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Medalius · Santos · Papa São Clemente I
S. Papa São Clemente I
Dia de festa
23 de novembro
Status canônico
Santo
Santo

Papa São Clemente I

Padre Apostólico (Clemente Romano) · Séc. I
Lugar: Roma
Estado de vida: bispo, martir
Padroados: Marinheiros

Papa São Clemente I, também chamado Clemente Romano, foi o quarto Papa e um dos Padres Apostólicos, tendo governado a Igreja de Roma nos últimos anos do século I. É autor da célebre Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96), o mais antigo documento cristão fora do Novo Testamento que se pode datar com segurança e o primeiro registro de uma intervenção da Igreja de Roma nos assuntos de outra Igreja. Segundo uma tradição mais tardia, foi exilado e morreu mártir, lançado ao mar amarrado a uma âncora, símbolo com que é representado até hoje. Sua festa é celebrada em 23 de novembro.

A vida

Origem e elevação ao episcopado de Roma

Pouco se sabe com certeza sobre a origem de São Clemente I. A tradição o situa em Roma, no fim do século I, e antigos autores chegaram a identificá-lo com o “Clemente” que São Paulo menciona entre seus colaboradores em Filipenses 4,3 — identificação hoje tida por improvável, pois aquele provavelmente era um cristão de Filipos. Também se levantou a hipótese de uma ligação com a gens Flavia, e até com o cônsul Tito Flávio Clemente, martirizado sob Domiciano; trata-se, porém, de conjectura, e não de fato comprovado. O frequente recurso ao Antigo Testamento em sua carta levou diversos estudiosos a suporem-lhe origem judaica.


Quanto ao seu lugar na sucessão de São Pedro, as fontes antigas variam. Tertuliano afirma que Clemente foi ordenado pelo próprio Pedro; Santo Irineu o coloca como o terceiro a ocupar a sede depois dos Apóstolos, após Lino e Anacleto; e listas posteriores, seguidas por São Jerônimo, contam-no como o quarto Papa. Eusébio de Cesareia registra que Clemente sucedeu a Anencleto “no décimo segundo ano” do reinado de Domiciano. Essas tradições, embora divirjam na ordem, concordam em apresentá-lo como uma das primeiras grandes figuras da Igreja romana, conhecedor da pregação dos próprios Apóstolos.


Pontificado e a Carta aos Coríntios (1 Clemente)

O grande feito do pontificado de Clemente foi a Carta aos Coríntios, conhecida como 1 Clemente, escrita em grego por volta do ano 96. O motivo foi uma grave sedição na comunidade de Corinto: alguns membros, descritos por Bento XVI como “jovens contestadores”, haviam deposto injustamente presbíteros legítimos. Em nome da Igreja de Roma, Clemente escreveu para restabelecer a paz e a ordem, exortando à humildade e à concórdia e advertindo contra a inveja que, segundo ele, fora a raiz das divisões desde Caim.


O documento tem enorme importância histórica. É o primeiro exemplo documentado de intervenção da Igreja de Roma nos assuntos de outra Igreja — testemunho precoce do primado romano exercido após a morte de Pedro. Nele Clemente expõe também a sucessão apostólica: o Pai enviou Cristo, Cristo enviou os Apóstolos, e estes constituíram os primeiros chefes das comunidades, dispondo que outros homens dignos lhes sucedessem. A carta foi tão estimada que, como atesta Eusébio, “foi lida publicamente em muitíssimas Igrejas”, tanto antigamente quanto em seu tempo, sendo considerada o mais importante texto cristão do século I fora do Novo Testamento.


Tradição do martírio

Segundo uma tradição mais tardia, recolhida em Atos apócrifos gregos que não são anteriores ao século IV, Clemente teria sido exilado para a Quersoneso, na Crimeia, durante o reinado do imperador Trajano, e condenado a trabalhos forçados numa pedreira. Ali, conta a lenda, teria feito brotar água milagrosamente e convertido muitos, sendo por isso lançado ao mar amarrado a uma âncora. É desta narrativa que vem a âncora como seu símbolo característico e o seu patronato sobre os marinheiros.


Convém sublinhar que se trata de tradição piedosa, e não de fato historicamente comprovado. As fontes mais antigas sobre a vida de Clemente — Eusébio e São Jerônimo — nada dizem de exílio, martírio ou âncora. Rufino (c. 400) é o primeiro a chamá-lo de mártir, e alguns estudiosos suspeitam que o título lhe tenha sido atribuído por confusão com seu homônimo, o cônsul mártir Tito Flávio Clemente. Ainda assim, a Igreja venera Clemente como mártir.


Morte, relíquias e legado

Eusébio e Jerônimo relatam que Clemente confiou o governo da Igreja de Roma a Evaristo e faleceu no terceiro ano do reinado de Trajano, depois de cerca de nove anos de episcopado. Jerônimo acrescenta que, já em seu tempo, “uma igreja edificada em Roma conserva a memória de seu nome” — referência à atual Basílica de São Clemente (San Clemente al Laterano), provavelmente erguida sobre o local de sua antiga casa.


Por volta de 860–861, São Cirilo — junto com seu irmão São Metódio, os “Apóstolos dos Eslavos” — encontrou na Crimeia ossos sepultados com uma âncora, que foram tidos como as relíquias de São Clemente. Cirilo levou-as a Roma pouco antes de sua própria morte (869), e o Papa Adriano II depositou-as na Basílica de São Clemente, onde são veneradas até hoje. Celebrado a 23 de novembro, Clemente permanece um dos mais notáveis Padres Apostólicos, testemunha viva da unidade da Igreja primitiva e da autoridade da Sé de Roma.

Contexto

O contexto em que viveu

São Clemente I governou a Igreja de Roma nos últimos anos do século I, em pleno Império dos Flávios. O imperador era Domiciano (81–96), filho de Vespasiano e irmão de Tito, cujo governo se tornou progressivamente despótico: exigia ser tratado como dominus et deus (“senhor e deus”) e, em seus últimos anos (cerca de 93–96), instaurou um clima de terror, mandando matar muitos homens de destaque em Roma. Foi assassinado em setembro de 96, sendo-lhe sucedido por Nerva (96–98), o primeiro dos chamados “cinco bons imperadores”, que adotou como herdeiro Trajano (98–117).


Foi nesse contexto que se situa a célebre Carta de Clemente aos Coríntios, redigida em nome da Igreja de Roma. Segundo a tradição da Igreja, recolhida por Bento XVI, as “súbitas adversidades, ocorridas uma após a outra”, que a carta menciona devem identificar-se com a perseguição de Domiciano; por isso a sua composição remonta a um tempo imediatamente posterior à morte do imperador e ao fim da perseguição, ou seja, logo depois do ano 96. Eusébio de Cesareia, na sua História Eclesiástica, recorda que Domiciano “se tornou sucessor de Nero no seu ódio a Deus” e foi “o segundo a levantar uma perseguição contra nós”.


A Igreja de Roma encontrava-se então ainda muito próxima da era apostólica, recém-saída do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, ocorrido sob Nero (por volta de 64–67). Era a passagem da geração apostólica para a geração sub-apostólica: Clemente é apontado por Eusébio como o terceiro bispo de Roma depois de Pedro e Paulo, sucedendo a Lino e a Anacleto. Santo Ireneu testemunha que Clemente vira os Apóstolos, encontrara-se com eles e ainda guardava nos ouvidos a sua pregação e diante dos olhos a sua tradição. Por isso a sua intervenção é considerada “um primeiro exercício do Primado romano depois da morte de São Pedro”.


A intervenção romana foi motivada por uma grave crise na Igreja de Corinto: ali surgira uma sedição em que alguns jovens contestadores haviam deposto os presbíteros legitimamente constituídos. A carta exorta a comunidade à reconciliação e à paz, ao arrependimento e à restauração dos presbíteros depostos, fundamentando a obediência aos legítimos pastores numa cadeia ordenada: o Pai enviou Jesus Cristo, que por sua vez enviou os Apóstolos, e estes constituíram os primeiros chefes das comunidades, estabelecendo que outros homens dignos lhes sucedessem.


No plano cultural e religioso, o cristianismo era ainda uma minoria que se difundia pelo mundo greco-romano, distinguindo-se progressivamente do judaísmo. O judaísmo do Segundo Templo havia sofrido um golpe decisivo poucas décadas antes: o Templo de Jerusalém fora destruído em 70 d.C., durante a Primeira Guerra Judaica, quando Tito — então general, filho de Vespasiano — tomou e arrasou a cidade. Era, pois, um tempo de transição, em que a jovem Igreja, sem o amparo dos Apóstolos vivos e sob a hostilidade do poder imperial, consolidava a sua estrutura e a sua comunhão.

Iconografia

Como reconhecer Papa São Clemente I na arte sacra

Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.

Âncora
Atributo maior de São Clemente. Por tradição, foi lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro por ordem de Trajano. A âncora é também símbolo da esperança cristã, o vínculo firme que prende a alma a Cristo em meio às tempestades.
👑
Tiara papal / vestes pontificais
Representado como Papa (quarto sucessor de Pedro): tiara, vestes pontificais, por vezes em vermelho de mártir. Distingue sua dignidade de Bispo de Roma.
🧣
Pálio
Faixa litúrgica branca com cruzes, sinal da autoridade pastoral do Sumo Pontífice, frequente nas representações episcopais/papais de Clemente.
📖
Livro
A Carta aos Coríntios (1 Clemente), sua obra autêntica que prega arrependimento, unidade e paz; ou o Evangelho, sinal do Padre Apostólico mestre da fé.
Fonte / nascente de água
Milagre da pedreira: condenado aos trabalhos forçados, viu os presos sem água, orou e fez brotar uma fonte ao golpear a rocha. Atributo de seu poder de intercessão.
🐑
Cordeiro
Lenda da fonte: Clemente viu um cordeiro sobre a colina e golpeou o solo onde ele estava, fazendo jorrar a água. O cordeiro aponta a nascente.
🌿
Palma do martírio
Sinal universal do martírio; Clemente é venerado como mártir afogado no mar.
✝️
Cruz-âncora (Cruz de São Clemente)
A cruz fincada na âncora (Mariner's Cross), chamada Cruz de São Clemente em referência ao seu martírio; une a fé cristã ao seu atributo pessoal. Patrono dos marinheiros.
🌊
Homem se afogando / mar
Cena de seu martírio: lançado ao mar com a âncora. Na lenda, anjos erguem um templo submarino que guarda seu corpo e a âncora, visível na maré baixa anual.
Cronologia

Linha do tempo

Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.

Vida do santo Mundo no mesmo período
64
Martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo em Roma
Sob a perseguição de Nero, os Apóstolos Pedro e Paulo são martirizados em Roma (tradição comum: entre 64 e 67/68 d.C.). O martírio de Pedro abre a sucessão apostólica na Sé de Roma, da qual Clemente seria o quarto titular.
70
Destruição do Templo de Jerusalém
As forças romanas comandadas por Tito tomam Jerusalém e destroem o Segundo Templo, encerrando o culto sacrificial judaico. Marco do mundo em que nascia a Igreja primitiva.
81
Início do reinado do imperador Domiciano
Após a morte de seu irmão Tito (13 de setembro de 81), Domiciano torna-se imperador romano (81–96). Seu reinado seria o pano de fundo do pontificado e da carta de Clemente.
92
Início do pontificado de Clemente em Roma
Clemente sucede a Anacleto (Cleto) como Bispo de Roma, quarto Papa após Pedro — segundo São Jerônimo (De Viris Illustribus 15): “quarto bispo de Roma depois de Pedro, sendo o segundo Lino e o terceiro Anacleto”. As fontes divergem quanto à data: a cronologia tradicional difundida indica c. 88, enquanto Eusébio (Hist. Ecl. III,15) situa o início no 12º ano de Domiciano, por volta de 92.
95
Perseguição no fim do reinado de Domiciano
Nos últimos anos do reinado de Domiciano (c. 95–96) recrudesce a hostilidade contra os cristãos. Bento XVI situa a Carta de Clemente logo após a morte do imperador e o fim da perseguição, isto é, imediatamente após o ano 96.
96
Clemente escreve a Carta aos Coríntios (1 Clemente)
Clemente redige, em nome da Igreja de Roma, a Carta à Igreja de Corinto (1 Clemente), para sanar uma sedição em que presbíteros legítimos haviam sido depostos. Datada de c. 96, é chamada por Bento XVI de “primeiro exercício do primado romano após São Pedro”; Eusébio a tem por genuína, de grande mérito, e lida publicamente em muitas igrejas.
96
Assassinato de Domiciano; Nerva imperador
Domiciano é assassinado em conspiração no palácio em 18 de setembro de 96, encerrando a dinastia flaviana. O Senado proclama Nerva imperador (96–98).
98
Trajano torna-se imperador
Com a morte de Nerva (janeiro de 98), Trajano assume o trono (98–117). Sob seu reinado a tradição situa o fim do pontificado e o martírio de Clemente.
99
Fim do pontificado e morte de Clemente
A tradição registra a morte de Clemente após cerca de nove anos de pontificado. Eusébio (Hist. Ecl. III,34) diz que ele confiou o governo da igreja de Roma a Evaristo no terceiro ano de Trajano (c. 100/101); Jerônimo igualmente afirma que morreu no terceiro ano de Trajano. A datação tradicional difundida indica c. 99.
100
Tradição do exílio e martírio na Quersoneso (Crimeia)
Segundo a tradição (Atos apócrifos não anteriores ao séc. IV), Trajano teria desterrado Clemente para a Quersoneso Táurica (Crimeia), onde trabalhou nas pedreiras e operou o milagre da fonte; condenado, foi lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro — origem da âncora como seu símbolo. O título de mártir aparece em fontes dos séculos IV–VI; não há documentação anterior. Trata-se de tradição, não de fato histórico.
861
Descoberta das relíquias por São Cirilo na Crimeia
Segundo o próprio relato de São Cirilo, em 861 ele recuperou na Crimeia ossos tidos por relíquias de Clemente, juntamente com uma âncora (encontrados num túmulo em terra firme, não sob o mar, observa a Catholic Encyclopedia).
868
Translação das relíquias para Roma
São Cirilo e São Metódio levam as relíquias a Roma (c. 867/868), onde o Papa Adriano II as deposita, junto às de Santo Inácio de Antioquia, no altar-mor da Basílica de São Clemente (San Clemente), onde são veneradas até hoje.
Milagres

Milagres atribuídos à sua intercessão

Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.

A fonte nas pedreiras (lenda)

Segundo a tradição piedosa recolhida na Legenda Áurea (Jacopo de Varazze) e nos Atos apócrifos, exilado por Trajano nas pedreiras de mármore da Quersoneso (Crimeia), São Clemente encontrou cristãos condenados que buscavam água a grande distância. Após sua oração, conta a lenda que viu um cordeiro erguer a pata indicando um lugar; ele golpeou o solo sob a pata do cordeiro e brotou uma fonte que cresceu como um grande rio, levando muitos ao batismo. Narrativa hagiográfica/lendária, não fato histórico documentado.

O túmulo submarino revelado pelo mar (lenda)

Conta a lenda (Legenda Áurea; Atos gregos apócrifos do martírio) que, após Clemente ser lançado ao mar amarrado a uma âncora, seus discípulos oraram e o mar recuou, deixando o caminho a seco; ali encontraram um templo de mármore ‘que Deus havia feito e preparado’, com o corpo do mártir num sarcófago e a âncora ao lado. A Catholic Encyclopedia registra a versão de que o mar recuava todos os anos revelando o santuário, e adverte que ‘esta história não é anterior ao século IV’. Tradição piedosa, não fato histórico.

A criança encontrada viva no santuário submarino (lenda)

Segundo a tradição narrada na Legenda Áurea, todos os anos o mar recuava por alguns dias, permitindo a peregrinação ao santuário submarino. Numa dessas festas, uma mulher esqueceu o filho adormecido no templo ao subir a maré; voltando no ano seguinte, encontrou o menino vivo e ileso no mesmo lugar. Lenda hagiográfica, não fato histórico.

Suas contribuições à teologia

O pensamento de Papa São Clemente I está condensado em sua Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.), escrita pela Igreja de Roma para apaziguar uma comunidade dividida. O motivo é uma sedição vergonhosa em que presbíteros legítimos haviam sido depostos por alguns mais jovens. Daí brota toda a sua doutrina: a desordem na Igreja é fruto do pecado, e a cura é o retorno à ordem querida por Deus.


A raiz da desordem é a inveja e o ciúme. Clemente mostra, com longa galeria de exemplos do Antigo Testamento, que a inveja levou Caim a matar o irmão, fez Jacó fugir de Esaú, perseguiu José até a morte e compeliu Moisés a fugir da face do Faraó — e o mesmo se deu com Davi. A emulação, a inveja, a contenda e a sedição são as paixões que despedaçam a comunidade.


O remédio é a concórdia, reflexo da ordem que Deus pôs na criação. Clemente contempla o cosmos como modelo de paz: os céus, o sol, a lua e o coro das estrelas giram em harmonia segundo o mandamento divino, e as estações cedem lugar umas às outras pacificamente. Se a própria criação obedece em concórdia, quanto mais os cristãos devem viver em paz.


A humildade de Cristo é o caminho. O Senhor Jesus Cristo, “o cetro da majestade de Deus”, não veio na pompa do orgulho ou da arrogância, embora pudesse tê-lo feito, mas em condição humilde. A soberba gera a divisão; a humildade reconstrói a comunhão.


A justificação é pela fé, unida às boas obras. Clemente ensina que não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa sabedoria ou obras, mas pela fé pela qual Deus desde o princípio justificou os homens; e, contudo, essa fé não dispensa a obra: o cristão deve apressar-se com todo empenho a praticar toda boa obra.


A caridade é o vínculo que une. “O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta”; o amor não admite cismas nem dá origem a sedições, mas faz todas as coisas em harmonia. Onde há caridade, não há lugar para a divisão.


A ressurreição é certa, e Deus a anuncia até pela natureza. Para ilustrá-la, Clemente recorre ao célebre exemplo da ave fênix, que, ao fim de seu ciclo, renasce — sinal natural oferecido por Deus da ressurreição dos mortos, da qual Cristo é as primícias.


A sucessão apostólica e a legitimidade dos ministros. Aqui está o coração eclesiológico da Carta: Cristo foi enviado por Deus, e os Apóstolos por Cristo; pregando, eles constituíram bispos e diáconos e, prevendo que haveria contenda pelo ofício episcopal, dispuseram que, ao adormecerem estes, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério. Depor injustamente esses ministros legítimos é, para Clemente, o pecado grave dos coríntios.


A grande oração final pela paz e pelas autoridades. A Carta culmina numa das mais antigas orações litúrgicas cristãs conservadas: Clemente suplica a Deus que dê concórdia e paz a todos os que habitam a terra e ora pelas autoridades civis, pedindo que Deus dirija o conselho delas segundo o que é bom e agradável aos seus olhos — a mais antiga oração conservada em favor das instituições políticas.

Espiritualidade

Espiritualidade e carisma

Escola espiritual

Espiritualidade dos Padres Apostólicos (patrística primitiva romana)

Clemente de Roma é o primeiro e maior representante da espiritualidade dos Padres Apostólicos, nascida do contato direto com a pregação dos apóstolos. É uma espiritualidade da ordem e da concórdia: assim como Deus governa o cosmos em paz e harmonia, a comunidade cristã é chamada a viver na unidade, sem inveja nem sedição. Suas notas próprias são a humildade, tomada de Cristo que veio em condição humilde; a caridade como vínculo que une a Deus e cura todo cisma; a obediência e o respeito aos legítimos pastores, fundados na sucessão apostólica querida por Deus; e a oração confiante, que culmina na grande súplica pela paz, pela Igreja e até pelas autoridades civis. É uma piedade eclesial, bíblica e profundamente comunitária, que vê na paz e na concórdia o reflexo terreno da ordem divina.

Como se vive hoje

A mensagem de Clemente continua atualíssima. Diante das divisões, polarizações e rivalidades que ainda ferem as comunidades, ele recorda que a inveja e o ciúme são a raiz da desordem, e que a humildade e a caridade são o caminho para a comunhão. Ensina o respeito e a obediência aos legítimos pastores e a comunhão hierárquica fundada na sucessão apostólica, mostrando que a unidade da Igreja é vontade de Deus. Sua grande oração final inspira os cristãos a serem construtores de paz e a rezar pelas autoridades civis e por todos os homens.

Família espiritual

Ordens, congregações e movimentos

Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.

📜

Padres Apostólicos

Grupo dos primeiros autores cristãos pós-apostólicos, em contato direto com os Apóstolos. São Clemente de Roma é contado entre os três grandes Padres Apostólicos do séc. I, ao lado de Santo Inácio de Antioquia e São Policarpo de Esmirna; sua Primeira Epístola aos Coríntios é o documento mais antigo do grupo.

1108

Basílica de São Clemente de Latrão (Roma)

Igreja titular de Roma erguida provavelmente sobre a casa de Clemente, guardiã de suas relíquias. Está sob custódia da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) e, em perpetuidade, dos Dominicanos irlandeses desde 1677 até hoje, como casa de estudos.

✝️
1880

Capela de São Cirilo e São Metódio (San Clemente)

São Cirilo encontrou as relíquias de São Clemente na Crimeia (861) e, com São Metódio, trouxe-as a Roma (868), onde foram depositadas em San Clemente. O próprio São Cirilo está sepultado na basílica; a capela dedicada aos apóstolos dos eslavos, com suas relíquias, foi acrescentada em 1880.

Obras escritas

Suas obras principais

Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.

Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios (1 Clemente)

Πρὸς Κορινθίους Α´ / Epistula ad Corinthios prior (Prima Clementis) · c. 96 d.C. (fim do reinado de Domiciano ou logo após sua morte)

Única obra autenticamente atribuída a São Clemente. Carta enviada em nome da Igreja de Roma à Igreja de Corinto, escrita originalmente em grego, por ocasião de uma sedição em que membros mais jovens depuseram injustamente presbíteros legítimos. Clemente exorta à concórdia, à humildade e à caridade, e fundamenta a ordem eclesiástica na sucessão apostólica (caps. 42–44). Inclui a célebre alegoria da ave fênix como sinal da ressurreição (cap. 25) e termina com uma extensa oração litúrgica de intercessão, inclusive pelas autoridades civis (caps. 59–61). É o mais antigo documento cristão datável fora do Novo Testamento; foi tido por genuíno desde a Antiguidade, lido publicamente em muitas igrejas e preservado em grego no Codex Alexandrinus.

Liturgia

Como a Igreja celebra Papa São Clemente I

Categoria litúrgica
Memória facultativa
Cor litúrgica
Vermelho
Dia
23 de Novembro
Antífona de entradaO Senhor o escolheu para a plenitude do sacerdócio e, abrindo seus tesouros, o cumulou de bens.
Antífona de comunhãoO bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
Coleta própriaMissal Romano — Coleta de São Clemente I, papa e mártir (23/nov)
Devoções populares

Como o povo reza a Papa São Clemente I

Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.

Práticas devocionais

Tríduos, novenas e ladainhas

  • Invocação como padroeiro dos marinheiros e da gente do mar — Pela tradição de seu martírio no mar — lançado às águas com uma âncora — São Clemente é invocado como padroeiro dos marinheiros, navegadores, barqueiros e da gente do mar, que pedem a sua proteção nas viagens e tempestades.
  • Padroeiro dos canteiros e trabalhadores do mármore — São Clemente é também venerado como padroeiro dos trabalhadores em mármore e dos canteiros/lapidários, segundo a tradição hagiográfica que o associa ao trabalho nas pedreiras durante o exílio. Artesãos e operários da pedra o tomam por protetor de seu ofício.
  • Memória de 23 de novembro e o nome no Cânon Romano — São Clemente I é celebrado na memória litúrgica de 23 de novembro. O seu nome figura no Cânon Romano (Oração Eucarística I), na lista de mártires “Lino, Cleto, Clemente, Sisto...”, sendo recordado em toda missa rezada com essa oração eucarística.
Sacramentais

Medalhas e escapulários

  • A âncora, emblema de São Clemente — A âncora é o símbolo mais característico de São Clemente, lembrando a tradição de seu martírio no mar e remetendo, ao mesmo tempo, à âncora como antigo símbolo cristão da esperança firme em Cristo. Imagens e objetos devocionais do santo costumam trazer a âncora.

Tradições populares por região

Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.

Roma, Itália

A Basílica de São Clemente, no Latrão, é um dos templos mais venerados de Roma e guarda, segundo a tradição, as relíquias do santo. Reconstruída no século XII sobre uma igreja paleocristã e construções ainda mais antigas, é lugar de peregrinação e oração na memória do santo, especialmente em 23 de novembro.

Crimeia / Quersoneso (Sebastopol)

Uma antiga tradição liga São Clemente ao Quersoneso, na Crimeia, onde teria sido exilado, evangelizado e martirizado. No século IX, São Cirilo recuperou ali relíquias atribuídas ao santo, junto com uma âncora, levando-as a Roma. A devoção é viva também entre as Igrejas de tradição eslava.

Mensagem

O que Papa São Clemente I nos diz hoje

"O cetro da majestade de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, não veio com a pompa do orgulho ou da arrogância, embora pudesse tê-lo feito, mas em condição humilde, como o Espírito Santo havia declarado a seu respeito."

— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 16

"Consideremos, amados, como o Senhor continuamente nos prova que haverá uma ressurreição futura, da qual fez primícias o Senhor Jesus Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos."

— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 24

"Aquele que tem amor em Cristo guarde os mandamentos de Cristo. Quem é capaz de descrever o vínculo do amor de Deus? O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta, é longânimo em tudo."

— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 49

"Pois nosso pecado não será pequeno se expulsarmos do episcopado aqueles que de modo irrepreensível e santo cumpriram os seus deveres."

— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 44
Frases célebres

Frases para guardar e compartilhar

Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.

Todas 5 Inveja e ciúme; martírio de Pedro e Paulo 1 Humildade 1 Fé e obras 1 Concórdia e paz; contra a divisão 1 Oração pela paz 1

"Por inveja e ciúme, as maiores e mais justas colunas da Igreja foram perseguidas e levadas à morte."

1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 5

"Sejamos, pois, irmãos, humildes de coração, deixando de lado toda arrogância, orgulho, insensatez e ira."

1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 13

"Sejamos justificados por nossas obras, e não por nossas palavras."

1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 30

"Por que há entre vós contendas, tumultos, divisões, cismas e guerras? Não temos nós um só Deus e um só Cristo?"

1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 46

"Dá concórdia e paz a nós e a todos os que habitam sobre a terra, como a deste a nossos pais quando te invocaram com fé e verdade."

1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 60
Influência

A rede de influências espirituais

Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.

Quem o influenciou

Mestres e encontros decisivos

Clemente pertence à geração subapostólica: foi formado diretamente pela pregação dos Apóstolos em Roma, sobretudo São Pedro e São Paulo, cujo martírio na Urbe ele evoca como testemunha próxima na própria carta (1Clem 5).A tradição antiga liga sua ordenação a Pedro: segundo Tertuliano (c. 199), a Igreja Romana sustentava que “Clemente foi ordenado por São Pedro” (registre-se como tradição, não como dado historicamente assegurado). Uma corrente igualmente antiga, atestada por Orígenes, identifica-o com o Clemente de Filipenses 4,3, colaborador de São Paulo — também isto permanece no plano da tradição/hipótese.Sua formação intelectual e espiritual é profundamente bíblica e judaico-cristã: a carta está saturada de citações do Antigo Testamento na versão dos Setenta (Septuaginta), mostrando um autor enraizado nas Escrituras de Israel relidas em Cristo. Clemente conhece e recomenda explicitamente a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, exortando os destinatários a reler “a carta do bem-aventurado Paulo”.

Quem ele influenciou

Discípulos e herdeiros através dos séculos

A Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.) tornou-se um dos documentos cristãos mais influentes fora do Novo Testamento. Eusébio de Cesareia registra que era “reconhecida como genuína”, de “considerável extensão e notável mérito”, e que “foi usada publicamente em grande número de igrejas, tanto em tempos antigos como em nossos próprios dias” (História Eclesiástica III,16).O testemunho da própria Corinto é eloquente: por volta de 170, o bispo Dionísio de Corinto escreve aos romanos que naquele “dia santo do Senhor” haviam lido a carta de Clemente na assembleia e que dela continuariam “sempre a tirar conselho” (Eusébio, HE IV,23). Assim, a carta foi lida liturgicamente em Corinto e em muitas Igrejas por gerações.Tamanho era seu prestígio que chegou a ser transmitida junto às Escrituras: o Codex Alexandrinus (séc. V) inclui a Epístola de Clemente associada aos livros bíblicos — testemunho, nas palavras da Catholic Encyclopedia, de uma antiga crença em sua autenticidade. Muitos cristãos dos séculos III e IV a tinham em conta quase escriturística.Doutrinalmente, 1 Clemente é um dos primeiros testemunhos da autoridade da Igreja de Roma: Roma intervém para restaurar a ordem em Corinto — o que Bento XVI chamou de “um primeiro exercício do primado romano após a morte de São Pedro”. A carta é também testemunho precoce da sucessão apostólica e da ordem eclesial; nela aparece, pela primeira vez na literatura cristã, o termo laikós (“leigo”), marcando a distinção entre clero e fiéis.O culto a Clemente difundiu-se largamente. Em Roma, a Basílica de São Clemente, no vale entre o Esquilino e o Célio, guarda relíquias atribuídas ao santo, que a tradição diz terem sido trasladadas por São Cirilo. Sua festa celebra-se em 23 de novembro.

Debates

Debates e controvérsias

As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).

Controvérsias históricas

Os grandes embates de seu tempo

Controvérsias históricas e questões eruditas

Em torno de Clemente acumularam-se debates históricos, hoje em boa parte esclarecidos pela crítica, e um conjunto de obras a ele falsamente atribuídas.

A identidade de Clemente

A erudição discute, sem consenso firme, quem teria sido historicamente Clemente. Uma antiga corrente (já em Orígenes) identifica-o com o Clemente citado por São Paulo em Filipenses 4,3; a Catholic Encyclopedia observa, porém, que “este Clemente era provavelmente um filipense”. No século XIX difundiu-se a hipótese de identificá-lo com o cônsul Tito Flávio Clemente, parente do imperador Domiciano, executado c. 95–96 — mas, como nota a mesma fonte, “os antigos nunca sugerem isso”. São, pois, hipóteses eruditas, não fatos estabelecidos.

O lugar na sucessão papal

As listas antigas divergem sobre sua posição: ora aparece como terceiro sucessor de Pedro (depois de Lino e Cleto/Anacleto), ora como quarto. Bento XVI segue a contagem que o faz “terceiro sucessor de Pedro, depois de Lino e Anacleto”; a contagem oficial moderna coloca-o como quarto Papa. A divergência deve-se, em parte, à identificação de “Cleto” e “Anacleto” como a mesma pessoa e à tradição (Tertuliano) de que Clemente teria sido ordenado pelo próprio Pedro.

Autenticidade das obras: o que é genuíno e o que é espúrio

Apenas uma obra é reconhecida como autêntica de Clemente — a Primeira Carta aos Coríntios (1 Clemente), que Eusébio tem como “reconhecida como genuína”. São, ao contrário, espúrios/pseudoepígrafos (não escritos por Clemente):

  1. “2 Clemente” (Segunda Epístola aos Coríntios) — não é de Clemente; é uma homilia anônima do séc. II. Já Eusébio advertia que os antigos não a usavam como à primeira.
  2. As Pseudo-Clementinas — romance religioso composto pelas Homilias (20 livros, em grego) e pelas Recognições (tradução latina de Rufino, †410).
  3. A Carta de Clemente a Tiago (e a Carta de Pedro a Tiago), prefixadas às Homilias.
  4. As duas “Cartas às Virgens”, conservadas em siríaco.
  5. As Constituições Apostólicas e os cânones atribuídos a Clemente, redigidos na Síria por volta de 380.

O martírio com a âncora

O relato do martírio — Clemente exilado na Crimeia, lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro, com a maré recuando todos os anos para revelar seu túmulo — é lendário. A Catholic Encyclopedia observa que “esta história não é mais antiga que o século IV” e que críticos modernos consideram possível que o martírio tenha sido sugerido por confusão com seu homônimo, o cônsul mártir. O título de mártir só lhe é atribuído por testemunhos dos séculos IV–VI.

Controvérsias contemporâneas

Polêmicas ainda em aberto

Debates contemporâneos em aberto

A figura e a carta de Clemente continuam no centro de discussões atuais, sobretudo teológicas e históricas.

Uso ecumênico no debate sobre ministério e primado

1 Clemente é hoje texto-chave no diálogo ecumênico sobre o ministério ordenado, o primado romano e a sucessão apostólica. A intervenção de Roma em Corinto é lida pela teologia católica como o “primeiro exercício do primado romano após a morte de São Pedro” e como atestação precoce de que os Apóstolos dispuseram que homens aprovados lhes sucedessem no ministério. Estudiosos de várias tradições debatem o alcance exato desse testemunho — se prova já um primado de jurisdição ou apenas uma autoridade fraterna e moral da Igreja de Roma.

Datação e estrutura da Igreja primitiva

O consenso situa a carta por volta de 96 d.C., “imediatamente após a morte de Domiciano”, ainda que alguns proponham datas alternativas. Discute-se também o que a carta revela sobre a organização ministerial da Igreja primitiva: o emprego aparentemente intercambiável de presbíteros e epíscopos alimenta o debate sobre quando e como se delineou o episcopado monárquico — questão que segue em aberto entre os historiadores do cristianismo antigo.

Patronatos

Patronatos e causas de intercessão

Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).

🕯️ Intercessões populares

Causas pelas quais a tradição popular invoca o santo.

  • Marinheiros
Relíquias

Relíquias e locais de devoção

Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.

sepultamento original

Martírio e túmulo submarino na Quersoneso Táurica (tradição)

Quersoneso Táurica (Sebastopol), Crimeia · c. 99–101 d.C. (tradição, não anterior ao séc. IV)

Segundo a tradição, exilado por Trajano às pedreiras da Quersoneso, Clemente foi lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro. A lenda (atestada só a partir do séc. IV) diz que a cada ano a maré recuava revelando um santuário submarino contendo os ossos do mártir. Episódio expressamente classificado como lendário pelas fontes católicas.

peregrinacao

Mosteiro Rupestre de São Clemente de Inkerman (Crimeia)

Inkerman, próximo a Sebastopol, Crimeia · Origem bizantina medieval; refundado em 1850

Mosteiro rupestre escavado na rocha junto à foz do Rio Negro, no local tradicionalmente ligado às pedreiras do exílio e da morte de Clemente, onde se diz que as relíquias eram guardadas na Crimeia antes da translação para Roma. Sítio de tradição/peregrinação.

translacao

Descoberta das relíquias por São Cirilo, com a âncora (Crimeia)

Quersoneso / Crimeia · c. 861 (relato do próprio Cirilo; ‘cerca de 868’ em parte das fontes)

São Cirilo, a caminho de evangelizar os cázaros, desenterrou num túmulo (em terra firme, não no mar) ossos e uma âncora, tidos como as relíquias de São Clemente. A âncora — atributo iconográfico do santo — vinculou o achado à tradição do martírio.

translacao

Translação a Roma e depósito por Adriano II na Basílica de São Clemente

Basílica de San Clemente al Laterano, Roma · c. 867–868 (chegada a Roma) – hoje

Cirilo e Metódio levaram as relíquias a Roma, onde o Papa Adriano II as depositou, junto com as de Santo Inácio de Antioquia, no altar-mor da Basílica de São Clemente, onde repousam até hoje (conservadas sob o altar-mor, na confissão). O próprio São Cirilo, falecido em Roma (14 fev. 869), foi ali sepultado.

translacao

Cabeça atribuída em Kiev (tradição)

Mosteiro das Cavernas de Kiev (Kyiv Pechersk Lavra), Ucrânia · Tradição (relíquias levadas à Rus’ de Kiev)

Outras relíquias de São Clemente, incluindo a cabeça, são reivindicadas pelo Mosteiro das Cavernas de Kiev. Há também a tradição de que o Príncipe Vladimir levou parte das relíquias a Kiev. Reivindicação tradicional, não verificada; incluída com cautela.

Onde está Papa São Clemente I hoje

Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).

Quersoneso Táurica (Sebastopol), Crimeia
c. 99–101 d.C. (tradição, não anterior ao séc. IV)
Inkerman, próximo a Sebastopol, Crimeia
Origem bizantina medieval; refundado em 1850
Quersoneso / Crimeia
c. 861 (relato do próprio Cirilo; ‘cerca de 868’ em parte das fontes)
Basílica de San Clemente al Laterano, Roma
c. 867–868 (chegada a Roma) – hoje
Local atual (Arca) Sepultamento original Pontos secundários
Curiosidades

Curiosidades sobre Papa São Clemente I

Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.

🕊️

O nome de São Clemente é rezado em toda Missa celebrada com a Oração Eucarística I (Cânon Romano): na lista dos primeiros sucessores de Pedro aparecem “Lino, Cleto, Clemente, Sisto...”.

📜

Sua Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.) é tida como o mais antigo documento cristão datável fora do Novo Testamento. Era lida publicamente na liturgia em Corinto e, depois, em outras Igrejas — conforme atestam Dionísio de Corinto e Eusébio.

📖

Por seu prestígio quase canônico, a 1 Clemente foi copiada no Codex Alexandrinus (séc. V), um dos grandes manuscritos da Bíblia grega, logo após os livros do Novo Testamento.

🦅

No capítulo 25 da sua Carta, um Papa do séc. I descreve a lendária ave fênix — que renasce das próprias cinzas — como sinal natural oferecido por Deus para mostrar a verdade da ressurreição dos mortos.

🙋

A palavra grega “laikós” (leigo) aparece pela primeira vez na literatura cristã justamente nesta Carta de Clemente (cap. 40), designando o membro do laós, o Povo de Deus, como destacou o Papa Bento XVI.

Segundo a tradição, Clemente foi atirado ao mar amarrado a uma âncora; por isso a âncora se tornou seu símbolo e ele é venerado como padroeiro dos marinheiros (os relatos do martírio, porém, não são anteriores ao séc. IV).

🏛️

A Basílica de San Clemente, em Roma, é uma “lasanha” arqueológica: a igreja do séc. XII está sobre uma basílica paleocristã do séc. IV, que por sua vez se ergue sobre construções romanas do séc. I — incluindo um mitreu, antigo templo do deus Mitra.

🇮🇪

As relíquias de Clemente foram recuperadas na Crimeia por São Cirilo em 861 e levadas a Roma por Cirilo e Metódio, os “apóstolos dos eslavos”; São Cirilo está sepultado na própria basílica, confiada aos dominicanos irlandeses desde 1677.

Codex

Suas obras no Codex

Para estudar mais

Fontes e referências

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