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Medalius · Codex de Personalidades · João da Cruz
João da Cruz

Atribuído a Francisco de Zurbarán (autor incerto), 1656 · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
1542–1591 (49 anos)
Lugar
Espanha (Castela e Andaluzia)
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Mística carmelitana / Teologia mística
Idioma principal
Castelhano (Espanhol)
Santo · Doutor da Igreja

João da Cruz

1542–1591
Doutor Místico Doutor da Igreja O.C.D. (Carmelitas Descalços)

São João da Cruz (1542–1591), nascido Juan de Yepes Álvarez em Fontiveros, na Espanha, foi frade carmelita descalço, sacerdote, místico e poeta. Cofundador dos Carmelitas Descalços ao lado de Santa Teresa de Ávila, é venerado como Doutor da Igreja, com o título de "Doutor Místico", e está entre os maiores poetas e mestres espirituais da tradição católica.

Biografia

Infância, formação e vocação

João da Cruz nasceu em 1542 no povoado de Fontiveros, perto de Ávila, na Velha Castela, filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. Recebeu no batismo o nome de Juan de Yepes Álvarez. O pai, de origem nobre de Toledo, fora deserdado por ter casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda, e morreu ainda jovem, deixando a família em grande pobreza.


Após a morte do pai, João mudou-se com a mãe e o irmão para Medina del Campo, onde estudou no Colégio dos Doutrinos e trabalhou como enfermeiro no Hospital da Conceição. Frequentou também, como aluno externo, o colégio recém-fundado dos jesuítas em Medina del Campo. Em 1563, aos vinte e um anos, entrou para os Carmelitas no convento de Santa Ana, em Medina, assumindo o nome religioso de Frei João de São Matias. Em seguida foi enviado a estudar em Salamanca, onde cursou artes e filosofia.


A reforma teresiana e a vida adulta

João foi ordenado sacerdote em 1567. Por essa época, em Medina del Campo, conheceu Teresa de Ávila, que havia chegado para fundar um novo convento da sua reforma. Insatisfeito com a vida no Carmelo, João chegou a pensar em passar-se para os cartuxos, mas Teresa persuadiu-o a permanecer na Ordem do Carmo e a abraçar a reforma descalça que ela iniciava.


A inauguração do primeiro convento masculino dos Carmelitas Descalços deu-se em 28 de novembro de 1568, na pequena casa de Duruelo (Ávila). Foi então que João, adotando a Regra primitiva e a vida austera da reforma, passou a chamar-se João da Cruz. Nos anos seguintes dedicou-se à direção espiritual e ao governo da nova família religiosa, atuando, entre outras funções, como reitor e confessor — inclusive das carmelitas de Ávila, durante a permanência de Teresa naquele mosteiro.


Prisão, sofrimento e obra mística

O conflito entre os Carmelitas Calçados (de Antiga Observância) e os Descalços recaiu duramente sobre João. Na noite de 3 de dezembro de 1577, foi sequestrado e levado preso ao convento dos Carmelitas Calçados de Toledo, sob acusação injusta. Ali permaneceu encarcerado por mais de nove meses, em uma cela estreita e em condições de extremo sofrimento.


Foi justamente no cárcere de Toledo que compôs boa parte de sua obra-prima poética, o Cântico Espiritual, dando forma a algumas das mais célebres páginas da mística cristã em meio à provação. Em agosto de 1578 conseguiu fugir da prisão de modo tido por extraordinário, recuperando a liberdade.


Últimos anos, morte e legado

Livre, João exerceu diversos cargos na ordem: fundou e dirigiu o colégio de Baeza, foi prior em Granada e, a partir de 1588, em Segóvia. Nesse período redigiu e completou suas grandes obras espirituais. Ao fim da vida, ao discordar das reformas de governo impostas por Nicolás Doria, vigário-geral dos Descalços, foi privado dos seus cargos e afastado para o isolado convento de La Peñuela, na Andaluzia.


Ali adoeceu gravemente e foi transferido para o mosteiro de Úbeda, onde a princípio recebeu tratamento áspero. Faleceu em Úbeda na noite de 13 para 14 de dezembro de 1591, dizendo aos companheiros que iria cantar o Ofício no Céu. Foi beatificado pelo Papa Clemente X em 1675, canonizado por Bento XIII em 1726 e proclamado Doutor da Igreja por Pio XI em 1926, recebendo o título de "Doutor Místico".

Contexto

O contexto em que viveu

João da Cruz viveu na Espanha dos Áustrias durante o Século de Ouro (séculos XVI–XVII), auge político, militar e cultural da monarquia hispânica sob Carlos V e Felipe II. Foi a Espanha da Contrarreforma: o Concílio de Trento (1545–1563) acabara de fixar a resposta católica à Reforma protestante, e Felipe II, defensor intransigente da fé, chegou a proibir em 1559 que seus súditos estudassem em universidades estrangeiras para barrar o contágio do protestantismo. Nesse mesmo clima triunfou a Liga Santa em Lepanto (1571), e floresceu uma das mais ricas literaturas da história, o Século de Ouro, em cujo cume o próprio João da Cruz figura como poeta místico maior.

Foi também um tempo de tensão dentro do Carmelo. A reforma teresiana, iniciada por Santa Teresa de Ávila, buscava recuperar a observância primitiva da Regra do Carmo, dando origem aos Carmelitas Descalços, em atrito com os Carmelitas Calçados (da Observância mitigada). Esse conflito jurisdicional levou João da Cruz ao sequestro e à prisão de nove meses no convento dos Calçados de Toledo, em 1577–1578.

Sobre toda a vida espiritual da época pesava o olhar vigilante da Inquisição espanhola, especialmente atenta aos chamados alumbrados — movimento místico suspeito de heterodoxia e de afinidade com o protestantismo, alvo de sucessivos editos do Santo Ofício. Místicos e autores de oração mental, como Teresa e João, escreveram, portanto, sob a constante suspeita de seus livros e experiências serem confundidos com os dos alumbrados.


Fatos contextuais
Nascimento em Fontiveros
Nasce em Fontiveros (Ávila), na Velha Castela, com o nome de Juan de Yepes Álvar...
Morte do pai e pobreza
Morre seu pai, Gonzalo de Yepes, após longa enfermidade, deixando a família em g...
Abertura do Concílio de Trento
Inicia-se o Concílio de Trento, marco da Contrarreforma católica, que se prolong...
Mudança para Medina del Campo
A família muda-se para Medina del Campo; Juan estuda no Colégio dos Niños de la...
Felipe II rei da Espanha
Felipe II assume a coroa da monarquia hispânica e torna-se o grande defensor pol...

Suas contribuições à teologia

O coração da doutrina de São João da Cruz é o caminho da purificação total da alma rumo à união de amor com Deus. Essa purificação começa pela vida dos sentidos e prossegue pela do espírito, operando-se por meio das três virtudes teologais — a fé, a esperança e a caridade —, que purificam respectivamente a inteligência, a memória e a vontade. João distingue uma noite ativa, em que o homem coopera com a graça despojando-se das suas afeições desordenadas, e uma noite passiva (a "noite escura"), em que o próprio Deus intervém para purificar radicalmente o espírito, alcançando as raízes profundas das más inclinações que o esforço humano sozinho não consegue arrancar. Daí o princípio do "todo e do nada": como toda coisa criada é nada em comparação com Deus e nada vale fora d'Ele, para chegar ao Todo é preciso esvaziar-se de tudo, ordenando todo amor ao amor divino em Cristo.

Nesse itinerário, a fé é o meio próprio, próximo e proporcionado da união da alma com Deus, pois é a única fonte dada ao homem para conhecer a Deus tal como Ele é em si mesmo, Uno e Trino, segundo tudo o que Ele comunicou na Palavra feita carne, Jesus Cristo. A meta é a união transformante: a contemplação infusa conduz a alma a ser de tal modo transformada em Deus por participação — uma verdadeira "deificação" pela graça — que ela chega a amar a Deus com o mesmo amor com que Ele a ama no Espírito Santo, culminando na união trinitária. Longe de ser caminho reservado a poucas almas escolhidas, João da Cruz apresenta essa contemplação como expressão da vocação universal à santidade, abertura confiante da alma à luz de Deus.

"À tarde, serás examinado no amor; aprende a amar como Deus quer ser amado, e deixa a tua condição." Dichos de luz y amor, 60
Influência

Quem ele influenciou

São João da Cruz é, ao lado de Santa Teresa de Ávila, o cume da mística cristã de expressão experimental, e a Igreja consagrou seu magistério espiritual ao proclamá-lo Doutor da Igreja em 1926 (Pio XI), com o título tradicional de Doctor mysticus, o "Doutor Místico". Sua obra deu à teologia mística e espiritual da Igreja um vocabulário e um itinerário de referência — sobretudo a doutrina das "noites" (do sentido e do espírito) e da união transformante —, que se tornou clássico na direção espiritual e na formação de gerações de carmelitas descalços.É também um dos maiores poetas da língua castelhana: o Cântico Espiritual, a Noite Escura e a Chama Viva de Amor figuram entre os ápices da lírica do Século de Ouro espanhol. Sua influência atravessou os séculos e marcou grandes figuras da própria Igreja: Santa Teresinha do Menino Jesus nutriu-se de seus escritos como principal alimento espiritual na adolescência; Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) dedicou-lhe seu estudo Ciência da Cruz (Kreuzeswissenschaft); e o jovem Karol Wojtyła — o futuro São João Paulo II — escreveu sua tese doutoral justamente sobre a doutrina da fé em São João da Cruz.

Debates

Debates e controvérsias

O conflito entre Carmelitas Calçados e Descalços

A reforma teresiana, que João abraçou ao lado de Santa Teresa, dividiu o Carmelo entre os Calçados (da Observância mitigada) e os Descalços (da regra primitiva reformada). A tensão jurisdicional sobre quem governaria as novas fundações tornou a própria sobrevivência da reforma seriamente ameaçada.

A prisão de Toledo (1577–1578)

No contexto desse conflito, João foi sequestrado na noite de 3 de dezembro de 1577 e levado para o convento dos Carmelitas da Antiga Observância em Toledo, sob acusação injusta, onde padeceu mais de nove meses de cárcere rigoroso numa cela estreita e abafada. Foi nesse cativeiro que compôs boa parte de seus versos mais célebres, antes de conseguir fugir.

Os conflitos internos finais entre os Descalços (Doria e Gracián)

Após a morte de Santa Teresa (1582), os Descalços dividiram-se entre os moderados de Jerónimo Gracián e os "zelantes" de Nicolás Doria. João apoiou a linha moderada de Gracián. Ao resistir às mudanças de governo impostas por Doria — e ao defender Gracián e as religiosas no Capítulo de 1591 —, atraiu sobre si o desagrado do superior, que o privou de todos os cargos e o relegou ao remoto e pobre convento de La Peñuela, de onde, já doente, passou a Úbeda, onde morreu em 14 de dezembro de 1591.

Suspeitas da época em torno do misticismo (alumbrados)

A Espanha do século XVI olhava com desconfiança a oração mental e a experiência mística, sob o temor da heresia dos alumbrados (iluminados), que pregavam um abandono incontrolado à suposta inspiração divina. Teresa e João foram, eles próprios, alvo dessa suspeita ambiental; mas, longe de aderirem à heterodoxia, traçaram justamente as diretrizes da mística ortodoxa, distinguindo-se com clareza dos alumbrados.

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