Autor desconhecido (acervo cappuccinivenezia.org) · fonte · PD
Lourenço de Brindisi
São Lourenço de Brindisi (1559–1619), de nome secular Giulio Cesare Russo, foi um frade capuchinho italiano, pregador incansável, exímio poliglota e teólogo, eleito Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Conhecedor profundo da Sagrada Escritura nas línguas originais, dedicou-se à pregação aos judeus, à fundação de conventos na Boêmia, Áustria e Alemanha e à defesa da fé católica contra o luteranismo. Foi também capelão militar na vitória cristã de Székesfehérvár (1601) contra os turcos e embaixador junto a príncipes católicos. Morreu em Lisboa em 1619 e foi declarado Doutor da Igreja por São João XXIII em 1959, com o título de “Doutor Apostólico”.
Biografia
Infância, formação e entrada nos Capuchinhos
São Lourenço de Brindisi nasceu em Brindisi, no Reino de Nápoles, em 22 de julho de 1559, filho de Guglielmo de Rossi (Russo), comerciante de origem veneziana, e de Elisabetta Masella, ambos cristãos exemplares. No batismo recebeu o nome de Júlio César (Giulio Cesare Russo). Sua primeira educação foi confiada aos Franciscanos Conventuais de Brindisi.
Órfão de pai ainda menino, transferiu-se para Veneza, onde prosseguiu os estudos junto aos clérigos de São Marcos, sob a tutela de um tio sacerdote. Atraído pela vida franciscana, ingressou na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em Verona, em 1575, recebendo o nome religioso de Frei Lourenço. Fez os estudos de filosofia e teologia na Universidade de Pádua. Dotado de memória prodigiosa, dominava o latim, o grego, o hebraico e diversas línguas semíticas e modernas, a ponto de se dizer que conhecia de cor todo o texto original da Bíblia. Foi ordenado sacerdote em 18 de dezembro de 1582.
Vida adulta e missão principal
Lourenço tornou-se um dos maiores pregadores do seu tempo, requisitado nos púlpitos da Itália e de outras nações. Aproveitando seu domínio do hebraico, o Papa Clemente VIII confiou-lhe a missão de pregar aos judeus de Roma, levando muitos a abraçar a fé cristã.
Exerceu sucessivos cargos de governo na Ordem: foi mestre de noviços, guardião, definidor geral e ministro provincial em diversas regiões (Toscana, Veneza, Suíça). A partir de 1599 foi encarregado de estabelecer conventos capuchinhos na Alemanha, Áustria e Boêmia, fundando, em meio a grandes dificuldades, as casas de Praga, Viena e Graz. No capítulo geral de 24 de maio de 1602 foi eleito Ministro (Vigário) Geral de toda a Ordem dos Capuchinhos, cargo que ocupou até 1605, promovendo a observância, a vida de oração e a expansão missionária.
Lutas e controvérsias
Em plena Contrarreforma, Lourenço foi um ardoroso defensor da fé católica contra o luteranismo nas terras de língua alemã, sustentando controvérsias doutrinais e fortalecendo a presença capuchinha contra o avanço protestante; dessa luta nasceu sua extensa obra polêmica Lutheranismi hypotyposis.
Empenhou-se na articulação da Liga Católica alemã, atuando como embaixador junto a Maximiliano da Baviera e indo à corte de Filipe III de Espanha para angariar seu apoio à Liga. Em 1601, durante a guerra contra os otomanos, serviu como capelão do exército imperial de Rodolfo II e, na batalha de Székesfehérvár (Stuhlweissenburg / Alba Real), animou as tropas cristãs montando a cavalo e tomando a frente do exército de crucifixo na mão, contribuindo para a vitória contra forças turcas muito superiores em número.
Últimos anos, morte em Lisboa e legado
Já idoso e esgotado pelas fadigas, Lourenço aceitou uma última missão diplomática: levar ao rei Filipe III de Espanha as queixas dos napolitanos contra o vice-rei. Cumprida a embaixada, faleceu em Lisboa, em 22 de julho de 1619 — no dia exato em que completava 60 anos.
Deixou vasta obra escrita — sermões, comentários bíblicos, tratados oratórios e escritos polêmicos —, com destaque para o Mariale, coletânea de sermões marianos. Foi beatificado em 1783 pelo Papa Pio VI e canonizado em 8 de dezembro de 1881 pelo Papa Leão XIII. Em 19 de março de 1959, o Papa São João XXIII proclamou-o Doutor da Igreja universal, com o título de “Doutor Apostólico” (Doctor Apostolicus), em razão de sua incansável atividade apostólica e doutrinal. Sua memória litúrgica é celebrada em 21 de julho.
O contexto em que viveu
São Lourenço de Brindisi (1559–1619) viveu no auge da Reforma Católica, a resposta da Igreja à divisão religiosa do século XVI. Quando ele nasceu, em 1559, na Brindisi do Reino de Nápoles, o Concílio de Trento ainda estava reunido; o grande sínodo, iniciado em 1545, só encerraria seus trabalhos em 4 de dezembro de 1563, sob o Papa Pio IV, fixando o programa doutrinal e disciplinar que orientaria toda a vida do santo: catequese sólida, formação do clero, defesa dos sacramentos e da fé contra os erros protestantes.
A própria família religiosa de Lourenço era fruto desse anseio de reforma. Os Capuchinhos, ramo mais austero da Ordem Franciscana nascido do desejo de frei Mateus de Bascio de voltar à observância literal da Regra de São Francisco, haviam sido aprovados pelo Papa Clemente VII pela bula Religionis zelus, de 3 de julho de 1528. Quando o jovem Júlio César Russo entrou para os Capuchinhos em Verona, em 1575, a nova ordem já se firmara como força de pregação popular e de renovação espiritual em toda a Europa católica.
O cenário europeu era de fratura confessional. O luteranismo e o calvinismo haviam se espalhado pela Europa central — Alemanha, Áustria e Boêmia —, e a Igreja respondia enviando pregadores capazes de disputar a doutrina nas praças e nas cortes. Lourenço, poliglota que lia e falava latim, hebraico, grego, alemão, boêmio (tcheco), espanhol e francês, foi um desses grandes polemistas: a partir de 1599 fundou conventos capuchinhos em Praga, Viena e Graz e combateu o erro luterano com a pregação e com a pena, na obra Lutheranismi hypotyposis.
Era também tempo de guerra contra os turcos otomanos. A chamada Guerra Longa (ou Guerra dos Treze Anos), travada na Hungria entre o Sacro Império dos Habsburgo e o Império Otomano de 1593 a 1606, ameaçava o coração da cristandade. Em 1601, nomeado capelão do exército imperial, Lourenço empunhou apenas um crucifixo e animou as tropas cristãs, muito inferiores em número, à vitória sobre os otomanos em Székesfehérvár (Alba Real), na Hungria. O conflito só terminaria com a Paz de Zsitvatorok, em 11 de novembro de 1606.
Por fim, Lourenço atuou na diplomacia da Igreja em meio à crescente polarização que prepararia a Guerra dos Trinta Anos. Frente à União Protestante, fundada em 1608, os príncipes católicos do Império formaram a Liga Católica alemã em 10 de julho de 1609, sob a liderança de Maximiliano I da Baviera. Lourenço serviu como embaixador junto à corte de Munique e foi enviado a Filipe III de Espanha para trazê-lo à Liga, unindo, na sua pessoa, o pregador, o teólogo, o soldado de Cristo e o diplomata da Reforma Católica.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O núcleo do pensamento de São Lourenço de Brindisi é a Sagrada Escritura lida nas línguas originais a serviço da pregação e da defesa da fé. Dotado de memória prodigiosa, dominava o latim, o grego, o hebraico e o siríaco — além do italiano, do alemão, do francês, do espanhol e do tcheco — e conhecia tão profundamente não só a Bíblia, mas também a literatura rabínica, que, ao pregar aos judeus a pedido dos papas, era por eles tido como um dos seus. Para ele, como ensinava, a Palavra do Senhor é luz para o intelecto e fogo para a vontade, a fim de que o homem possa conhecer e amar a Deus.
Sua teologia é cristocêntrica: os seus escritos oferecem uma apresentação orgânica da história da salvação, centrada no mistério da Encarnação, a maior manifestação do amor divino pelos homens. Da contemplação deste mistério brotava a sua incansável atividade apostólica — o vínculo entre vida interior e ação que João XXIII destacaria ao proclamá-lo Doutor da Igreja.
Como teólogo e controversista no contexto da Reforma, Lourenço dedicou-se ao estudo minucioso das obras a favor e contra a doutrina luterana e, em escritos como a Lutheranismi hypotyposis, demonstrava o fundamento bíblico e patrístico de todos os artigos de fé postos em discussão por Martinho Lutero, entre eles o primado de Pedro, a autoridade episcopal e a justificação — sempre a partir das fontes, e não da mera polêmica.
É também um dos grandes mariólogos da Igreja. No Mariale, vasta coletânea de sermões sobre Nossa Senhora, reúne Bíblia, Padres, tradição, teologia e liturgia para exaltar Maria, afirmando com clarividência a Imaculada Conceição e a sua cooperação na obra da redenção realizada por Cristo. Por toda essa atividade — exegese, pregação, mariologia e defesa da fé nascidas da oração — recebeu de João XXIII, em 1959, o título de Doctor apostolicus (“Doutor apostólico”).
"A Palavra do Senhor é luz para o intelecto e fogo para a vontade, a fim de que o homem possa conhecer e amar a Deus. Para o homem interior, que por meio da graça vive do Espírito de Deus, é pão e água, mas pão mais doce que o mel, e água melhor que o vinho e o leite. É um martelo contra um coração duramente obstinado nos vícios. É uma espada contra a carne, o mundo e o demónio, para destruir todo o pecado." Sermão Quaresmal 2 (Sermo Quadragesimalis 2), Opera Omnia, vol. V/1, nn. 48.50.52 — 2ª leitura do Ofício de Leituras de 21 de julho
Quem ele influenciou
São Lourenço de Brindisi foi um dos grandes protagonistas da reforma e da expansão da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos para além da Itália. Eleito várias vezes ministro provincial e definidor geral, e Ministro Geral da Ordem entre 1602 e 1605, deu impulso decisivo à difusão dos Capuchinhos na Europa central, fundando conventos em Praga, Viena e Graz e consolidando a presença da Ordem na Alemanha e na Áustria.Pregador incansável, dotado de raro domínio das línguas antigas (grego, hebraico e siríaco) e modernas (alemão, francês, tcheco), pôs esse saber a serviço da evangelização. Sua pregação, enraizada num conhecimento profundo da Sagrada Escritura, confirmou a fé dos católicos em terras marcadas pela Reforma e reconduziu à Igreja grande número de protestantes. Em Praga, cidade então de maioria reformista e anticatólica, conseguiu fundar um convento e promover o retorno de muitos à fé católica.Teólogo e mariólogo de altíssima qualificação, deixou uma obra que apresenta de modo orgânico a história da salvação, centrada no mistério da Encarnação. Seu Mariale, coletânea de sermões marianos que exalta a Imaculada Conceição e o papel de Maria na obra da redenção, faz dele uma referência da mariologia católica — contribuição reconhecida quando o Papa João XXIII o proclamou Doutor da Igreja em 1959, com o título de Doutor Apostólico.Homem de confiança de Sumos Pontífices e de príncipes católicos, foi-lhe confiada uma série de importantes missões diplomáticas para dirimir controvérsias e favorecer a concórdia entre os Estados europeus. Seu legado literário foi reunido na Opera Omnia, publicada pelos Capuchinhos venezianos em Pádua entre 1928 e 1956, em quinze tomos que abrangem exegese bíblica, teologia, polêmica e sermões.
Debates e controvérsias
A controvérsia antiluterana e o Lutheranismi Hypotyposis
No contexto da Contrarreforma, São Lourenço de Brindisi foi um dos mais firmes controversistas católicos diante do luteranismo. Demonstrando o fundamento bíblico e patrístico de todos os artigos de fé contestados por Martinho Lutero — o primado de Pedro, a autoridade episcopal, a justificação e a necessidade das boas obras —, enfrentou em debate teólogos protestantes. Em Praga, a partir de 1607, em resposta ao pregador luterano Polycarp Leyser, redigiu sua mais extensa obra apologética, o Lutheranismi Hypotyposis, ampla refutação do luteranismo. Trata-se de controvérsia histórica daquele período, hoje lida no horizonte do diálogo e da clareza doutrinal.
O capelão imperial na guerra contra os turcos
Nomeado pelo imperador Rodolfo II capelão do exército imperial, esteve na frente de batalha durante o cerco de Székesfehérvár (Alba Real), na Hungria, em 1601. Diante de tropas cristãs em inferioridade numérica e desanimadas, cavalgou à frente do exército empunhando o crucifixo e exortando os soldados, episódio que ficou célebre na sua biografia. Esse envolvimento de um religioso na esfera militar reflete o entrelaçamento entre fé e poder próprio da Europa de seu tempo.
Diplomacia e a embaixada que terminou em Lisboa (1619)
Sua habilidade como diplomata levou-o a articular a Liga Católica, negociando com Maximiliano da Baviera, e a residir em Munique como representante da causa católica. Sua última missão foi de natureza política e social: a pedido dos nobres e do povo de Nápoles, oprimidos pelo vice-rei espanhol Pedro Téllez-Girón, duque de Osuna, viajou até a corte de Filipe III de Espanha para denunciar os abusos. Foi nessa embaixada, em Lisboa, que faleceu em 22 de julho de 1619, no dia em que completava sessenta anos.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2011/documents/hf_ben-xvi_aud_20110323.html
- vatican.va/content/john-xxiii/la/apost_letters/1959/documents/hf_j-xxiii_apl_19590319_celsitudo-humilitate.html
- newadvent.org/cathen/09359a.htm
- britannica.com/biography/Saint-Lawrence-of-Brindisi
- causesanti.va/it/santi-e-beati/lorenzo-da-brindisi.html
- encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/lawrence-brindisi-st
- capdox.capuchin.org.au/saints-blesseds/saint-lorenzo-da-brindisi/
- franciscanos.org.br/vidacrista/calendario/sao-lourenco-de-brindisi/
- newworldencyclopedia.org/entry/Lawrence_of_Brindisi
- ofmcap.org/en/religionis-zelus-1528/
- revista.arautos.org/sao-lourenco-de-brindisi-ardoroso-defensor-da-fe/
- liturgies.net/saints/lawrenceofbrindisi/readings.htm
- provincia.brindisi.it/index.php/storia-e-tradizioni/i-personaggi/san-lorenzo-da-brindisi
- catholicsaints.info/saint-lawrence-of-brindisi/
- it.wikipedia.org/wiki/Lorenzo_da_Brindisi
- en.wikipedia.org/wiki/Lawrence_of_Brindisi
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