Papa São Clemente I
Papa São Clemente I, também chamado Clemente Romano, foi o quarto Papa e um dos Padres Apostólicos, tendo governado a Igreja de Roma nos últimos anos do século I. É autor da célebre Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96), o mais antigo documento cristão fora do Novo Testamento que se pode datar com segurança e o primeiro registro de uma intervenção da Igreja de Roma nos assuntos de outra Igreja. Segundo uma tradição mais tardia, foi exilado e morreu mártir, lançado ao mar amarrado a uma âncora, símbolo com que é representado até hoje. Sua festa é celebrada em 23 de novembro.
A vida
Origem e elevação ao episcopado de Roma
Pouco se sabe com certeza sobre a origem de São Clemente I. A tradição o situa em Roma, no fim do século I, e antigos autores chegaram a identificá-lo com o “Clemente” que São Paulo menciona entre seus colaboradores em Filipenses 4,3 — identificação hoje tida por improvável, pois aquele provavelmente era um cristão de Filipos. Também se levantou a hipótese de uma ligação com a gens Flavia, e até com o cônsul Tito Flávio Clemente, martirizado sob Domiciano; trata-se, porém, de conjectura, e não de fato comprovado. O frequente recurso ao Antigo Testamento em sua carta levou diversos estudiosos a suporem-lhe origem judaica.
Quanto ao seu lugar na sucessão de São Pedro, as fontes antigas variam. Tertuliano afirma que Clemente foi ordenado pelo próprio Pedro; Santo Irineu o coloca como o terceiro a ocupar a sede depois dos Apóstolos, após Lino e Anacleto; e listas posteriores, seguidas por São Jerônimo, contam-no como o quarto Papa. Eusébio de Cesareia registra que Clemente sucedeu a Anencleto “no décimo segundo ano” do reinado de Domiciano. Essas tradições, embora divirjam na ordem, concordam em apresentá-lo como uma das primeiras grandes figuras da Igreja romana, conhecedor da pregação dos próprios Apóstolos.
Pontificado e a Carta aos Coríntios (1 Clemente)
O grande feito do pontificado de Clemente foi a Carta aos Coríntios, conhecida como 1 Clemente, escrita em grego por volta do ano 96. O motivo foi uma grave sedição na comunidade de Corinto: alguns membros, descritos por Bento XVI como “jovens contestadores”, haviam deposto injustamente presbíteros legítimos. Em nome da Igreja de Roma, Clemente escreveu para restabelecer a paz e a ordem, exortando à humildade e à concórdia e advertindo contra a inveja que, segundo ele, fora a raiz das divisões desde Caim.
O documento tem enorme importância histórica. É o primeiro exemplo documentado de intervenção da Igreja de Roma nos assuntos de outra Igreja — testemunho precoce do primado romano exercido após a morte de Pedro. Nele Clemente expõe também a sucessão apostólica: o Pai enviou Cristo, Cristo enviou os Apóstolos, e estes constituíram os primeiros chefes das comunidades, dispondo que outros homens dignos lhes sucedessem. A carta foi tão estimada que, como atesta Eusébio, “foi lida publicamente em muitíssimas Igrejas”, tanto antigamente quanto em seu tempo, sendo considerada o mais importante texto cristão do século I fora do Novo Testamento.
Tradição do martírio
Segundo uma tradição mais tardia, recolhida em Atos apócrifos gregos que não são anteriores ao século IV, Clemente teria sido exilado para a Quersoneso, na Crimeia, durante o reinado do imperador Trajano, e condenado a trabalhos forçados numa pedreira. Ali, conta a lenda, teria feito brotar água milagrosamente e convertido muitos, sendo por isso lançado ao mar amarrado a uma âncora. É desta narrativa que vem a âncora como seu símbolo característico e o seu patronato sobre os marinheiros.
Convém sublinhar que se trata de tradição piedosa, e não de fato historicamente comprovado. As fontes mais antigas sobre a vida de Clemente — Eusébio e São Jerônimo — nada dizem de exílio, martírio ou âncora. Rufino (c. 400) é o primeiro a chamá-lo de mártir, e alguns estudiosos suspeitam que o título lhe tenha sido atribuído por confusão com seu homônimo, o cônsul mártir Tito Flávio Clemente. Ainda assim, a Igreja venera Clemente como mártir.
Morte, relíquias e legado
Eusébio e Jerônimo relatam que Clemente confiou o governo da Igreja de Roma a Evaristo e faleceu no terceiro ano do reinado de Trajano, depois de cerca de nove anos de episcopado. Jerônimo acrescenta que, já em seu tempo, “uma igreja edificada em Roma conserva a memória de seu nome” — referência à atual Basílica de São Clemente (San Clemente al Laterano), provavelmente erguida sobre o local de sua antiga casa.
Por volta de 860–861, São Cirilo — junto com seu irmão São Metódio, os “Apóstolos dos Eslavos” — encontrou na Crimeia ossos sepultados com uma âncora, que foram tidos como as relíquias de São Clemente. Cirilo levou-as a Roma pouco antes de sua própria morte (869), e o Papa Adriano II depositou-as na Basílica de São Clemente, onde são veneradas até hoje. Celebrado a 23 de novembro, Clemente permanece um dos mais notáveis Padres Apostólicos, testemunha viva da unidade da Igreja primitiva e da autoridade da Sé de Roma.
O contexto em que viveu
São Clemente I governou a Igreja de Roma nos últimos anos do século I, em pleno Império dos Flávios. O imperador era Domiciano (81–96), filho de Vespasiano e irmão de Tito, cujo governo se tornou progressivamente despótico: exigia ser tratado como dominus et deus (“senhor e deus”) e, em seus últimos anos (cerca de 93–96), instaurou um clima de terror, mandando matar muitos homens de destaque em Roma. Foi assassinado em setembro de 96, sendo-lhe sucedido por Nerva (96–98), o primeiro dos chamados “cinco bons imperadores”, que adotou como herdeiro Trajano (98–117).
Foi nesse contexto que se situa a célebre Carta de Clemente aos Coríntios, redigida em nome da Igreja de Roma. Segundo a tradição da Igreja, recolhida por Bento XVI, as “súbitas adversidades, ocorridas uma após a outra”, que a carta menciona devem identificar-se com a perseguição de Domiciano; por isso a sua composição remonta a um tempo imediatamente posterior à morte do imperador e ao fim da perseguição, ou seja, logo depois do ano 96. Eusébio de Cesareia, na sua História Eclesiástica, recorda que Domiciano “se tornou sucessor de Nero no seu ódio a Deus” e foi “o segundo a levantar uma perseguição contra nós”.
A Igreja de Roma encontrava-se então ainda muito próxima da era apostólica, recém-saída do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, ocorrido sob Nero (por volta de 64–67). Era a passagem da geração apostólica para a geração sub-apostólica: Clemente é apontado por Eusébio como o terceiro bispo de Roma depois de Pedro e Paulo, sucedendo a Lino e a Anacleto. Santo Ireneu testemunha que Clemente vira os Apóstolos, encontrara-se com eles e ainda guardava nos ouvidos a sua pregação e diante dos olhos a sua tradição. Por isso a sua intervenção é considerada “um primeiro exercício do Primado romano depois da morte de São Pedro”.
A intervenção romana foi motivada por uma grave crise na Igreja de Corinto: ali surgira uma sedição em que alguns jovens contestadores haviam deposto os presbíteros legitimamente constituídos. A carta exorta a comunidade à reconciliação e à paz, ao arrependimento e à restauração dos presbíteros depostos, fundamentando a obediência aos legítimos pastores numa cadeia ordenada: o Pai enviou Jesus Cristo, que por sua vez enviou os Apóstolos, e estes constituíram os primeiros chefes das comunidades, estabelecendo que outros homens dignos lhes sucedessem.
No plano cultural e religioso, o cristianismo era ainda uma minoria que se difundia pelo mundo greco-romano, distinguindo-se progressivamente do judaísmo. O judaísmo do Segundo Templo havia sofrido um golpe decisivo poucas décadas antes: o Templo de Jerusalém fora destruído em 70 d.C., durante a Primeira Guerra Judaica, quando Tito — então general, filho de Vespasiano — tomou e arrasou a cidade. Era, pois, um tempo de transição, em que a jovem Igreja, sem o amparo dos Apóstolos vivos e sob a hostilidade do poder imperial, consolidava a sua estrutura e a sua comunhão.
Como reconhecer Papa São Clemente I na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
A fonte nas pedreiras (lenda)
Segundo a tradição piedosa recolhida na Legenda Áurea (Jacopo de Varazze) e nos Atos apócrifos, exilado por Trajano nas pedreiras de mármore da Quersoneso (Crimeia), São Clemente encontrou cristãos condenados que buscavam água a grande distância. Após sua oração, conta a lenda que viu um cordeiro erguer a pata indicando um lugar; ele golpeou o solo sob a pata do cordeiro e brotou uma fonte que cresceu como um grande rio, levando muitos ao batismo. Narrativa hagiográfica/lendária, não fato histórico documentado.
O túmulo submarino revelado pelo mar (lenda)
Conta a lenda (Legenda Áurea; Atos gregos apócrifos do martírio) que, após Clemente ser lançado ao mar amarrado a uma âncora, seus discípulos oraram e o mar recuou, deixando o caminho a seco; ali encontraram um templo de mármore ‘que Deus havia feito e preparado’, com o corpo do mártir num sarcófago e a âncora ao lado. A Catholic Encyclopedia registra a versão de que o mar recuava todos os anos revelando o santuário, e adverte que ‘esta história não é anterior ao século IV’. Tradição piedosa, não fato histórico.
A criança encontrada viva no santuário submarino (lenda)
Segundo a tradição narrada na Legenda Áurea, todos os anos o mar recuava por alguns dias, permitindo a peregrinação ao santuário submarino. Numa dessas festas, uma mulher esqueceu o filho adormecido no templo ao subir a maré; voltando no ano seguinte, encontrou o menino vivo e ileso no mesmo lugar. Lenda hagiográfica, não fato histórico.
Suas contribuições à teologia
O pensamento de Papa São Clemente I está condensado em sua Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.), escrita pela Igreja de Roma para apaziguar uma comunidade dividida. O motivo é uma sedição vergonhosa em que presbíteros legítimos haviam sido depostos por alguns mais jovens. Daí brota toda a sua doutrina: a desordem na Igreja é fruto do pecado, e a cura é o retorno à ordem querida por Deus.
A raiz da desordem é a inveja e o ciúme. Clemente mostra, com longa galeria de exemplos do Antigo Testamento, que a inveja levou Caim a matar o irmão, fez Jacó fugir de Esaú, perseguiu José até a morte e compeliu Moisés a fugir da face do Faraó — e o mesmo se deu com Davi. A emulação, a inveja, a contenda e a sedição são as paixões que despedaçam a comunidade.
O remédio é a concórdia, reflexo da ordem que Deus pôs na criação. Clemente contempla o cosmos como modelo de paz: os céus, o sol, a lua e o coro das estrelas giram em harmonia segundo o mandamento divino, e as estações cedem lugar umas às outras pacificamente. Se a própria criação obedece em concórdia, quanto mais os cristãos devem viver em paz.
A humildade de Cristo é o caminho. O Senhor Jesus Cristo, “o cetro da majestade de Deus”, não veio na pompa do orgulho ou da arrogância, embora pudesse tê-lo feito, mas em condição humilde. A soberba gera a divisão; a humildade reconstrói a comunhão.
A justificação é pela fé, unida às boas obras. Clemente ensina que não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa sabedoria ou obras, mas pela fé pela qual Deus desde o princípio justificou os homens; e, contudo, essa fé não dispensa a obra: o cristão deve apressar-se com todo empenho a praticar toda boa obra.
A caridade é o vínculo que une. “O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta”; o amor não admite cismas nem dá origem a sedições, mas faz todas as coisas em harmonia. Onde há caridade, não há lugar para a divisão.
A ressurreição é certa, e Deus a anuncia até pela natureza. Para ilustrá-la, Clemente recorre ao célebre exemplo da ave fênix, que, ao fim de seu ciclo, renasce — sinal natural oferecido por Deus da ressurreição dos mortos, da qual Cristo é as primícias.
A sucessão apostólica e a legitimidade dos ministros. Aqui está o coração eclesiológico da Carta: Cristo foi enviado por Deus, e os Apóstolos por Cristo; pregando, eles constituíram bispos e diáconos e, prevendo que haveria contenda pelo ofício episcopal, dispuseram que, ao adormecerem estes, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério. Depor injustamente esses ministros legítimos é, para Clemente, o pecado grave dos coríntios.
A grande oração final pela paz e pelas autoridades. A Carta culmina numa das mais antigas orações litúrgicas cristãs conservadas: Clemente suplica a Deus que dê concórdia e paz a todos os que habitam a terra e ora pelas autoridades civis, pedindo que Deus dirija o conselho delas segundo o que é bom e agradável aos seus olhos — a mais antiga oração conservada em favor das instituições políticas.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade dos Padres Apostólicos (patrística primitiva romana)
Clemente de Roma é o primeiro e maior representante da espiritualidade dos Padres Apostólicos, nascida do contato direto com a pregação dos apóstolos. É uma espiritualidade da ordem e da concórdia: assim como Deus governa o cosmos em paz e harmonia, a comunidade cristã é chamada a viver na unidade, sem inveja nem sedição. Suas notas próprias são a humildade, tomada de Cristo que veio em condição humilde; a caridade como vínculo que une a Deus e cura todo cisma; a obediência e o respeito aos legítimos pastores, fundados na sucessão apostólica querida por Deus; e a oração confiante, que culmina na grande súplica pela paz, pela Igreja e até pelas autoridades civis. É uma piedade eclesial, bíblica e profundamente comunitária, que vê na paz e na concórdia o reflexo terreno da ordem divina.
A mensagem de Clemente continua atualíssima. Diante das divisões, polarizações e rivalidades que ainda ferem as comunidades, ele recorda que a inveja e o ciúme são a raiz da desordem, e que a humildade e a caridade são o caminho para a comunhão. Ensina o respeito e a obediência aos legítimos pastores e a comunhão hierárquica fundada na sucessão apostólica, mostrando que a unidade da Igreja é vontade de Deus. Sua grande oração final inspira os cristãos a serem construtores de paz e a rezar pelas autoridades civis e por todos os homens.
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Padres Apostólicos
Grupo dos primeiros autores cristãos pós-apostólicos, em contato direto com os Apóstolos. São Clemente de Roma é contado entre os três grandes Padres Apostólicos do séc. I, ao lado de Santo Inácio de Antioquia e São Policarpo de Esmirna; sua Primeira Epístola aos Coríntios é o documento mais antigo do grupo.
Basílica de São Clemente de Latrão (Roma)
Igreja titular de Roma erguida provavelmente sobre a casa de Clemente, guardiã de suas relíquias. Está sob custódia da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) e, em perpetuidade, dos Dominicanos irlandeses desde 1677 até hoje, como casa de estudos.
Capela de São Cirilo e São Metódio (San Clemente)
São Cirilo encontrou as relíquias de São Clemente na Crimeia (861) e, com São Metódio, trouxe-as a Roma (868), onde foram depositadas em San Clemente. O próprio São Cirilo está sepultado na basílica; a capela dedicada aos apóstolos dos eslavos, com suas relíquias, foi acrescentada em 1880.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios (1 Clemente)
Única obra autenticamente atribuída a São Clemente. Carta enviada em nome da Igreja de Roma à Igreja de Corinto, escrita originalmente em grego, por ocasião de uma sedição em que membros mais jovens depuseram injustamente presbíteros legítimos. Clemente exorta à concórdia, à humildade e à caridade, e fundamenta a ordem eclesiástica na sucessão apostólica (caps. 42–44). Inclui a célebre alegoria da ave fênix como sinal da ressurreição (cap. 25) e termina com uma extensa oração litúrgica de intercessão, inclusive pelas autoridades civis (caps. 59–61). É o mais antigo documento cristão datável fora do Novo Testamento; foi tido por genuíno desde a Antiguidade, lido publicamente em muitas igrejas e preservado em grego no Codex Alexandrinus.
Como a Igreja celebra Papa São Clemente I
Como o povo reza a Papa São Clemente I
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Invocação como padroeiro dos marinheiros e da gente do mar — Pela tradição de seu martírio no mar — lançado às águas com uma âncora — São Clemente é invocado como padroeiro dos marinheiros, navegadores, barqueiros e da gente do mar, que pedem a sua proteção nas viagens e tempestades.
- Padroeiro dos canteiros e trabalhadores do mármore — São Clemente é também venerado como padroeiro dos trabalhadores em mármore e dos canteiros/lapidários, segundo a tradição hagiográfica que o associa ao trabalho nas pedreiras durante o exílio. Artesãos e operários da pedra o tomam por protetor de seu ofício.
- Memória de 23 de novembro e o nome no Cânon Romano — São Clemente I é celebrado na memória litúrgica de 23 de novembro. O seu nome figura no Cânon Romano (Oração Eucarística I), na lista de mártires “Lino, Cleto, Clemente, Sisto...”, sendo recordado em toda missa rezada com essa oração eucarística.
Medalhas e escapulários
- A âncora, emblema de São Clemente — A âncora é o símbolo mais característico de São Clemente, lembrando a tradição de seu martírio no mar e remetendo, ao mesmo tempo, à âncora como antigo símbolo cristão da esperança firme em Cristo. Imagens e objetos devocionais do santo costumam trazer a âncora.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
A Basílica de São Clemente, no Latrão, é um dos templos mais venerados de Roma e guarda, segundo a tradição, as relíquias do santo. Reconstruída no século XII sobre uma igreja paleocristã e construções ainda mais antigas, é lugar de peregrinação e oração na memória do santo, especialmente em 23 de novembro.
Uma antiga tradição liga São Clemente ao Quersoneso, na Crimeia, onde teria sido exilado, evangelizado e martirizado. No século IX, São Cirilo recuperou ali relíquias atribuídas ao santo, junto com uma âncora, levando-as a Roma. A devoção é viva também entre as Igrejas de tradição eslava.
O que Papa São Clemente I nos diz hoje
"O cetro da majestade de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, não veio com a pompa do orgulho ou da arrogância, embora pudesse tê-lo feito, mas em condição humilde, como o Espírito Santo havia declarado a seu respeito."
— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 16"Consideremos, amados, como o Senhor continuamente nos prova que haverá uma ressurreição futura, da qual fez primícias o Senhor Jesus Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos."
— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 24"Aquele que tem amor em Cristo guarde os mandamentos de Cristo. Quem é capaz de descrever o vínculo do amor de Deus? O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta, é longânimo em tudo."
— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 49"Pois nosso pecado não será pequeno se expulsarmos do episcopado aqueles que de modo irrepreensível e santo cumpriram os seus deveres."
— 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 44Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"Por inveja e ciúme, as maiores e mais justas colunas da Igreja foram perseguidas e levadas à morte."
"Sejamos, pois, irmãos, humildes de coração, deixando de lado toda arrogância, orgulho, insensatez e ira."
"Sejamos justificados por nossas obras, e não por nossas palavras."
"Por que há entre vós contendas, tumultos, divisões, cismas e guerras? Não temos nós um só Deus e um só Cristo?"
"Dá concórdia e paz a nós e a todos os que habitam sobre a terra, como a deste a nossos pais quando te invocaram com fé e verdade."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
Clemente pertence à geração subapostólica: foi formado diretamente pela pregação dos Apóstolos em Roma, sobretudo São Pedro e São Paulo, cujo martírio na Urbe ele evoca como testemunha próxima na própria carta (1Clem 5).A tradição antiga liga sua ordenação a Pedro: segundo Tertuliano (c. 199), a Igreja Romana sustentava que “Clemente foi ordenado por São Pedro” (registre-se como tradição, não como dado historicamente assegurado). Uma corrente igualmente antiga, atestada por Orígenes, identifica-o com o Clemente de Filipenses 4,3, colaborador de São Paulo — também isto permanece no plano da tradição/hipótese.Sua formação intelectual e espiritual é profundamente bíblica e judaico-cristã: a carta está saturada de citações do Antigo Testamento na versão dos Setenta (Septuaginta), mostrando um autor enraizado nas Escrituras de Israel relidas em Cristo. Clemente conhece e recomenda explicitamente a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, exortando os destinatários a reler “a carta do bem-aventurado Paulo”.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
A Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.) tornou-se um dos documentos cristãos mais influentes fora do Novo Testamento. Eusébio de Cesareia registra que era “reconhecida como genuína”, de “considerável extensão e notável mérito”, e que “foi usada publicamente em grande número de igrejas, tanto em tempos antigos como em nossos próprios dias” (História Eclesiástica III,16).O testemunho da própria Corinto é eloquente: por volta de 170, o bispo Dionísio de Corinto escreve aos romanos que naquele “dia santo do Senhor” haviam lido a carta de Clemente na assembleia e que dela continuariam “sempre a tirar conselho” (Eusébio, HE IV,23). Assim, a carta foi lida liturgicamente em Corinto e em muitas Igrejas por gerações.Tamanho era seu prestígio que chegou a ser transmitida junto às Escrituras: o Codex Alexandrinus (séc. V) inclui a Epístola de Clemente associada aos livros bíblicos — testemunho, nas palavras da Catholic Encyclopedia, de uma antiga crença em sua autenticidade. Muitos cristãos dos séculos III e IV a tinham em conta quase escriturística.Doutrinalmente, 1 Clemente é um dos primeiros testemunhos da autoridade da Igreja de Roma: Roma intervém para restaurar a ordem em Corinto — o que Bento XVI chamou de “um primeiro exercício do primado romano após a morte de São Pedro”. A carta é também testemunho precoce da sucessão apostólica e da ordem eclesial; nela aparece, pela primeira vez na literatura cristã, o termo laikós (“leigo”), marcando a distinção entre clero e fiéis.O culto a Clemente difundiu-se largamente. Em Roma, a Basílica de São Clemente, no vale entre o Esquilino e o Célio, guarda relíquias atribuídas ao santo, que a tradição diz terem sido trasladadas por São Cirilo. Sua festa celebra-se em 23 de novembro.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
Controvérsias históricas e questões eruditas
Em torno de Clemente acumularam-se debates históricos, hoje em boa parte esclarecidos pela crítica, e um conjunto de obras a ele falsamente atribuídas.
A identidade de Clemente
A erudição discute, sem consenso firme, quem teria sido historicamente Clemente. Uma antiga corrente (já em Orígenes) identifica-o com o Clemente citado por São Paulo em Filipenses 4,3; a Catholic Encyclopedia observa, porém, que “este Clemente era provavelmente um filipense”. No século XIX difundiu-se a hipótese de identificá-lo com o cônsul Tito Flávio Clemente, parente do imperador Domiciano, executado c. 95–96 — mas, como nota a mesma fonte, “os antigos nunca sugerem isso”. São, pois, hipóteses eruditas, não fatos estabelecidos.
O lugar na sucessão papal
As listas antigas divergem sobre sua posição: ora aparece como terceiro sucessor de Pedro (depois de Lino e Cleto/Anacleto), ora como quarto. Bento XVI segue a contagem que o faz “terceiro sucessor de Pedro, depois de Lino e Anacleto”; a contagem oficial moderna coloca-o como quarto Papa. A divergência deve-se, em parte, à identificação de “Cleto” e “Anacleto” como a mesma pessoa e à tradição (Tertuliano) de que Clemente teria sido ordenado pelo próprio Pedro.
Autenticidade das obras: o que é genuíno e o que é espúrio
Apenas uma obra é reconhecida como autêntica de Clemente — a Primeira Carta aos Coríntios (1 Clemente), que Eusébio tem como “reconhecida como genuína”. São, ao contrário, espúrios/pseudoepígrafos (não escritos por Clemente):
- “2 Clemente” (Segunda Epístola aos Coríntios) — não é de Clemente; é uma homilia anônima do séc. II. Já Eusébio advertia que os antigos não a usavam como à primeira.
- As Pseudo-Clementinas — romance religioso composto pelas Homilias (20 livros, em grego) e pelas Recognições (tradução latina de Rufino, †410).
- A Carta de Clemente a Tiago (e a Carta de Pedro a Tiago), prefixadas às Homilias.
- As duas “Cartas às Virgens”, conservadas em siríaco.
- As Constituições Apostólicas e os cânones atribuídos a Clemente, redigidos na Síria por volta de 380.
O martírio com a âncora
O relato do martírio — Clemente exilado na Crimeia, lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro, com a maré recuando todos os anos para revelar seu túmulo — é lendário. A Catholic Encyclopedia observa que “esta história não é mais antiga que o século IV” e que críticos modernos consideram possível que o martírio tenha sido sugerido por confusão com seu homônimo, o cônsul mártir. O título de mártir só lhe é atribuído por testemunhos dos séculos IV–VI.
Polêmicas ainda em aberto
Debates contemporâneos em aberto
A figura e a carta de Clemente continuam no centro de discussões atuais, sobretudo teológicas e históricas.
Uso ecumênico no debate sobre ministério e primado
1 Clemente é hoje texto-chave no diálogo ecumênico sobre o ministério ordenado, o primado romano e a sucessão apostólica. A intervenção de Roma em Corinto é lida pela teologia católica como o “primeiro exercício do primado romano após a morte de São Pedro” e como atestação precoce de que os Apóstolos dispuseram que homens aprovados lhes sucedessem no ministério. Estudiosos de várias tradições debatem o alcance exato desse testemunho — se prova já um primado de jurisdição ou apenas uma autoridade fraterna e moral da Igreja de Roma.
Datação e estrutura da Igreja primitiva
O consenso situa a carta por volta de 96 d.C., “imediatamente após a morte de Domiciano”, ainda que alguns proponham datas alternativas. Discute-se também o que a carta revela sobre a organização ministerial da Igreja primitiva: o emprego aparentemente intercambiável de presbíteros e epíscopos alimenta o debate sobre quando e como se delineou o episcopado monárquico — questão que segue em aberto entre os historiadores do cristianismo antigo.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
🕯️ Intercessões populares
Causas pelas quais a tradição popular invoca o santo.
- Marinheiros
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Martírio e túmulo submarino na Quersoneso Táurica (tradição)
Segundo a tradição, exilado por Trajano às pedreiras da Quersoneso, Clemente foi lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro. A lenda (atestada só a partir do séc. IV) diz que a cada ano a maré recuava revelando um santuário submarino contendo os ossos do mártir. Episódio expressamente classificado como lendário pelas fontes católicas.
Mosteiro Rupestre de São Clemente de Inkerman (Crimeia)
Mosteiro rupestre escavado na rocha junto à foz do Rio Negro, no local tradicionalmente ligado às pedreiras do exílio e da morte de Clemente, onde se diz que as relíquias eram guardadas na Crimeia antes da translação para Roma. Sítio de tradição/peregrinação.
Descoberta das relíquias por São Cirilo, com a âncora (Crimeia)
São Cirilo, a caminho de evangelizar os cázaros, desenterrou num túmulo (em terra firme, não no mar) ossos e uma âncora, tidos como as relíquias de São Clemente. A âncora — atributo iconográfico do santo — vinculou o achado à tradição do martírio.
Translação a Roma e depósito por Adriano II na Basílica de São Clemente
Cirilo e Metódio levaram as relíquias a Roma, onde o Papa Adriano II as depositou, junto com as de Santo Inácio de Antioquia, no altar-mor da Basílica de São Clemente, onde repousam até hoje (conservadas sob o altar-mor, na confissão). O próprio São Cirilo, falecido em Roma (14 fev. 869), foi ali sepultado.
Cabeça atribuída em Kiev (tradição)
Outras relíquias de São Clemente, incluindo a cabeça, são reivindicadas pelo Mosteiro das Cavernas de Kiev. Há também a tradição de que o Príncipe Vladimir levou parte das relíquias a Kiev. Reivindicação tradicional, não verificada; incluída com cautela.
Onde está Papa São Clemente I hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Papa São Clemente I
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
O nome de São Clemente é rezado em toda Missa celebrada com a Oração Eucarística I (Cânon Romano): na lista dos primeiros sucessores de Pedro aparecem “Lino, Cleto, Clemente, Sisto...”.
Sua Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.) é tida como o mais antigo documento cristão datável fora do Novo Testamento. Era lida publicamente na liturgia em Corinto e, depois, em outras Igrejas — conforme atestam Dionísio de Corinto e Eusébio.
Por seu prestígio quase canônico, a 1 Clemente foi copiada no Codex Alexandrinus (séc. V), um dos grandes manuscritos da Bíblia grega, logo após os livros do Novo Testamento.
No capítulo 25 da sua Carta, um Papa do séc. I descreve a lendária ave fênix — que renasce das próprias cinzas — como sinal natural oferecido por Deus para mostrar a verdade da ressurreição dos mortos.
A palavra grega “laikós” (leigo) aparece pela primeira vez na literatura cristã justamente nesta Carta de Clemente (cap. 40), designando o membro do laós, o Povo de Deus, como destacou o Papa Bento XVI.
Segundo a tradição, Clemente foi atirado ao mar amarrado a uma âncora; por isso a âncora se tornou seu símbolo e ele é venerado como padroeiro dos marinheiros (os relatos do martírio, porém, não são anteriores ao séc. IV).
A Basílica de San Clemente, em Roma, é uma “lasanha” arqueológica: a igreja do séc. XII está sobre uma basílica paleocristã do séc. IV, que por sua vez se ergue sobre construções romanas do séc. I — incluindo um mitreu, antigo templo do deus Mitra.
As relíquias de Clemente foram recuperadas na Crimeia por São Cirilo em 861 e levadas a Roma por Cirilo e Metódio, os “apóstolos dos eslavos”; São Cirilo está sepultado na própria basílica, confiada aos dominicanos irlandeses desde 1677.
Suas obras no Codex
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070307.html
- newadvent.org/cathen/04012c.htm
- newadvent.org/cathen/04039b.htm
- newadvent.org/cathen/01637a.htm
- newadvent.org/fathers/1010.htm
- newadvent.org/fathers/250103.htm
- newadvent.org/fathers/2708.htm
- britannica.com/biography/Saint-Clement-I
- britannica.com/topic/First-Letter-of-Clement
- britannica.com/biography/Domitian
- earlychristianwritings.com/text/1clement-roberts.html
- catholicsaints.info/pope-saint-clement-i/
- basilicasanclemente.com/eng/history/
- basilicasanclemente.com/eng/key-figures/
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=201
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2024-11-23
- christianiconography.info/clement.html
- christianiconography.info/goldenLegend/clement.htm
- en.wikipedia.org/wiki/Pope_Clement_I
- en.wikipedia.org/wiki/First_Epistle_of_Clement
- en.wikipedia.org/wiki/San_Clemente,_Rome
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