Escriba carolíngio, c. 840 d.C. — Codex Sangallensis 56, Stiftsbibliothek St. Gallen · fonte · PD
Taciano, o Sírio
Taciano, o Sírio (em latim Tatianus; c. 120 – c. 180 d.C.), foi um escritor cristão do século II, nascido na “terra dos assírios” (Mesopotâmia oriental) e formado na cultura e na retórica gregas. Convertido pela leitura das Escrituras, foi a Roma, onde se tornou ouvinte e discípulo de São Justino Mártir, e escreveu a apologia “Oratio ad Graecos” (Discurso aos Gregos), dura crítica à cultura pagã. É também autor do “Diatessaron”, famosa harmonia dos quatro Evangelhos num só relato contínuo, que foi por séculos o texto evangélico usado na Igreja da Síria. Após a morte de Justino (c. 165), afastou-se da Igreja e caiu na heresia encratita — rejeitando o casamento, a carne e o vinho —, sendo por isso condenado pelos Padres como heresiarca, conforme atestam Santo Ireneu e Eusébio de Cesareia.
Biografia
Origem, formação e conversão
Taciano nasceu por volta de 120 d.C. na “terra dos assírios” — expressão dele mesmo, na Oratio ad Graecos (cap. 42) —, região da Mesopotâmia oriental, no Oriente do Império Romano. Foi educado na cultura, na filosofia e na retórica gregas. Segundo a tradição patrística, viajou por muitas terras e estudou diversas escolas filosóficas e cultos pagãos, mas decepcionou-se com eles. Atraído pela santidade da religião cristã e pela simplicidade das Escrituras, converteu-se — provavelmente por volta de 150 d.C. — ao deparar-se com aquelas “escrituras bárbaras, antigas demais para serem comparadas às opiniões dos gregos” (Oratio, cap. 29). Indo a Roma, juntou-se à comunidade cristã e tornou-se “ouvinte” (discípulo) de São Justino Mártir, com quem compartilhou inclusive a hostilidade do filósofo cínico Crescente (Oratio, cap. 19).
O apologista cristão
Da sua produção restaram duas obras. A principal é a Oratio ad Graecos (Discurso aos Gregos), apologia escrita em grego que expõe a fé cristã, defende a sua superioridade sobre a filosofia grega e argumenta — pela cronologia de Moisés, anterior aos poetas e filósofos helênicos — a maior antiguidade do cristianismo. O tom é áspero e veemente, de profundo desprezo pela cultura pagã. Nessa obra Taciano apresenta também a doutrina do Logos, o Verbo gerado de Deus antes de todas as coisas como “a primeira obra gerada do Pai”, comparando a sua geração a uma tocha que acende outras sem diminuir a primeira (Oratio, cap. 5). Sustenta ainda que o homem foi criado livre e que “não fomos criados para morrer, mas morremos por nossa própria culpa” (cap. 11), e que a alma não é imortal por si mesma, tornando-se incorruptível apenas pela união com o Espírito de Deus (cap. 13).
A ruptura: encratismo e o Diatessaron
Após o martírio de São Justino (c. 165), Taciano afastou-se da Igreja. Conforme Santo Ireneu (Adversus Haereses I, 28), “enquanto esteve com Justino não exprimiu tais opiniões; mas, depois do martírio deste, separou-se da Igreja e, exaltado e ensoberbecido pela ideia de ser mestre, compôs o seu próprio tipo de doutrina”. Voltou então ao Oriente (Síria/Mesopotâmia), por volta de 172, ligando-se à seita dos encratitas. A ele se atribui o Diatessaron (do grego, “através dos quatro”), célebre harmonia que funde os quatro Evangelhos num único relato contínuo. Discute-se até hoje se foi composto originalmente em grego ou em siríaco; certo é que, segundo a tradição, o Diatessaron foi praticamente o único texto evangélico em uso na Igreja da Síria durante os séculos seguintes, lido nas funções sagradas até cerca do século V, quando foi substituído pelos quatro Evangelhos separados.
Heresia, condenação e legado
Como heresiarca, Taciano é tido por Eusébio de Cesareia (Historia Ecclesiastica IV, 28-29) e por Santo Ireneu como o primeiro a introduzir a heresia dos encratitas (“os continentes”). Na esteira de Saturnino e Marcião, pregava o encratismo: condenava o casamento como corrupção e fornicação, exigia abstinência de carne e de vinho (substituindo-o por água até na Eucaristia, donde os “aquários”/hidroparastatas) e — opinião que, segundo Ireneu, era “inteiramente dele” — negava a salvação de Adão. Misturava ainda elementos gnósticos, imaginando “éons invisíveis” ao modo dos valentinianos. Por essas doutrinas foi condenado e excluído da comunhão eclesial, sendo lembrado pelos Padres não como mestre da fé, mas como exemplo de um apologista talentoso que se perdeu na heresia. As circunstâncias e a data de sua morte (c. 180) são desconhecidas. Apesar da condenação, o seu Diatessaron deixou marca duradoura na história do texto e da liturgia evangélica do cristianismo oriental.
O contexto em que viveu
Taciano viveu no século II, sob a dinastia dos Antoninos (Antonino Pio e Marco Aurélio), num Império Romano em relativa estabilidade política, mas onde o cristianismo nascente era uma fé ainda ilícita, sujeita a perseguições esporádicas e locais. Não havia perseguição sistemática em todo o Império, mas bastava uma denúncia para que um cristão fosse levado ao tribunal. Foi nesse clima que muitos deram testemunho com a vida: o próprio mestre de Taciano, São Justino, foi martirizado em Roma por volta do ano 165, sob o prefeito Rústico, junto de seus companheiros.
Diante da cultura pagã greco-romana, surgiu então o movimento dos Apologistas gregos — escritores cristãos que, usando as armas da filosofia e da retórica, defendiam a fé das calúnias e demonstravam a sua superioridade racional e moral. A essa geração pertenceram Justino, Atenágoras de Atenas, Teófilo de Antioquia e o próprio Taciano, cuja Oratio ad Graecos (Discurso aos gregos) é uma das peças mais vigorosas — e mais ásperas — desse esforço de diálogo e confronto com o helenismo.
Era também a época de um verdadeiro caldeirão de heresias. Os sistemas gnósticos floresciam — os valentinianos, com seus éons invisíveis, e Marcião, que rejeitava o Deus do Antigo Testamento — e despontava o encratismo, um rigorismo ascético que condenava o matrimônio e a carne como impurezas. A Igreja ainda não dispunha das grandes definições conciliares que viriam a partir de Niceia (325): a ortodoxia se firmava sobretudo pela regra de fé, pela tradição apostólica das Igrejas e pela refutação dos Padres, como Santo Irineu de Lião. Foi precisamente nesse terreno que Taciano, após a morte de Justino, derivou para a heresia e fundou a seita encratita.
Por fim, é o tempo do nascente cristianismo siríaco, no Oriente de língua aramaica, para onde Taciano retornou. Ali sua harmonia evangélica, o Diatessaron (literalmente, “através de quatro” — um só relato tecido a partir dos quatro Evangelhos), exerceu influência enorme: por séculos foi o texto evangélico corrente em muitas comunidades sírias, a ponto de, no século V, o bispo Teodoreto de Ciro precisar recolher mais de duzentas cópias dele de suas igrejas e substituí-las pelos quatro Evangelhos separados, por temer a contaminação herética de seu autor.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
Teologia do Logos e da criação na Oratio ad Graecos
Antes da sua queda na heresia, Taciano foi um apologista cristão de língua grega, discípulo de São Justino Mártir em Roma. Na sua Oratio ad Graecos (Discurso aos Gregos, c. 160-170), defende um Deus único, espiritual e sem princípio: “Nosso Deus não teve começo no tempo, sendo Ele o único sem princípio e Ele mesmo o princípio de todas as coisas” — Deus é Espírito, não imanente à matéria, mas o Criador dos espíritos materiais.
Desse Deus procede o Logos (o Verbo), gerado para a obra da criação: “Deus era no princípio; mas o princípio, fomos ensinados, é a potência do Logos… o Logos, não vindo à toa, torna-se a obra primogênita do Pai”. Taciano insiste que essa geração não diminui o Pai: o Logos procede da potência do Pai sem dela O privar. Daí deriva a sua doutrina da criação: a matéria “não é, como Deus, sem princípio, nem… de igual poder com Deus; é gerada… e trazida à existência somente pelo Artífice de todas as coisas” — afirmação clara da criação contra o dualismo grego.
Sobre o homem, distingue alma (psyché) e espírito (pneuma): “A alma não é em si mesma imortal, ó gregos, mas mortal… a alma não conserva o espírito, mas é conservada por ele”. Reconhece duas espécies de espírito, sendo um a alma e o outro “maior que a alma, imagem e semelhança de Deus”. Defende ainda a ressurreição dos corpos ao fim de todas as coisas, tendo Deus como juiz. A obra fecha com um longo argumento cronológico: prova que Moisés é mais antigo que os poetas, historiadores e filósofos gregos — “Moisés… será mostrado muito mais antigo que a tomada de Troia” — para demonstrar a anterioridade e superioridade da “filosofia” bíblica sobre a sabedoria pagã.
A virada encratita: do apologista ao heresiarca
Enquanto viveu Justino, Taciano permaneceu ortodoxo; após o martírio do mestre (c. 165), porém, apostatou e tornou-se o fundador da seita gnóstica dos encratitas. Os Padres registram o desvio com severidade. Segundo Santo Irineu (Adversus Haereses I, 28, 1), “exaltado e ensoberbecido por se julgar mestre”, Taciano “inventou um sistema de certos Éons invisíveis, à maneira dos seguidores de Valentino” e, “como Márcion e Satornino, declarou que o matrimônio nada mais era que corrupção e fornicação”; acrescenta Irineu que “a negação da salvação de Adão foi opinião devida inteiramente a ele”.
Esses erros — a condenação do casamento como impureza, a abstinência de carne e vinho imposta como dever, o sistema de éons de feição valentiniana e a negação da salvação do primeiro homem — são, à luz da fé católica, graves desvios doutrinários. Eles negam a bondade da criação material querida por Deus, rejeitam o matrimônio que a própria Escritura abençoa e introduzem um dualismo gnóstico estranho ao Evangelho. Por isso a Igreja repudiou o encratismo, e o nome de Taciano passou à história como o de um heresiarca, ainda que o seu Diatessaron (harmonia dos quatro Evangelhos) tenha permanecido em uso por séculos no Oriente.
"Nosso Deus não começou a existir no tempo: só Ele é sem princípio, e Ele mesmo é o princípio de todas as coisas. Deus é Espírito, não permeando a matéria, mas sendo o Autor dos espíritos materiais e das formas que estão na matéria; Ele é invisível e impalpável, sendo Ele próprio o Pai das coisas sensíveis e das invisíveis." Oratio ad Graecos, 4
Quem ele influenciou
O Diatessaron e o cristianismo siríacoA maior e mais paradoxal influência de Taciano veio justamente de sua obra-prima textual, o Diatessaron. Conhecido em siríaco como Evangelion da-Mehallete (“o Evangelho dos misturados”), foi “praticamente o único texto evangélico usado na Síria durante os séculos III e IV” e serviu de Evangelho litúrgico na Igreja siríaca por cerca de três séculos. Sua autoridade foi tamanha que Santo Efrém, o Sírio (c. 306-373) escreveu um célebre Comentário sobre ele — fonte primordial para a reconstrução do texto, cujo original siríaco só foi reencontrado em 1957 (Chester Beatty Syriac MS 709).A substituição pelos quatro Evangelhos separadosPor ser obra de um herege e por se afastar do texto canônico, o Diatessaron foi gradualmente suprimido. Rábula, bispo de Edessa (411-435), ordenou que toda igreja tivesse cópias dos Evangelhos separados (Evangelion da-Mepharreshe). E Teodoreto, bispo de Ciro (423-457), recolheu mais de duzentas cópias do Diatessaron das igrejas de sua diocese, substituindo-as pelos quatro Evangelhos canônicos — episódio decisivo para o desaparecimento da obra no Oriente.A difusão e o fim da seita encratitaA heresia encratita, por sua vez, espalhou-se amplamente. Segundo Epifânio, no séc. IV os encratitas eram numerosíssimos na Ásia Menor — Pisídia, Frígia, Isáuria, Panfília, Cilícia e Galácia —, ramificando-se em seitas menores como os apostólicos (que condenavam a propriedade privada) e os hidroparastatas ou “aquários” (que usavam água em vez de vinho na Eucaristia). Reforçada por Severo (donde “severianos”), a seita acabou, por volta de meados do séc. V, absorvida pelo maniqueísmo, com o qual sempre teve muito em comum. Resta a ambivalência histórica de Taciano: condenado como heresiarca pelo juízo unânime dos Padres, deixou no entanto, pelo Diatessaron, uma marca duradoura na história do texto evangélico.
Debates e controvérsias
A ruptura com a Igreja após a morte de São Justino
Taciano, sírio (ou “assírio”) de nascimento e formado na filosofia grega, converteu-se ao cristianismo em Roma por volta de 150, onde foi “ouvinte” (discípulo) de São Justino Mártir. Santo Irineu testemunha que, enquanto permaneceu com Justino, Taciano nada professou de errado: “ele foi ouvinte de Justino e, enquanto esteve com ele, não expressou tais opiniões”. Foi só depois do martírio de Justino (c. 165) que, segundo Irineu, “exaltado e inchado pela ideia de ser mestre, como se fosse superior aos demais, compôs seu próprio e peculiar tipo de doutrina” e separou-se da Igreja (Adversus Haereses I, 28).
O encratismo: a condenação do matrimônio e a abstinência rigorista
Apostatando por volta de 172, Taciano tornou-se chefe da seita dos encratitas (do grego enkrateîs, “os continentes/abstêmios”). Brotando das doutrinas de Saturnino e Marcião, os encratitas “pregavam contra o casamento, anulando assim a criação original de Deus e censurando indiretamente Aquele que fez o homem e a mulher para a propagação do gênero humano” (Irineu, Adv. Haer. I, 28). Taciano declarava, “como Marcião e Saturnino, que o casamento nada mais era do que corrupção e fornicação”; impunha a abstinência de carne e de vinho; e inventava, “como os seguidores de Valentino, um sistema de éons invisíveis”. Irineu nota ainda uma tese exclusiva de Taciano: a negação da salvação de Adão — “uma opinião devida inteiramente a ele mesmo”.
A refutação pelos Padres da Igreja
A heresia de Taciano foi refutada pelos maiores Padres antigos. Santo Irineu a expôs e condenou em Adversus Haereses I, 28 (c. 180). Eusébio de Cesareia dedicou-lhe um capítulo, “A Heresia de Taciano” (História Eclesiástica IV, 29), citando o próprio Irineu e registrando que “Musano escreveu um discurso elegantíssimo contra os irmãos que tinham passado para a heresia dos encratitas” (HE IV, 28). Clemente de Alexandria consagrou todo o livro III dos Stromata à defesa do matrimônio: citando nominalmente o tratado de Taciano Sobre a perfeição segundo o Salvador, Clemente o nomeia — “penso que é Taciano, o Sírio, quem ousa ensinar tais doutrinas” — e replica que “se o casamento contraído segundo a lei é pecado, não sei como alguém pode dizer que conhece a Deus, dizendo que o mandamento de Deus é pecado; mas se a lei é santa, o casamento é santo” (Stromata III, 12). Também Hipólito de Roma (Philosophumena VIII, 13) e Epifânio de Salamina (Panarion 46-47) os refutaram como hereges.
A condenação canônica e imperial da seita encratita
A seita foi formalmente proscrita. São Basílio Magno (c. 374, Carta 188 a Anfilóquio, e cânon 47 da Carta 199) determinou o rebatismo dos encratitas: “Encratitas, Sacóforos e Apotactitas… a todos estes eu rebatizo… A heresia deles é como que um ramo dos marcionitas, abominando o casamento, recusando o vinho e chamando de impura a criatura de Deus” (cân. 47). O imperador Teodósio I, no édito de 382, pronunciou pena de morte contra todos os que tomassem o nome de encratitas, sacóforos ou hidroparastatas, ordenando ao magister officiorum Floro que os buscasse como “maniqueus disfarçados” (Codex Theodosianus XVI, 5, 9). Posteriormente, o Concílio Quinissexto (in Trullo, 692), no cânon 32, condenou expressamente a prática dos hidroparastatas — o ramo encratita que usava água em vez de vinho na Eucaristia —, ordenando o uso do vinho misturado com água. É fundamental notar que Taciano não foi condenado nominalmente por um concílio ecumênico: sua condenação é patrística (pelo juízo unânime dos Padres), enquanto a seita encratita é que foi proscrita por via canônica e imperial.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/14464b.htm
- newadvent.org/cathen/05412c.htm
- newadvent.org/fathers/0202.htm
- newadvent.org/fathers/0103128.htm
- newadvent.org/fathers/250104.htm
- newadvent.org/fathers/250105.htm
- newadvent.org/fathers/02103.htm
- newadvent.org/fathers/3202199.htm
- newadvent.org/fathers/3814.htm
- britannica.com/biography/Tatian
- en.wikipedia.org/wiki/Diatessaron
- en.wikipedia.org/wiki/Dura_Parchment_24
- ec.aciprensa.com/wiki/Taciano
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