Francisco Bayeu y Subías (1734–1795); Museo del Prado · fonte · PD
Francisco de Sales
São Francisco de Sales (François de Sales) foi um bispo, escritor espiritual e Doutor da Igreja, nascido em 21 de agosto de 1567 no Château de Sales, em Thorens, no Ducado de Saboia, e falecido em 28 de dezembro de 1622, em Lyon, na França. Formado em retórica no colégio jesuíta de Clermont, em Paris, e doutor em direito civil e canônico por Pádua, renunciou à carreira de magistrado para ser ordenado sacerdote em 1593. Como missionário do Chablais (1594–1598), reconverteu ao catolicismo milhares de calvinistas valendo-se de folhetos impressos — origem de seu futuro padroado sobre escritores e jornalistas. Sagrado bispo de Genebra em 1602, residiu em Annecy, pois a sé estava em mãos calvinistas. Com Santa Joana Francisca de Chantal fundou em 1610 a Ordem da Visitação de Santa Maria, e tornou-se um dos maiores mestres da espiritualidade cristã com a “Introdução à Vida Devota” (1609) e o “Tratado do Amor de Deus” (1616), ensinando que a santidade é acessível a todos os estados de vida. Canonizado em 1665 por Alexandre VII e proclamado Doutor da Igreja por Pio IX em 1877, é conhecido como “Doutor do Amor Divino”; seu corpo repousa na Basílica da Visitação, em Annecy.
Biografia
Infância, formação e juventude
Francisco de Sales nasceu em 21 de agosto de 1567 no Château de Sales, em Thorens, no Ducado de Saboia, primogênito de uma antiga família da aristocracia saboiana. Seu pai, François de Sales de Boisy, e sua mãe, Françoise de Sionnaz, destinavam-lhe uma brilhante carreira civil. Depois dos primeiros estudos nos colégios de La Roche e Annecy, foi enviado a Paris, onde, de 1583 a 1588, estudou retórica e humanidades no colégio de Clermont, dirigido pelos jesuítas. Em seguida cursou direito em Pádua, recebendo o grau de doutor in utroque iure, em direito civil e canônico.
Foi em Paris que o jovem Francisco atravessou uma das provações mais decisivas de sua vida: as acaloradas discussões teológicas sobre a predestinação levaram-no a uma terrível e prolongada tentação de desespero, convencido de que estaria condenado e separado para sempre do amor de Deus. A angústia chegou a abalá-lo fisicamente. A libertação veio quando, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora na igreja de Saint-Étienne-des-Grès, rezou o Memorare, consagrou-se à Virgem Maria e entregou-se inteiramente a Deus, resolvendo amá-Lo ainda que não pudesse vê-Lo no céu. Dessa experiência nasceu a convicção que marcaria toda a sua doutrina: Deus é amor.
Contrariando os planos paternos, renunciou ao cargo de senador e à carreira de magistrado para seguir a vocação sacerdotal. Foi ordenado sacerdote em 1593 e assumiu o cargo de prevosto do cabido da catedral de Genebra.
Vida adulta e missão principal
Em 1594 ofereceu-se voluntariamente para evangelizar a região do Chablais, em torno de Thonon, território recém-devolvido à Saboia onde o calvinismo havia sido imposto. A missão, que se estenderia até 1598, foi árdua e perigosa: Francisco enfrentou hostilidade, frio e ameaças à própria vida. Diante das portas que se fechavam à pregação, recorreu a um meio engenhoso — escreveu folhetos e panfletos expondo a fé católica e refutando os erros calvinistas, que mandava copiar e fazia passar por baixo das portas das casas. Esses escritos, reunidos depois sob o nome de Controvérsias, conquistaram pouco a pouco os ouvintes, e grande parte dos calvinistas retornou à comunhão com a Igreja. Desse zelo apostólico através da palavra escrita nasceria, séculos mais tarde, seu padroado sobre os jornalistas e escritores.
Em 8 de dezembro de 1602 foi sagrado bispo de Genebra. Como a cidade de Genebra permanecia sob domínio calvinista, a sé episcopal estava fixada em Annecy, onde Francisco estabeleceu sua residência e exerceu intensa ação pastoral: pregação, catequese, visitas às paróquias e, sobretudo, a direção espiritual, na qual se revelou mestre incomparável da doçura e da paciência.
Obras, fundação da Visitação e amizade espiritual
Durante a pregação quaresmal de 1604, em Dijon, Francisco conheceu a baronesa Joana Francisca de Chantal, viúva que buscava direção espiritual. Daquela profunda comunhão de almas nasceu uma das mais belas amizades espirituais da história da Igreja. Sob sua orientação, e juntos com Santa Joana Francisca de Chantal, fundou em Annecy, em 1610, a Ordem da Visitação de Santa Maria, destinada a acolher também mulheres que desejavam a vida consagrada sem o rigor físico das ordens tradicionais.
Foi também desse trabalho de direção das almas que brotaram suas duas grandes obras. A Introdução à Vida Devota (1609), escrita inicialmente como cartas de orientação, tornou-se um clássico universal da espiritualidade, defendendo que a verdadeira devoção e a busca da perfeição são possíveis em todos os estados de vida — para o casado, o comerciante, o soldado, e não apenas para os religiosos. O Tratado do Amor de Deus (1616), obra de maior fôlego e profundidade, é uma verdadeira summa da vida mística, na qual expõe o caminho da alma rumo à união de amor com Deus.
Últimos anos, morte e legado
Em dezembro de 1622, de passagem por Lyon ao regressar de uma viagem a serviço da Casa de Saboia, Francisco foi acometido de apoplexia. Morreu em 28 de dezembro de 1622, aos 55 anos. Seu corpo foi trasladado para Annecy, onde repousa na Basílica da Visitação, enquanto seu coração permaneceu em Lyon.
Foi beatificado em 1661 e canonizado em 1665 pelo Papa Alexandre VII. Em 16 de novembro de 1877, o Papa Pio IX proclamou-o Doutor da Igreja universal — o primeiro escritor de língua francesa a receber esse título —, sendo venerado como o “Doutor do Amor Divino”. Em 1923, o Papa Pio XI, na encíclica Rerum omnium perturbationem, declarou-o padroeiro dos escritores e jornalistas. Sua doutrina da santidade acessível a todos inspirou inúmeras correntes espirituais; no século XIX, São João Bosco colocou sob sua proteção e seu nome a Sociedade de São Francisco de Sales — os Salesianos —, perpetuando até hoje a espiritualidade marcada pela doçura, pela alegria e pela confiança no amor de Deus.
O contexto em que viveu
São Francisco de Sales nasceu em 1567, apenas quatro anos depois do encerramento do Concílio de Trento (1545–1563), o grande concílio da Reforma Católica que reafirmou a doutrina da Igreja diante do protestantismo e lançou um vasto programa de renovação do clero, da catequese e da vida cristã. Toda a existência de Francisco se desenrola dentro desse esforço de aplicação de Trento: ele encarna o tipo de bispo zeloso, pregador e catequista que o concílio sonhara, e a sua obra escrita levou o ideal tridentino de santidade para muito além dos claustros, até os leigos no meio do mundo.
O cenário imediato era marcado pela divisão religiosa da Europa. A poucos quilômetros de Annecy, a cidade de Genebra havia se tornado a capital do calvinismo, a “Roma protestante”: ali João Calvino organizara a sua reforma e, após a sua morte em 1564, o seu discípulo Teodoro de Beza continuava a dirigir a cidade como foco irradiador do calvinismo em toda a Europa. Por isso o título de Francisco — Bispo de Genebra — era, na prática, o de um bispo no exílio, residindo em Annecy, pastoreando um território em grande parte ganho pela Reforma.
Na vizinha França, as guerras de religião (1562–1598) ensanguentavam o reino, opondo católicos e huguenotes (calvinistas franceses) por mais de três décadas. Francisco estudou em Paris justamente nos anos mais agudos desse conflito. As guerras só terminaram com a conversão de Henrique IV ao catolicismo e a promulgação do Édito de Nantes (1598), que concedeu tolerância limitada aos protestantes e pacificou o reino. Esse mesmo ano de 1598 viu o ápice da missão de Francisco no Chablais.
Politicamente, Francisco era súdito do Ducado de Saboia, governado pelo ambicioso duque Carlos Emanuel I. Foi sob a proteção e o impulso do duque que se deu a reconquista católica do Chablais, região às margens do lago de Genebra que passara ao calvinismo na ocupação bernesa. Em 1594, recuperada a região, o bispo de Genebra enviou para lá o jovem proboste Francisco de Sales, que, durante quase quatro anos heroicos, reconverteu a população não pela força, mas pela pregação, pela caridade e pela distribuição de pequenos folhetos doutrinais que ele mesmo redigia.
Por fim, a vida de Francisco coincide com a primavera espiritual do início do século XVII, o chamado “humanismo devoto” francês — corrente que aliava cultura, doçura e profundidade interior, e que teria entre os seus expoentes o cardeal Pierre de Bérulle. Nesse clima de renovação, a Introdução à Vida Devota (1609) e o Tratado do Amor de Deus (1616) propuseram uma novidade decisiva: a santidade é possível e devida a todos os estados de vida, e não apenas aos religiosos. Com Santa Joana de Chantal, ele traduziu essa intuição em uma nova forma de vida consagrada, a Ordem da Visitação (1610). Doutor da Igreja proclamado em 1877, Francisco de Sales é uma das grandes figuras da Contrarreforma e o mestre por excelência da espiritualidade dos leigos.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O coração da doutrina de São Francisco de Sales é a convicção de que a santidade e a devoção são acessíveis a todos os estados de vida, e não privilégio de quem se retira do mundo. Na Introdução à Vida Devota (1609) ele declara querer ensinar a devoção “àqueles que vivem nas cidades, nas famílias, na corte”, acrescentando que a devoção “deve ser praticada de modo diferente pelo gentil-homem, pelo artesão, pelo príncipe, pela viúva, pela jovem, pela esposa”.
No centro está o primado da caridade e do amor de Deus. Seu Tratado do Amor de Deus (1616) é, nas palavras de Bento XVI, “uma verdadeira e própria summa” da vida espiritual, que culmina nesta hierarquia de perfeições: “o homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor, a do espírito; e a caridade, a do amor”. O Papa Francisco resumiu toda a herança salesiana no título de sua carta apostólica de 2022: Totum amoris est — “na Santa Igreja, tudo pertence ao amor, vive no amor, é feito por amor e vem do amor”.
Dessa primazia do amor brota a santa indiferença e o abandono à vontade de Deus, que ele resumia às visitandinas “em apenas duas palavras: nada recusar e nada desejar”. Aquele que sofreu, ainda jovem, uma crise de desespero diante da questão da predestinação resolveu-a abandonando-se ao puro amor de Deus, “Deus do coração humano”.
A doçura e a mansidão são, nele, método — a correção feita pela suavidade. Bento XVI fala da “doçura” (douceur) de seus ensinamentos; e o próprio Francisco preferia, ao corrigir, indicar a doença e pôr o bisturi nas mãos do dirigido, para que ele mesmo fizesse a incisão necessária. A devoção, para ele, não é sentimento, mas o amor tornado diligente e operante, que floresce no “êxtase da vida e das obras”: sem a caridade constante, advertia, todos os arrebatamentos são “extremamente duvidosos e perigosos”. Daí também a direção espiritual personalizada, atenta ao estado concreto de cada alma, que ele exerceu sobretudo por meio de milhares de cartas.
"Na vossa paciência possuireis as vossas almas. É a grande felicidade do homem, Filotéia, possuir a sua alma; e quanto mais perfeita é a paciência, mais perfeitamente possuímos as nossas almas." Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 3 (Da Paciência) — tradução do original francês
Quem ele influenciou
São Francisco de Sales está na origem da espiritualidade moderna dos leigos: ao ensinar que a santidade é possível “em todo estado e condição da vida secular” (Pio XI), abriu caminho para a chamada universal à santidade que o Concílio Vaticano II tornaria patrimônio comum da Igreja. Sua doutrina influenciou diretamente São Vicente de Paulo, seu amigo em Paris, que o teve em altíssima estima e foi superior eclesiástico do primeiro mosteiro da Visitação de Paris de 1622 até pouco antes de sua morte, em 1660.Com Santa Joana Francisca de Chantal fundou, em 1610, a Ordem da Visitação de Santa Maria, marcada pela simplicidade e pela humildade. Dois séculos depois, São João Bosco deu o nome do santo à sua congregação — a Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos), fundada em 18 de dezembro de 1859 —, atraído por sua bondade e mansidão; e o Beato Luís Brisson fundou em 1875 os Oblatos de São Francisco de Sales, para perpetuar a sua espiritualidade. Bento XVI afirmou que “sem ele nem São João Bosco nem o heroico ‘pequeno caminho’ de Santa Teresinha de Lisieux teriam vindo a existir”.É um dos formadores da língua francesa do início do século XVII — “Mestre e Restaurador da Sagrada Eloquência”, nas palavras da bula de Pio IX — e o primeiro autor de língua francesa elevado a Doutor da Igreja (1877). Por seu uso pioneiro de folhetos e da palavra escrita na evangelização, Pio XI o declarou em 1923 “Celeste Padroeiro de todos os Escritores”, título do qual deriva o seu patrocínio sobre jornalistas e comunicadores.
Debates e controvérsias
A missão do Chablais e as “Controvérsias” antiprotestantes
Entre 1594 e 1598, jovem sacerdote, Francisco ofereceu-se para reconduzir ao catolicismo a região calvinista do Chablais. Diante da hostilidade que dificultava a pregação, passou a redigir e espalhar folhetos avulsos refutando as doutrinas reformadas — escritos depois reunidos sob o título As Controvérsias. O empreendimento, conduzido com paciência e mansidão, e não pela força, tornou-se modelo de apologética e está na raiz de seu futuro patrocínio sobre os escritores.
A predestinação: contra o rigor calvinista, o amor universal de Deus
O debate teológico sobre a predestinação, então acirrado pelo calvinismo, foi o pano de fundo de sua própria crise juvenil de desespero. Francisco respondeu, doutrinalmente, opondo ao determinismo calvinista a doutrina católica do amor universal de Deus por todos os homens, que se tornaria o eixo do Tratado do Amor de Deus.
A clausura imposta à Visitação
Francisco concebera a Visitação como uma congregação sem clausura estrita, em que as irmãs pudessem sair para visitar e servir os doentes pobres. Quando o instituto se consolidou, o arcebispo de Lyon, Denis-Simon de Marquemont, persuadiu-o a erigi-lo como ordem religiosa formal sob a Regra de Santo Agostinho, com a clausura exigida pelo Concílio de Trento. O santo a princípio resistiu, mas acabou cedendo: em 1618 a Visitação tornou-se ordem religiosa de votos solenes e clausura.
Fontes e referências
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- newadvent.org/cathen/06220a.htm
- newadvent.org/cathen/15481a.htm
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- en.wikipedia.org/wiki/Order_of_the_Visitation_of_Holy_Mary
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- jevisitelyon.com/en/saint-francis-de-sales-his-heart-preserved-in-a-reliquary/
- thecatholictravelguide.com/destinations/france/france-annecy-basilica-visitation-relics/
- toledovisitation.org/2014/01/saint-francis-de-sales-martin-deaf-servant/
- vaticannews.va/pt/igreja/news/2022-01/sao-francisco-de-sales-padroeiro-dos-jornalistas.html
- ewtn.com/catholicism/saints/francis-de-sales-570
- pocketterco.com.br/oracao/oracao-de-sao-francisco-de-sales
- pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Sales
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