Hans Holbein, o Jovem (c. 1497–1543), c. 1532–35 — Royal Collection, Windsor · fonte · PD
João Fisher
São João Fisher (c. 1469–1535) foi bispo de Rochester, cardeal, teólogo humanista e Chanceler da Universidade de Cambridge. Mártir sob o rei Henrique VIII, recusou o Juramento de Supremacia e defendeu até a morte a indissolubilidade do matrimônio de Catarina de Aragão e o primado do Romano Pontífice. Decapitado em Tower Hill em 1535, foi canonizado em 1935 por Pio XI, ao lado de São Tomás More.
A vida
Formação e início em Cambridge
João Fisher nasceu por volta de 1469, em Beverley, no condado de Yorkshire, na Inglaterra. Sua primeira educação deu-se provavelmente na escola ligada à igreja colegiada de sua cidade natal, de onde, em 1484, transferiu-se para o Michaelhouse, em Cambridge. Ali percorreu uma brilhante carreira acadêmica: bacharel em 1487, mestre em artes em 1491 — ano em que foi eleito fellow de seu colégio — e doutor em teologia em 1501.
Ordenado sacerdote em 1491, ainda abaixo da idade canônica e por isso com dispensa, ascendeu rapidamente na universidade: tornou-se Mestre do Michaelhouse e Vice-Chanceler. Foi nesse período que se tornou capelão e confessor de Lady Margaret Beaufort, mãe do rei Henrique VII. Sob a orientação de Fisher, a piedosa Lady Margaret fundou em Cambridge os colégios de Christ’s College e St. John’s College, marcos da renovação dos estudos. Reformador zeloso, Fisher promoveu o ensino do grego e do hebraico e foi grande amigo do humanista Erasmo de Roterdã, a quem induziu a visitar Cambridge.
Bispo de Rochester e defensor da fé
Por bula datada de 14 de outubro de 1504, Fisher foi elevado ao bispado de Rochester; no mesmo ano foi eleito Chanceler da Universidade de Cambridge, cargo para o qual seria reeleito anualmente por dez anos e, depois, nomeado vitaliciamente. Permaneceu fiel à pobre diocese de Rochester, recusando as sedes mais ricas de Ely e de Lincoln que lhe foram oferecidas. Sua fama de pregador era tão grande que, em 1509, por ocasião das mortes do rei Henrique VII e de Lady Margaret, coube a ele pregar as orações fúnebres.
Teólogo de primeira ordem, Fisher tornou-se um dos mais firmes adversários de Lutero. Em 1521 pregou em St. Paul’s Cross na ocasião em que os livros de Lutero foram publicamente queimados, e escreveu contra ele a Assertionis Lutheranae Confutatio (1523), em defesa do sacerdócio, dos sacramentos e do primado do Romano Pontífice. Mais tarde redigiu o tratado De Veritate Corporis et Sanguinis Christi in Eucharistia (1527), em defesa da presença real de Cristo na Eucaristia.
Conflito com Henrique VIII e martírio
Quando surgiu a questão do divórcio de Henrique VIII de sua esposa, a rainha Catarina de Aragão, Fisher tornou-se o principal sustentáculo e conselheiro da rainha, declarando que, como São João Batista, estava pronto a morrer pela indissolubilidade do matrimônio. Opôs-se firmemente a toda ingerência do Estado nos assuntos da Igreja.
Recusando-se a reconhecer o Ato de Supremacia (1534), pelo qual o rei se proclamava chefe supremo da Igreja na Inglaterra, e a prestar o juramento exigido, Fisher foi preso e enviado à Torre de Londres em 1534. Já encarcerado, o novo papa Paulo III criou-o cardeal-presbítero de São Vital, em maio de 1535 — gesto que enfureceu Henrique VIII. Diz-se que o rei proibiu que o chapéu cardinalício entrasse na Inglaterra, declarando que antes enviaria a Roma a cabeça de Fisher. Levado a julgamento em Westminster Hall em 17 de junho de 1535 sob acusação de alta traição e condenado, foi decapitado em Tower Hill no dia 22 de junho de 1535.
Glória e legado
O testemunho de fidelidade ao Papa e à indissolubilidade do matrimônio fez de João Fisher um dos mais venerados mártires ingleses. Pelo Decreto de 29 de dezembro de 1886, o Papa Leão XIII beatificou-o entre os mártires ingleses, dando-lhe lugar de honra. Em 19 de maio de 1935, o Papa Pio XI canonizou-o solenemente, juntamente com seu amigo e companheiro de martírio São Tomás More. Único bispo da Inglaterra a recusar o juramento de supremacia, São João Fisher permanece como símbolo da liberdade da Igreja diante do poder temporal. Sua memória litúrgica é celebrada, com a de São Tomás More, no dia 22 de junho.
O contexto em que viveu
São João Fisher viveu na Inglaterra dos Tudor, no fim da Idade Média e no limiar da Idade Moderna, quando a dinastia consolidava o poder real após a Guerra das Rosas. Henrique VII e, depois, Henrique VIII governavam um reino formalmente católico, em comunhão com Roma, mas em que a Coroa buscava crescente controle sobre os assuntos eclesiásticos. Foi nesse ambiente que Fisher, nascido por volta de 1469 em Beverley, fez sua formação e carreira em Cambridge, tornando-se uma das maiores autoridades intelectuais e espirituais do reino.
O período foi marcado pelo florescimento do Humanismo cristão, que recuperava as línguas clássicas e as fontes da Escritura e dos Padres para uma reforma dos estudos e dos costumes dentro da Igreja. Fisher foi protagonista desse movimento: como confessor de Lady Margaret Beaufort e Chanceler de Cambridge, promoveu a fundação de colégios, trouxe Erasmo de Roterdã para Cambridge e partilhou os ideais de erudição com Erasmo e seu amigo Tomás More. Esse humanismo, porém, queria reformar a Igreja por dentro, sem romper com a fé católica nem com o Papa.
A partir de 1517, quando Martinho Lutero divulgou em Wittenberg as 95 teses, a Reforma Protestante eclodiu e abalou a cristandade. Fisher tornou-se um dos mais respeitados adversários teológicos de Lutero na Europa. Nesse mesmo combate inicial, o próprio Henrique VIII recebeu de Leão X o título de “Defensor da Fé” (1521), por sua obra contra Lutero — ironia da história, dado o caminho que o rei tomaria depois.
O ponto de ruptura foi o “Grande Assunto do Rei”: a pretensão de Henrique VIII de anular seu casamento com Catarina de Aragão para casar-se com Ana Bolena. Negada a nulidade por Roma, o rei rompeu com o Papado. Fisher foi o defensor mais firme da validade do matrimônio da rainha e da autoridade do Papa. Pelo Ato de Supremacia (1534), o Parlamento declarou Henrique VIII “Cabeça Suprema da Igreja da Inglaterra”, separando o reino de Roma; seguiram-se o juramento exigido e, depois, a dissolução dos mosteiros.
A recusa em jurar contra a primazia papal custou caro aos que resistiram. Fisher foi preso na Torre de Londres em 1534 e, já encarcerado, foi criado cardeal por Paulo III em maio de 1535 — gesto que irritou o rei. Condenado por traição, foi decapitado em 22 de junho de 1535, poucos dias antes do martírio de seu amigo Tomás More (6 de julho de 1535). Fisher entrou para a história como o único bispo da Inglaterra a resistir até o sangue — sendo beatificado em 1886 e canonizado em 1935.
Como reconhecer João Fisher na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Suas contribuições à teologia
No coração do pensamento de São João Fisher está a convicção de que a verdade revelada e a autoridade que Cristo confiou à sua Igreja não estão à disposição do poder temporal: defendeu com toda a sua erudição o primado do sucessor de Pedro, a realidade dos sete sacramentos — em especial a presença de Cristo na Eucaristia — e a dignidade do sacerdócio, contra as teses da Reforma protestante.
Teólogo e humanista, pôs o saber a serviço da fé: não via oposição entre o cultivo das letras, das línguas e dos estudos sagrados e a fidelidade à doutrina católica, mas antes um auxílio para defendê-la com clareza. A sua extensa controvérsia antiluterana parte sempre das Escrituras, dos Padres e do ensino constante da Igreja.
Acima de tudo, Fisher encarna a primazia da consciência reta e da fidelidade a Deus sobre a vontade do rei. Diante da exigência de reconhecer o monarca como cabeça suprema da Igreja na Inglaterra, escolheu a obediência a Deus e a comunhão com Roma, mesmo ao preço da prisão e da morte — testemunho de que há uma verdade que o cristão não pode negar para agradar a César.
Espiritualidade e carisma
Humanismo cristão e teologia de Cambridge; espiritualidade dos Mártires da Inglaterra
João Fisher formou-se na tradição escolástica de Cambridge e abraçou o humanismo cristão renascentista, no qual o estudo rigoroso das Escrituras, dos Padres da Igreja e das línguas clássicas estava a serviço da defesa e do aprofundamento da fé católica. Reformador dos estudos universitários, uniu erudição e santidade de vida: pregação dos Salmos penitenciais, austeridade pessoal, cuidado dos pobres da pequena diocese de Rochester e zelo doutrinal. A sua espiritualidade culmina na firmeza do mártir — a fidelidade ao primado de Pedro e à verdade revelada mantida até o derramamento do sangue, ao lado de Tomás More, entre os Mártires da Inglaterra.
Hoje São João Fisher é invocado sobretudo como mártir da liberdade de consciência e da fidelidade à fé diante das pretensões do Estado: bispo que preferiu a comunhão com Roma e a verdade de Deus à conveniência política do rei. É também testemunha da indissolubilidade do matrimônio, por ter defendido publicamente a validade do casamento de Catarina de Aragão. A sua figura, unida à de Tomás More, fala às questões atuais sobre liberdade religiosa, objeção de consciência e a relação entre o que se deve a César e o que se deve a Deus.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Mártires da Inglaterra e País de Gales
Grupo de mártires católicos ingleses mortos durante a Reforma. João Fisher foi beatificado por Leão XIII em 29 de dezembro de 1886, junto com Tomás More e outros mártires ingleses, recebendo lugar de honra, e canonizado por Pio XI em 19 de maio de 1935.
St John's College, Cambridge
Colégio da Universidade de Cambridge. Após a morte de Lady Margaret Beaufort (1509), Fisher executou os desejos dela fundando o St John's College. Como chanceler e conselheiro espiritual da fundadora, foi o artífice da fundação.
Christ's College, Cambridge
Colégio da Universidade de Cambridge refundado a partir do antigo Godshouse. Fisher foi em grande parte responsável pela decisão de Lady Margaret Beaufort de refundar e dotar Godshouse como Christ's College, sob sua orientação.
Companhia de São Tomás More no martírio
Fisher e o leigo Tomás More recusaram juntos o juramento da Lei de Sucessão (abril de 1534), foram presos na Torre de Londres, executados a poucos dias um do outro em 1535, beatificados juntos em 1886 e canonizados juntos em 1935. Compartilham a festa litúrgica em 22 de junho.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Tratado sobre os Sete Salmos Penitenciais
Série de sermões sobre os sete Salmos penitenciais, pregada à casa de Lady Margaret Beaufort e impressa em inglês a pedido dela em 1508 — a primeira coletânea de sermões em inglês a ser impressa; reeditada várias vezes até 1529.
Sermão contra a doutrina de Martinho Lutero
Sermão pregado em St. Paul's Cross, em Londres, na ocasião em que os livros de Lutero foram publicamente queimados; uma das primeiras refutações inglesas relevantes da nova doutrina.
Refutação da Assertio de Lutero
Vasta obra apologética em latim que responde, artigo por artigo, à Assertio de Lutero, em defesa dos artigos condenados pela bula Exsurge Domine (1520). Tornou-se a refutação católica de referência na Europa.
Defesa do Sagrado Sacerdócio contra Lutero
Defesa do sacerdócio ministerial e do caráter sacrifical da Missa contra Lutero. Impressa em Colônia.
Sobre a Verdade do Corpo e do Sangue de Cristo na Eucaristia
Defesa da presença real de Cristo na Eucaristia contra a interpretação figurada de Ecolampádio. Obra extensa, em cinco livros, tida por biógrafos como a mais importante de Fisher.
Sobre a Causa do Matrimônio do Rei da Inglaterra
Defesa da validade do matrimônio de Henrique VIII com Catarina de Aragão, em apoio à rainha contra o pedido de anulação do rei.
Os Caminhos para a Religião Perfeita
Obra ascética escrita na prisão para sua irmã, monja dominicana, sobre o caminho de perfeição na vida cristã e religiosa.
Uma Consolação Espiritual
Carta-tratado de consolação espiritual escrita na prisão à sua irmã, meditando sobre a morte e a preparação para ela.
Como a Igreja celebra João Fisher
Oração a João Fisher
Senhor nosso Deus, que fizestes do glorioso testemunho dos mártires a mais perfeita expressão da fé, concedei-nos, por intercessão dos santos João e Tomás, a graça de confirmar, com o testemunho da vida, a fé que professamos com as palavras.
Amém.
Novena a João Fisher
Novena de nove dias em honra de São João Fisher (c. 1469–1535), bispo de Rochester, cardeal e mártir sob Henrique VIII, canonizado por Pio XI em 1935 e celebrado em 22 de junho junto com São Tomás More. Cada dia propõe um tema da sua vida, um versículo bíblico e uma breve meditação, encerrando com a oração litúrgica da sua memória. É devoção indicada a estudantes, a quem busca fidelidade à própria consciência e a quem sofre perseguição por causa da fé.
A coragem de confessar a fé diante dos homens
Mateus 10, 32 — "Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de me..."
Temer a Deus, não os homens
Mateus 10, 28 — "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precip..."
Tomar a cruz e seguir Cristo
Mateus 10, 38 — "Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim."
Perder a vida para encontrá-la
Mateus 10, 39 — "Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por minha causa, reencontrá-la..."
Bem-aventurados os perseguidos pela justiça
Mateus 5, 10 — "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!"
Alegria no sofrimento por Cristo
Mateus 5, 11-12 — "Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o ma..."
Não se envergonhar do nome de cristão
1 Pedro 4, 16 — "Se, porém, padecer como cristão, não se envergonhe; pelo contrário, glorifique a Deus por ter este n..."
Maior amor: dar a vida
João 15, 13 — "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos."
A coroa da justiça, terminada a carreira
2 Timóteo 4, 7-8 — "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da ju..."
Como o povo reza a João Fisher
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Intercessor de estudantes e de quem sofre pela fé — Por ter dedicado grande parte da vida ao ensino e à academia, é invocado por estudantes e professores; e, por seu martírio, é especialmente invocado por quem sofre perseguição por causa da fé.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
Desde a reforma do calendário em 1969, São João Fisher é celebrado na Igreja universal como memória facultativa em 22 de junho — dia da sua decapitação em 1535 —, junto com São Tomás Moro, leigo e Lord Chanceler, mártir da mesma causa. Ambos foram canonizados por Pio XI em 19 de maio de 1935.
Fisher foi beatificado por Leão XIII em 1886, entre os mártires ingleses da Reforma, recebendo lugar de honra na lista. Na Inglaterra e País de Gales é venerado como um dos grandes mártires católicos ingleses.
Bispo de Rochester de 1504 a 1535 e chanceler vitalício da Universidade de Cambridge, Fisher é lembrado nesses lugares por sua austeridade, zelo pastoral e promoção dos estudos.
Em 1961, o Papa João XXIII designou São João Fisher padroeiro da Diocese católica de Rochester, no estado de Nova York. Diversas instituições levam seu nome, como a St. John Fisher University, também em Rochester (NY).
O que João Fisher nos diz hoje
"Cristãos, vim aqui para morrer pela fé da Santa Igreja Católica de Cristo; e graças a Deus, até agora minha coragem me serviu bem, de modo que ainda não temi a morte. Por isso vos peço que me ajudeis com vossas orações, para que, no exato instante do golpe da morte, eu permaneça firme, sem desfalecer em ponto algum da fé católica, livre de todo temor."
— Discurso no cadafalso, Tower Hill, 22 de junho de 1535 (relatado por Thomas Fuller, The Church History of Britain)"Sem algum fervor no amor de Cristo, a religião não pode vos ser saborosa, nem obra alguma de bondade vos será deleitável, mas toda ação virtuosa parecerá laboriosa e penosa. Pois o amor faz que toda obra pareça fácil e agradável, ainda que seja, em si mesma, bem desagradável."
— The Ways to Perfect Religion (escrito na Torre de Londres à sua irmã, c. 1535)Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Ó Senhor, esta é a última vez que abrirei este livro; que algum lugar consolador me venha agora, para que eu, vosso pobre servo, vos glorifique nesta minha última hora."
"Eu te perdoo de todo o coração, e confio em que me verás vencer esta tempestade com galhardia."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
João Fisher formou-se na Universidade de Cambridge, onde absorveu a tradição teológica escolástica e, depois, o ideal do humanismo cristão renascentista, que valorizava o retorno às fontes — Escrituras, Padres da Igreja e línguas originais. Esse ambiente intelectual moldou o seu método de defender a fé a partir dos textos sagrados e patrísticos.Foi marcado pela amizade e pelo diálogo com Erasmo de Roterdã, que ele atraiu a Cambridge e cujo trabalho de estudos clássicos apoiou, e com Tomás More, com quem partilhou a defesa da fé e, por fim, o martírio. Como confessor de Lady Margaret Beaufort, encontrou nela uma colaboradora na reforma dos estudos.A sua fidelidade radicou-se na tradição patrística e no magistério dos papas: foi precisamente a convicção do primado do sucessor de Pedro, recebido dessa Tradição, que orientou tanto a sua controvérsia antiluterana quanto a recusa de reconhecer o rei como cabeça da Igreja.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
São João Fisher foi um dos primeiros e mais importantes adversários teológicos de Martinho Lutero. A sua Assertionis Lutheranae Confutatio (1523) tornou-se a refutação católica de referência na Europa contra as teses luteranas, conferindo-lhe reputação de teólogo de primeira ordem; a ela seguiram-se a defesa do sacerdócio (1525) e a defesa da presença real na Eucaristia contra Ecolampádio (1527). Erasmo de Roterdã louvou-o como prelado de rara doutrina e santidade.Como chanceler e reformador da Universidade de Cambridge, e confessor de Lady Margaret Beaufort, foi o artífice da fundação do Christ’s College (1505) e do St John’s College, além das cátedras “Lady Margaret” de teologia — impulsionando o estudo do grego, do hebraico e das fontes patrísticas. O seu exemplo de bispo fiel, residente e pobre fez dele modelo de pastor.Venerado entre os Mártires da Inglaterra — único cardeal mártir, como recordou o Cardeal William Levada —, foi beatificado por Leão XIII (1886) e canonizado por Pio XI (1935), com festa litúrgica conjunta com Tomás More a 22 de junho. A sua figura é evocada pelos pastores e papas como testemunho da fidelidade à fé até o martírio.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
A controvérsia antiluterana
Com a difusão das teses de Lutero nos anos 1520, Fisher tornou-se o principal controversista católico da Inglaterra. Em 1521 pregou em Londres contra a doutrina de Lutero, por ocasião de uma queima pública de livros tidos por heréticos. Em 1523 publicou a Assertionis Lutheranae Confutatio, refutação sistemática das teses luteranas e defesa do primado papal; seguiram-se a defesa do sacerdócio (1525) e a obra sobre a presença real na Eucaristia, contra Ecolampádio (1527).
A defesa de Catarina de Aragão e da indissolubilidade do matrimônio
Quando Henrique VIII buscou a nulidade do seu casamento com Catarina de Aragão para desposar Ana Bolena, Fisher tornou-se o principal defensor da rainha. Perante o tribunal dos legados, sustentou a validade e a indissolubilidade do matrimônio, declarando-se disposto a morrer por essa causa e comparando-se a João Batista. Essa oposição pública pôs o bispo em rota de colisão direta com o rei.
A recusa do Juramento de Supremacia e o martírio
Fisher recusou o juramento exigido pelo Ato de Sucessão (1534), que implicava reconhecer a autoridade do rei sobre a Igreja, e foi preso na Torre de Londres. Em maio de 1535, o Papa Paulo III criou-o cardeal — gesto que enfureceu Henrique VIII. Condenado por negar ao rei o título de cabeça suprema da Igreja na Inglaterra, foi decapitado em Tower Hill a 22 de junho de 1535, morrendo pela fé católica e pela comunhão com Roma. (Fisher não foi herege nem condenado pela Igreja: estas foram as suas lutas pela fé.)
Polêmicas ainda em aberto
Liberdade de consciência e fé diante do Estado
São João Fisher e São Tomás More são hoje referências recorrentes nos debates sobre liberdade religiosa, objeção de consciência e os limites do poder do Estado sobre a fé. O dilema que enfrentaram — a perene questão da relação entre o que se deve a César e o que se deve a Deus — foi evocado por Bento XVI no discurso de Westminster Hall (2010), que apresentou More como admirado por crentes e não crentes pela integridade com que seguiu a sua consciência, mesmo ao preço de desagradar ao soberano, porque escolheu servir primeiro a Deus.
Modelo para a vida pública e ecumenismo
Tomás More foi proclamado por São João Paulo II padroeiro celeste dos estadistas e dos políticos (motu proprio E sancti Thomae Mori, 31 de outubro de 2000), e Fisher, único cardeal mártir da Inglaterra, é o seu companheiro nesse testemunho de fidelidade. A memória dos mártires da Reforma inglesa é hoje também ocasião de diálogo ecumênico entre católicos e anglicanos.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Diocese de Rochester
🕯️ Intercessões populares
Causas pelas quais a tradição popular invoca o santo.
- Estudantes e Professores
- Perseguidos pela fé
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Local do martírio — Tower Hill
Sentenciado à morte por recusar reconhecer Henrique VIII como Cabeça Suprema da Igreja na Inglaterra, João Fisher foi decapitado em Tower Hill, diante da Torre de Londres, em 22 de junho de 1535 (a pena de enforcamento e esquartejamento foi comutada em decapitação). O local é hoje ponto de memória do martírio.
Sepultura na capela de St Peter ad Vincula (Torre de Londres)
O corpo foi primeiro lançado sem mortalha numa cova no adro da igreja de Allhallows Barking; cerca de quinze dias depois foi removido e sepultado ao lado do de São Tomás More na capela de St Peter ad Vincula, dentro da Torre de Londres, onde repousa.
Exposição da cabeça na Ponte de Londres
A cabeça do mártir foi fincada num espigão na Ponte de Londres. Sua aparência corada atraiu tanta atenção da multidão que, após cerca de quinze dias, foi lançada no rio Tâmisa, dando lugar à cabeça de São Tomás More.
Báculo (bastão) de São João Fisher — família Eyston
Subsistem algumas relíquias secundárias do santo. A mais conhecida é o seu bastão (báculo), conservado pela família católica Eyston, de East Hendred, em Oxfordshire (antiga Berkshire).
Onde está João Fisher hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre João Fisher
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
Foi o único bispo da Inglaterra que ousou resistir à vontade do rei: enquanto os demais bispos do reino cederam, Fisher recusou o juramento e o reconhecimento de Henrique VIII como cabeça suprema da Igreja na Inglaterra.
Foi criado cardeal por Paulo III enquanto estava preso na Torre de Londres. Henrique VIII proibiu que o chapéu cardinalício entrasse na Inglaterra, declarando que enviaria a Roma a cabeça de Fisher em vez disso.
No cadafalso, em Tower Hill (22 de junho de 1535), rezou o Te Deum e o salmo 'In te Domine speravi' antes de ser decapitado.
Sua cabeça foi exposta numa estaca na Ponte de Londres; dizem que mantinha aspecto tão vivo que atraía multidões, sendo por fim lançada ao rio Tâmisa cerca de duas semanas depois para dar lugar à de Tomás More.
Celebra sua festa litúrgica em conjunto com São Tomás More no dia 22 de junho, data da execução de Fisher; os dois foram beatificados (1886) e canonizados (1935) juntos.
Foi amigo e admirador de Erasmo de Roterdã e chegou a induzi-lo a visitar Cambridge, onde Fisher promovia o estudo do grego e do hebraico.
Foi retratado ao vivo, poucos anos antes do martírio, por Hans Holbein, o Jovem; o desenho a giz colorido pertence hoje à Royal Collection, em Windsor.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/08462b.htm
- britannica.com/biography/Saint-John-Fisher
- vaticanstate.va/en/state-and-government/general-informations/saint-of-the-day/2144-june-22-saints-thomas-more-and-john-fisher.html
- catholic.com/encyclopedia/john-fisher-blessed
- catholicsaints.info/saint-john-fisher/
- ewtn.com/catholicism/saints/john-fisher-637
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/speeches/2010/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20100917_societa-civile.html
- vatican.va/content/john-paul-ii/en/motu_proprio/documents/hf_jp-ii_motu-proprio_20001031_thomas-more.html
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=95
- catholicculture.org/culture/library/view.cfm?recnum=7604
- luminarium.org/renlit/fisherbio.htm
- en.wikipedia.org/wiki/John_Fisher
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