem órfão Bartolomeu Garelli, expulso pelo sacristão; Dom Bosco chamou-o de volta e, com uma Ave-Maria rezada juntos, lançou a primeira semente do Oratório.


O Oratório, a princípio itinerante pela cidade, fixou-se definitivamente no bairro de Valdocco no domingo de Páscoa, 12 de abril de 1846, no chamado “galpão Pinardi”, sob o título de Oratório de São Francisco de Sales. Em fevereiro de 1842 o Oratório contava vinte rapazes; em março de 1846, já chegava a quatrocentos. Dom Bosco acolheu meninos pobres e aprendizes, abriu para eles casa e refeitório — com a ajuda da Mamãe Margarida — e, em defesa dos jovens trabalhadores, redigiu alguns dos primeiros “contratos de aprendizagem”. A partir de 1853 instalou no Oratório oficinas de sapataria e de alfaiataria, criando depois escolas e oficinas tipográficas e profissionais.


Fundações e o Sistema Preventivo

Da experiência educativa de Valdocco nasceu o Sistema Preventivo, método assentado em três pilares: a razão, a religião e a amorevolezza (a bondade amorosa). Em vez do castigo, propunha prevenir o mal com a presença afetuosa do educador, formando “bons cristãos e honestos cidadãos” — não basta amar os jovens, é preciso que eles se sintam amados. Em 18 de dezembro de 1859 Dom Bosco reuniu um grupo de colaboradores e jovens e deu forma à Sociedade de São Francisco de Sales, núcleo dos Salesianos; a congregação foi aprovada por Pio IX provisoriamente em 1869 e definitivamente em 1874.


Ardente devoto de Maria sob o título de Auxiliadora dos Cristãos, ergueu em Valdocco a basílica de Maria Auxiliadora, construída entre 1865 e 1868 e consagrada em 9 de junho de 1868. Em 5 de agosto de 1872, em Mornese, fundou com Santa Maria Domingas Mazzarello o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, dedicado à educação cristã das meninas, hoje conhecidas como Irmãs Salesianas. Instituiu ainda os Cooperadores Salesianos, movimento de leigos benfeitores, e, a partir de 1875, enviou os primeiros missionários salesianos à Argentina e à Patagônia, abrindo a expansão missionária da congregação na América do Sul.


Últimos anos e legado

Nos últimos anos, com a saúde debilitada pelo trabalho incessante, Dom Bosco assumiu, a pedido do papa Leão XIII, a construção da basílica do Sagrado Coração em Roma, cuja consagração, em 14 de maio de 1887, acompanhou profundamente comovido. Faleceu em Turim, ao amanhecer de 31 de janeiro de 1888, com quase setenta e três anos. Aos salesianos reunidos junto ao seu leito deixou as últimas recomendações — devoção ao Santíssimo Sacramento, a Maria Auxiliadora e ao Papa — e a promessa: “Dizei aos meus jovens que os espero a todos no Paraíso”.


Por ocasião de sua morte, a Sociedade Salesiana já contava cerca de 250 casas espalhadas pelo mundo, com cerca de 130 mil crianças e jovens atendidos. Dom Bosco foi beatificado por Pio XI em 2 de junho de 1929 e canonizado pelo mesmo papa em 1º de abril de 1934. Sua obra educativa e missionária difundiu-se por todos os continentes, fazendo da Família Salesiana uma das maiores presenças educativas da Igreja. A Igreja saúda-o como Pai e Mestre da Juventude — título presente na oração litúrgica da sua festa e reafirmado por São João Paulo II na carta Iuvenum Patris, de 1988.

Contexto

O contexto em que viveu

São João Bosco viveu na Itália do Risorgimento, o movimento que culminou na unificação política da península. Nascido em 1815 nos arredores de Turim, no Reino da Sardenha (Piemonte) governado pela Casa de Saboia, ele testemunhou a ascensão do Reino piemontês como motor da unificação, conduzida pelo primeiro-ministro Camillo Cavour e pelo general Giuseppe Garibaldi. Em 17 de março de 1861 foi proclamado em Turim o Reino da Itália, com Vítor Emanuel II como rei; em 1870, com a tomada de Roma durante a Guerra Franco-Prussiana, completou-se a unificação e extinguiram-se os Estados Pontifícios, tornando Roma capital do novo reino.


Esse processo trouxe um duro conflito entre a Igreja e o Estado liberal piemontês. As Leis Siccardi (1850) aboliram os foros eclesiásticos e o direito de asilo e restringiram a aquisição de bens pelas instituições religiosas; a chamada Lei Rattazzi (1855) suprimiu numerosas ordens religiosas consideradas sem utilidade social, expropriando conventos e expulsando milhares de religiosos — medida à qual o Papa Pio IX reagiu com excomunhão dos seus autores. Foi nesse clima de anticlericalismo que Dom Bosco fundou suas obras, conseguindo, com prudência e prestígio, manter diálogo tanto com a Santa Sé quanto com o governo italiano e mediar entre ambos.


Turim vivia ao mesmo tempo os efeitos da Revolução Industrial: o êxodo rural lançava nas cidades massas de jovens operários e aprendizes, muitos pobres e abandonados, sem instrução nem amparo. Foi exatamente a esse problema social que respondeu o Oratório de Dom Bosco, oferecendo aos rapazes catequese, escola, ofício e um lar. Em 1854, quando uma violenta epidemia de cólera atingiu Turim e matou milhares, Dom Bosco organizou os jovens do Oratório em equipes para socorrer os doentes e recolher os mortos, dedicação que ficou famosa na cidade.


No plano eclesial, a vida de Dom Bosco se desenrolou sob o longo pontificado de Pio IX (1846–1878), marcado pela definição do dogma da Imaculada Conceição (bula Ineffabilis Deus, 8 de dezembro de 1854), pela publicação do Syllabus dos erros (8 de dezembro de 1864) e pelo Concílio Vaticano I (1869–1870), que definiu a infalibilidade pontifícia. Foi Pio IX quem aprovou a Sociedade Salesiana e incentivou Dom Bosco; e foi seu sucessor, Leão XIII, quem lhe confiou a construção da Basílica do Sagrado Coração em Roma.


A obra de Dom Bosco insere-se também no grande despertar da questão social católica do século XIX. Embora a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII (1891) tenha sido publicada depois da sua morte, ela pertence ao mesmo arco histórico de preocupação da Igreja com os operários e os pobres, do qual o Oratório, as escolas profissionais e a Congregação Salesiana foram uma resposta pioneira e concreta no campo da educação e do trabalho da juventude.

Fatos contextuais
Nascimento nos Becchi
João Melquior Bosco nasce em 16 de agosto de 1815 nos Becchi, aldeia de Castelnu...
Morte do pai Francesco
Quando João tinha pouco mais de dois anos, seu pai Francesco morre (maio de 1817...
O sonho dos nove anos
Por volta dos nove anos, João tem o primeiro de uma série de sonhos: uma Senhora...
Entrada no seminário de Chieri
Em 1835 entra no seminário de Chieri, iniciando seis anos de estudos para o sace...
Ordenação sacerdotal
Em 5 de junho de 1841, véspera da Santíssima Trindade, é ordenado sacerdote pelo...

Suas contribuições à teologia

A grande contribuição de São João Bosco à Igreja é o Sistema Preventivo, um método educativo que ele mesmo descreveu em 1877 no opúsculo Il sistema preventivo nella educazione della gioventù. Dom Bosco parte da distinção entre dois sistemas usados na educação da juventude — o preventivo e o repressivo. Ao sistema repressivo, que consiste em punir o transgressor depois da falta, ele opõe o preventivo, que se apoia em fazer conhecer as regras e depois acompanhar os jovens de modo que tenham sempre sobre si o olhar vigilante e amoroso do educador, que como pai os aconselha e corrige. Em vez de reprimir o mal já cometido, previne-se sua ocorrência pela presença amorosa do educador.


Esse método assenta sobre três pilares, na fórmula que o próprio Dom Bosco fixou e que São João Paulo II retomou na carta Iuvenum Patris (1988): a Razão (ragione), que apela ao convencimento e à liberdade do jovem; a Religião (religione), que dá à educação seu fim último em Deus; e a Amorevolezza (a bondade amorosa, o afeto que se faz perceber), núcleo do estilo salesiano. A finalidade de toda essa pedagogia é formar «buoni cristiani e onesti cittadini» — bons cristãos e honestos cidadãos —, mostrando que não há oposição entre a fé e o compromisso civil.


O segredo prático do Sistema Preventivo é a assistência salesiana: o educador não vigia de longe, mas está presente no meio dos jovens, no pátio e no recreio, como um pai entre os filhos, dando ampla liberdade de saltar, correr e brincar, e fazendo da alegria o ambiente da educação. Dom Bosco sintetizou seu princípio na convicção de que não basta amar os jovens: é preciso que eles percebam que são amados — formulação que São João Paulo II recolhe ao escrever que «i giovani non siano solo amati, ma che essi conoscano di essere amati».


No centro dessa pedagogia está a vida sacramental e mariana. Dom Bosco ensinava que a frequente Confissão, a frequente Comunhão e a Missa quotidiana são as colunas que devem sustentar todo edifício educativo, e São João Paulo II reafirma em Iuvenum Patris que as colunas do edifício educativo são a Eucaristia, a Penitência e a devoção a Nossa Senhora. A esse alicerce une-se a devoção a Maria Auxiliadora (Maria Auxílio dos Cristãos), padroeira da obra salesiana, tudo vivido num clima de alegria, no qual a santidade — como dizia ao seu aluno São Domingos Sávio — consiste em servir ao Senhor estando sempre alegres.


Toda a espiritualidade educativa de Dom Bosco bebe de São Francisco de Sales, o doutor da mansidão e da doçura, de quem ele tomou o nome para a sua Congregação — os Salesianos. Dessa raiz brota o estilo paciente, sereno e cordial do educador salesiano, que conquista o coração do jovem para conduzi-lo a Deus.

"Dá-me almas, leva o resto. (Da mihi animas, cetera tolle.)" Lema pessoal de Dom Bosco / brasão salesiano (cf. Gênesis 14,21)
Influência

Quem ele influenciou

O carisma de São João Bosco deu origem à Família Salesiana, hoje uma das maiores presenças educativas da Igreja Católica. Os seus dois ramos fundamentais são os Salesianos de Dom Bosco (SDB), presentes em mais de 130 países nos cinco continentes, e as Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), cofundadas em 1872 com Santa Maria Domingas Mazzarello. A eles juntam-se os Cooperadores Salesianos (leigos) e a vasta rede de Ex-alunos, somando, com os demais grupos reconhecidos, centenas de milhares de membros dedicados sobretudo à juventude pobre.O seu carisma gerou uma notável colheita de santidade: o seu aluno Santo Domingos Sávio (de quem escreveu a biografia); a cofundadora Santa Maria Domingas Mazzarello; os mártires da China São Luís Versiglia (bispo) e São Calisto Caravario (sacerdote); o coadjutor Santo Artêmides Zatti; os beatos Miguel Rua e Filipe Rinaldi (sucessores de Dom Bosco) e o jovem indígena argentino Beato Zeferino Namuncurá, entre muitos outros santos, beatos e veneráveis da Família Salesiana.Sua pedagogia salesiana, fundada no Sistema Preventivo, marcou profundamente a educação católica da juventude em todo o mundo. Pioneiro na imprensa popular — lançou as Letture Cattoliche (Leituras Católicas, a partir de 1853) e montou uma tipografia onde os jovens aprendiam o ofício de impressor —, Dom Bosco é venerado como padroeiro dos editores e da imprensa católica, título que lhe foi conferido por Pio XII em 1946.

Debates

Debates e controvérsias

Conflito com o arcebispo de Turim (Dom Lorenzo Gastaldi)

Entre 1872 e 1882, Dom Bosco viveu um prolongado e bem documentado conflito com o arcebispo de Turim, Dom Lorenzo Gastaldi, com quem antes mantivera relações de estima e colaboração. A controvérsia girou em torno da autonomia jurídica da nascente Sociedade Salesiana, dos privilégios e isenções obtidos da Santa Sé, e sobretudo das ordenações dos candidatos salesianos, que o arcebispo reivindicava examinar. Frequentemente descrito como um clássico conflito entre autoridade e carisma, o caso foi levado à Santa Sé e encaminhado por uma Concordia imposta por ordem do Papa em 1882, sendo definitivamente resolvido com os privilégios concedidos aos salesianos em 1884.

Suspeitas do governo liberal anticlerical no Risorgimento

Durante o Risorgimento, num clima anticlerical em que o ministro Urbano Rattazzi promovia a supressão das ordens religiosas, a obra de Dom Bosco foi vista com desconfiança por setores do governo liberal. Políticos nacionalistas chegaram a enxergar nos seus jovens reunidos um possível foco de agitação, e os catecismos ao ar livre foram, por alguns, interpretados como atividade política. Ainda assim, Dom Bosco soube cultivar relações pragmáticas — inclusive com o próprio Rattazzi — e levar adiante a sua fundação.

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