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Medalius · Santos · Francisco de Sales
F. Francisco de Sales

Francisco Bayeu y Subías (1734–1795); Museo del Prado · fonte · PD

Dia de festa
24 de janeiro
Status canônico
Santo · canonizado por Alexandre VII
Elevado a Doutor da Igreja
1877, por Pio IX
Santo · Doutor da Igreja

Francisco de Sales

Doutor do Amor Divino · Séc. XVI–XVII
Lugar: Annecy, Saboia
Estado de vida: sacerdote, bispo
Padroados: Escritores · Jornalistas · Comunicadores

São Francisco de Sales (François de Sales) foi um bispo, escritor espiritual e Doutor da Igreja, nascido em 21 de agosto de 1567 no Château de Sales, em Thorens, no Ducado de Saboia, e falecido em 28 de dezembro de 1622, em Lyon, na França. Formado em retórica no colégio jesuíta de Clermont, em Paris, e doutor em direito civil e canônico por Pádua, renunciou à carreira de magistrado para ser ordenado sacerdote em 1593. Como missionário do Chablais (1594–1598), reconverteu ao catolicismo milhares de calvinistas valendo-se de folhetos impressos — origem de seu futuro padroado sobre escritores e jornalistas. Sagrado bispo de Genebra em 1602, residiu em Annecy, pois a sé estava em mãos calvinistas. Com Santa Joana Francisca de Chantal fundou em 1610 a Ordem da Visitação de Santa Maria, e tornou-se um dos maiores mestres da espiritualidade cristã com a “Introdução à Vida Devota” (1609) e o “Tratado do Amor de Deus” (1616), ensinando que a santidade é acessível a todos os estados de vida. Canonizado em 1665 por Alexandre VII e proclamado Doutor da Igreja por Pio IX em 1877, é conhecido como “Doutor do Amor Divino”; seu corpo repousa na Basílica da Visitação, em Annecy.

A vida

Infância, formação e juventude

Francisco de Sales nasceu em 21 de agosto de 1567 no Château de Sales, em Thorens, no Ducado de Saboia, primogênito de uma antiga família da aristocracia saboiana. Seu pai, François de Sales de Boisy, e sua mãe, Françoise de Sionnaz, destinavam-lhe uma brilhante carreira civil. Depois dos primeiros estudos nos colégios de La Roche e Annecy, foi enviado a Paris, onde, de 1583 a 1588, estudou retórica e humanidades no colégio de Clermont, dirigido pelos jesuítas. Em seguida cursou direito em Pádua, recebendo o grau de doutor in utroque iure, em direito civil e canônico.


Foi em Paris que o jovem Francisco atravessou uma das provações mais decisivas de sua vida: as acaloradas discussões teológicas sobre a predestinação levaram-no a uma terrível e prolongada tentação de desespero, convencido de que estaria condenado e separado para sempre do amor de Deus. A angústia chegou a abalá-lo fisicamente. A libertação veio quando, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora na igreja de Saint-Étienne-des-Grès, rezou o Memorare, consagrou-se à Virgem Maria e entregou-se inteiramente a Deus, resolvendo amá-Lo ainda que não pudesse vê-Lo no céu. Dessa experiência nasceu a convicção que marcaria toda a sua doutrina: Deus é amor.


Contrariando os planos paternos, renunciou ao cargo de senador e à carreira de magistrado para seguir a vocação sacerdotal. Foi ordenado sacerdote em 1593 e assumiu o cargo de prevosto do cabido da catedral de Genebra.


Vida adulta e missão principal

Em 1594 ofereceu-se voluntariamente para evangelizar a região do Chablais, em torno de Thonon, território recém-devolvido à Saboia onde o calvinismo havia sido imposto. A missão, que se estenderia até 1598, foi árdua e perigosa: Francisco enfrentou hostilidade, frio e ameaças à própria vida. Diante das portas que se fechavam à pregação, recorreu a um meio engenhoso — escreveu folhetos e panfletos expondo a fé católica e refutando os erros calvinistas, que mandava copiar e fazia passar por baixo das portas das casas. Esses escritos, reunidos depois sob o nome de Controvérsias, conquistaram pouco a pouco os ouvintes, e grande parte dos calvinistas retornou à comunhão com a Igreja. Desse zelo apostólico através da palavra escrita nasceria, séculos mais tarde, seu padroado sobre os jornalistas e escritores.


Em 8 de dezembro de 1602 foi sagrado bispo de Genebra. Como a cidade de Genebra permanecia sob domínio calvinista, a sé episcopal estava fixada em Annecy, onde Francisco estabeleceu sua residência e exerceu intensa ação pastoral: pregação, catequese, visitas às paróquias e, sobretudo, a direção espiritual, na qual se revelou mestre incomparável da doçura e da paciência.


Obras, fundação da Visitação e amizade espiritual

Durante a pregação quaresmal de 1604, em Dijon, Francisco conheceu a baronesa Joana Francisca de Chantal, viúva que buscava direção espiritual. Daquela profunda comunhão de almas nasceu uma das mais belas amizades espirituais da história da Igreja. Sob sua orientação, e juntos com Santa Joana Francisca de Chantal, fundou em Annecy, em 1610, a Ordem da Visitação de Santa Maria, destinada a acolher também mulheres que desejavam a vida consagrada sem o rigor físico das ordens tradicionais.


Foi também desse trabalho de direção das almas que brotaram suas duas grandes obras. A Introdução à Vida Devota (1609), escrita inicialmente como cartas de orientação, tornou-se um clássico universal da espiritualidade, defendendo que a verdadeira devoção e a busca da perfeição são possíveis em todos os estados de vida — para o casado, o comerciante, o soldado, e não apenas para os religiosos. O Tratado do Amor de Deus (1616), obra de maior fôlego e profundidade, é uma verdadeira summa da vida mística, na qual expõe o caminho da alma rumo à união de amor com Deus.


Últimos anos, morte e legado

Em dezembro de 1622, de passagem por Lyon ao regressar de uma viagem a serviço da Casa de Saboia, Francisco foi acometido de apoplexia. Morreu em 28 de dezembro de 1622, aos 55 anos. Seu corpo foi trasladado para Annecy, onde repousa na Basílica da Visitação, enquanto seu coração permaneceu em Lyon.


Foi beatificado em 1661 e canonizado em 1665 pelo Papa Alexandre VII. Em 16 de novembro de 1877, o Papa Pio IX proclamou-o Doutor da Igreja universal — o primeiro escritor de língua francesa a receber esse título —, sendo venerado como o “Doutor do Amor Divino”. Em 1923, o Papa Pio XI, na encíclica Rerum omnium perturbationem, declarou-o padroeiro dos escritores e jornalistas. Sua doutrina da santidade acessível a todos inspirou inúmeras correntes espirituais; no século XIX, São João Bosco colocou sob sua proteção e seu nome a Sociedade de São Francisco de Sales — os Salesianos —, perpetuando até hoje a espiritualidade marcada pela doçura, pela alegria e pela confiança no amor de Deus.

Contexto

O contexto em que viveu

São Francisco de Sales nasceu em 1567, apenas quatro anos depois do encerramento do Concílio de Trento (1545–1563), o grande concílio da Reforma Católica que reafirmou a doutrina da Igreja diante do protestantismo e lançou um vasto programa de renovação do clero, da catequese e da vida cristã. Toda a existência de Francisco se desenrola dentro desse esforço de aplicação de Trento: ele encarna o tipo de bispo zeloso, pregador e catequista que o concílio sonhara, e a sua obra escrita levou o ideal tridentino de santidade para muito além dos claustros, até os leigos no meio do mundo.


O cenário imediato era marcado pela divisão religiosa da Europa. A poucos quilômetros de Annecy, a cidade de Genebra havia se tornado a capital do calvinismo, a “Roma protestante”: ali João Calvino organizara a sua reforma e, após a sua morte em 1564, o seu discípulo Teodoro de Beza continuava a dirigir a cidade como foco irradiador do calvinismo em toda a Europa. Por isso o título de Francisco — Bispo de Genebra — era, na prática, o de um bispo no exílio, residindo em Annecy, pastoreando um território em grande parte ganho pela Reforma.


Na vizinha França, as guerras de religião (1562–1598) ensanguentavam o reino, opondo católicos e huguenotes (calvinistas franceses) por mais de três décadas. Francisco estudou em Paris justamente nos anos mais agudos desse conflito. As guerras só terminaram com a conversão de Henrique IV ao catolicismo e a promulgação do Édito de Nantes (1598), que concedeu tolerância limitada aos protestantes e pacificou o reino. Esse mesmo ano de 1598 viu o ápice da missão de Francisco no Chablais.


Politicamente, Francisco era súdito do Ducado de Saboia, governado pelo ambicioso duque Carlos Emanuel I. Foi sob a proteção e o impulso do duque que se deu a reconquista católica do Chablais, região às margens do lago de Genebra que passara ao calvinismo na ocupação bernesa. Em 1594, recuperada a região, o bispo de Genebra enviou para lá o jovem proboste Francisco de Sales, que, durante quase quatro anos heroicos, reconverteu a população não pela força, mas pela pregação, pela caridade e pela distribuição de pequenos folhetos doutrinais que ele mesmo redigia.


Por fim, a vida de Francisco coincide com a primavera espiritual do início do século XVII, o chamado “humanismo devoto” francês — corrente que aliava cultura, doçura e profundidade interior, e que teria entre os seus expoentes o cardeal Pierre de Bérulle. Nesse clima de renovação, a Introdução à Vida Devota (1609) e o Tratado do Amor de Deus (1616) propuseram uma novidade decisiva: a santidade é possível e devida a todos os estados de vida, e não apenas aos religiosos. Com Santa Joana de Chantal, ele traduziu essa intuição em uma nova forma de vida consagrada, a Ordem da Visitação (1610). Doutor da Igreja proclamado em 1877, Francisco de Sales é uma das grandes figuras da Contrarreforma e o mestre por excelência da espiritualidade dos leigos.

Iconografia

Como reconhecer Francisco de Sales na arte sacra

Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.

Vestes e insígnias de bispo (mitra e báculo)
Francisco de Sales foi Bispo de Genebra (residindo em Annecy desde 1602). Na arte sacra aparece com o traje coral episcopal — roquete branco, mozeta e cruz peitoral —, empunhando o báculo e por vezes a mitra. Estas insígnias afirmam o seu múnus de pastor e mestre da fé, exercido com a mansidão pela qual ficou célebre.
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Coração flamejante com cruz e os nomes de Jesus e Maria
Emblema salesiano e brasão da Ordem da Visitação, que Francisco concebeu e comunicou a Santa Joana Francisca de Chantal: um coração transpassado por duas flechas, cingido por uma coroa de espinhos e encimado por uma cruz, com os santíssimos nomes de Jesus e Maria. Significa o amor ardente a Deus (o “Doutor da Caridade”) e a união dos corações de Jesus e Maria.
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Coração com coroa de espinhos
O coração ferido e cercado pela coroa de espinhos de Cristo. Evoca a Paixão e o amor crucificado, recordando que a verdadeira devoção — tema da sua “Introdução à Vida Devota” — nasce da caridade e da conformação ao Coração de Jesus.
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Livro e pena (Doutor da Igreja e escritor)
Francisco segura um livro aberto e uma pena, símbolos dos seus grandes escritos espirituais — a “Introdução à Vida Devota” e o “Tratado do Amor de Deus” — e do seu título de Doutor da Igreja, proclamado por Pio IX em 1877. É padroeiro dos escritores e jornalistas.
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Auréola de santo
O nimbo sobre a cabeça indica a santidade reconhecida pela Igreja: Francisco de Sales foi beatificado em 1661 e canonizado em 1665 por Alexandre VII. Sinaliza a glória dos bem-aventurados e a luz da graça em quem viveu heroicamente as virtudes.
Cronologia

Linha do tempo

Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.

Vida do santo Mundo no mesmo período
1563
Encerramento do Concílio de Trento
Conclui-se em 4 de dezembro de 1563 o Concílio de Trento (iniciado em 1545), grande concílio da Reforma Católica que reafirma a doutrina da Igreja e lança o programa de renovação que moldará toda a obra de Francisco de Sales.
1564
Morte de Calvino em Genebra
Morre João Calvino, reformador que fizera de Genebra a capital do calvinismo. Seu discípulo Teodoro de Beza assume a liderança da cidade, que permanece o foco irradiador da Reforma calvinista vizinho à futura diocese de Francisco.
1567
Nascimento de Francisco de Sales
Francisco de Sales nasce em 21 de agosto de 1567, no Château de Sales, em Thorens, no Ducado de Saboia, filho mais velho de uma família da nobreza saboiana.
1583
Estudos em Paris (Colégio de Clermont)
De 1583 a 1588, Francisco estuda retórica e humanidades no Colégio de Clermont, dos jesuítas, em Paris, em pleno período das guerras de religião na França.
1587
Crise da predestinação e voto a Maria
Por volta de janeiro de 1587, em Paris, Francisco atravessa uma profunda crise de angústia diante da doutrina calvinista da predestinação. Prostrado diante de uma imagem de Nossa Senhora em Saint-Étienne-des-Grès, faz um ato de total abandono a Deus e recupera a paz.
1588
Estudos de Direito em Pádua
Francisco vai à Universidade de Pádua, na Itália, onde estuda direito civil e canônico, recebendo o doutorado em 1591/1592.
1593
Ordenação sacerdotal e proboste de Genebra
Em 18 de dezembro de 1593, Francisco é ordenado sacerdote e instalado como proboste do Cabido de Genebra (com sede em Annecy), renunciando à carreira de magistrado pretendida pelo pai.
1594
Início da missão do Chablais
Em setembro de 1594, sob o impulso do duque Carlos Emanuel I de Saboia, que reconquistara a região, Francisco parte como missionário ao Chablais, calvinista, instalando-se na fortaleza de Allinges e pregando em Thonon.
1598
Reconversão do Chablais e Édito de Nantes
Ao fim de setembro de 1598, com a região largamente reconvertida ao catolicismo, o duque organiza solene celebração em Thonon. No mesmo ano, na França, Henrique IV promulga o Édito de Nantes (13 de abril de 1598), encerrando as guerras de religião.
1602
Sagração episcopal — Bispo de Genebra
Após a morte de Dom Claude de Granier, Francisco é sagrado Bispo de Genebra em 8 de dezembro de 1602, residindo em Annecy por estar Genebra em mãos calvinistas.
1604
Encontro com Joana de Chantal em Dijon
Durante a pregação quaresmal em Dijon, em 1604, Francisco conhece a baronesa Joana Francisca Frémyot de Chantal, viúva que se tornará sua dirigida espiritual e cofundadora da Visitação.
1609
Introdução à Vida Devota
Em janeiro de 1609, Francisco publica a “Introdução à Vida Devota”, dirigida a Filotéia, nascida de cartas de direção espiritual; a obra propõe a santidade como meta de todos os estados de vida, inclusive os leigos.
1610
Fundação da Ordem da Visitação
Em 6 de junho de 1610, em Annecy, Francisco funda com Santa Joana de Chantal a Ordem da Visitação de Santa Maria, voltada à humildade e à mansidão e aberta também a mulheres recusadas pelas ordens mais austeras.
1616
Tratado do Amor de Deus
Francisco publica o “Tratado do Amor de Deus” (Traité de l'amour de Dieu), obra-prima da mística que, com a “Introdução à Vida Devota”, lhe valeria o título de Doutor da Igreja.
1622
Morte em Lyon
Francisco de Sales morre em Lyon, na França, em 28 de dezembro de 1622, aos 55 anos, no retorno de uma viagem a serviço da Casa de Saboia.
1661
Beatificação
Francisco de Sales é beatificado em 1661 pelo Papa Alexandre VII, sendo o primeiro a receber uma beatificação solene na Basílica de São Pedro, em Roma.
1665
Canonização pelo Papa Alexandre VII
Em 19 de abril de 1665, o Papa Alexandre VII canoniza Francisco de Sales, inscrevendo-o no número dos santos.
1877
Proclamado Doutor da Igreja
Em 16 de novembro de 1877, o Papa Pio IX proclama São Francisco de Sales Doutor da Igreja universal, reconhecendo o valor doutrinal de seus escritos espirituais — o primeiro escritor de língua francesa a receber o título.
1923
Padroeiro dos escritores e jornalistas
Em 26 de janeiro de 1923, no terceiro centenário de sua morte, o Papa Pio XI, pela encíclica “Rerum omnium perturbationem”, proclama São Francisco de Sales celeste Padroeiro de todos os escritores (e, por extensão, dos jornalistas).
2022
Carta apostólica Totum amoris est
No quarto centenário de sua morte, o Papa Francisco publica, em 28 de dezembro de 2022, a carta apostólica “Totum amoris est”, dedicada ao legado espiritual de São Francisco de Sales.
Milagres

Milagres atribuídos à sua intercessão

Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.

Conversões na missão do Chablais (1594–1598)

Enviado aos 26 anos para reevangelizar o Chablais — região quase inteiramente calvinista —, Francisco de Sales obteve, pela pregação paciente, pela caridade e pela distribuição de folhetos, o retorno de grande parte da população à fé católica entre 1597 e 1598. A tradição hagiográfica relata que escapou de várias ciladas e atentados, atribuindo à proteção divina o êxito extraordinário da missão.

Graças e favores obtidos junto ao seu túmulo em Annecy

A Catholic Encyclopedia registra que numerosas graças e favores extraordinários foram obtidos junto ao seu túmulo, no mosteiro da Visitação de Annecy. A sua canonização, em 1665, seguiu o reconhecimento de milagres atribuídos à sua intercessão.

Suas contribuições à teologia

O coração da doutrina de São Francisco de Sales é a convicção de que a santidade e a devoção são acessíveis a todos os estados de vida, e não privilégio de quem se retira do mundo. Na Introdução à Vida Devota (1609) ele declara querer ensinar a devoção “àqueles que vivem nas cidades, nas famílias, na corte”, acrescentando que a devoção “deve ser praticada de modo diferente pelo gentil-homem, pelo artesão, pelo príncipe, pela viúva, pela jovem, pela esposa”.


No centro está o primado da caridade e do amor de Deus. Seu Tratado do Amor de Deus (1616) é, nas palavras de Bento XVI, “uma verdadeira e própria summa” da vida espiritual, que culmina nesta hierarquia de perfeições: “o homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor, a do espírito; e a caridade, a do amor”. O Papa Francisco resumiu toda a herança salesiana no título de sua carta apostólica de 2022: Totum amoris est — “na Santa Igreja, tudo pertence ao amor, vive no amor, é feito por amor e vem do amor”.


Dessa primazia do amor brota a santa indiferença e o abandono à vontade de Deus, que ele resumia às visitandinas “em apenas duas palavras: nada recusar e nada desejar”. Aquele que sofreu, ainda jovem, uma crise de desespero diante da questão da predestinação resolveu-a abandonando-se ao puro amor de Deus, “Deus do coração humano”.


A doçura e a mansidão são, nele, método — a correção feita pela suavidade. Bento XVI fala da “doçura” (douceur) de seus ensinamentos; e o próprio Francisco preferia, ao corrigir, indicar a doença e pôr o bisturi nas mãos do dirigido, para que ele mesmo fizesse a incisão necessária. A devoção, para ele, não é sentimento, mas o amor tornado diligente e operante, que floresce no “êxtase da vida e das obras”: sem a caridade constante, advertia, todos os arrebatamentos são “extremamente duvidosos e perigosos”. Daí também a direção espiritual personalizada, atenta ao estado concreto de cada alma, que ele exerceu sobretudo por meio de milhares de cartas.

Espiritualidade

Espiritualidade e carisma

Escola espiritual

Espiritualidade salesiana

Escola espiritual nascida de São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, marcada pela convicção de que a devoção é acessível a todos os estados de vida e deve ser vivida no meio do mundo, fazendo bem as coisas ordinárias. Tem como centro o amor de Deus e a caridade (o “Tratado do Amor de Deus”), a santa indiferença e o abandono confiante à vontade divina (“nada recusar e nada desejar”), a doçura e a mansidão como caminho de correção e de trato com as almas, um sereno otimismo espiritual e a direção personalizada de cada alma. Encarnou-se de modo próprio na Ordem da Visitação, voltada à simplicidade, à humildade e ao amor.

Como se vive hoje

Continua viva nos Salesianos de Dom Bosco, nos Oblatos de São Francisco de Sales, nas irmãs da Visitação e em inúmeros leigos que buscam a santidade no trabalho e na família. Inspira de modo especial os jornalistas e comunicadores — dos quais é padroeiro —, chamados a uma comunicação feita por amor e adaptada ao seu tempo; e propõe a todos a gentileza e a mansidão evangélicas como mensagem atual, eco da chamada universal à santidade.

Família espiritual

Ordens, congregações e movimentos

Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.

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1610

Ordem da Visitação de Santa Maria (Visitandinas)

Ordem religiosa feminina fundada por São Francisco de Sales e Santa Joana Francisca de Chantal em Annecy, em 6 de junho de 1610. Inspirada na Visitação de Maria a Isabel, foi concebida para acolher também mulheres mais velhas ou de saúde frágil, excluídas das ordens austeras, valorizando as virtudes interiores da humildade, da mansidão e da caridade. Na morte de Francisco (1622) já havia 13 mosteiros.

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1859

Salesianos de Dom Bosco (Sociedade de São Francisco de Sales)

Congregação masculina fundada por São João Bosco em Turim, em 18 de dezembro de 1859 — não por Francisco de Sales. Dom Bosco deu-lhe o nome e o espírito de Francisco de Sales (a doçura e a bondade) por admiração ao santo bispo de Genebra, escolhendo-o como patrono e modelo do seu “sistema preventivo” de educação.

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1872

Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas)

Ramo feminino da Família Salesiana, fundado por São João Bosco com Santa Maria Domingas Mazzarello em Mornese (Itália), em 5 de agosto de 1872. Partilham o espírito salesiano e o “sistema preventivo”. Inserem-se na herança espiritual de Francisco de Sales por meio do carisma salesiano que dele tomou o nome — não foram fundadas pelo próprio Francisco.

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1875

Oblatos de São Francisco de Sales (OSFS)

Congregação de padres e irmãos fundada pelo Beato Pe. Louis Brisson em Troyes (França) em 1875, que segue expressamente os ensinamentos e a espiritualidade salesiana de Francisco de Sales e de Joana de Chantal. Toma o nome do santo; não foi por ele fundada.

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Oblatas de São Francisco de Sales

Ramo feminino, cofundado pelo Beato Pe. Louis Brisson com Santa Léonie Aviat (Madre Francisca de Sales Aviat). Vivem a espiritualidade salesiana inspirada em Francisco de Sales, de quem tomam o nome e o espírito; não foram por ele fundadas.

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Santa Joana Francisca de Chantal

Cofundadora da Ordem da Visitação e dirigida espiritual de São Francisco de Sales. A profunda amizade espiritual entre ambos está na origem da Visitação (1610); ela conduziu a expansão da Ordem (86 mosteiros à sua morte, em 1641). Canonizada, é venerada junto a Francisco como pilar da espiritualidade salesiana.

Obras escritas

Suas obras principais

Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.

As Controvérsias

Les Controverses · c. 1594–1598 (publ. póstuma)

Conjunto de folhetos e tratados apologéticos que Francisco de Sales escreveu durante a missão do Chablais para converter os calvinistas da região, distribuindo-os manuscritos (afixados em muros e passados por baixo das portas) porque os habitantes recusavam ouvi-lo pregar. Defendem a autoridade e as notas da verdadeira Igreja, a regra de fé e o primado de São Pedro contra a doutrina reformada. O santo não os publicou nem os intitulou; receberam o título “Les Controverses” dos editores, e foram vertidos ao inglês como “The Catholic Controversy”.

Defesa do Estandarte da Santa Cruz

Défense de l'Estendart de la Sainte Croix · 1600

Primeira obra de fôlego publicada por Francisco de Sales: tratado em resposta ao ministro protestante De La Faye, que ridicularizava o culto católico à Cruz como idolatria. Demonstra a legitimidade da veneração da verdadeira Cruz, do Crucifixo e do Sinal da Cruz, distinguindo os graus de culto e recorrendo a fontes patrísticas, no contexto do iconoclasmo protestante na Alta Saboia.

Introdução à Vida Devota

Introduction à la vie dévote · 1609; rev. 1619

Clássico da espiritualidade dirigido a “Filotéia” (a alma que ama a Deus e vive no mundo), nascido das cartas e conselhos de direção que o santo escreveu a Mme de Charmoisy. Ensina que a verdadeira devoção é acessível a todos os estados de vida, no meio das ocupações seculares. Estrutura-se em cinco partes (afastar-se do pecado; oração e sacramentos; prática das virtudes; combate às tentações; renovação do fervor). Teve êxito imediato, reimpresso dezenas de vezes em vida do autor e traduzido em vários idiomas.

Tratado do Amor de Deus

Traité de l'amour de Dieu · 1616 (Lyon)

Obra-prima teológica e mística de Francisco de Sales sobre a caridade, fruto da sua maturidade episcopal. Em doze livros, percorre o nascimento, o progresso, a perfeição e a decadência do amor divino, os exercícios do amor, a união da alma com Deus na oração e a soberania da caridade sobre todas as virtudes. É dirigido a “Teótimo”, o leitor que deseja avançar para a perfeição além da “Introdução”.

Os Verdadeiros Colóquios Espirituais (Entrevistas Espirituais)

Les Vrais Entretiens spirituels · c. 1610; publ. 1629

Coletânea das conferências e colóquios familiares que o santo dirigia oralmente às religiosas da Visitação de Annecy, recolhidos por elas e publicados após a sua morte. De tom coloquial e prático, tratam das virtudes religiosas e da fidelidade à Regra como caminho de união com Deus. Tornaram-se um clássico da literatura salesiana.

Cartas (de Direção Espiritual)

Lettres / Correspondance · c. 1580–1622

Vasta correspondência do santo, em grande parte de direção espiritual, dirigida a pessoas de todos os estados de vida (entre elas Santa Joana de Chantal). Adapta o conselho espiritual às mais diversas situações e constitui fonte essencial da sua doutrina e do seu método de acompanhamento das almas. Ocupa cerca de onze volumes da edição completa de Annecy.

Sermões

Sermons · c. 1593–1622 (publ. póstuma)

Corpus de pregação de Francisco de Sales. Os sermões anteriores à sagração episcopal foram redigidos por extenso; os posteriores sobrevivem em grande parte como esboços e sinopses, alguns tomados por taquigrafia pelos ouvintes. O Papa Pio IX chamou-o “Mestre e Restaurador da Sagrada Eloquência”.

Liturgia

Como a Igreja celebra Francisco de Sales

Categoria litúrgica
Memória obrigatória
Cor litúrgica
Branco
Dia
24 de Janeiro
Coleta própriaMissal Romano, Próprio dos Santos, 24 de janeiro
Para rezar

Oração a Francisco de Sales

Senhor Jesus, em oração uma vez Vos pedi e pedirei sempre que faça eu a Vossa amorosa vontade todos os dias da minha miserável e frágil vida. Nas Vossas mãos, bom Deus, entrego o meu espírito, o meu coração, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade. Concedei, porém, que com tudo Vos sirva, Vos ame, Vo...

Novena

Novena a Francisco de Sales

Esta novena nos prepara para a festa de São Francisco de Sales (24 de janeiro), bispo de Genebra com sede em Annecy e Doutor da Igreja. Conhecido pela mansidão e pela doçura, ele ensinou que a santidade é possível a todos, em qualquer estado de vida. Durante nove dias, rezemos pedindo a sua intercessão para crescer no amor de Deus, na suavidade do trato com o próximo e na confiança serena na Providência.

I.

Confiança no amor de Deus (a crise da predestinação)

Romanos 8,38-39 — "Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presen..."

II.

Zelo missionário no Chablais

1 Coríntios 9,22 — "Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a tod..."

III.

Mansidão e doçura de coração

Mateus 11,29 — "Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração, e achar..."

IV.

A santidade ao alcance de todos (Introdução à Vida Devota)

Mateus 11,28 — "Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei."

V.

Direção espiritual e cuidado das almas

João 15,15 — "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois v..."

VI.

Amizade espiritual e a Ordem da Visitação

João 15,13 — "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos."

VII.

O amor de Deus, fonte de tudo (Tratado do Amor de Deus)

1 João 4,16 — "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor per..."

VIII.

Humildade

Tiago 4,6 — "Deus, porém, dá uma graça ainda mais abundante. Por isso, ele diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá..."

IX.

Perseverança e santa morte

2 Timóteo 4,7 — "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé."

Devoções populares

Como o povo reza a Francisco de Sales

Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.

Práticas devocionais

Tríduos, novenas e ladainhas

  • Padroeiro dos jornalistas, escritores e da imprensa católica — Em 1923, pela encíclica “Rerum omnium perturbationem”, o Papa Pio XI proclamou São Francisco de Sales padroeiro dos escritores e, por extensão, dos jornalistas e de quantos difundem a doutrina cristã pela imprensa, em razão do seu zelo apostólico exercido também pela palavra escrita. É tradição invocá-lo e abençoar o trabalho dos comunicadores católicos na sua festa.
  • Leitura da “Introdução à Vida Devota” como exercício de devoção — Entre os devotos de São Francisco de Sales é prática espiritual a leitura e a meditação das suas obras “Introdução à Vida Devota” e “Tratado do Amor de Deus”, que ensinam a buscar a santidade no estado de vida de cada um, com pequenos atos de amor e na doçura do trato. São usadas como guia de vida interior e de direção espiritual.
Sacramentais

Medalhas e escapulários

  • Memória litúrgica de 24 de janeiro — A Igreja celebra São Francisco de Sales, bispo e Doutor da Igreja, como memória obrigatória no dia 24 de janeiro, com cor litúrgica branca. A Missa do dia traz Coleta própria que pede a graça de manifestar a mansidão do amor de Deus no serviço aos irmãos.

Tradições populares por região

Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.

FR França

Em Annecy, na Alta Saboia (França), encontram-se os restos mortais de São Francisco de Sales e de Santa Joana Francisca de Chantal, venerados na Basílica da Visitação. O local é destino de peregrinação dos devotos do santo e do carisma salesiano e visitandino.

BR Brasil

São João Bosco escolheu São Francisco de Sales como inspirador e patrono da sua obra, dando o nome de “Salesianos” à Congregação que fundou, atraído pela bondade e pela mansidão do santo. Por meio da família salesiana, espalhada pelo Brasil e pelo mundo, a devoção a São Francisco de Sales e o seu estilo de doçura permanecem vivos na educação e na evangelização da juventude.

Mensagem

O que Francisco de Sales nos diz hoje

"Na vossa paciência possuireis as vossas almas. É a grande felicidade do homem, Filotéia, possuir a sua alma; e quanto mais perfeita é a paciência, mais perfeitamente possuímos as nossas almas."

— Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 3 (Da Paciência) — tradução do original francês

"Não, Filotéia, a devoção nada estraga quando é verdadeira; antes, aperfeiçoa tudo; e quando se torna contrária à legítima vocação de alguém, ela é, sem dúvida, falsa."

— Introdução à Vida Devota, Parte I, cap. 3 (Que a devoção convém a toda sorte de vocações e profissões) — tradução do original francês

"Uma das boas práticas que podemos fazer da doçura é a que tem por objeto nós mesmos, não nos despeitando jamais contra nós mesmos nem contra as nossas imperfeições; pois, ainda que a razão queira que, quando cometemos faltas, fiquemos desgostosos, devemos contudo evitar um desgosto amargo, impaciente, despeitado e colérico."

— Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 9 (Da doçura para conosco mesmos) — tradução do original francês

"Crede-me, Filotéia: assim como as repreensões de um pai, feitas docemente e cordialmente, têm muito mais poder para corrigir um filho do que a cólera e o furor, assim também, quando o nosso coração tiver cometido alguma falta, se o repreendermos com advertências doces e tranquilas, tendo mais compaixão dele do que paixão contra ele, o arrependimento que ele conceberá penetrará muito mais fundo."

— Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 9 (Da doçura para conosco mesmos) — tradução do original francês

"Não desejeis não ser o que sois, mas desejai ser muito bem o que sois; ocupai os vossos pensamentos em vos aperfeiçoar nisso e em carregar as cruzes, pequenas ou grandes, que aí encontrardes."

— Carta à Presidente Brûlart (1607) — Œuvres de saint François de Sales (ed. de Annecy), t. XIII (Cartas) — tradução do original francês
Frases célebres

Frases para guardar e compartilhar

Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.

Todas 4 paciência, vontade de Deus, sofrimento 1 doçura, humildade, próximo 1 doçura, mansidão, correção 1 amor, liberdade de espírito, obediência 1

"Não limiteis a vossa paciência a tal ou tal espécie de injúrias e aflições, mas estendei-a universalmente a todas as que Deus vos enviar e permitir que vos cheguem."

Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 3 (Da Paciência) — tradução do original francês

"A humildade nos aperfeiçoa para com Deus, e a doçura, para com o próximo."

Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 8 (Da doçura para com o próximo e remédio contra a ira) — tradução do original francês

"Nada doma tanto o elefante encolerizado quanto a vista de um cordeirinho, e nada quebra tão facilmente a força das canhonadas quanto a lã."

Introdução à Vida Devota, Parte III, cap. 8 (Da doçura para com o próximo e remédio contra a ira) — tradução do original francês

"É preciso fazer tudo por amor e nada por força; é preciso amar mais a obediência do que temer a desobediência."

Carta a Santa Joana Francisca de Chantal — Œuvres de saint François de Sales (ed. de Annecy), t. XII (Cartas) — tradução do original francês
Influência

A rede de influências espirituais

Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.

Quem o influenciou

Mestres e encontros decisivos

Sua formação intelectual passou pelos jesuítas do Colégio de Clermont, em Paris, onde estudou retórica e humanidades de 1583 a 1588, e depois pelo direito em Pádua. Foi justamente a reflexão sobre o pensamento de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino — em torno da questão da predestinação — que provocou nele uma crise profunda, resolvida não pela especulação, mas pela teologia do amor de Deus, num ato de total abandono diante de uma imagem de Nossa Senhora em Saint-Étienne-des-Grès.Sua doutrina amadureceu no contato com a mística espanhola e italiana. No Tratado do Amor de Deus, nenhum autor espiritual é citado com tanta frequência quanto Santa Teresa de Ávila, cuja leitura ele recomendava constantemente; bebeu também em São Boaventura e São Tomás a respeito do amor de Deus, e na tradição dos dominicanos espanhóis, sobretudo Luís de Granada, mestre de tratados de oração.

Quem ele influenciou

Discípulos e herdeiros através dos séculos

São Francisco de Sales está na origem da espiritualidade moderna dos leigos: ao ensinar que a santidade é possível “em todo estado e condição da vida secular” (Pio XI), abriu caminho para a chamada universal à santidade que o Concílio Vaticano II tornaria patrimônio comum da Igreja. Sua doutrina influenciou diretamente São Vicente de Paulo, seu amigo em Paris, que o teve em altíssima estima e foi superior eclesiástico do primeiro mosteiro da Visitação de Paris de 1622 até pouco antes de sua morte, em 1660.Com Santa Joana Francisca de Chantal fundou, em 1610, a Ordem da Visitação de Santa Maria, marcada pela simplicidade e pela humildade. Dois séculos depois, São João Bosco deu o nome do santo à sua congregação — a Sociedade de São Francisco de Sales (Salesianos), fundada em 18 de dezembro de 1859 —, atraído por sua bondade e mansidão; e o Beato Luís Brisson fundou em 1875 os Oblatos de São Francisco de Sales, para perpetuar a sua espiritualidade. Bento XVI afirmou que “sem ele nem São João Bosco nem o heroico ‘pequeno caminho’ de Santa Teresinha de Lisieux teriam vindo a existir”.É um dos formadores da língua francesa do início do século XVII — “Mestre e Restaurador da Sagrada Eloquência”, nas palavras da bula de Pio IX — e o primeiro autor de língua francesa elevado a Doutor da Igreja (1877). Por seu uso pioneiro de folhetos e da palavra escrita na evangelização, Pio XI o declarou em 1923 “Celeste Padroeiro de todos os Escritores”, título do qual deriva o seu patrocínio sobre jornalistas e comunicadores.

Debates

Debates e controvérsias

As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).

Controvérsias históricas

Os grandes embates de seu tempo

A missão do Chablais e as “Controvérsias” antiprotestantes

Entre 1594 e 1598, jovem sacerdote, Francisco ofereceu-se para reconduzir ao catolicismo a região calvinista do Chablais. Diante da hostilidade que dificultava a pregação, passou a redigir e espalhar folhetos avulsos refutando as doutrinas reformadas — escritos depois reunidos sob o título As Controvérsias. O empreendimento, conduzido com paciência e mansidão, e não pela força, tornou-se modelo de apologética e está na raiz de seu futuro patrocínio sobre os escritores.


A predestinação: contra o rigor calvinista, o amor universal de Deus

O debate teológico sobre a predestinação, então acirrado pelo calvinismo, foi o pano de fundo de sua própria crise juvenil de desespero. Francisco respondeu, doutrinalmente, opondo ao determinismo calvinista a doutrina católica do amor universal de Deus por todos os homens, que se tornaria o eixo do Tratado do Amor de Deus.


A clausura imposta à Visitação

Francisco concebera a Visitação como uma congregação sem clausura estrita, em que as irmãs pudessem sair para visitar e servir os doentes pobres. Quando o instituto se consolidou, o arcebispo de Lyon, Denis-Simon de Marquemont, persuadiu-o a erigi-lo como ordem religiosa formal sob a Regra de Santo Agostinho, com a clausura exigida pelo Concílio de Trento. O santo a princípio resistiu, mas acabou cedendo: em 1618 a Visitação tornou-se ordem religiosa de votos solenes e clausura.

Controvérsias contemporâneas

Polêmicas ainda em aberto

Padroeiro dos comunicadores na era digital

No quarto centenário de sua morte, o Papa Francisco dedicou-lhe a carta apostólica Totum amoris est (28 de dezembro de 2022), destacando sua atenção à linguagem e às necessidades de cada época: “é muito importante ter em mente os tempos em que se escreve”. Essa sensibilidade comunicativa — que já lhe valera, em 1923, o título de padroeiro dos escritores e, por extensão, dos jornalistas — é relida hoje como modelo para a evangelização na era da mídia digital, feita por amor e adaptada à cultura contemporânea.


A santidade dos leigos e a mansidão como mensagem atual

Sua tese de que a devoção é para “aqueles que vivem nas cidades, nas famílias, na corte” antecipou a chamada universal à santidade retomada pelo Concílio Vaticano II (Lumen Gentium) e reproposta pelo Papa Francisco em Gaudete et Exsultate, com a sua valorização da “santidade da porta ao lado”. Num tempo de polarização e aspereza nos debates públicos, a sua doçura e gentileza evangélicas — a correção pela suavidade — são apresentadas como proposta de método para o testemunho cristão de hoje.

Patronatos

Patronatos e causas de intercessão

Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).

Patronato oficial

Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.

  • Escritores
  • Jornalistas
  • Comunicadores
Relíquias

Relíquias e locais de devoção

Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.

sepultamento original

Sepultamento na primeira igreja da Visitação de Annecy

Mosteiro da Visitação, Annecy, França · 1623 – 1911

São Francisco de Sales morreu em Lyon em 28 de dezembro de 1622. O corpo, embalsamado (por isso não é incorrupto), foi levado de volta a Annecy e sepultado em 24 de janeiro de 1623 na igreja do primeiro Mosteiro da Visitação, a ordem que ele fundara com Santa Joana Francisca de Chantal. A pedido dos cidadãos de Lyon, o coração do santo foi ali retido.

translacao

Translação para a Basílica da Visitação de Annecy

Basílica da Visitação, Annecy, França · desde 1911 (basílica de 1922–1930)

Em 2 de agosto de 1911, os corpos de São Francisco de Sales e de Santa Joana de Chantal foram solenemente transladados para a colina da Visitação, em Annecy, escoltados por imensa multidão. A atual Basílica da Visitação foi erguida sobre o local entre 1922 e 1930 e consagrada em 1949. Os dois corpos repousam hoje em sarcófagos de bronze dourado junto ao santuário — São Francisco à esquerda e Santa Joana à direita.

peregrinacao

Coração de São Francisco de Sales — de Lyon a Treviso

Mosteiro da Visitação, Treviso, Itália · 1622 (Lyon) → 1913 (Treviso)

Na embalsamação, o coração de São Francisco de Sales foi entregue à Visitação de Lyon, guardado num relicário de ouro doado por Luís XIII. Durante a Revolução Francesa, as monjas da Visitação levaram a relíquia para o exílio — de Lyon a Mântua, depois à Áustria e, em 1801, a Veneza, onde permaneceu até 1913. Naquele ano, ao se transferirem as monjas, o coração foi conduzido ao novo mosteiro de clausura de Treviso, na Itália, onde é venerado até hoje.

Onde está Francisco de Sales hoje

Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).

Basílica da Visitação, Annecy, França
desde 1911 (basílica de 1922–1930)
Local atual (Arca) Sepultamento original Pontos secundários
Curiosidades

Curiosidades sobre Francisco de Sales

Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.

✍️

É o padroeiro celeste dos escritores e jornalistas: o Papa Pio XI o declarou “Padroeiro Celeste de todos os Escritores” na encíclica “Rerum omnium perturbationem”, de 26 de janeiro de 1923, no 3º centenário da sua morte — em razão dos folhetos e escritos que usou para reevangelizar o Chablais.

🤟

É padroeiro dos surdos: por volta de 1605, criou um sistema de sinais com as mãos para ensinar a fé a Martinho (Martin), um homem surdo de nascença, levando-o a confessar-se e a receber a Comunhão — um dos primeiros casos documentados de catequese por linguagem de sinais.

🕊️

Ficou conhecido como o “Santo Cavalheiro” (the Gentleman Saint) pela sua doçura e mansidão — mas era, por natureza, de temperamento colérico e irascível; conquistou a fama de gentileza domando o próprio gênio ao longo de muitos anos de vigilância sobre si mesmo.

❤️‍🔥

Criou o emblema da Ordem da Visitação: um único coração trespassado por duas setas, cercado por uma coroa de espinhos e encimado por uma cruz, com os nomes de JESUS e MARIA — símbolo da devoção ao Coração de Jesus, que ele foi dos primeiros a promover.

🇫🇷

Foi o primeiro escritor de língua francesa a ser proclamado Doutor da Igreja (declarado Doutor em 1877 pelo Papa Pio IX). Havia sido canonizado em 1665.

📅

A sua festa litúrgica era celebrada em 29 de janeiro (de 1666 a 1969); na reforma do calendário de 1969, Paulo VI transferiu-a para 24 de janeiro — dia do seu sepultamento, em 1623, no mosteiro da Visitação de Annecy (ele morrera em 28 de dezembro de 1622, em Lyon).

📖

A sua “Introdução à Vida Devota” (1609) foi um best-seller desde o início: recebeu privilégio régio do rei Henrique IV da França, esgotou rapidamente e foi traduzida nas principais línguas ainda em vida do autor (cerca de 40 edições até 1622). A rainha Maria de Médici teria enviado um exemplar cravejado de diamantes a Jaime I da Inglaterra.

💌

No 4º centenário da sua morte, o Papa Francisco publicou a Carta Apostólica “Totum amoris est” (“Tudo é próprio do amor”), em 28 de dezembro de 2022 — exatamente 400 anos depois —, resumindo o legado espiritual do santo.

Para estudar mais

Fontes e referências

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Veja também

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