Hans Holbein, o Jovem (c. 1497–1543), c. 1532–35 — Royal Collection, Windsor · fonte · PD
João Fisher
São João Fisher (c. 1469–1535) foi bispo de Rochester, cardeal, teólogo humanista e Chanceler da Universidade de Cambridge. Mártir sob o rei Henrique VIII, recusou o Juramento de Supremacia e defendeu até a morte a indissolubilidade do matrimônio de Catarina de Aragão e o primado do Romano Pontífice. Decapitado em Tower Hill em 1535, foi canonizado em 1935 por Pio XI, ao lado de São Tomás More.
Biografia
Formação e início em Cambridge
João Fisher nasceu por volta de 1469, em Beverley, no condado de Yorkshire, na Inglaterra. Sua primeira educação deu-se provavelmente na escola ligada à igreja colegiada de sua cidade natal, de onde, em 1484, transferiu-se para o Michaelhouse, em Cambridge. Ali percorreu uma brilhante carreira acadêmica: bacharel em 1487, mestre em artes em 1491 — ano em que foi eleito fellow de seu colégio — e doutor em teologia em 1501.
Ordenado sacerdote em 1491, ainda abaixo da idade canônica e por isso com dispensa, ascendeu rapidamente na universidade: tornou-se Mestre do Michaelhouse e Vice-Chanceler. Foi nesse período que se tornou capelão e confessor de Lady Margaret Beaufort, mãe do rei Henrique VII. Sob a orientação de Fisher, a piedosa Lady Margaret fundou em Cambridge os colégios de Christ’s College e St. John’s College, marcos da renovação dos estudos. Reformador zeloso, Fisher promoveu o ensino do grego e do hebraico e foi grande amigo do humanista Erasmo de Roterdã, a quem induziu a visitar Cambridge.
Bispo de Rochester e defensor da fé
Por bula datada de 14 de outubro de 1504, Fisher foi elevado ao bispado de Rochester; no mesmo ano foi eleito Chanceler da Universidade de Cambridge, cargo para o qual seria reeleito anualmente por dez anos e, depois, nomeado vitaliciamente. Permaneceu fiel à pobre diocese de Rochester, recusando as sedes mais ricas de Ely e de Lincoln que lhe foram oferecidas. Sua fama de pregador era tão grande que, em 1509, por ocasião das mortes do rei Henrique VII e de Lady Margaret, coube a ele pregar as orações fúnebres.
Teólogo de primeira ordem, Fisher tornou-se um dos mais firmes adversários de Lutero. Em 1521 pregou em St. Paul’s Cross na ocasião em que os livros de Lutero foram publicamente queimados, e escreveu contra ele a Assertionis Lutheranae Confutatio (1523), em defesa do sacerdócio, dos sacramentos e do primado do Romano Pontífice. Mais tarde redigiu o tratado De Veritate Corporis et Sanguinis Christi in Eucharistia (1527), em defesa da presença real de Cristo na Eucaristia.
Conflito com Henrique VIII e martírio
Quando surgiu a questão do divórcio de Henrique VIII de sua esposa, a rainha Catarina de Aragão, Fisher tornou-se o principal sustentáculo e conselheiro da rainha, declarando que, como São João Batista, estava pronto a morrer pela indissolubilidade do matrimônio. Opôs-se firmemente a toda ingerência do Estado nos assuntos da Igreja.
Recusando-se a reconhecer o Ato de Supremacia (1534), pelo qual o rei se proclamava chefe supremo da Igreja na Inglaterra, e a prestar o juramento exigido, Fisher foi preso e enviado à Torre de Londres em 1534. Já encarcerado, o novo papa Paulo III criou-o cardeal-presbítero de São Vital, em maio de 1535 — gesto que enfureceu Henrique VIII. Diz-se que o rei proibiu que o chapéu cardinalício entrasse na Inglaterra, declarando que antes enviaria a Roma a cabeça de Fisher. Levado a julgamento em Westminster Hall em 17 de junho de 1535 sob acusação de alta traição e condenado, foi decapitado em Tower Hill no dia 22 de junho de 1535.
Glória e legado
O testemunho de fidelidade ao Papa e à indissolubilidade do matrimônio fez de João Fisher um dos mais venerados mártires ingleses. Pelo Decreto de 29 de dezembro de 1886, o Papa Leão XIII beatificou-o entre os mártires ingleses, dando-lhe lugar de honra. Em 19 de maio de 1935, o Papa Pio XI canonizou-o solenemente, juntamente com seu amigo e companheiro de martírio São Tomás More. Único bispo da Inglaterra a recusar o juramento de supremacia, São João Fisher permanece como símbolo da liberdade da Igreja diante do poder temporal. Sua memória litúrgica é celebrada, com a de São Tomás More, no dia 22 de junho.
O contexto em que viveu
São João Fisher viveu na Inglaterra dos Tudor, no fim da Idade Média e no limiar da Idade Moderna, quando a dinastia consolidava o poder real após a Guerra das Rosas. Henrique VII e, depois, Henrique VIII governavam um reino formalmente católico, em comunhão com Roma, mas em que a Coroa buscava crescente controle sobre os assuntos eclesiásticos. Foi nesse ambiente que Fisher, nascido por volta de 1469 em Beverley, fez sua formação e carreira em Cambridge, tornando-se uma das maiores autoridades intelectuais e espirituais do reino.
O período foi marcado pelo florescimento do Humanismo cristão, que recuperava as línguas clássicas e as fontes da Escritura e dos Padres para uma reforma dos estudos e dos costumes dentro da Igreja. Fisher foi protagonista desse movimento: como confessor de Lady Margaret Beaufort e Chanceler de Cambridge, promoveu a fundação de colégios, trouxe Erasmo de Roterdã para Cambridge e partilhou os ideais de erudição com Erasmo e seu amigo Tomás More. Esse humanismo, porém, queria reformar a Igreja por dentro, sem romper com a fé católica nem com o Papa.
A partir de 1517, quando Martinho Lutero divulgou em Wittenberg as 95 teses, a Reforma Protestante eclodiu e abalou a cristandade. Fisher tornou-se um dos mais respeitados adversários teológicos de Lutero na Europa. Nesse mesmo combate inicial, o próprio Henrique VIII recebeu de Leão X o título de “Defensor da Fé” (1521), por sua obra contra Lutero — ironia da história, dado o caminho que o rei tomaria depois.
O ponto de ruptura foi o “Grande Assunto do Rei”: a pretensão de Henrique VIII de anular seu casamento com Catarina de Aragão para casar-se com Ana Bolena. Negada a nulidade por Roma, o rei rompeu com o Papado. Fisher foi o defensor mais firme da validade do matrimônio da rainha e da autoridade do Papa. Pelo Ato de Supremacia (1534), o Parlamento declarou Henrique VIII “Cabeça Suprema da Igreja da Inglaterra”, separando o reino de Roma; seguiram-se o juramento exigido e, depois, a dissolução dos mosteiros.
A recusa em jurar contra a primazia papal custou caro aos que resistiram. Fisher foi preso na Torre de Londres em 1534 e, já encarcerado, foi criado cardeal por Paulo III em maio de 1535 — gesto que irritou o rei. Condenado por traição, foi decapitado em 22 de junho de 1535, poucos dias antes do martírio de seu amigo Tomás More (6 de julho de 1535). Fisher entrou para a história como o único bispo da Inglaterra a resistir até o sangue — sendo beatificado em 1886 e canonizado em 1935.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
No coração do pensamento de São João Fisher está a convicção de que a verdade revelada e a autoridade que Cristo confiou à sua Igreja não estão à disposição do poder temporal: defendeu com toda a sua erudição o primado do sucessor de Pedro, a realidade dos sete sacramentos — em especial a presença de Cristo na Eucaristia — e a dignidade do sacerdócio, contra as teses da Reforma protestante.
Teólogo e humanista, pôs o saber a serviço da fé: não via oposição entre o cultivo das letras, das línguas e dos estudos sagrados e a fidelidade à doutrina católica, mas antes um auxílio para defendê-la com clareza. A sua extensa controvérsia antiluterana parte sempre das Escrituras, dos Padres e do ensino constante da Igreja.
Acima de tudo, Fisher encarna a primazia da consciência reta e da fidelidade a Deus sobre a vontade do rei. Diante da exigência de reconhecer o monarca como cabeça suprema da Igreja na Inglaterra, escolheu a obediência a Deus e a comunhão com Roma, mesmo ao preço da prisão e da morte — testemunho de que há uma verdade que o cristão não pode negar para agradar a César.
"Cristãos, vim aqui para morrer pela fé da Santa Igreja Católica de Cristo; e graças a Deus, até agora minha coragem me serviu bem, de modo que ainda não temi a morte. Por isso vos peço que me ajudeis com vossas orações, para que, no exato instante do golpe da morte, eu permaneça firme, sem desfalecer em ponto algum da fé católica, livre de todo temor." Discurso no cadafalso, Tower Hill, 22 de junho de 1535 (relatado por Thomas Fuller, The Church History of Britain)
Quem ele influenciou
São João Fisher foi um dos primeiros e mais importantes adversários teológicos de Martinho Lutero. A sua Assertionis Lutheranae Confutatio (1523) tornou-se a refutação católica de referência na Europa contra as teses luteranas, conferindo-lhe reputação de teólogo de primeira ordem; a ela seguiram-se a defesa do sacerdócio (1525) e a defesa da presença real na Eucaristia contra Ecolampádio (1527). Erasmo de Roterdã louvou-o como prelado de rara doutrina e santidade.Como chanceler e reformador da Universidade de Cambridge, e confessor de Lady Margaret Beaufort, foi o artífice da fundação do Christ’s College (1505) e do St John’s College, além das cátedras “Lady Margaret” de teologia — impulsionando o estudo do grego, do hebraico e das fontes patrísticas. O seu exemplo de bispo fiel, residente e pobre fez dele modelo de pastor.Venerado entre os Mártires da Inglaterra — único cardeal mártir, como recordou o Cardeal William Levada —, foi beatificado por Leão XIII (1886) e canonizado por Pio XI (1935), com festa litúrgica conjunta com Tomás More a 22 de junho. A sua figura é evocada pelos pastores e papas como testemunho da fidelidade à fé até o martírio.
Debates e controvérsias
A controvérsia antiluterana
Com a difusão das teses de Lutero nos anos 1520, Fisher tornou-se o principal controversista católico da Inglaterra. Em 1521 pregou em Londres contra a doutrina de Lutero, por ocasião de uma queima pública de livros tidos por heréticos. Em 1523 publicou a Assertionis Lutheranae Confutatio, refutação sistemática das teses luteranas e defesa do primado papal; seguiram-se a defesa do sacerdócio (1525) e a obra sobre a presença real na Eucaristia, contra Ecolampádio (1527).
A defesa de Catarina de Aragão e da indissolubilidade do matrimônio
Quando Henrique VIII buscou a nulidade do seu casamento com Catarina de Aragão para desposar Ana Bolena, Fisher tornou-se o principal defensor da rainha. Perante o tribunal dos legados, sustentou a validade e a indissolubilidade do matrimônio, declarando-se disposto a morrer por essa causa e comparando-se a João Batista. Essa oposição pública pôs o bispo em rota de colisão direta com o rei.
A recusa do Juramento de Supremacia e o martírio
Fisher recusou o juramento exigido pelo Ato de Sucessão (1534), que implicava reconhecer a autoridade do rei sobre a Igreja, e foi preso na Torre de Londres. Em maio de 1535, o Papa Paulo III criou-o cardeal — gesto que enfureceu Henrique VIII. Condenado por negar ao rei o título de cabeça suprema da Igreja na Inglaterra, foi decapitado em Tower Hill a 22 de junho de 1535, morrendo pela fé católica e pela comunhão com Roma. (Fisher não foi herege nem condenado pela Igreja: estas foram as suas lutas pela fé.)
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/08462b.htm
- britannica.com/biography/Saint-John-Fisher
- vaticanstate.va/en/state-and-government/general-informations/saint-of-the-day/2144-june-22-saints-thomas-more-and-john-fisher.html
- catholic.com/encyclopedia/john-fisher-blessed
- catholicsaints.info/saint-john-fisher/
- ewtn.com/catholicism/saints/john-fisher-637
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/speeches/2010/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20100917_societa-civile.html
- vatican.va/content/john-paul-ii/en/motu_proprio/documents/hf_jp-ii_motu-proprio_20001031_thomas-more.html
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=95
- catholicculture.org/culture/library/view.cfm?recnum=7604
- luminarium.org/renlit/fisherbio.htm
- en.wikipedia.org/wiki/John_Fisher
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