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Medalius · Codex de Personalidades · Teresa de Ávila
Teresa de Ávila

Fray Juan de la Miseria, 1576 · fonte · PD

✦ Doutor da Igreja
Período
1515–1582 (67 anos)
Lugar
Ávila, Espanha
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Mística carmelitana / Espiritualidade teresiana
Idioma principal
Castelhano (Espanhol)
Santo · Doutor da Igreja

Teresa de Ávila

1515–1582
Doutora da Oração Doutor da Igreja O.C.D. (Carmelitas Descalças)

Santa Teresa de Ávila (Teresa de Jesús; nome secular Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada; Ávila, 28 de março de 1515 — Alba de Tormes, 4/15 de outubro de 1582) foi uma freira carmelita, mística, escritora e reformadora espanhola, fundadora dos Carmelitas Descalços. Autora de obras-primas da espiritualidade como o “Livro da Vida”, o “Caminho de Perfeição” e o “Castelo Interior”, foi canonizada em 1622 e, em 1970, proclamada por Paulo VI a primeira mulher Doutora da Igreja, com o epíteto de “Doutora da Oração”.

Biografia

Infância, formação e vocação

Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada nasceu em Ávila, na Castela-a-Velha, em 28 de março de 1515, terceira filha de Don Alonso Sánchez de Cepeda e de Doña Beatriz Dávila y Ahumada. A família era de origem judeu-conversa pelo avô paterno, Juan Sánchez de Toledo, próspero mercador de Toledo reconciliado pela Inquisição por judaizar, que se mudou com os seus para Ávila — ascendência documentada pela investigação histórica e pelos estudos teresianos.

Menina piedosa e de imaginação ardente, perdeu a mãe por volta dos catorze anos e foi educada algum tempo entre as agostinianas de Ávila. Vencendo a resistência do pai, deixou a casa paterna em novembro de 1535 para entrar no Convento da Encarnação, das carmelitas calçadas de Ávila, recebendo o hábito e professando no ano seguinte.


Vida adulta, conversão e experiências místicas

Pouco depois da profissão, Teresa adoeceu gravemente; o tratamento mal conduzido deixou-a por anos em estado debilitado e marcou-lhe a vida. Após um longo período de mediocridade espiritual, viveu por volta de 1554 a sua “segunda conversão”: diante de uma imagem do Cristo muito chagado (um Ecce Homo), comoveu-se profundamente e entregou-se de modo definitivo à oração e à vida interior, episódio que narraria no “Livro da Vida”.

A partir de então recebeu favores místicos extraordinários — visões intelectuais, locuções e arroubos —, examinados por dominicanos e jesuítas. Entre eles está a célebre transverberação do coração: um anjo lhe traspassava o coração com um dardo de fogo, ferida do amor divino que ela descreveu na sua autobiografia e que se tornou um dos marcos da sua iconografia.


A reforma do Carmelo (as fundações)

Movida pelo desejo de uma vida carmelita mais pobre, recolhida e fiel à Regra primitiva, Teresa fundou em Ávila, em 24 de agosto de 1562, o Convento de São José — primeira casa do Carmelo Descalço reformado. Em 1567, em Medina del Campo, conheceu o jovem carmelita Juan de Yepes, futuro São João da Cruz, a quem associou à reforma do ramo masculino, iniciada em finais de 1568 com a casa de Duruelo, na província de Ávila.

Apesar de oposições, doenças e viagens penosas, fundou São José e mais dezesseis conventos por toda a Espanha, cerca de dezessete casas ao todo. Dessa epopeia nasceu o “Livro das Fundações”; à sua pena devem-se ainda o “Caminho de Perfeição” e a obra-prima mística “Castelo Interior” ou “Moradas”.


Últimos anos, morte e glória

Esgotada pelas fundações, Teresa morreu em Alba de Tormes na noite de 4 para 15 de outubro de 1582 — datas vizinhas porque, naquela mesma noite, entrou em vigor a reforma do calendário gregoriano, que suprimiu dez dias. Por isso a sua festa litúrgica é celebrada em 15 de outubro.

Foi beatificada em 24 de abril de 1614 pelo Papa Paulo V e canonizada em 12 de março de 1622 pelo Papa Gregório XV. Em 27 de setembro de 1970, o Papa Paulo VI proclamou-a Doutora da Igreja universal — a primeira mulher a receber esse título —, consagrando o valor perene da sua doutrina sobre a oração e a vida contemplativa.

Contexto

O contexto em que viveu

Teresa de Cepeda y Ahumada nasceu em 1515, no apogeu do Século de Ouro espanhol, quando a Espanha unificada pelos Reis Católicos se tornava a primeira potência política e cultural da Europa. Sob o imperador Carlos V (Carlos I de Espanha) e, depois de 1556, sob seu filho Felipe II, a Monarquia Hispânica chegou ao auge de seu poder e assumiu-se como a grande defensora do catolicismo diante do avanço da Reforma protestante iniciada por Lutero em 1517. Foi nesse mundo de expansão imperial, fervor religioso e tensão confessional que transcorreu toda a vida da santa.


A Espanha de Teresa viveu intensamente a Contrarreforma. O Concílio de Trento (1545–1563), convocado por Paulo III com o apoio de Carlos V e fortemente influenciado por Felipe II em suas últimas sessões, definiu a resposta católica ao protestantismo, reforçou a ortodoxia doutrinal e impulsionou a reforma das ordens religiosas — clima espiritual em que se inscreve a própria reforma do Carmelo empreendida por Teresa. Ao mesmo tempo, a Inquisição espanhola vigiava com rigor qualquer suspeita de heterodoxia, e a oração mental e a vida mística eram olhadas com desconfiança por sua proximidade aparente com os alumbrados, cujas proposições iluministas o Santo Ofício condenara desde 1525. Essa suspeita atingiu a própria Teresa: o Libro de la Vida foi denunciado e, a partir de 1575, entregue à Inquisição, ficando retido em seus tribunais até depois da morte da santa.


Pesava também sobre a sociedade castelhana a questão dos cristãos-novos ou conversos e os estatutos de limpieza de sangre, que discriminavam os descendentes de judeus e mouros convertidos. A própria Teresa tinha essa origem: seu avô paterno, Juan Sánchez de Toledo, fora um próspero mercador judeu convertido, condenado pela Inquisição de Toledo por judaizar e submetido a uma humilhante penitência pública — fato que a família procurou deixar para trás ao mudar-se para Ávila.


No interior da Igreja, Teresa protagonizou a reforma do Carmelo, buscando recuperar o rigor, a pobreza e a clausura da regra primitiva. Desse esforço nasceu, em 1562, o primeiro convento de Carmelitas Descalças, em Ávila, dando início à distinção entre Carmelitas Calçados (da observância mitigada) e Descalços (da reforma teresiana), separação finalmente reconhecida em 1580 com a criação de uma província própria para os Descalços, autorizada por um breve do papa Gregório XIII.

Fatos contextuais
Nascimento em Ávila
Teresa de Cepeda y Ahumada nasce em 28 de março de 1515, em Ávila (Castela-a-Vel...
Lutero e o início da Reforma Protestante
Martinho Lutero divulga suas 95 teses, dando início à Reforma Protestante, que d...
Entra no Carmelo da Encarnação
Em novembro de 1535, Teresa deixa secretamente a casa paterna e ingressa no Conv...
Grave enfermidade
Após a profissão, é acometida por uma enfermidade gravíssima, que a deixa pratic...
Abre-se o Concílio de Trento
Convocado por Paulo III com apoio de Carlos V, o Concílio de Trento (1545–1563)...

Suas contribuições à teologia

No centro da doutrina de Santa Teresa está uma definição de oração que se tornou clássica: orar não é, antes de tudo, raciocinar, mas amar e relacionar-se. Ela escreve que a oração mental “não é outra coisa senão tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama” (Libro de la Vida 8,5). Daí o seu princípio inseparável, escrito nas Moradas: “não está a coisa em pensar muito, mas em amar muito” (Moradas Quartas 1,7). Por isso a oração é caminho aberto a todos, doutos ou simples, e cresce gradualmente da oração vocal à meditação e ao recolhimento, até à união de amor com Deus.

No “Livro da Vida” (cap. 11) Teresa descreve os graus dessa oração com a célebre imagem das quatro maneiras de regar um jardim: tirar a água de um poço com grande trabalho, com nora e baldes, da água de um rio ou ribeiro, ou pela chuva que o Senhor faz cair sem nenhum esforço nosso — do esforço ativo do principiante até à graça inteiramente recebida da contemplação infusa. No “Castelo Interior” (Las Moradas, 1577) a alma é apresentada como um castelo todo de um diamante ou de muito claro cristal, onde há muitos aposentos (Moradas Primeiras 1,1), com sete moradas em cujo centro habita Deus: um itinerário que passa pelo recolhimento e pela oração de quietude até à união e ao matrimônio espiritual da última morada.

Esse caminho é radicalmente cristocêntrico e realista. Para Teresa não se pode prescindir da sagrada humanidade de Cristo, que é a porta e o guia de toda a vida de oração: quem perde o bom Jesus perde o caminho, porque o mesmo Senhor diz que Ele é o caminho (Moradas Sextas 7,6). E o fim de toda essa graça mística não é o gozo, mas o serviço e as obras de caridade — pois deste matrimônio espiritual, diz ela, hão de nascer sempre obras (Moradas Sétimas 4,6). Humildade, discernimento e amor concreto aos irmãos são, para ela, a prova verdadeira da oração.

"A oração mental, a meu ver, não é outra coisa senão tratar de amizade, estando muitas vezes a sós com quem sabemos que nos ama." Libro de la Vida, 8, 5
Influência

Quem ele influenciou

Santa Teresa de Jesus é uma das maiores figuras da mística cristã e a primeira mulher proclamada Doutora da Igreja: o papa Paulo VI lhe conferiu o título em 27 de setembro de 1970, reconhecendo sua doutrina sobre a vida de oração como guia seguro para a Igreja universal e saudando-a como mestra da oração. Junto com São João da Cruz — a quem ela mesma ganhou em 1567 para a reforma e cuja primeira comunidade de Carmelitas Descalços nasceu em Duruelo (1568) — é considerada o cume da mística experimental cristã.Sua influência atravessou os séculos: Santa Teresinha do Menino Jesus recebeu o nome em sua honra e prolongou a tradição carmelitana reformada; a filósofa judia Edith Stein (depois Santa Teresa Benedita da Cruz, carmelita e mártir de Auschwitz) converteu-se ao catolicismo após ler de uma só vez a autobiografia de Teresa, declarando ao fim: “esta é a verdade”. No campo das letras, é uma das maiores prosadoras da língua castelhana: o Livro da Vida é, depois do Dom Quixote, um dos clássicos em prosa mais lidos da Espanha. Inspirou ainda a arte sacra barroca, com destaque para o célebre grupo escultórico Êxtase de Santa Teresa, de Gian Lorenzo Bernini (1647–1652), na Capela Cornaro da igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma, que representa a transverberação do seu coração.

Debates

Debates e controvérsias

Oposição à reforma do Carmelo

A reforma teresiana enfrentou forte resistência dos Carmelitas Calçados (da observância mitigada). A primeira fundação, o mosteiro de São José de Ávila (1562), quase foi fechada por oposição da cidade e da própria ordem. No auge do conflito entre Calçados e Descalços, o núncio apostólico Felipe Sega — favorável aos Calçados — chegou a chamá-la de “fêmea inquieta e andarilha, desobediente e contumaz” (fémina inquieta y andariega), acusando-a de ensinar como mestra contra o que São Paulo havia mandado. Teresa apelou ao rei Filipe II e a numerosos protetores, e a reforma acabou consolidada.

Suspeitas da Inquisição

Em época em que o Santo Ofício agia duramente contra luteranos e alumbrados, suas experiências místicas levantaram suspeitas. O Livro da Vida foi denunciado e a Inquisição sequestrou o manuscrito em 1575; embora o dominicano Domingo Báñez tenha emitido parecer favorável (Valladolid, 7 de julho de 1575), a obra permaneceu retida pelo Santo Ofício e só foi publicada em 1588, depois da morte da santa, por Frei Luís de León.

Origem conversa e a condição de mulher

Teresa descendia de família de cristãos-novos: seu avô paterno, Juan Sánchez de Toledo, era judeu converso reconciliado pela Inquisição de Toledo — origem que, na Espanha obcecada pela “limpeza de sangue”, era motivo de suspeita social. A isso somava-se o fato de ser uma mulher a escrever sobre teologia mística numa época que restringia severamente esse papel ao magistério masculino.

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