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Medalius · Codex de Personalidades · Papa São Clemente I
Papa São Clemente I
🏛 Padre da Igreja
Período
50–99 (49 anos)
Lugar
Roma
Estado canônico
Santo
Escola
Patrística / Padres Apostólicos
Idioma principal
Grego (koiné)
Obras catalogadas
1 no Codex
Santo · Padre da Igreja

Papa São Clemente I

50–99
Padre Apostólico (Clemente Romano) Padre da Igreja

Papa São Clemente I, também chamado Clemente Romano, foi o quarto Papa e um dos Padres Apostólicos, tendo governado a Igreja de Roma nos últimos anos do século I. É autor da célebre Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96), o mais antigo documento cristão fora do Novo Testamento que se pode datar com segurança e o primeiro registro de uma intervenção da Igreja de Roma nos assuntos de outra Igreja. Segundo uma tradição mais tardia, foi exilado e morreu mártir, lançado ao mar amarrado a uma âncora, símbolo com que é representado até hoje. Sua festa é celebrada em 23 de novembro.

Biografia

Origem e elevação ao episcopado de Roma

Pouco se sabe com certeza sobre a origem de São Clemente I. A tradição o situa em Roma, no fim do século I, e antigos autores chegaram a identificá-lo com o “Clemente” que São Paulo menciona entre seus colaboradores em Filipenses 4,3 — identificação hoje tida por improvável, pois aquele provavelmente era um cristão de Filipos. Também se levantou a hipótese de uma ligação com a gens Flavia, e até com o cônsul Tito Flávio Clemente, martirizado sob Domiciano; trata-se, porém, de conjectura, e não de fato comprovado. O frequente recurso ao Antigo Testamento em sua carta levou diversos estudiosos a suporem-lhe origem judaica.


Quanto ao seu lugar na sucessão de São Pedro, as fontes antigas variam. Tertuliano afirma que Clemente foi ordenado pelo próprio Pedro; Santo Irineu o coloca como o terceiro a ocupar a sede depois dos Apóstolos, após Lino e Anacleto; e listas posteriores, seguidas por São Jerônimo, contam-no como o quarto Papa. Eusébio de Cesareia registra que Clemente sucedeu a Anencleto “no décimo segundo ano” do reinado de Domiciano. Essas tradições, embora divirjam na ordem, concordam em apresentá-lo como uma das primeiras grandes figuras da Igreja romana, conhecedor da pregação dos próprios Apóstolos.


Pontificado e a Carta aos Coríntios (1 Clemente)

O grande feito do pontificado de Clemente foi a Carta aos Coríntios, conhecida como 1 Clemente, escrita em grego por volta do ano 96. O motivo foi uma grave sedição na comunidade de Corinto: alguns membros, descritos por Bento XVI como “jovens contestadores”, haviam deposto injustamente presbíteros legítimos. Em nome da Igreja de Roma, Clemente escreveu para restabelecer a paz e a ordem, exortando à humildade e à concórdia e advertindo contra a inveja que, segundo ele, fora a raiz das divisões desde Caim.


O documento tem enorme importância histórica. É o primeiro exemplo documentado de intervenção da Igreja de Roma nos assuntos de outra Igreja — testemunho precoce do primado romano exercido após a morte de Pedro. Nele Clemente expõe também a sucessão apostólica: o Pai enviou Cristo, Cristo enviou os Apóstolos, e estes constituíram os primeiros chefes das comunidades, dispondo que outros homens dignos lhes sucedessem. A carta foi tão estimada que, como atesta Eusébio, “foi lida publicamente em muitíssimas Igrejas”, tanto antigamente quanto em seu tempo, sendo considerada o mais importante texto cristão do século I fora do Novo Testamento.


Tradição do martírio

Segundo uma tradição mais tardia, recolhida em Atos apócrifos gregos que não são anteriores ao século IV, Clemente teria sido exilado para a Quersoneso, na Crimeia, durante o reinado do imperador Trajano, e condenado a trabalhos forçados numa pedreira. Ali, conta a lenda, teria feito brotar água milagrosamente e convertido muitos, sendo por isso lançado ao mar amarrado a uma âncora. É desta narrativa que vem a âncora como seu símbolo característico e o seu patronato sobre os marinheiros.


Convém sublinhar que se trata de tradição piedosa, e não de fato historicamente comprovado. As fontes mais antigas sobre a vida de Clemente — Eusébio e São Jerônimo — nada dizem de exílio, martírio ou âncora. Rufino (c. 400) é o primeiro a chamá-lo de mártir, e alguns estudiosos suspeitam que o título lhe tenha sido atribuído por confusão com seu homônimo, o cônsul mártir Tito Flávio Clemente. Ainda assim, a Igreja venera Clemente como mártir.


Morte, relíquias e legado

Eusébio e Jerônimo relatam que Clemente confiou o governo da Igreja de Roma a Evaristo e faleceu no terceiro ano do reinado de Trajano, depois de cerca de nove anos de episcopado. Jerônimo acrescenta que, já em seu tempo, “uma igreja edificada em Roma conserva a memória de seu nome” — referência à atual Basílica de São Clemente (San Clemente al Laterano), provavelmente erguida sobre o local de sua antiga casa.


Por volta de 860–861, São Cirilo — junto com seu irmão São Metódio, os “Apóstolos dos Eslavos” — encontrou na Crimeia ossos sepultados com uma âncora, que foram tidos como as relíquias de São Clemente. Cirilo levou-as a Roma pouco antes de sua própria morte (869), e o Papa Adriano II depositou-as na Basílica de São Clemente, onde são veneradas até hoje. Celebrado a 23 de novembro, Clemente permanece um dos mais notáveis Padres Apostólicos, testemunha viva da unidade da Igreja primitiva e da autoridade da Sé de Roma.

Contexto

O contexto em que viveu

São Clemente I governou a Igreja de Roma nos últimos anos do século I, em pleno Império dos Flávios. O imperador era Domiciano (81–96), filho de Vespasiano e irmão de Tito, cujo governo se tornou progressivamente despótico: exigia ser tratado como dominus et deus (“senhor e deus”) e, em seus últimos anos (cerca de 93–96), instaurou um clima de terror, mandando matar muitos homens de destaque em Roma. Foi assassinado em setembro de 96, sendo-lhe sucedido por Nerva (96–98), o primeiro dos chamados “cinco bons imperadores”, que adotou como herdeiro Trajano (98–117).


Foi nesse contexto que se situa a célebre Carta de Clemente aos Coríntios, redigida em nome da Igreja de Roma. Segundo a tradição da Igreja, recolhida por Bento XVI, as “súbitas adversidades, ocorridas uma após a outra”, que a carta menciona devem identificar-se com a perseguição de Domiciano; por isso a sua composição remonta a um tempo imediatamente posterior à morte do imperador e ao fim da perseguição, ou seja, logo depois do ano 96. Eusébio de Cesareia, na sua História Eclesiástica, recorda que Domiciano “se tornou sucessor de Nero no seu ódio a Deus” e foi “o segundo a levantar uma perseguição contra nós”.


A Igreja de Roma encontrava-se então ainda muito próxima da era apostólica, recém-saída do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo, ocorrido sob Nero (por volta de 64–67). Era a passagem da geração apostólica para a geração sub-apostólica: Clemente é apontado por Eusébio como o terceiro bispo de Roma depois de Pedro e Paulo, sucedendo a Lino e a Anacleto. Santo Ireneu testemunha que Clemente vira os Apóstolos, encontrara-se com eles e ainda guardava nos ouvidos a sua pregação e diante dos olhos a sua tradição. Por isso a sua intervenção é considerada “um primeiro exercício do Primado romano depois da morte de São Pedro”.


A intervenção romana foi motivada por uma grave crise na Igreja de Corinto: ali surgira uma sedição em que alguns jovens contestadores haviam deposto os presbíteros legitimamente constituídos. A carta exorta a comunidade à reconciliação e à paz, ao arrependimento e à restauração dos presbíteros depostos, fundamentando a obediência aos legítimos pastores numa cadeia ordenada: o Pai enviou Jesus Cristo, que por sua vez enviou os Apóstolos, e estes constituíram os primeiros chefes das comunidades, estabelecendo que outros homens dignos lhes sucedessem.


No plano cultural e religioso, o cristianismo era ainda uma minoria que se difundia pelo mundo greco-romano, distinguindo-se progressivamente do judaísmo. O judaísmo do Segundo Templo havia sofrido um golpe decisivo poucas décadas antes: o Templo de Jerusalém fora destruído em 70 d.C., durante a Primeira Guerra Judaica, quando Tito — então general, filho de Vespasiano — tomou e arrasou a cidade. Era, pois, um tempo de transição, em que a jovem Igreja, sem o amparo dos Apóstolos vivos e sob a hostilidade do poder imperial, consolidava a sua estrutura e a sua comunhão.

Fatos contextuais
Martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo em Roma
Sob a perseguição de Nero, os Apóstolos Pedro e Paulo são martirizados em Roma (...
Destruição do Templo de Jerusalém
As forças romanas comandadas por Tito tomam Jerusalém e destroem o Segundo Templ...
Início do reinado do imperador Domiciano
Após a morte de seu irmão Tito (13 de setembro de 81), Domiciano torna-se impera...
Início do pontificado de Clemente em Roma
Clemente sucede a Anacleto (Cleto) como Bispo de Roma, quarto Papa após Pedro —...
Perseguição no fim do reinado de Domiciano
Nos últimos anos do reinado de Domiciano (c. 95–96) recrudesce a hostilidade con...

Suas contribuições à teologia

O pensamento de Papa São Clemente I está condensado em sua Carta aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.), escrita pela Igreja de Roma para apaziguar uma comunidade dividida. O motivo é uma sedição vergonhosa em que presbíteros legítimos haviam sido depostos por alguns mais jovens. Daí brota toda a sua doutrina: a desordem na Igreja é fruto do pecado, e a cura é o retorno à ordem querida por Deus.


A raiz da desordem é a inveja e o ciúme. Clemente mostra, com longa galeria de exemplos do Antigo Testamento, que a inveja levou Caim a matar o irmão, fez Jacó fugir de Esaú, perseguiu José até a morte e compeliu Moisés a fugir da face do Faraó — e o mesmo se deu com Davi. A emulação, a inveja, a contenda e a sedição são as paixões que despedaçam a comunidade.


O remédio é a concórdia, reflexo da ordem que Deus pôs na criação. Clemente contempla o cosmos como modelo de paz: os céus, o sol, a lua e o coro das estrelas giram em harmonia segundo o mandamento divino, e as estações cedem lugar umas às outras pacificamente. Se a própria criação obedece em concórdia, quanto mais os cristãos devem viver em paz.


A humildade de Cristo é o caminho. O Senhor Jesus Cristo, “o cetro da majestade de Deus”, não veio na pompa do orgulho ou da arrogância, embora pudesse tê-lo feito, mas em condição humilde. A soberba gera a divisão; a humildade reconstrói a comunhão.


A justificação é pela fé, unida às boas obras. Clemente ensina que não somos justificados por nós mesmos, nem por nossa sabedoria ou obras, mas pela fé pela qual Deus desde o princípio justificou os homens; e, contudo, essa fé não dispensa a obra: o cristão deve apressar-se com todo empenho a praticar toda boa obra.


A caridade é o vínculo que une. “O amor nos une a Deus; o amor cobre uma multidão de pecados; o amor tudo suporta”; o amor não admite cismas nem dá origem a sedições, mas faz todas as coisas em harmonia. Onde há caridade, não há lugar para a divisão.


A ressurreição é certa, e Deus a anuncia até pela natureza. Para ilustrá-la, Clemente recorre ao célebre exemplo da ave fênix, que, ao fim de seu ciclo, renasce — sinal natural oferecido por Deus da ressurreição dos mortos, da qual Cristo é as primícias.


A sucessão apostólica e a legitimidade dos ministros. Aqui está o coração eclesiológico da Carta: Cristo foi enviado por Deus, e os Apóstolos por Cristo; pregando, eles constituíram bispos e diáconos e, prevendo que haveria contenda pelo ofício episcopal, dispuseram que, ao adormecerem estes, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério. Depor injustamente esses ministros legítimos é, para Clemente, o pecado grave dos coríntios.


A grande oração final pela paz e pelas autoridades. A Carta culmina numa das mais antigas orações litúrgicas cristãs conservadas: Clemente suplica a Deus que dê concórdia e paz a todos os que habitam a terra e ora pelas autoridades civis, pedindo que Deus dirija o conselho delas segundo o que é bom e agradável aos seus olhos — a mais antiga oração conservada em favor das instituições políticas.

"Por inveja e ciúme, as maiores e mais justas colunas da Igreja foram perseguidas e levadas à morte." 1 Clemente (Carta aos Coríntios), cap. 5
Codex

Obras catalogadas

Influência

Quem ele influenciou

A Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios (1 Clemente, c. 96 d.C.) tornou-se um dos documentos cristãos mais influentes fora do Novo Testamento. Eusébio de Cesareia registra que era “reconhecida como genuína”, de “considerável extensão e notável mérito”, e que “foi usada publicamente em grande número de igrejas, tanto em tempos antigos como em nossos próprios dias” (História Eclesiástica III,16).O testemunho da própria Corinto é eloquente: por volta de 170, o bispo Dionísio de Corinto escreve aos romanos que naquele “dia santo do Senhor” haviam lido a carta de Clemente na assembleia e que dela continuariam “sempre a tirar conselho” (Eusébio, HE IV,23). Assim, a carta foi lida liturgicamente em Corinto e em muitas Igrejas por gerações.Tamanho era seu prestígio que chegou a ser transmitida junto às Escrituras: o Codex Alexandrinus (séc. V) inclui a Epístola de Clemente associada aos livros bíblicos — testemunho, nas palavras da Catholic Encyclopedia, de uma antiga crença em sua autenticidade. Muitos cristãos dos séculos III e IV a tinham em conta quase escriturística.Doutrinalmente, 1 Clemente é um dos primeiros testemunhos da autoridade da Igreja de Roma: Roma intervém para restaurar a ordem em Corinto — o que Bento XVI chamou de “um primeiro exercício do primado romano após a morte de São Pedro”. A carta é também testemunho precoce da sucessão apostólica e da ordem eclesial; nela aparece, pela primeira vez na literatura cristã, o termo laikós (“leigo”), marcando a distinção entre clero e fiéis.O culto a Clemente difundiu-se largamente. Em Roma, a Basílica de São Clemente, no vale entre o Esquilino e o Célio, guarda relíquias atribuídas ao santo, que a tradição diz terem sido trasladadas por São Cirilo. Sua festa celebra-se em 23 de novembro.

Debates

Debates e controvérsias

Controvérsias históricas e questões eruditas

Em torno de Clemente acumularam-se debates históricos, hoje em boa parte esclarecidos pela crítica, e um conjunto de obras a ele falsamente atribuídas.

A identidade de Clemente

A erudição discute, sem consenso firme, quem teria sido historicamente Clemente. Uma antiga corrente (já em Orígenes) identifica-o com o Clemente citado por São Paulo em Filipenses 4,3; a Catholic Encyclopedia observa, porém, que “este Clemente era provavelmente um filipense”. No século XIX difundiu-se a hipótese de identificá-lo com o cônsul Tito Flávio Clemente, parente do imperador Domiciano, executado c. 95–96 — mas, como nota a mesma fonte, “os antigos nunca sugerem isso”. São, pois, hipóteses eruditas, não fatos estabelecidos.

O lugar na sucessão papal

As listas antigas divergem sobre sua posição: ora aparece como terceiro sucessor de Pedro (depois de Lino e Cleto/Anacleto), ora como quarto. Bento XVI segue a contagem que o faz “terceiro sucessor de Pedro, depois de Lino e Anacleto”; a contagem oficial moderna coloca-o como quarto Papa. A divergência deve-se, em parte, à identificação de “Cleto” e “Anacleto” como a mesma pessoa e à tradição (Tertuliano) de que Clemente teria sido ordenado pelo próprio Pedro.

Autenticidade das obras: o que é genuíno e o que é espúrio

Apenas uma obra é reconhecida como autêntica de Clemente — a Primeira Carta aos Coríntios (1 Clemente), que Eusébio tem como “reconhecida como genuína”. São, ao contrário, espúrios/pseudoepígrafos (não escritos por Clemente):

  1. “2 Clemente” (Segunda Epístola aos Coríntios) — não é de Clemente; é uma homilia anônima do séc. II. Já Eusébio advertia que os antigos não a usavam como à primeira.
  2. As Pseudo-Clementinas — romance religioso composto pelas Homilias (20 livros, em grego) e pelas Recognições (tradução latina de Rufino, †410).
  3. A Carta de Clemente a Tiago (e a Carta de Pedro a Tiago), prefixadas às Homilias.
  4. As duas “Cartas às Virgens”, conservadas em siríaco.
  5. As Constituições Apostólicas e os cânones atribuídos a Clemente, redigidos na Síria por volta de 380.

O martírio com a âncora

O relato do martírio — Clemente exilado na Crimeia, lançado ao mar amarrado a uma âncora de ferro, com a maré recuando todos os anos para revelar seu túmulo — é lendário. A Catholic Encyclopedia observa que “esta história não é mais antiga que o século IV” e que críticos modernos consideram possível que o martírio tenha sido sugerido por confusão com seu homônimo, o cônsul mártir. O título de mártir só lhe é atribuído por testemunhos dos séculos IV–VI.

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