James Doyle Penrose (1862–1932) · fonte · PD
Beda, o Venerável
São Beda, o Venerável (c. 672/673 – 735), foi monge beneditino inglês do mosteiro gêmeo de São Pedro em Wearmouth (Monkwearmouth) e São Paulo em Jarrow, na Nortúmbria, e é tido como o maior erudito da era anglo-saxã. Entregue pelos parentes, aos sete anos de idade, ao abade Bento Biscop e depois educado por Ceolfrid, passou toda a sua vida no mosteiro, dedicando-se inteiramente ao estudo das Escrituras, ao ensino e à escrita. Deixou uma vastíssima obra de comentários bíblicos, tratados de cronologia (o computus pascal), hagiografia e história, coroada pela Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, concluída em 731, que lhe valeu o título de “Pai da História da Inglaterra”. Morreu na véspera da Ascensão, ditando uma tradução do Evangelho de São João para o inglês antigo, e em 1899 foi declarado Doutor da Igreja pelo papa Leão XIII, primeiro inglês entre os Doutores da Igreja e o único a quem a tradição reservou o epíteto de “Venerável”.
Biografia
Infância, formação e entrada no mosteiro
Beda nasceu por volta de 672 ou 673, nas terras pertencentes ao mosteiro gêmeo de Wearmouth-Jarrow, no reino da Nortúmbria, no nordeste da Inglaterra. Em sua nota autobiográfica, ao final da Historia Ecclesiastica, ele próprio recorda que foi entregue ainda criança aos cuidados do mosteiro:
“Nasci no território deste mosteiro e, aos sete anos de idade, fui confiado pelos meus parentes ao reverendíssimo abade Bento e, em seguida, a Ceolfrid, para ser educado.”
O abade Bento Biscop, fundador de Wearmouth, e depois Ceolfrid, abade do mosteiro irmão de Jarrow (fundado em 681/682), foram os mestres que o formaram. Por volta de 686, uma peste assolou a comunidade de Jarrow e, segundo a anônima Vida de Ceolfrid, restaram apenas dois capazes de cantar o ofício completo no coro: o próprio abade Ceolfrid e um menino — quase certamente o jovem Beda —, que juntos mantiveram vivo o canto litúrgico até que a comunidade se restabelecesse.
Vida monástica: estudo, ensino e escrita
Beda foi ordenado diácono aos dezenove anos, por volta de 692, e sacerdote aos trinta, por volta de 703, ambas as ordens conferidas por São João de Beverley, bispo de Hexham e depois de York. Salvo raras visitas a lugares como Lindisfarne e York, jamais deixou o mosteiro, onde passou a vida inteira em oração, estudo e trabalho intelectual. Ele mesmo resumiu sua existência em palavras que se tornaram célebres:
“Passei toda a minha vida neste mosteiro, dedicando-me inteiramente ao estudo das Escrituras; e, em meio à observância da disciplina da Regra e ao encargo diário de cantar na igreja, foi sempre o meu deleite aprender, ou ensinar, ou escrever.”
Graças à riquíssima biblioteca reunida por Bento Biscop e Ceolfrid em suas viagens ao continente, Beda teve acesso a um acervo excepcional para a época, tornando-se um dos mais notáveis eruditos do início da Idade Média.
A obra historiográfica e exegética
A produção de Beda é vastíssima e abrange comentários a quase todos os livros da Sagrada Escritura, tratados de cronologia e cálculo do tempo — como o De temporibus e o De temporum ratione, fundamentais para o computus e a fixação da data da Páscoa —, obras hagiográficas e históricas. Sua obra-prima é a Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (“História Eclesiástica do Povo Inglês”), concluída por volta de 731, que narra a história do cristianismo na Inglaterra desde os primórdios e lhe granjeou o título de “Pai da História da Inglaterra”.
Últimos dias, morte e legado
O relato de sua morte foi conservado por seu discípulo Cutberto na Epístola sobre a morte de Beda (Epistola de obitu Bedae). Já enfermo e com falta de ar, mas sempre alegre e dando graças a Deus, Beda continuou a ensinar e a ditar, trabalhando numa tradução do Evangelho de São João para o inglês antigo e em extratos de Isidoro de Sevilha. Na véspera da Ascensão, o jovem escriba Wilberto lhe disse que faltava ainda uma frase a escrever; Beda respondeu: “Escreve depressa.” Quando o menino anunciou que a última frase estava concluída, o santo disse: “É verdade o que disseste; está terminado.”
Em seguida, sentado no chão de sua cela e cantando “Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo”, entregou a alma a Deus ao pronunciar o nome do Espírito Santo, no dia 26 de maio de 735. Foi sepultado em Jarrow e, mais tarde, suas relíquias foram trasladadas para a catedral de Durham. O epíteto “Venerável” associou-se ao seu nome em poucas gerações após a morte, consagrado pelo uso de Alcuíno e pelo Concílio de Aachen (836). Em 13 de novembro de 1899, o papa Leão XIII declarou-o Doutor da Igreja, o primeiro nativo da Inglaterra a receber esse título e o único a quem se reserva tradicionalmente o epíteto de “Venerável”.
O contexto em que viveu
São Beda, o Venerável, nasceu por volta de 672 ou 673 na Nortúmbria, no nordeste da Inglaterra anglo-saxônica, em uma época em que a fé cristã ainda dava seus primeiros e vigorosos passos entre os povos da ilha. Apenas três quartos de século antes, em 597, o Papa São Gregório Magno enviara o monge Santo Agostinho de Cantuária com seus companheiros para evangelizar os anglo-saxões, e a conversão do rei Etelberto de Kent abrira o caminho para a fé. Na Nortúmbria, a luz do Evangelho chegou com o batismo do rei Edwin em 627, pela pregação de Paulino de Iorque, e foi consolidada sob os santos reis Osvaldo e Osvio, que firmaram o cristianismo no reino do Norte.
O mundo em que Beda viveu foi marcado pelo Sínodo de Whitby, reunido em 664 sob o rei Osvio, que decidiu em favor do cômputo romano da Páscoa, em vez do uso celta e ionano. Aquela decisão pela unidade com Roma constitui o pano de fundo essencial de toda a obra de Beda: a sua paixão pelo computus, a ciência do cálculo da data da Páscoa e do ano litúrgico, e o seu zelo constante para que as Igrejas irlandesas, celtas e dos pictos celebrassem a Páscoa em comunhão com a Sé Apostólica.
Foi também o tempo do chamado Renascimento da Nortúmbria, sua Idade de Ouro cultural. O abade São Bento Biscop fundou o mosteiro de São Pedro em Wearmouth em 674 e, sete anos depois, em 681, o mosteiro de São Paulo em Jarrow, formando um único cenóbio gêmeo. Em suas muitas viagens a Roma, Bento Biscop trouxe livros, relíquias, imagens sagradas, mestres construtores e vidraceiros, e o arquicantor João, para ensinar o canto romano. Daquelas jornadas nasceu a grande biblioteca de Wearmouth-Jarrow, sem a qual a vasta erudição de Beda jamais teria sido possível.
Daquele mesmo scriptorium saiu um monumento incomparável: o Codex Amiatinus, o mais antigo exemplar completo da Bíblia latina da Vulgata que chegou aos nossos dias. Era um dos três grandes códices integrais (pandectes) mandados copiar pelo abade Ceolfrido em Wearmouth-Jarrow. Em 716, já idoso, Ceolfrido partiu rumo a Roma levando esse códice como presente ao Papa Gregório II, mas faleceu no caminho, em Langres, na Borgonha. O Codex Amiatinus permanece como testemunho admirável da cultura monástica nortumbriana, na qual Beda foi formado e à qual deu sua mais alta expressão.
Toda a vida de Beda transcorreu dentro daquele mosteiro, desde que, aos sete anos, foi confiado aos cuidados de Bento Biscop e, depois, de Ceolfrido. Ali, entre a observância da Regra, o canto coral e o estudo das Escrituras, recolheu e transmitiu à jovem Igreja anglo-saxônica a herança dos Padres da Igreja. Foi por meio de sua Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, concluída em 731, e de suas obras de cronologia, que se difundiu o costume de datar os acontecimentos a partir do nascimento de Cristo — o Anno Domini —, dom precioso com que este humilde monge ensinou o mundo a ler a própria história tendo a Encarnação do Senhor como seu verdadeiro centro.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O pensamento de São Beda, o Venerável
No coração do pensamento de Beda está a Sagrada Escritura, fonte constante de sua reflexão teológica. Monge de Wearmouth-Jarrow desde os sete anos de idade, ele leu a Bíblia na grande tradição dos Padres — Agostinho, Ambrósio, Jerônimo e, de modo especial, Gregório Magno —, unindo a escuta atenta daquilo que o texto literalmente diz à sua interpretação espiritual e cristológica. Para Beda, a chave de toda a Escritura é Cristo: o Antigo e o Novo Testamento formam uma só Palavra de Deus e convergem para Ele, na concordia sacramentorum. Toda a sua erudição estava deliberadamente subordinada a esse fim, pois, como afirmou, a Sagrada Escritura está acima de todos os outros livros, antes de tudo pela autoridade que lhe vem de ser divina.
Beda foi, sobretudo, o grande transmissor e sintetizador dos Padres da Igreja para a jovem cristandade anglo-saxônica. Ele mesmo confessa que se dedicou a compor, para uso próprio e de seus irmãos, breves anotações sobre as Escrituras, recolhidas das obras dos veneráveis Padres ou conformes ao sentido e à interpretação por eles dado. A esse serviço pôs todo o seu saber: a gramática, as ciências naturais e, em particular, o computus — a ciência do cálculo do tempo —, que ele desenvolveu cientificamente para fixar a data exata da Páscoa e, com ela, todo o ciclo do ano litúrgico, tornando-se texto de referência para toda a Igreja. No Chronica Maiora deu à cristandade o cômputo da história ab incarnatione Domini, reconhecendo no Nascimento de Cristo o verdadeiro centro do tempo.
Sua visão da história é uma visão de história da salvação. Na Historia Ecclesiastica gentis Anglorum — que lhe valeu o título de “pai da historiografia inglesa” —, Beda está convencido de que a obra do Espírito Santo continua a agir na história. No prefácio dirigido ao rei Ceolwulf explica o porquê de escrever: se a história narra coisas boas de homens bons, o ouvinte atento é movido a imitar o bem; se relata coisas más de homens perversos, o leitor devoto, fugindo do que é nocivo, sente-se ainda mais ardentemente impelido a praticar aquilo que sabe ser bom e digno do serviço de Deus.
Relendo essa herança, o Papa Bento XVI apresentou Beda como modelo luminoso da harmonia entre fé e cultura, entre o estudo e a oração: o monge-sábio que, entrelaçando Bíblia, liturgia e história, soube colocar a ciência a serviço da inteligência da fé e da vida da Igreja. Por suas obras, dizia o Pontífice, Beda contribuiu eficazmente para edificar uma Europa cristã na qual povos e culturas se fundiram numa só fisionomia inspirada pela fé. Sua vida inteira é resumida em suas próprias palavras: no meio da observância da regra monástica e do encargo diário de cantar na igreja, sempre teve prazer em aprender, ou ensinar, ou escrever.
"Entre a observância da disciplina regular e o cuidado diário de cantar na igreja, sempre tive como doçura aprender, ou ensinar, ou escrever." Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, Livro V, cap. 24 (nota autobiográfica)
Quem ele influenciou
A influência de Beda foi imensa e duradoura. Sua obra-prima, a Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (“História Eclesiástica do Povo Inglês”), concluída por volta de 731, é o fundamento de todo o nosso conhecimento sobre a Inglaterra primitiva e valeu-lhe o título de “Pai da História Inglesa” (ou “pai da historiografia inglesa”, na expressão de Bento XVI). Escrita com notável rigor crítico na coleta e no uso das fontes, permanece fonte indispensável para a história anglo-saxônica.Beda teve papel decisivo na difusão da contagem dos anos a partir do nascimento de Cristo, o Anno Domini (AD, “no ano do Senhor”). Embora o método tivesse sido criado por Dionísio, o Exíguo, foi pela popularidade da Historia Ecclesiastica e de seus tratados de cronologia — sobretudo o De temporum ratione (“Sobre o cômputo do tempo”, 725) e o De temporibus (703) — que esse sistema entrou em uso geral no Ocidente, tornando-se a base do calendário cristão. Na Chronica Maiora, Beda fixou a cronologia ab incarnatione Domini que viria a ser a base do calendário universal.Seus comentários bíblicos e suas obras de cômputo foram copiados por toda a Idade Média, e cópias chegaram às bibliotecas monásticas de toda a Europa ocidental. Sua influência foi transmitida ao continente por São Bonifácio, que pedia repetidamente que se transcrevessem e lhe enviassem obras de Beda, e por Alcuíno — formado na escola de York, ligada à tradição de Beda —, que se tornou mestre da escola palatina de Carlos Magno em Aachen, vinculando Beda à renascença carolíngia. Notker Balbulus, abade de Sankt Gallen, comparou Beda a um novo sol que Deus fizera nascer no Ocidente. Dante o colocou entre os espíritos sábios no Céu do Sol (Paraíso X, 130–132), ao lado de Isidoro de Sevilha e Ricardo de São Vítor. Em 1899 foi proclamado Doutor da Igreja — o primeiro nativo da Grã-Bretanha a receber tal título.
Debates e controvérsias
A acusação de heresia sobre a cronologia (Carta a Plegwine, 708)
A principal controvérsia da vida de Beda surgiu de seus cálculos cronológicos. A visão padrão da história universal era a das “Seis Idades do Mundo”. No De temporibus (703), em vez de simplesmente seguir a autoridade recebida, Beda recalculou por si mesmo a idade do mundo e concluiu que Cristo nascera cerca de 3.952 anos após a criação, em lugar dos mais de 5.000 anos então comumente aceitos. Por essa inovação, em 708 alguns monges acusaram-no de heresia diante de Wilfrid, bispo de Hexham, durante um banquete. Wilfrid não respondeu, mas um monge presente relatou o episódio a Beda, que poucos dias depois redigiu sua defesa na Epistola ad Pleguinam (Carta a Plegwine), pedindo que também fosse lida a Wilfrid. A questão foi resolvida: Beda refutou plenamente as acusações e foi vindicado, e sua maneira de calcular as idades do mundo viria a ser retomada por estudiosos posteriores.
O título “Venerabilis” e a lenda do anjo
O epíteto Venerabilis (“Venerável”) associou-se ao nome de Beda já no século IX, em razão de sua fama de santidade e sabedoria — é usado por Alcuíno, Amalário e Paulo Diácono, e o Concílio de Aachen (Aquisgrana, 835–836) refere-se a ele como venerabilis et modernis temporibus doctor admirabilis. Uma lenda posterior, sem fundamento histórico, conta que um monge, ao compor o epitáfio, não conseguia completar o verso “Hac sunt in fossa Bedae … ossa” e, na manhã seguinte, encontrou a lacuna preenchida por anjos com a palavra venerabilis. A própria Enciclopédia Católica adverte que não há autoridade antiga para essa lenda; o título nasceu, na verdade, da veneração real de que Beda já gozava.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/02384a.htm
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090218.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090218.html
- britannica.com/biography/Saint-Bede-the-Venerable
- en.wikipedia.org/wiki/Bede
- en.wikipedia.org/wiki/List_of_works_by_Bede
- gutenberg.org/cache/epub/38326/pg38326.txt
- thelatinlibrary.com/bede/bede5.shtml
- thelatinlibrary.com/bede/bedepraef.shtml
- durhamcathedral.co.uk/explore/treasures-collections/the-venerable-bede
- durhamcathedral.co.uk/explore/treasures-collections/bedes-tomb
- catholicsaints.info/saint-bede-the-venerable/
- mycatholic.life/saints/saints-of-the-liturgical-year/may-25-saint-bede-the-venerable-priest-and-doctor/
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2021-05-25
- franciscanos.org.br/vidacrista/calendario/sao-beda/
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=76
- liturgies.net/saints/bede/readings.htm
- it.wikisource.org/wiki/Divina_Commedia/Paradiso/Canto_X
- dcc.dickinson.edu/bede-historia-ecclesiastica/intro/life-and-work
- academic.oup.com/book/11868/chapter/161010915
- espacoorante.piasdiscipulas.org.br/post/814
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