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Medalius · Codex de Personalidades · Santa Catarina de Sena
Santa Catarina de Sena

Andrea Vanni (c. 1332-1414), afresco c. 1400, Basílica de San Domenico, Siena · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
1347–1380 (33 anos)
Lugar
Siena e Roma
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Espiritualidade dominicana / mística
Idioma principal
Italiano (volgare toscano)
Santo · Doutor da Igreja

Santa Catarina de Sena

1347–1380
Doutora da Igreja Doutor da Igreja O.P. (Terceira Ordem)

Santa Catarina de Sena foi uma mística e terciária dominicana italiana do século XIV, conhecida por sua intensa vida de oração, suas visões e seu profundo amor à Igreja. Reformadora destemida, teve papel decisivo no retorno do papado de Avignon a Roma em 1377 e na defesa do papa legítimo durante o Cisma do Ocidente. Autora do “Diálogo da Divina Providência”, das Cartas e das Orações, foi canonizada por Pio II em 1461 e proclamada Doutora da Igreja por Paulo VI em 1970, sendo copadroeira da Itália e da Europa.

Biografia

Infância, formação e conversão

Catarina nasceu em Sena (Siena), na Toscana, em 25 de março de 1347, festa da Anunciação, no bairro de Fontebranda. Era filha de Jacopo (Giacomo) di Benincasa, tintureiro de profissão, e de Lapa Piagenti, filha de um poeta local. Foi uma das filhas mais novas de uma família numerosíssima, a vigésima quarta de vinte e cinco filhos; sua irmã gêmea, Joana (Giovanna), a última do casal, viveu apenas poucos meses.


Desde a mais tenra infância Catarina começou a ter visões e a praticar austeridades. Aos seis anos teve uma primeira visão, na qual contemplou Jesus Cristo entronizado, com os santos Pedro e Paulo. Aos sete anos consagrou a Cristo a sua virgindade, fazendo voto particular de pertencer só a Deus. Por volta dos dezesseis anos, movida por uma visão de São Domingos, tomou o hábito das Terceiras Dominicanas, conhecidas como Mantellate (pelo manto negro sobre a túnica branca), mulheres ligadas à Ordem de São Domingos que, embora vestissem o hábito, viviam em suas próprias casas a serviço dos pobres e doentes. Recolhida num pequeno quarto da casa paterna, renovou a vida dos antigos anacoretas do deserto, em oração e penitência.


Ao fim do carnaval de 1367, segundo seu próprio relato, teve a experiência mística conhecida como o “desposório místico” ou esponsais espirituais: Jesus, acompanhado de sua Mãe e de outros santos, desposou-a a si na fé.


Vida adulta e missão principal

Após esse período de reclusão, Catarina voltou ao convívio da família e dedicou-se a cuidar dos doentes, especialmente os atingidos pelas enfermidades mais repulsivas, a servir os pobres e a trabalhar pela conversão dos pecadores. Durante a peste negra, que assolou a Toscana, entregou-se ao cuidado do corpo e da alma das vítimas em sua cidade natal. Em torno dela formou-se um admirável grupo espiritual de discípulos, homens e mulheres, que a chamavam de mãe e que ela chamava de sua famiglia ou “bella brigata”.


Catarina tornou-se protagonista de intensa atividade de orientação espiritual de pessoas de toda condição — nobres e políticos, artistas e gente simples — e de uma ação pública pela paz e pela reforma da Igreja, ditando centenas de cartas, pois aprendeu a ler tardiamente e a escrever só por volta dos trinta anos. Sua maior obra foi obter o regresso do papado a Roma. Em 1376 foi como mediadora a Avignon, junto ao papa Gregório XI, durante o conflito que pusera Florença sob interdito. Triunfando sobre os obstáculos, contribuiu decisivamente para que o Papa deixasse Avignon e regressasse a Roma, onde entrou em 17 de janeiro de 1377.


Em 1378 irrompeu o Grande Cisma do Ocidente, com a eleição do antipapa Clemente VII em Fondi. Desde o princípio Catarina aderiu com entusiasmo ao papa legítimo, Urbano VI, defendendo-o em cartas e exortações enviadas a príncipes e cardeais para angariar apoio à sua causa.


Lutas, controvérsias e perseguições

A atuação de uma jovem leiga que dirigia almas e se imiscuía nos assuntos da Igreja despertou suspeitas. Em 1374 Catarina foi chamada a Florença, provavelmente para ser examinada pelas autoridades dominicanas reunidas no Capítulo Geral da Ordem. Satisfez os rigorosos juízes e sua obra recebeu proteção oficial dos dominicanos; nessa ocasião foi-lhe dado como diretor espiritual e confessor o frade Beato Raimundo de Cápua, que se tornaria Mestre Geral da Ordem e seu primeiro biógrafo, autor da Legenda Maior.


Sua vida foi marcada por penitências e jejuns extremos. Durante longos períodos alimentou-se apenas de água, ervas e da Sagrada Eucaristia, suportando esse rigor como expressão de seu amor a Deus e de reparação pela Igreja.


Últimos anos e legado

Estando em Pisa, no quarto domingo da Quaresma de 1375, Catarina recebeu os estigmas da Paixão de Cristo, embora, a seu pedido, as marcas não aparecessem visivelmente em seu corpo enquanto viveu. Em 1378, a chamado do papa Urbano VI, dirigiu-se a Roma para auxiliá-lo na defesa da unidade da Igreja durante o Cisma. Ali, debilitada pelas penitências e pelo sofrimento, faleceu em 29 de abril de 1380, com apenas 33 anos.


Catarina deixou como herança espiritual o Diálogo da Divina Providência, uma coleção de quase quatrocentas cartas e uma série de Orações, obras-primas da literatura espiritual, todas ditadas. Foi canonizada pelo papa Pio II, sienense como ela, em 1461. Em 1939 foi declarada padroeira da Itália por Pio XII, juntamente com São Francisco de Assis. Em 4 de outubro de 1970, Paulo VI proclamou-a Doutora da Igreja — uma das duas primeiras mulheres, com Santa Teresa de Ávila, a receber esse título. Em 1999, São João Paulo II constituiu-a copadroeira da Europa, ao lado de Santa Brígida da Suécia e de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein).

Contexto

O contexto em que viveu

Santa Catarina viveu no conturbado século XIV, um dos períodos mais sombrios e dramáticos da história da Europa cristã. Nascida em Siena em 1347, veio ao mundo às vésperas da maior catástrofe demográfica do continente: a Peste Negra, que alcançou sua cidade natal em maio de 1348 e, segundo o cronista contemporâneo Agnolo di Tura, dizimou mais da metade da população de Siena. A morte, o luto e a fragilidade da vida marcaram profundamente a sensibilidade religiosa de toda a sua geração.


Era também o tempo do chamado cativeiro babilônico da Igreja: desde 1309 os papas residiam em Avignon, no sul da atual França, e não em Roma, junto ao túmulo do Apóstolo Pedro. Essa ausência prolongada da Sé romana enfraquecia o prestígio do papado e o deixava exposto à influência da coroa francesa, enquanto a Itália central, privada do governo pontifício, mergulhava na desordem e nas lutas entre facções.


A península itálica estava fragmentada em repúblicas e senhorias em guerra permanente. Entre 1375 e 1378, Florença liderou uma coligação de cidades contra os Estados Pontifícios no conflito que ficou conhecido como a Guerra dos Oito Santos: o papa Gregório XI excomungou os florentinos e lançou a cidade sob interdito em 1376, e a revolta alastrou-se por dezenas de cidades do território da Igreja. Foi nesse cenário de guerra que Catarina se ofereceu como mediadora de paz.


Convencido em grande parte pela insistência ardente de Catarina, Gregório XI deixou Avignon e devolveu a sede papal a Roma em janeiro de 1377, pondo fim ao período avinhonês. Mas a paz durou pouco. Com a morte de Gregório XI, a eleição de Urbano VI em abril de 1378 foi contestada por um grupo de cardeais que, em setembro do mesmo ano, elegeram o antipapa Clemente VII, abrindo o Grande Cisma do Ocidente: a cristandade ficou dividida entre duas obediências — Roma e novamente Avignon — por quase quatro décadas. Catarina dedicou os dois últimos anos de sua vida, em Roma, à defesa intransigente da legitimidade de Urbano VI e da unidade da Igreja.

Fatos contextuais
Nascimento em Siena
Caterina di Jacopo di Benincasa nasce em Siena, na Toscana, em 25 de março de 13...
A Peste Negra chega a Siena
A Peste Negra alcança Siena em maio de 1348, dizimando, segundo o cronista conte...
Voto de virgindade
Ainda criança, por volta dos sete anos, após uma visão de Cristo, Catarina consa...
Entrada nas Mantellate dominicanas
Por volta dos dezesseis anos, movida por uma visão de São Domingos, ingressa na...
Desposório místico com Cristo
Por volta dos vinte anos, Catarina vive a experiência mística do desposório com...

Suas contribuições à teologia

No centro do pensamento de Santa Catarina de Sena está o duplo conhecimento que ela aprendeu na oração: o conhecimento de si e o conhecimento de Deus. No Diálogo da Divina Providência, a alma se eleva na “cela do conhecimento de si mesma” para melhor conhecer nela a bondade de Deus, pois ao conhecimento segue o amor. Daí a fórmula que resume toda a sua mística, ouvida do Pai eterno: “Tu és Aquele que é, e eu sou aquela que não é” — quem se conhece criatura, reconhece em Deus o seu Ser.


A imagem mestra do Diálogo é a da Ponte: Cristo crucificado, enviado pelo Pai, é a ponte que liga a margem do céu à da terra, de modo que ninguém vai ao Pai senão por Ele. Essa ponte tem três degraus, figurados nos pés, no lado e na boca de Cristo, que correspondem aos três estados da alma que sobe do temor ao amor perfeito; seus muros de virtude estão cimentados pelo Sangue de Cristo e cobertos pela misericórdia. Por isso Catarina é chamada a mística do Sangue: é o precioso sangue do Filho de Deus, derramado na Cruz, que vence a morte e revela a verdade do Pai e o preço de cada alma.


Tudo nela é movido pela Verdade e pela caridade. Deus é a Verdade primeira, e é também o “fogo sempre ardente e nunca consumido” que queima o amor próprio e enche a alma de amor. Para Catarina, o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo: a caridade que se recebe na cela do conhecimento de si transborda em serviço, intercessão e zelo pela salvação das almas.


Desse amor brota a obediência e o amor ardente à Igreja, o Corpo Místico onde o Sangue de Cristo é dispensado nos sacramentos. Catarina chama o Romano Pontífice de “doce Cristo na terra” e ensina que separar-se da obediência ao sucessor de Pedro é privar-se do fruto do Sangue do Filho de Deus. Por isso trabalhou pelo retorno do Papa a Roma e pela reforma da Igreja — uma reforma que, para ela, se faz não com guerra, mas com a santidade pessoal, com humildes e contínuas orações, suores e lágrimas dos servos de Deus, começando pela conversão de cada coração.

"Trindade eterna, Divindade, mistério profundo como o mar, não poderíeis dar-me dom maior do que o dom de Vós mesmo. Vós sois um fogo sempre ardente e nunca consumido, que consome em si todo o amor-próprio da minha alma; Vós sois um fogo que tira toda a frieza e ilumina a mente com a sua luz, e com esta luz me fizestes conhecer a vossa verdade." Diálogo da Divina Providência, cap. 167
Influência

Quem ele influenciou

A influência de Santa Catarina de Sena marcou profundamente a Igreja e a história europeia. Terceira dominicana e leiga sem instrução formal, ela tornou-se uma das vozes mais decisivas do século XIV: foi a força que persuadiu o papa Gregório XI a deixar Avignon e retornar a Roma, em 17 de janeiro de 1377, levando à conclusão a obra espiritual já iniciada por Santa Brígida da Suécia e pondo fim ao chamado cativeiro avinhonense do papado.Durante o Grande Cisma do Ocidente, aderiu sem hesitação ao papa legítimo, Urbano VI, e gastou as forças que lhe restavam, em Roma, trabalhando pela reforma da Igreja e pela unidade da cristandade. Sua atuação fez dela modelo de mulher leiga ativa no coração das questões eclesiais e sociais: dirigiu-se a prelados de toda categoria exigindo integridade, e não temeu admoestar com franqueza o próprio Papa, a quem amava como o “doce Cristo na terra”.Sua herança espiritual e doutrinal levou o papa Paulo VI a proclamá-la Doutora da Igreja em 4 de outubro de 1970 — ela e Santa Teresa de Ávila foram as primeiras mulheres a receber esse título. Em 1.º de outubro de 1999, São João Paulo II, com a Carta Apostólica Spes Aedificandi, declarou-a copadroeira da Europa, ao lado de Santa Brígida da Suécia e de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), apresentando-a como referência para o continente que não deve esquecer as raízes cristãs que estão na origem do seu progresso.No plano cultural, suas obras — o Diálogo da Divina Providência, o epistolário de quase quatrocentas cartas e a coleção de Orações — figuram entre os clássicos da língua italiana, escritos no belo vernáculo toscano do século XIV. O Diálogo foi descrito como o equivalente místico, em prosa, da Divina Comédia de Dante, e Catarina é tida como uma das primeiras mulheres escritoras da tradição literária italiana.

Debates

Debates e controvérsias

Suspeitas sobre uma jovem leiga sem instrução nos assuntos da Igreja

Catarina era uma jovem leiga, terceira dominicana, sem educação formal, que passou a intervir abertamente nas questões eclesiásticas e políticas do seu tempo, dirigindo cartas e admoestações a cardeais, soberanos e ao próprio Papa. Numa época que dificilmente concebia tal protagonismo numa mulher iletrada, sua autoridade espiritual e sua audácia despertaram desconfiança em alguns setores eclesiásticos.


O exame perante o Capítulo Geral dominicano em Florença (1374)

Em 1374, Catarina foi convocada a Florença, provavelmente para ser interrogada pelas autoridades da Ordem dos Pregadores reunidas em Capítulo Geral, a fim de que se examinasse a autenticidade da sua experiência e da sua ortodoxia. Tudo indica que saiu aprovada do exame: a ausência de qualquer condenação posterior e a designação do Beato Raimundo de Cápua como seu confessor e guia mostram que foi considerada ortodoxa. A questão ficou, assim, historicamente resolvida.


Os estigmas invisíveis e a divergência entre dominicanos e franciscanos

Em Pisa, em 1375, Catarina teria recebido os estigmas, mas, a seu pedido expresso, por humildade, as chagas não se mostraram exteriormente no seu corpo enquanto ela viveu, permanecendo visíveis apenas a ela mesma. Justamente por serem invisíveis, tornaram-se motivo de contenda entre dominicanos e franciscanos, parte dos quais não admitia que uma mulher pudesse receber as chagas de Cristo.


A disputa chegou à própria representação artística da santa: a promoção visual dos estigmas de Catarina foi fortemente contestada pelos franciscanos, apoiados, no fim do século XV, por um papa da sua ordem, Sisto IV, que chegou a restringir as imagens de Santa Catarina com os estigmas — disposição largamente ignorada na prática e mais tarde superada, com a validade dos estigmas reconhecida por Urbano VIII em 1623. Trata-se de uma controvérsia histórica, hoje encerrada.

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