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Medalius · Codex de Personalidades · Sexto Júlio Africano
Sexto Júlio Africano
🏛 Padre da Igreja
Período
160–240 (80 anos)
Lugar
Emaús (Nicópolis), Palestina
Escola
Cronografia cristã / Historiografia patrística
Idioma principal
Grego

Sexto Júlio Africano

160–240
Pai da cronografia cristã

Sexto Júlio Africano (c. 160 – c. 240 d.C.) foi um escritor, viajante e historiador cristão dos primeiros séculos, considerado o “pai da cronografia cristã”. Antigo soldado convertido do paganismo, leigo erudito ligado a Emaús (Nicópolis) na Palestina e à escola de Alexandria, foi autor da “Cronografia” em cinco livros, dos “Kestoi”, de uma carta a Aristides sobre as genealogias de Cristo e de outra a Orígenes sobre a história de Susana. Foi citado com respeito por Eusébio de Cesareia e por São Jerônimo, mas nunca foi canonizado nem condenado: não tem culto litúrgico, festa nem inscrição no Martirológio Romano.

Biografia

Infância, formação e conversão

Sexto Júlio Africano nasceu por volta do ano 160 d.C. Sua origem é incerta: ele próprio se dizia natural de Jerusalém (a Élia Capitolina romana), versão favorecida por boa parte dos estudiosos modernos, tanto por essa autodeclaração quanto pelo seu profundo conhecimento da topografia da Judeia e por ter vivido na vizinha Emaús; já uma tradição antiga, recolhida por Suidas, o chama de “filósofo líbio”, e seu próprio cognome “Africano” sugeriu a alguns uma origem africana. Em sua juventude foi soldado e pagão, convertendo-se depois ao cristianismo — escreveu todas as suas obras já como cristão.


Vida adulta e atuação

Homem de grande cultura, Africano viajou pela Grécia, por Roma e pelo Oriente. Atraído pela fama da escola catequética de Alexandria, foi àquela cidade estudar — segundo Eusébio, levado pela grande reputação de Heraclas. Permaneceu leigo durante toda a vida, sem que as fontes confiáveis o mostrem ordenado sacerdote ou bispo. Por volta de 224, em Roma, organizou a biblioteca pública que o imperador Severo Alexandre instalou no Panteão. Chefiou também a embaixada que obteve do imperador a restauração da cidade arruinada de Emaús, na Palestina, que passou então a chamar-se Nicópolis (“cidade da vitória”) — episódio que as fontes datam ora sob Heliogábalo (c. 221), ora sob Severo Alexandre (c. 222–224).


Debates e relações intelectuais

Africano manteve correspondência com os maiores eruditos cristãos de seu tempo. Numa carta a Aristides, demonstrou a concordância entre os evangelistas Mateus e Lucas quanto à genealogia de Cristo, harmonizando a aparente discrepância. Numa carta a Orígenes, contestou com argumentos críticos a autenticidade da narrativa de Susana como parte do Livro de Daniel, observando que não constava do texto hebraico — e Orígenes lhe respondeu por extenso. Sua obra “Kestoi” (“Bordados”) era uma vasta miscelânea enciclopédica, de tom mais secular, reunindo conhecimentos de medicina, ciências naturais, agricultura, arte militar e tradições populares.


Últimos anos e legado

Africano morreu por volta de 240 d.C. (algumas fontes situam sua morte um pouco antes ou pouco depois, sob o imperador Gordiano). Sua obra-prima, a “Cronografia” em cinco livros, foi a primeira tentativa cristã de uma história universal sincronizando a cronologia sagrada e a profana desde a Criação, e tornou-se a fonte de toda a historiografia cristã e bizantina posterior, influenciando diretamente Eusébio de Cesareia. Por isso é chamado o “pai da cronografia cristã”. Foi citado com respeito por Eusébio (História Eclesiástica VI, 31) e por São Jerônimo (Dos Homens Ilustres, 63); a Igreja não o canonizou nem o condenou.

Contexto

O contexto em que viveu

Júlio Africano viveu sob a dinastia dos Severos (193–235), período que vai de Sétimo Severo a Severo Alexandre, passando por Caracala, Macrino e Heliogábalo. Foi uma época de relativa abertura da corte imperial à cultura grega e oriental e de crescente presença cristã na sociedade romana, ainda que entremeada por perseguições. Severo Alexandre, sob quem Africano serviu na embaixada de Emaús e organizou a biblioteca do Panteão, tinha fama de tolerante com judeus e cristãos.

A Igreja do início do século III consolidava sua identidade intelectual. Alexandria era o grande centro do pensamento cristão, com sua escola catequética: Clemente de Alexandria e, sobretudo, Orígenes — o maior erudito e exegeta cristão da época, com quem Africano se correspondeu — definiam ali os métodos da teologia e da crítica textual da Escritura. Foi atraído pela fama dessa escola (e de Heraclas, sucessor de Orígenes na direção dela) que Africano foi estudar em Alexandria.

Naquele tempo, eruditos cristãos e pagãos disputavam o terreno da ciência, da história e da cronologia. Calcular a idade do mundo e encaixar a história bíblica nas cronologias gregas, egípcias, caldaicas e romanas era um modo de defender a antiguidade — e portanto a autoridade — da revelação judaico-cristã frente à cultura helênica. Foi nesse debate que Africano interveio com sua “Cronografia”, sincronizando a história sagrada e a profana desde a Criação e estabelecendo o modelo que Eusébio de Cesareia e toda a historiografia cristã posterior seguiriam.

Fatos contextuais
Nascimento de Sexto Júlio Africano (c. 160)
Sexto Júlio Africano (Sextus Iulius Africanus) nasce por volta de 160 d.C., prov...
Septímio Severo funda a dinastia severa (193)
Septímio Severo torna-se imperador (193-211) e inaugura a dinastia severa, pano...
Juventude pagã e serviço militar (c. 195)
Antes de se converter, Africano foi soldado e pagão. Escreveu, porém, todas as s...
Edito de Caracala — Constitutio Antoniniana (212)
O imperador Caracala (211-217) concede a cidadania romana a quase todos os habit...
Estudo em Alexandria e contato com Orígenes (c. 215)
Africano vai a Alexandria atraído pela fama de sua escola catequética, então sob...

Suas contribuições à teologia

Sexto Júlio Africano é tido como o pai da cronografia cristã: foi o primeiro a tentar uma história universal sincronizando, num único fio do tempo, a história bíblica com a grega, a romana e a judaica. Sua obra-mestra, a Cronografia (Chronographiae), em cinco livros, cobria o período desde a Criação do mundo até o terceiro ano de Heliogábalo (c. 221 d.C.), e foi “a primeira tentativa cristã de uma história universal”.


O coração do método é o enquadramento Anno Mundi (anos contados a partir da Criação): Africano calculou a data da Criação em torno de 5500 a.C. (a Enciclopédia Católica registra 5499 a.C. em seu cômputo) e, a partir daí, encadeou reis, olimpíadas e impérios numa escala comum. Para isso, alinhava as datas pagãs (olimpíadas gregas, a era persa, os anos dos imperadores) aos números da Bíblia hebraica, mostrando, por exemplo, que “de Ogiges até a primeira olimpíada são 1020 anos”. Sincronizar essas linhas independentes foi a grande inovação: permitia situar Moisés e os profetas como anteriores aos filósofos e poetas gregos — um argumento apologético central, a favor da antiguidade da revelação bíblica.


Dentro desse quadro está o esquema da “semana do mundo”: nos fragmentos conservados, Africano transmite “o número de 5500 anos como o período até a vinda do Verbo da salvação”, colocando assim a Encarnação por volta de Anno Mundi 5500. Lido à luz da tradição dos seis milênios (os “seis dias” da Criação como seis idades de mil anos), esse número faz a vinda de Cristo cair no meio do sexto milênio e projeta uma expectativa ligada ao Anno Mundi 6000 — o que tornou sua contagem influente também nas especulações sobre o fim dos tempos. (Os fragmentos trazem variações: um deles soma “5531 anos” de Adão até a vinda do Senhor.)


Africano não foi só calculista de datas: praticou também um método crítico e filológico. Na Carta a Orígenes, argumentou contra a autenticidade do episódio de Susana (parte grega de Daniel) observando que os trocadilhos do texto grego — entre prínos (carvalho) e príō (serrar), schínos (lentisco) e schízō (fender) — não funcionariam em hebraico ou aramaico, sinal, para ele, de composição originalmente grega: um dos primeiros exercícios de crítica bíblica da história. Na Carta a Aristides, harmonizou as duas genealogias de Cristo (Mateus e Lucas) pela lei do levirato, propondo que José descendia de dois pais — “filho de Jacó por natureza, mas filho de Heli pela lei” —, explicação que a Enciclopédia Católica chama, séculos depois, de “a explicação ainda favorita” das duas genealogias. Esse cuidado com fontes, idiomas e harmonização é o que dá peso histórico ao seu trabalho.

"Não desçamos, portanto, a tal frivolidade religiosa a ponto de estabelecer a realeza e o sacerdócio de Cristo pelas trocas dos nomes. […] Nem uma afirmação deste tipo prevalecerá na Igreja de Cristo contra a verdade exata, de modo que se forje uma mentira para o louvor e a glória de Cristo. […] Para que não tropecemos nessa tolice, exporei a verdadeira história destas coisas." Epístola a Aristides, I
Influência

Quem ele influenciou

A influência de Africano foi imensa e, sobretudo, indireta — pela cadeia de historiadores que o usaram. Eusébio de Cesareia tomou a Cronografia como base de sua própria Crônica: a obra de Africano sobrevive justamente em extratos copiosos preservados no Chronicon de Eusébio, que dela se serviu inclusive para compor as primeiras listas episcopais. Por Eusébio, o esquema cronográfico de Africano tornou-se o alicerce de toda a historiografia cristã posterior.Na cronografia bizantina, seu peso é igualmente decisivo: a Enciclopédia Católica afirma que sua Crônica “é a fonte de toda a posterior escrita bizantina da história”. Seus fragmentos chegaram até nós sobretudo por Jorge Sincelo (George Syncellus), além de Cedreno e do Chronicon Paschale — cronistas que o citam extensamente. Assim, o calendário Anno Mundi (a era do mundo contada desde a Criação), que estruturou a cronologia do Oriente cristão e de Bizâncio, e a própria forma da crônica universal (do começo do mundo até o presente) devem muito ao molde que Africano fixou.

Debates

Debates e controvérsias

Controvérsias históricas

As polêmicas ligadas a Africano são antigas e hoje estão, em larga medida, resolvidas — mas ajudam a entender seu lugar na história da Igreja.


  1. A canonicidade de Susana. Em sua Carta a Orígenes, Africano duvidou da autenticidade do episódio de Susana (uma das partes gregas de Daniel), por causa dos trocadilhos que só funcionam em grego. Orígenes respondeu defendendo a sacralidade dessas passagens. Aqui é preciso ser claro: a posição da Igreja difere da dúvida de Africano. A Igreja Católica reteve Susana (com Bel e o Dragão e o Cântico dos Três Jovens) como parte deuterocanônica de Daniel, e o Concílio de Trento (1546) declarou solenemente “sagrados e canônicos” todos os livros do Antigo e do Novo Testamento “com todas as suas partes”. A objeção de Africano é, portanto, um episódio de crítica textual antiga, não a doutrina da Igreja.


  1. O caráter dos Kestoí (Cestos). Atribui-se a Africano uma vasta enciclopédia, os Kestoí, em (originalmente) vinte e quatro livros, tratando de agricultura, ciência militar, medicina, história natural — e também de matérias mágicas, divinatórias e curiosas. Seu caráter secular e por vezes crédulo levou estudiosos a perguntar se um cristão a teria escrito (alguns supuseram que fosse obra de juventude, anterior à sua dedicação aos temas religiosos). Ainda assim, Eusébio a atribui a ele, listando-o como “o autor dos livros intitulados Cestos”.


  1. Seu cômputo cronológico ante sistemas posteriores. A contagem Anno Mundi de Africano (Criação em torno de 5500 a.C.) e a Encarnação por volta de AM 5500 divergem de sistemas cronológicos posteriores — inclusive da própria revisão de Eusébio e das eras bizantinas — e dos números que hoje a ciência histórica adota. Era um debate técnico sobre o melhor método de datar, não uma questão de fé.
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