Pular para conteúdo
Sozômeno

Edição de Robert Hussey (Oxford, 1860); digitalização via Google Books · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
400–450 (50 anos)
Lugar
Constantinopla
Escola
Historiografia eclesiástica (tradição de Eusébio de Cesareia)
Idioma principal
Grego

Sozômeno

400–450
Advogado e historiador eclesiástico

Sozômeno (Salmínio Hermias Sozômeno; em latim, Salminius Hermias Sozomenus) foi um historiador cristão da Igreja antiga, nascido por volta do ano 400 em Bethelia, pequena povoação perto de Gaza, na Palestina, e falecido em Constantinopla por volta de 450 (depois de 439). Formado nas letras gregas e no direito, exerceu o ofício de advogado (scholasticus) em Constantinopla, na corte do imperador Teodósio II. Criado numa família cristã — cuja conversão a tradição liga a um milagre de São Hilarião —, nutriu por toda a vida grande interesse e admiração pelo monaquismo. Sua principal obra, a «História Eclesiástica» em nove livros, dedicada a Teodósio II, continua a história de Eusébio de Cesareia e cobre o período de cerca de 323 a 425, sendo uma das fontes mais valiosas para o conhecimento da Igreja do século IV e início do V. Sozômeno foi um leigo cristão de fé ortodoxa: não é santo canonizado, não é Doutor da Igreja, nem foi herege condenado — jamais foi venerado nem censurado pela Igreja. É lembrado, ao lado de Sócrates Escolástico, como um dos grandes historiadores leigos da Igreja antiga.

Biografia

Origem, família e formação

Sozômeno nasceu por volta do ano 400 (algumas fontes propõem c. 380) em Bethelia, pequena povoação situada perto de Gaza, na Palestina. Seus antepassados eram da região havia gerações e, segundo o próprio historiador, mantiveram-se pagãos até a época do monge São Hilarião. A conversão de sua família ao cristianismo está ligada a um milagre desse santo: um vizinho e amigo do avô de Sozômeno, chamado Alafião (Alaphion), foi libertado de um demônio por Hilarião, e a partir de então o avô, o pai e muitos parentes abraçaram a fé cristã. Criado, assim, num lar cristão em meio a uma região ainda fortemente pagã, Sozômeno teve a primeira educação dirigida pelos monges de sua terra natal, o que explica o profundo apreço que sempre nutriu pelo monaquismo. Mais tarde recebeu sólida formação nas letras gregas e nos estudos jurídicos.


Vida em Constantinopla e o ofício de advogado

No início do século V, Sozômeno fixou-se em Constantinopla, onde seguiu a carreira de advogado (em grego, scholastikós; em latim, scholasticus), exercendo a profissão na cidade imperial durante o reinado de Teodósio II. Foi nesse ambiente, com acesso a documentos, atas e testemunhos eclesiásticos, que concebeu o projeto de escrever uma história da Igreja. Sozômeno foi um leigo de fé ortodoxa, submisso à Igreja católica e adversário declarado das heresias de seu tempo, ainda que jamais se permitisse ataques pessoais aos hereges. Pertence, ao lado de Sócrates Escolástico, ao grupo dos célebres historiadores leigos da Igreja antiga.


A obra: a «História Eclesiástica» em nove livros

Sozômeno compusera antes um epítome (resumo) da história do cristianismo, desde a Ascensão até cerca de 323, obra hoje perdida. Sua obra maior e conservada é a «História Eclesiástica» (Historia Ecclesiastica), em nove livros, dedicada ao imperador Teodósio II (Teodósio, o Jovem). Continuando a obra de Eusébio de Cesareia, pretendia abranger o período de 323 a 439, mas a narrativa que chegou até nós termina por volta de 425. Escrita provavelmente entre 440 e 443, está organizada segundo os reinados imperiais, de Constantino a Teodósio, o Jovem. Sozômeno apoiou-se largamente na obra de Sócrates Escolástico — de quem provém cerca de três quartos do seu material —, sem ser, contudo, mero copista: voltou às fontes que Sócrates usara e acrescentou muitas outras, movido por sincero amor à verdade.


Caráter, morte e legado

Embora reconhecesse as próprias limitações, Sozômeno destaca-se pela riqueza de informações: foi o que mais atenção deu à atividade missionária cristã (entre armênios, sarracenos, godos e persas) e à difusão do monaquismo, fornecendo dados preciosos que não se encontram alhures. Combatendo o arianismo e outras heresias, declarava admirar a eloquência dos adversários e deixar o julgamento da doutrina a quem de direito. Morreu em Constantinopla, depois de 439 — provavelmente por volta de 447–450. Sozômeno não é santo canonizado, nem Doutor da Igreja, nem herege condenado: foi um leigo cristão jamais venerado ou censurado pela Igreja. Seu legado é o de uma das fontes mais valiosas para o conhecimento da Igreja do século IV e início do V.

Contexto

O contexto em que viveu

O historiador Sozômeno (Salmínio Hermias Sozômeno) viveu e escreveu no coração do mundo cristão do século V. Nascido por volta do ano 400 em Bethelia, pequena localidade próxima de Gaza, na Palestina, pertenceu a uma família convertida ao cristianismo na geração de seu avô, graças a um milagre atribuído a São Hilarião, pai do monaquismo palestino. Educado desde cedo sob a influência dos monges de sua região, recebeu sólida formação grega e, mais tarde, dedicou-se ao direito, exercendo a advocacia (scholasticus) em Constantinopla. Permaneceu sempre um leigo ortodoxo: não foi bispo, monge nem doutor, mas um cristão culto que pôs seu talento literário a serviço da memória da Igreja.


O cenário de sua vida foi o longo reinado de Teodósio II (408–450), imperador desde a infância, sob a forte influência de sua irmã Pulquéria, proclamada augusta em 414. Era a época em que Constantinopla se consolidava como capital cristã do Oriente: foram erguidas as grandes muralhas teodosianas (concluídas em 413), fundada a Universidade de Constantinopla (425) e promulgado o Codex Theodosianus (438), grande compilação do direito romano cristão. Ao mesmo tempo, o Ocidente vacilava: em 410, Roma foi saqueada pelos visigodos de Alarico.


No plano religioso, Sozômeno escreveu numa Igreja já estruturada pelos grandes concílios: Niceia (325), que condenou o arianismo; o I Concílio de Constantinopla (381), que completou o Credo niceno; e, durante o próprio reinado de Teodósio II, o Concílio de Éfeso (431), que proclamou Maria Theotokos e condenou Nestório. Foi um tempo de definição doutrinal e de florescimento do monaquismo, tema a que Sozômeno dedicou atenção especial: as comunidades do Egito, da Palestina e da Síria, e as figuras de Santo Antão, São Pacômio e São Hilarião ocupam lugar de destaque em sua narrativa.


Sozômeno integra o grupo dos três historiadores eclesiásticos «sinópticos» de língua grega do século V — Sócrates Escolástico, Sozômeno e Teodoreto de Ciro —, que, retomando a obra pioneira de Eusébio de Cesareia (o «pai da história eclesiástica») e de Rufino de Aquileia, narraram os acontecimentos da Igreja a partir do ponto em que Eusébio parara. Sua Historia Ecclesiastica, em nove livros dedicados ao imperador Teodósio II e composta por volta de 440–443, propunha-se a cobrir de 323 até o décimo sétimo consulado de Teodósio (439), embora o texto conservado termine nos acontecimentos de cerca de 425. Apoiando-se largamente em Sócrates, mas acrescentando fontes próprias — sobretudo orientais e monásticas —, Sozômeno legou à Igreja uma das principais testemunhas do período pós-niceno.

Fatos contextuais
Eusébio conclui a primeira história da Igreja
Eusébio de Cesareia, o «pai da história eclesiástica», conclui sua Historia Eccl...
Concílio de Niceia
O primeiro Concílio Ecumênico de Niceia condena o arianismo e formula o Credo ni...
Conversão da família por intermédio de São Hilarião
Na geração do avô de Sozômeno, a família abraça o cristianismo após um milagre d...
Morte de São Hilarião, pai do monaquismo palestino
Falece São Hilarião (c. 291–371), discípulo de Santo Antão e introdutor da vida...
I Concílio de Constantinopla
O segundo Concílio Ecumênico, convocado por Teodósio I, confirma e completa o Cr...

Suas contribuições à teologia

O projeto historiográfico: continuar Eusébio

Sozômeno inscreve-se na tradição dos continuadores de Eusébio de Cesareia, propondo-se a narrar a história da Igreja a partir do ponto em que o bispo de Cesareia a deixara. Antes da obra maior, compôs um epítome em dois livros, hoje perdido, que ia desde a Ascensão do Salvador até a deposição de Licínio (323). A Historia Ecclesiastica que nos chegou está dividida em nove livros, distribuídos segundo os reinados dos imperadores.


Propósito e dedicatória a Teodósio II

A obra é dedicada ao imperador Teodósio II, o Jovem. No proêmio (o «Endereço e Proposta»), o próprio Sozômeno fixa o âmbito cronológico — «a minha história começa no terceiro consulado dos Césares, Crispo e Constantino, e estende-se até o vosso décimo sétimo consulado», isto é, do ano 323 ao 17.º consulado de Teodósio (439) — e declara dividir o trabalho em nove partes, submetendo o texto ao próprio imperador para que o corrija com seu juízo.


O uso de Sócrates Escolástico

A obra de Sócrates Escolástico precedeu a de Sozômeno, e este serviu-se largamente do antecessor: estima-se que cerca de três quartos do seu material remontem a Sócrates. Não foi, porém, «nem um tomador indiscriminado nem um plagiário»: voltou às fontes principais usadas por Sócrates e a outras, frequentemente extraindo delas mais do que o predecessor, e procurou aprimorar o estilo simples de Sócrates com dicção mais elegante.


Interesse especial pelo monaquismo

A história de Sozômeno é particularmente rica quanto ao surgimento e à difusão do monaquismo, manifestando maior interesse pela vida monástica do que a de Sócrates — como se vê pela inclusão de biografias de monges célebres. Sua própria formação, segundo conta, deu-se em contato com os monges ligados à família de Alafião, na Palestina, o que marcou de forma duradoura sua atenção aos ascetas.


A conversão das nações e os assuntos do Ocidente e da Pérsia

Sozômeno oferece informação preciosa sobre a introdução do cristianismo entre os armênios, os sarracenos e os godos. Seu grande interesse pela difusão do cristianismo fora do Império Romano — e em particular nos domínios persas (sassânidas) — distingue-o dos demais continuadores de Eusébio.


Estilo e leitura providencial da história

Comparado a Sócrates, seu estilo é mais retórico, polido e clássico — o patriarca Fócio chegou a preferir a dicção de Sozômeno. Animava-o uma «profunda convicção do propósito providencial do cristianismo» e um «apaixonado desejo da verdade», que orientam sua leitura dos acontecimentos.

"Não se fez, porém, estima tão grande da piedade, que é, afinal, o verdadeiro ornamento do Império. Tu, contudo, ó poderosíssimo Imperador Teodósio, cultivaste, numa palavra, com o auxílio de Deus, toda virtude. Cingido com a púrpura e a coroa, símbolo de tua dignidade aos olhos de todos, trazes sempre dentro de ti aquele verdadeiro ornamento da soberania: a piedade e a filantropia." História Eclesiástica, Endereço e Proposta (dedicatória a Teodósio II)
Influência

Quem ele influenciou

O que sua obra preserva de únicoA inclusão de fontes próprias torna a Historia Ecclesiastica de Sozômeno valiosa em si mesma e como corretivo do texto de Sócrates. Ele conserva material singular sobre a história do monaquismo (com biografias de monges), sobre a conversão de povos (armênios, sarracenos, godos) e sobre os assuntos persas e ocidentais, além de recorrer à tradição oral — sobretudo a da Palestina meridional —, que confere parte do seu valor mais distintivo.Transmissão: a Historia TripartitaNo século VI, sob a direção de Cassiodoro, Epifânio Escolástico traduziu para o latim e combinou as histórias de Sócrates, Sozômeno e Teodoreto numa única obra em doze livros, a Historia Ecclesiastica Tripartita. Essa Tripartita tornou-se o manual padrão de história eclesiástica na Europa medieval, sendo o principal veículo pelo qual Sozômeno chegou ao Ocidente latino. O texto grego foi ainda transmitido indiretamente por Teodoro Leitor (Theodorus Lector).História da impressão e edições de referênciaA editio princeps do texto grego foi impressa por Robert Estienne em Paris, em 1544. Seguiu-se a edição de Henri de Valois (Valésio), Paris, 1668, que se tornou referência e foi reproduzida por J.-P. Migne na Patrologia Graeca, vol. 67 (1859), reunindo Sócrates e Sozômeno com texto grego e tradução latina. A edição crítica moderna é a da série Griechische Christliche Schriftsteller (GCS), iniciada por Joseph Bidez e completada por Günther Christian Hansen.

Debates

Debates e controvérsias

A dependência de Sócrates Escolástico

A questão historiográfica mais discutida é a extensão da dependência de Sozômeno em relação a Sócrates Escolástico. Cerca de três quartos do seu material remontam a Sócrates, e há passagens de fraseado quase idêntico. Hoje se reconhece, contudo, que Sozômeno não foi mero copista: voltou às fontes de Sócrates e a outras, ampliando-as e, por vezes, corrigindo-as.


Deficiências de juízo e cronologia

Já a crítica antiga assinalava limitações. A introdução da NPNF2 observa que Sozômeno «revela com frequência grande deficiência de juízo, e em muitas ocasiões alonga-se em detalhes que Sócrates omite por inteiro». Atribui-se-lhe método menos crítico e compreensão teológica mais limitada do que a de Sócrates, além de fragilidades cronológicas.


O fim incompleto do Livro IX

Embora pretendesse chegar a 439 (o décimo sétimo consulado de Teodósio II), o texto que nos chegou interrompe-se abruptamente por volta de 425, deixando o Livro IX manifestamente incompleto. Os estudiosos divergem sobre a causa: a introdução da NPNF2 vê na terminação abrupta o sinal de que o texto é apenas «uma porção fragmentária de uma obra maior» (o final ter-se-ia perdido); a Enciclopédia Católica, ao contrário, julga não haver razão para supor que parte alguma se tenha perdido — a obra teria simplesmente ficado inacabada. Há ainda a hipótese (Albert Güldenpenning) de que o próprio Sozômeno teria suprimido o final, por nele mencionar a imperatriz Élia Eudócia (Aelia Eudocia), esposa de Teodósio II, depois caída em desgraça por suposto adultério.


Credulidade diante dos prodígios

Costuma-se apontar nele certa abertura a relatos de milagres e prodígios — coerente com seu vivo interesse pelo monaquismo —, o que levanta reservas sobre sua exatidão. Em contrapartida, quando seu testemunho coincide com o de Sócrates e o de Teodoreto, os fatos tendem a ser tidos por seguros.

Conheça também

Outras personalidades

!

Encontrou algo incorreto?

Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.

Conheça mais pessoas.

O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.