Clarence Eugene Woodman / The Catholic Publication Society (Manual of Prayers, Baltimore, 1888) · fonte · PD
Anselmo de Cantuária
Santo Anselmo de Cantuária (Anselmo de Aosta), nascido por volta de 1033/1034 em Aosta, no norte da Itália, e falecido em 21 de abril de 1109 em Cantuária, na Inglaterra, foi monge beneditino, prior e abade da Abadia de Bec, na Normandia, e Arcebispo de Cantuária de 1093 a 1109. Doutor da Igreja e chamado "pai da Escolástica", uniu fé e razão sob o lema "fides quaerens intellectum" (a fé que busca a inteligência) e legou obras maiores como o Monologion, o Proslogion — onde formula o célebre argumento ontológico da existência de Deus — e o Cur Deus Homo, sobre a Encarnação e a Redenção. Defensor intrépido da liberdade da Igreja, enfrentou a querela das investiduras com os reis Guilherme II Rufo e Henrique I, o que lhe custou dois exílios, e participou do Concílio de Bari (1098). Sua festa litúrgica é celebrada em 21 de abril, e foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720.
Biografia
Infância, formação e vocação monástica
Santo Anselmo nasceu em 1033 (ou no início de 1034) em Aosta, no norte da Itália, primogénito de uma família nobre. Seu pai, Gundulfo, era um lombardo radicado em Aosta — homem mundano, "dedicado aos prazeres da vida e dissipador dos seus bens" —, enquanto sua mãe, Ermenberga, de antiga família burgúndia, era "mulher de costumes excelsos e de profunda religiosidade", que imprimiu no filho a primeira educação cristã. Anselmo recebeu uma esmerada formação clássica e tornou-se um dos melhores latinistas de seu tempo. Após anos de buscas e de uma relação tensa com o pai, deixou sua terra e, atraído pela fama do mestre Lanfranco de Pavia, chegou por volta de 1059–1060 ao mosteiro beneditino de Bec, na Normandia, onde ingressou como monge e se tornou discípulo predileto de Lanfranco.
Vida adulta e missão
Quando, em 1063, Lanfranco se tornou abade de Caen, Anselmo — após apenas três anos de vida monástica — foi nomeado prior de Bec. À morte de Herluino, fundador e primeiro abade da abadia, foi eleito unanimemente seu sucessor, tornando-se abade de Bec em 1078 (consagrado em fevereiro de 1079). Foi nesse período fecundo que compôs suas grandes obras filosófico-teológicas, entre elas o Monologion e o Proslogion — este originalmente intitulado Fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência"), no qual formula o famoso argumento ontológico da existência de Deus. Sua fama de santidade e sabedoria fez com que, em 1093, o rei Guilherme II Rufo o nomeasse Arcebispo de Cantuária; Anselmo recebeu a solene consagração episcopal em dezembro de 1093.
Lutas e controvérsias
Como arcebispo, Anselmo empenhou-se numa luta enérgica pela liberdade da Igreja, defendendo a independência do poder espiritual diante do temporal no contexto da querela das investiduras. Esse zelo o opôs aos reis Guilherme II Rufo e, depois, Henrique I, e custou-lhe dois exílios: o primeiro de 1097 a 1100 e o segundo a partir de 1103, prolongando-se até 1107. Durante o exílio concluiu na Itália o Cur Deus Homo, sua grande obra sobre a Encarnação e a Redenção. Manteve firme comunhão com os papas Urbano II e Pascoal II, e no Concílio de Bari, em 1098, foi chamado a expor e defender a fé católica — entre ela a doutrina do Filioque — diante dos bispos reunidos.
Últimos anos, morte e legado
Reconciliado com a Coroa, Anselmo pôde regressar definitivamente a Cantuária, onde passou os últimos anos no governo pastoral de sua sede. Faleceu no dia 21 de abril de 1109, em Cantuária, e foi sepultado em sua catedral. Mestre que uniu profundamente fé e razão sob o lema fides quaerens intellectum, é honrado como "pai da Escolástica". Sua festa litúrgica é celebrada em 21 de abril, e em 1720 o Papa Clemente XI proclamou-o Doutor da Igreja.
O contexto em que viveu
Santo Anselmo viveu entre meados do século XI e o início do século XII, uma das épocas mais decisivas da história da Igreja no Ocidente. Nasceu em Aosta, na Alta Borgonha, em 1033 ou início de 1034, e morreu em Cantuária em 1109, cobrindo com sua vida quase todo o arco da chamada Reforma Gregoriana. Foi o tempo em que o Papado, sob Gregório VII (1073–1085), empreendeu a purificação da Igreja contra a simonia (a compra e venda de cargos eclesiásticos) e o nicolaísmo, e reivindicou para a Sé Apostólica a plena liberdade frente ao poder temporal. O Dictatus Papae (1075) condensou essa visão, afirmando o primado romano e o direito exclusivo do Papa de nomear e depor bispos.
Dessa reforma nasceu a Querela das Investiduras, o conflito entre o Sacerdócio e o Império sobre quem podia conferir aos bispos os símbolos de seu ofício. O choque mais célebre opôs Gregório VII ao imperador Henrique IV: depois da excomunhão do imperador (1076), seguiu-se a humilhação de Canossa (janeiro de 1077), e a contenda só se encerraria, em terras do Império, com a Concordata de Worms (1122), já depois da morte de Anselmo. A mesma luta atravessou a Inglaterra e marcaria pessoalmente o futuro arcebispo.
Anselmo era, antes de tudo, um filho da abadia de Bec, na Normandia, que sob a direção de Lanfranco de Pavia se tornara um dos maiores centros intelectuais e monásticos da Europa. Foi de Bec que a Igreja normanda se projetou sobre a Inglaterra após a conquista normanda de 1066: vencida a batalha de Hastings por Guilherme, o Conquistador, e instalada uma nova hierarquia, o próprio Lanfranco passou a arcebispo de Cantuária em 1070. Anselmo seria seu sucessor em 1093, herdando também a tensa relação entre a Igreja inglesa e a Coroa.
Como arcebispo, Anselmo enfrentou dois reis. Guilherme II, o Rufo, ávido das rendas eclesiásticas e cioso de sua autoridade sobre a Igreja, levou-o ao primeiro exílio (a partir de 1097). Já Henrique I reabriu a disputa das investiduras na Inglaterra, provocando o segundo exílio do arcebispo, até o acordo conhecido como Concordata de Londres (1107), em que o rei renunciou ao direito de investir os bispos com báculo e anel, preservando-se apenas a homenagem feudal. Anselmo defendeu, sem ceder, a liberdade da Igreja diante do poder régio.
No plano da fé e da inteligência, o século XI assistia a um verdadeiro renascimento do estudo. Anselmo é justamente celebrado como o pai da Escolástica: sua fórmula fides quaerens intellectum ("a fé que busca compreender") e o argumento do Proslogion (o chamado argumento ontológico da existência de Deus), ao lado do Monologion e do Cur Deus Homo, deram à teologia um novo rigor especulativo, unindo oração e razão.
Por fim, o tempo de Anselmo era também o do recém-consumado Cisma do Oriente (1054), que separara Roma de Constantinopla, tendo entre suas questões o Filioque. No Concílio de Bari (1098), reunido por Urbano II — o mesmo Papa que em 1095, no Concílio de Clermont, pregara a Primeira Cruzada —, coube a Anselmo expor e defender a doutrina latina sobre a processão do Espírito Santo diante dos bispos gregos do sul da Itália. Mundo de reforma, de cruzada e de saber nascente: tal foi o cenário em que se desenrolou a vida deste monge, abade, arcebispo e Doutor da Igreja.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O pensamento de Santo Anselmo de Cantuária (c.1033–1109) é resumido no lema fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência"), título original do seu Proslogion. Herdeiro de Santo Agostinho, ele não opõe fé e razão, mas as une: como afirma na abertura do Proslogion, "Neque enim quaero intelligere ut credam, sed credo ut intelligam" — "não busco compreender para crer, mas creio para compreender" (credo ut intelligam). A razão não cria a fé, mas aprofunda, clarifica e, em certa medida, demonstra aquilo que primeiro se acolhe pela fé.
No Monologion (c.1076), Anselmo propõe estabelecer, "por razões necessárias" e só pela razão, a existência de Deus, sumo bem do qual tudo procede, e a sua natureza. Insatisfeito com a cadeia de argumentos desse livro, escreveu o Proslogion (c.1077-1078) buscando um único argumento que bastasse por si. Ali formula o célebre argumento ontológico: Deus é "aliquid quo nihil maius cogitari possit" — "aquilo de que nada maior se pode pensar" (id quo maius cogitari nequit). Ora, aquilo de que nada maior se pode pensar não pode existir só no entendimento, pois então se poderia pensar algo maior — o mesmo existindo também na realidade; logo, necessariamente existe também na realidade.
O monge Gaunilo, em sua Resposta em favor do insensato, objetou que pelo mesmo raciocínio se provaria a existência de uma "ilha perfeita", a maior que se pode pensar — o que é absurdo. Anselmo respondeu que o argumento vale unicamente para aquilo de que nada maior se pode pensar, ser cuja não-existência é impensável, e não se transfere a coisas finitas como uma ilha.
Na sua obra mais influente em teologia, o Cur Deus Homo ("Por que Deus se fez homem", c.1094-1098), diálogo com o discípulo Boso, Anselmo expõe a teoria da satisfação da Redenção. Pecar "nada mais é do que não dar a Deus o que lhe é devido": o pecado rouba a Deus a honra que lhe pertence. Como a honra subtraída deve ser restituída ou seguir-se o castigo, é necessária uma satisfação proporcional à ofensa. Mas a dívida contra a dignidade infinita de Deus é tão grande que nenhuma criatura pode pagá-la — só Deus o pode; e contudo é o homem que deve pagá-la. Daí a necessidade do Deus-Homem (Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem), o único que pode e deve oferecer essa satisfação, em vez de pagar resgate ao demônio (teoria que Anselmo rejeita).
Anselmo escreveu ainda o De Veritate, onde define a verdade como "retidão" (rectitudo); o De Libertate Arbitrii, em que a liberdade é "o poder de conservar a retidão da vontade por si mesma"; e o De Casu Diaboli, sobre a queda dos anjos. No De Conceptu Virginali et de Originali Peccato tratou da concepção virginal de Cristo e do pecado original; e no De Processione Spiritus Sancti defendeu o Filioque contra os gregos — tese que havia sustentado no Concílio de Bari (1098).
Por unir o rigor lógico à contemplação e abrir o método de "fé que busca compreender" que floresceria com Tomás de Aquino, Anselmo é chamado pai da Escolástica. Foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720.
"Não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Pois também creio nisto: que, se eu não crer, não compreenderei." Proslogion, cap. 1
Quem ele influenciou
Santo Anselmo de Cantuária é tradicionalmente considerado o pai da Escolástica: foi o primeiro a aplicar de modo sistemático a razão dialética à fé, abrindo o caminho que culminaria na grande teologia medieval. Sua máxima fides quaerens intellectum ("a fé que busca a inteligência") tornou-se o programa de toda uma era do pensamento cristão.Sua contribuição mais célebre é o chamado argumento ontológico da existência de Deus, formulado no Proslogion, segundo o qual Deus é "aquilo de que nada maior pode ser pensado" (aliquid quo nihil maius cogitari possit). O argumento atravessou toda a história da filosofia: foi retomado e reformulado por São Boaventura e por João Duns Escoto, mais tarde recuperado por Descartes (na Quinta Meditação) e por Leibniz; foi, por outro lado, rejeitado por Santo Tomás de Aquino — que negava ser a existência de Deus evidente para nós — e criticado por Immanuel Kant, com a objeção de que "a existência não é um predicado real".Na teologia da Redenção, Anselmo deixou marca decisiva com a teoria da satisfação, exposta no tratado Cur Deus Homo ("Por que Deus se fez homem"). Foi a primeira tentativa de explicar de modo sistemático por que o Verbo se encarnou e como a vida, a morte e a ressurreição de Cristo realizaram a salvação; o modelo da satisfação passou a orientar a soteriologia ocidental, substituindo em grande parte a antiga teoria do resgate.Anselmo influenciou também a devoção mariana: suas orações a Maria difundiram a piedade ao seu papel de intercessora e prepararam o terreno para o desenvolvimento da doutrina da Imaculada Conceição, depois defendida por Duns Escoto com apoio em textos anselmianos.Pela profundidade de sua obra, Anselmo foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Clemente XI em 1720.
Debates e controvérsias
A querela das investiduras na Inglaterra
Como Arcebispo de Cantuária (consagrado em 4 de dezembro de 1093), Anselmo defendeu a liberdade da Igreja contra a ingerência régia. Entrou em conflito com o rei Guilherme II Rufo, que lhe exigiu pagamentos e disputou o direito de lhe conferir o pálio; Anselmo recusou-se a recebê-lo das mãos do rei e, em 1097, partiu para o exílio, tendo o monarca confiscado as rendas de Cantuária.
Sob Henrique I, o conflito recrudesceu: Anselmo recusou-se a prestar homenagem ao rei e a receber a investidura episcopal de suas mãos, o que o levou a um segundo exílio (1103). Após encontros em Laigle (1105) e em Bec (1106), chegou-se ao acordo selado no Concílio (Concordata) de Londres de 1107: o rei renunciou a investir os prelados com báculo e anel, enquanto a Igreja admitiu que os bispos prestassem homenagem ao rei pelos bens temporais.
A objeção de Gaunilo ao argumento ontológico
O monge beneditino Gaunilo de Marmoutiers, em seu escrito Em defesa do insensato (Pro insipiente), objetou ao argumento do Proslogion propondo, por analogia, a "ilha perfeita": se o raciocínio de Anselmo fosse válido, poder-se-ia provar a existência da ilha "de que nenhuma maior se pode pensar". Anselmo respondeu na Responsio (Liber apologeticus), sustentando que a analogia não procede, pois só a Deus — e a nada mais — pertence existir necessariamente, de modo que apenas a Ele se aplica o argumento.
O Filioque e o Concílio de Bari (1098)
No Concílio de Bari, convocado pelo Papa Urbano II em 1098, Anselmo foi chamado a defender a doutrina latina da processão do Espírito Santo "também do Filho" (Filioque) diante dos gregos. Sua exposição foi depois desenvolvida no tratado De processione Spiritus Sancti (1102).
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090923.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2009/documents/hf_ben-xvi_aud_20090923.html
- newadvent.org/cathen/01546a.htm
- newadvent.org/cathen/02379b.htm
- britannica.com/biography/Saint-Anselm-of-Canterbury
- plato.stanford.edu/entries/anselm/
- plato.stanford.edu/entries/ontological-arguments/
- iep.utm.edu/anselm-of-centerbury/
- ewtn.com/catholicism/saints/anselm-470
- ewtn.co.uk/saint-anselm-of-canterbury/
- la.wikisource.org/wiki/Proslogion
- logicmuseum.com/wiki/Authors/Anselm/cur_deus_homo/Liber_1
- ewtn.com/catholicism/library/cur-deus-homo-1316
- worldhistory.org/article/2068/anselms-proslogion/
- canterbury-archaeology.org.uk/st-anselm-chapel-painting
- santiebeati.it/dettaglio/26800
- bible.usccb.org/bible/readings/0421-memorial-anselm.cfm
- en.wikipedia.org/wiki/Anselm_of_Canterbury
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