Pular para conteúdo
Medalius · Codex de Personalidades · Pedro Damião
Pedro Damião

Andrea Barbiani (1708-1779) · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
1007–1072 (65 anos)
Lugar
Eremitério de Fonte Avellana, Itália
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Teologia monástica medieval / Reforma Gregoriana
Idioma principal
Latim
Santo · Doutor da Igreja

Pedro Damião

1007–1072
Monitor dos Papas (Monitor Pontificum) Doutor da Igreja O.S.B. (eremitas de Fonte Avellana)

São Pedro Damião (Ravena, c. 1007 – Faenza, 1072) foi monge eremita beneditino, prior do eremitério de Fonte Avellana, cardeal-bispo de Óstia e um dos grandes protagonistas da Reforma Gregoriana. De origem humilde e órfão na infância, tornou-se mestre de artes liberais antes de abandonar o mundo pela vida eremítica, na tradição ascética de São Romualdo. Reformador intransigente, combateu sem trégua a simonia e a incontinência do clero em obras latinas célebres como o Liber Gomorrhianus e o Liber Gratissimus, e foi enviado pelos papas como legado a Milão, à França e à Alemanha. Foi proclamado Doutor da Igreja por Leão XII em 1828, e sua memória litúrgica é celebrada em 21 de fevereiro.

Biografia

Infância, formação e conversão

Pedro Damião nasceu em Ravena, por volta de 1007, numa família de condição modesta. Último de muitos filhos e cedo órfão, conheceu privações na infância: foi a princípio entregue a um irmão que o maltratava e o empregava como pastor de porcos, até que outro irmão, Damião, arcipreste da igreja de Ravena, compadecido, o acolheu e fez educar. Em reconhecida gratidão, juntou ao próprio nome o do irmão, passando a chamar-se Pier Damiani, Pedro de Damião.

Estudou em Ravena, Faenza e Parma, onde, ainda jovem, já se distinguia como afamado mestre de artes liberais, dotado de notável domínio da escrita latina. Por volta de 1034-1035, a contemplação de Deus levou-o a desprender-se gradualmente do mundo e a abraçar a vida eremítica.


Vida adulta e missão principal

Por volta de 1035 retirou-se para o eremitério de Fonte Avellana, nos Apeninos das Marcas, fundado poucos anos antes na esteira da reforma eremítica de São Romualdo, na tradição beneditino-camaldulense. Recebido e logo revestido do hábito monástico, abraçou uma vida de oração, penitência e estudo. Em 1043 foi eleito prior de Fonte Avellana, cargo que conservaria, com sábia moderação da regra, até o fim da vida.

Como prior promoveu uma disciplina ascética rigorosíssima — jejum, vigílias e o uso regular da disciplina (flagelação penitencial) — e fundou eremitérios dependentes em San Severino, Gamugno, Acerata, Murciana, San Salvatore, Sitria e Ocri. Em 1057, contra a própria vontade, foi criado cardeal e consagrado cardeal-bispo de Óstia pelo papa Estêvão IX, tornando-se um dos membros mais influentes do Colégio Cardinalício e dos artífices da reforma da Igreja.


Lutas e controvérsias

Pedro Damião foi um dos maiores protagonistas da reforma que prepararia a Reforma Gregoriana, servindo sob os papas Leão IX, Vítor II, Estêvão IX, Nicolau II e Alexandre II. Combateu sem trégua a simonia e a incontinência do clero: no Liber Gomorrhianus (c. 1049-1051) denunciou com veemência os vícios do clero, e no Liber Gratissimus (c. 1052) tratou da validade das ordenações conferidas por simoníacos. Entre suas obras conta-se ainda o tratado teológico De divina omnipotentia.

Foi muitas vezes enviado como legado papal: a Milão, em 1059, em meio ao conflito da Patária sobre o clero simoníaco e casado; à França, em 1063, em torno das questões da abadia de Cluny; e à Alemanha, em 1069, quando num sínodo em Frankfurt conseguiu dissuadir o rei Henrique IV de repudiar a esposa Berta. Mais de uma vez pediu para renunciar ao cardinalato e regressar ao eremitério, obtendo em 1067 licença para deixar a diocese de Óstia e voltar a Fonte Avellana.


Últimos anos e legado

No início de 1072 foi enviado como legado a Ravena, para reconciliar a cidade com a Santa Sé. No regresso, acometido de febre, deteve-se em Faenza, onde morreu na noite entre 22 e 23 de fevereiro de 1072, no mosteiro beneditino de Santa Maria foris portam (fora dos muros), sendo logo ali sepultado.

Venerado desde logo com culto imemorial, foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Leão XII em 1828, que estendeu sua festa a toda a Igreja. Eremita e cardeal, teólogo e reformador, Pedro Damião permanece um dos grandes mestres da vida monástica e da renovação da Igreja no século XI; sua memória litúrgica é celebrada em 21 de fevereiro.

Contexto

O contexto em que viveu

O século XI, em que viveu São Pedro Damião, foi uma das épocas mais sombrias e, ao mesmo tempo, mais férteis da história da Igreja. O Ocidente latino, fragmentado após a dissolução do Império Carolíngio, vivia sob o feudalismo: bispados, abadias e até a Sé de Roma haviam-se tornado peças no jogo das grandes famílias e dos príncipes leigos. Dois males devoravam o clero por toda a parte: a simonia — a compra e venda de cargos eclesiásticos e de coisas sagradas, assim chamada por causa de Simão Mago — e o nicolaísmo, isto é, a incontinência e o concubinato dos clérigos, que viviam abertamente com mulheres e transmitiam benefícios aos filhos. Tais abusos não eram exceções, mas a regra em muitas regiões da Itália e do Império.


A própria Cátedra de Pedro chegara ao fundo do poço. Em 1046 três homens disputavam o pontificado: Bento IX, Silvestre III e Gregório VI — este último havendo literalmente comprado o múnus papal. Coube ao imperador Henrique III, no Sínodo de Sutri (dezembro de 1046), depor os três e impor um papa alemão reformador, Clemente II, que o coroou imperador. Começava assim a longa obra de purificação que a história conhece como Reforma Gregoriana — nome tomado de Gregório VII, mas movimento muito mais amplo, voltado à integridade moral e à independência do clero diante do poder secular.


A reforma ganhou força com a série de pontífices que governaram a Igreja no tempo de Pedro Damião. São Leão IX (1049-1054) percorreu a Europa promovendo sínodos contra a simonia e a incontinência clerical. Seguiram-se Vítor II, Estêvão IX (ou X) — que em 1057 elevou Pedro Damião, contra a vontade deste, a cardeal-bispo de Óstia —, Nicolau II e Alexandre II. O coração da reforma passou a bater em torno de homens como o monge Hildebrando de Soana, futuro Gregório VII, verdadeiro arquiteto da renovação.


O passo decisivo para libertar o papado do controle leigo foi o decreto In nomine Domini, promulgado por Nicolau II em 13 de abril de 1059: a eleição do Romano Pontífice passava a competir aos cardeais-bispos, reduzindo a ingerência da nobreza romana e do imperador. A medida foi logo provada nos fatos: contra os reformadores ergueram-se antipapas sustentados por interesses leigos — Bento X, em 1058, deposto em favor de Nicolau II, e Honório II (o bispo Cadalo de Parma), erguido em 1061 pela corte imperial em Basileia contra o legítimo Alexandre II. Estava plantada a semente da futura Querela das Investiduras, o grande embate entre o Sacro Império e o Papado sobre quem investiria bispos e abades.


A renovação não vinha só de cima: brotava também do deserto e das ruas. O movimento eremítico, inspirado por São Romualdo (c. 951-1027), fundador de Camaldoli, e encarnado em casas austeras como Fonte Avellana — onde o próprio Damião se fez eremita e prior —, oferecia à Igreja corrompida o testemunho radical da penitência e da pobreza. A grande abadia de Cluny, com sua disciplina monástica, era outro foco de renovação espiritual. E em Milão, a Pataria (c. 1057-1075), movimento popular conduzido por Ariald, Landulfo Cotta e Erlembaldo, sublevava o povo contra o clero simoníaco e amancebado, recebendo em 1063 do papa Alexandre II o estandarte da Santa Sé.


Pairava sobre todo esse período, enfim, a ferida do Cisma de 1054: as excomunhões mútuas entre o legado papal, o cardeal Humberto de Silva Cândida, e o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, sob Leão IX, consumando a separação entre a Igreja do Oriente e a do Ocidente. Foi neste mundo — de papado renascido, império desafiante, eremitas em chamas de reforma e cristandade dilacerada — que Pedro Damião serviu como monge, cardeal e legado, voz incansável da disciplina e da santidade do clero.

Fatos contextuais
Nascimento em Ravena
Pedro Damião nasce em Ravena, caçula de família empobrecida. Órfão cedo, é maltr...
Entrada no eremitério de Fonte Avellana
Após anos como mestre célebre de artes liberais em Parma e Ravena, abandona o mu...
Eleito prior de Fonte Avellana
Torna-se prior de Fonte Avellana, cargo que manterá até a morte. Funda eremitéri...
Sínodo de Sutri
O imperador Henrique III convoca o Sínodo de Sutri, que depõe os três pretendent...
Eleição do papa reformador Leão IX
Sobe ao trono de Pedro Leão IX, que inaugura a grande reforma da Igreja contra a...

Suas contribuições à teologia

No coração do pensamento de Pedro Damião está a convicção de que a vida eremítica e contemplativa é o “vértice da vida cristã”, o ápice dos estados de vida. Na Regra que compôs para Fonte Avellana, exalta o “rigor da ermida”: no silêncio do claustro, o monge vive em oração diurna e noturna, jejum austero, caridade fraterna e obediência. Para ele, a cela é o “locutório no qual Deus conversa com os homens” — e essa busca do silêncio interior para escutar a voz de Deus permanece um caminho de vida para todo batizado, não só para o monge.


Essa solidão, porém, nunca o isolava da Igreja. No tratado Liber “Dominus vobiscum”, respondendo ao eremita Leão — que perguntava se devia dizer “O Senhor esteja convosco” rezando o Ofício sozinho na cela —, Pedro Damião ensina que a liturgia é sempre a oração pública de toda a Igreja, “muitos membros e contudo um só no Espírito Santo”. Por isso o eremita reza no plural mesmo a sós: está unido ao Corpo inteiro de Cristo. Na Carta 28, um lúcido tratado eclesiológico, desenvolve a Igreja como comunhão: ela está toda presente em cada alma, de modo que cada fiel, pelo mistério sacramental, é considerado plenamente Igreja.


Homem de oração, foi também reformador intrépido. Em pleno século XI de simonia e relaxamento, combateu a simonia e a incontinência do clero (em defesa do celibato) em obras que circularam como livros: o Liber Gomorrhianus, denúncia veementíssima dos vícios do clero, e o Liber Gratissimus, sobre a validade das ordenações conferidas por simoníacos. Aceitou, contra a própria vontade, ser cardeal-bispo de Óstia e tornou-se um dos grandes colaboradores dos Papas na reforma da Igreja, percebendo que, para esse serviço, “a contemplação não bastava”.


Como teólogo, soube usar com clareza os termos processio, relatio e persona ao expor o mistério trinitário, e fez da Cruz o centro do mistério cristão: “Quem não ama a Cruz de Cristo não ama Cristo.” No tratado De divina omnipotentia (Carta 119, a Desidério de Monte Cassino), defende a onipotência divina definindo-a com precisão: Deus pode tudo o que é bem — não pode mentir nem fazer o mal, porque o mal é “nada”, e isso não é sinal de impotência. Quanto ao lugar da razão, sustenta que, aplicadas à teologia, a dialética e as demais ciências humanas devem servir “como a serva serve à senhora”, sem pretender o primeiro lugar. Cultivou ainda viva devoção mariana, reorganizando e recomendando o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, e promoveu a penitência da disciplina (flagelação) como caminho de conversão.

"Não ama Cristo quem não ama a Cruz de Cristo." Sermão XVIII, 11 (citado por Bento XVI, Audiência Geral de 9 de setembro de 2009)
Influência

Quem ele influenciou

São Pedro Damião (c. 1007-1072) foi uma das figuras mais decisivas da reforma da Igreja no século XI, preparando diretamente o caminho da chamada Reforma Gregoriana. Monge eremita de Fonte Avellana e depois cardeal-bispo de Óstia, colaborou de perto com os papas reformadores e com Hildebrando, o futuro São Gregório VII, no combate à simonia, ao concubinato do clero e à investidura leiga dos cargos eclesiásticos.Seu legado teológico e espiritual foi imenso: deixou uma vasta obra de cartas, sermões, hagiografias, orações e poemas que fazem dele, no juízo de estudiosos como Jean Leclercq, “um dos melhores latinistas do seu tempo, um dos maiores escritores da Idade Média latina”. Renovou e codificou o ideal eremítico na Regra que escreveu para Fonte Avellana, exaltando o silêncio, o jejum, a caridade fraterna e a obediência, e descrevendo a cela monástica como o “locutório no qual Deus conversa com os homens”.Como teólogo, expôs com clareza a doutrina trinitária empregando os termos processio, relatio e persona, e na sua célebre Carta 28 desenvolveu uma profunda teologia da Igreja como comunhão, ensinando que a Igreja é “una em muitos membros” e está “toda misticamente em cada membro”. Sua defesa da validade dos sacramentos administrados por clérigos simoníacos (no Liber Gratissimus) ajudou a fixar a doutrina católica sobre a eficácia objetiva dos sacramentos.Em reconhecimento à sua santidade e doutrina, o Papa Leão XII proclamou-o Doutor da Igreja em 27 de setembro de 1828. Permanece venerado como modelo de reforma eclesial nascida da conversão pessoal e da primazia de Deus.

Debates

Debates e controvérsias

O “Liber Gomorrhianus” e a denúncia dos vícios do clero

Por volta de 1049-1051, Pedro Damião dirigiu ao Papa Leão IX o tratado Liber Gomorrhianus (“Livro de Gomorra”), uma denúncia veementíssima da corrupção moral do clero — incontinência, concubinato e atos contra a castidade —, propondo penas severas, inclusive a deposição dos clérigos reincidentes. A obra causou grande comoção e atraiu não pouca hostilidade contra o autor. Leão IX louvou o zelo e a motivação de Damião pela castidade do clero, mas, segundo a tradição historiográfica, moderou a aplicação das penas mais duras. O escrito permanece um documento histórico que deve ser lido com sobriedade e fidelidade ao seu contexto reformador.


A validade das ordenações dos simoníacos (Liber Gratissimus)

Diante do debate sobre se eram válidas as ordenações conferidas por bispos que haviam comprado seus cargos (simonia), Pedro Damião escreveu por volta de 1052 o Liber Gratissimus, defendendo a validade desses sacramentos contra os rigoristas que os declaravam nulos. Argumentava que, embora a simonia fosse pecado gravíssimo, a eficácia dos sacramentos — como o batismo e a ordenação — vem do Espírito Santo e de Cristo, e não da dignidade pessoal do ministro. Muito combatida na época, sua posição acabou por prevalecer e fixar a doutrina católica antes do fim do século XII.


Eremitério e cardinalato: uma tensão de toda a vida

Em 1057, com grande pesar, Pedro Damião deixou Fonte Avellana e aceitou — apenas sob pressão — a nomeação para cardeal-bispo de Óstia, entrando plenamente na obra de reforma. Repetidas vezes pediu para ser dispensado do encargo e voltar à vida eremítica; obteve em 1067 autorização para regressar a Fonte Avellana, mas continuou a ser chamado a legações e missões até a morte. Essa tensão entre o desejo da contemplação e o serviço à Igreja atravessou toda a sua existência.


A reserva diante da dialética e da filosofia

Pedro Damião manteve atitude crítica em relação ao uso autônomo da dialética e das artes liberais aplicadas às questões sagradas. É um dos grandes representantes medievais da ideia da philosophia ancilla theologiae (a filosofia como serva da teologia): admitia que a dialética e as demais ciências humanas servissem à teologia “como a serva serve a sua senhora”, sem pretender assumir a direção. Na obra De divina omnipotentia, discutiu os limites do poder divino frente aos dialéticos do seu tempo.

Conheça também

Outras personalidades

!

Encontrou algo incorreto?

Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.

Conheça mais pessoas.

O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.