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Medalius · Codex de Personalidades · Gertrudes a Magna
Gertrudes a Magna

Gregorio Vásquez de Arce y Ceballos (1638–1711), séc. XVII — Museo de Arte Colonial de Bogotá · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
1256–1302 (46 anos)
Lugar
Mosteiro de Helfta
Estado canônico
Santo
Escola
Mística de Helfta / Espiritualidade beneditina
Idioma principal
Latim
Santo

Gertrudes a Magna

1256–1302
A Magna (a Grande) O.S.B.

Santa Gertrudes a Magna (c. 1256–c. 1302) foi uma monja beneditina, mística e escritora do mosteiro de Helfta, na Saxônia (Alemanha), considerada uma das maiores figuras da espiritualidade medieval. Oferecida ao mosteiro com cerca de cinco anos, distinguiu-se como erudita antes de uma profunda conversão, em 1281, que a fez passar da paixão pelo saber profano à teologia e à vida mística. É autora do Arauto do Amor Divino (Legatus divinae pietatis) e dos Exercícios Espirituais, e uma das principais precursoras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. É a única santa a receber o título de “Magna” (a Grande), pela grandeza de sua cultura e de sua estatura espiritual.

Biografia

Infância, formação e oblação em Helfta

Santa Gertrudes nasceu na Alemanha em 6 de janeiro de 1256, dia da festa da Epifania, provavelmente na região da Turíngia. Nada se sabe com certeza sobre seus pais nem sobre seu lugar exato de nascimento. Com apenas cerca de cinco anos de idade, foi confiada ao mosteiro de Helfta, perto de Eisleben, na Saxônia, onde haveria de passar toda a sua existência. Ali foi entregue aos cuidados de Santa Matilde de Hackeborn, mestra das jovens educandas e irmã da abadessa Gertrudes de Hackeborn — convém não confundir essas mulheres: a abadessa Gertrudes de Hackeborn, sua irmã Santa Matilde de Hackeborn, a mística Matilde de Magdeburgo, que se recolheu a Helfta em seus últimos anos, e a própria Santa Gertrudes a Magna são quatro figuras distintas daquele florescente mosteiro. Estudante extraordinária, Gertrudes aprendeu o latim e percorreu as ciências do trivium e do quadrivium — gramática, retórica, música e canto, além da arte da miniatura —, tornando-se versada nas Escrituras e dotada de notável erudição.


A conversão e o início das graças místicas

Nos primeiros anos, Gertrudes dedicou-se com tal ardor aos estudos e às letras que se apegou mais ao saber profano do que à devoção. A mudança decisiva ocorreu em 27 de janeiro de 1281, quando ela contava cerca de vinte e cinco ou vinte e seis anos: teve a primeira de uma longa série de visões de Cristo. Contemplou um jovem que a guiava para fora de um emaranhado de espinhos e reconheceu nele Aquele que na Cruz nos salvou. A partir desse momento, “de gramática tornou-se teóloga”, abandonando os estudos puramente seculares para entregar-se à leitura assídua das Escrituras e à contemplação. Foi uma autêntica conversão que reorientou sua vida do saber humano para a sabedoria divina.


Vida mística, eucarística e literária

Convertida, Gertrudes mergulhou na Sagrada Escritura e nos Padres da Igreja — nutrindo-se de Santo Agostinho, São Gregório Magno e São Bernardo de Claraval, entre outros —, unindo profunda cultura teológica a uma intensa vida de oração. Foi favorecida com frequentes êxtases, com graças místicas e com uma viva piedade eucarística, alimentada pelo amor a Cristo presente no Sacramento. No centro de sua espiritualidade estava a devoção ao Coração de Jesus, símbolo da imensa caridade que levou o Verbo a encarnar-se. Permaneceu sempre simples religiosa, e não abadessa — distinção importante, pois é frequente confundi-la com a abadessa Gertrudes de Hackeborn. Sua experiência mística foi posta por escrito no Legatus divinae pietatis (Arauto do Amor Divino), obra em cinco livros, da qual ela própria redigiu sobretudo o Livro II, sendo o restante compilado por suas irmãs de comunidade, e nos Exercitia spiritualia (Exercícios Espirituais), pequena joia de literatura mística impregnada da liturgia e da Escritura.


Últimos anos e legado (precursora do Sagrado Coração)

De saúde frágil nos últimos anos de vida, Santa Gertrudes morreu em Helfta, em 17 de novembro de 1301 ou 1302, por volta dos seus quarenta e cinco ou quarenta e seis anos. Sua santidade e seus escritos, amplamente lidos sobretudo nos séculos posteriores, fizeram dela uma das maiores precursoras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, antecipando em séculos as revelações de Paray-le-Monial. Seu nome foi inscrito no Martirológio Romano em 1677, sob o Papa Inocêncio XI, e sua festa foi estendida à Igreja universal pelo Papa Clemente XII em 1738. Pela grandeza de sua doutrina e de sua estatura espiritual, recebeu o título único de “Magna” (a Grande) — atribuído pelo Papa Bento XIV —, sendo a única santa a ser assim chamada. Sua memória litúrgica é celebrada em 16 de novembro.

Contexto

O contexto em que viveu

Santa Gertrudes a Magna nasceu por volta de 1256 e morreu por volta de 1302, atravessando uma das épocas mais conturbadas da história alemã. O Sacro Império Romano-Germânico vivia o chamado Grande Interregno (1254–1273), longo período sem um imperador universalmente reconhecido, aberto pela morte de Frederico II em 1250 e agravado pela morte de seu filho Conrado IV em 1254. Na ausência de uma autoridade central, príncipes e bispos consolidaram poderes locais, e a Saxônia e a Turíngia, onde ficava Helfta, mergulharam na fragmentação política. Só em 1273, quando os eleitores escolheram em Frankfurt Rodolfo I de Habsburgo como Rei dos Romanos, o Interregno chegou ao fim. Foi nesse mundo de poder disperso e de instabilidade que floresceram, paradoxalmente, os mosteiros como ilhas de ordem, cultura e oração.

O século XIII foi também a grande primavera da vida religiosa feminina e do misticismo. Multiplicaram-se os mosteiros de monjas e as beguinas, mulheres que viviam em comunidade dedicadas à oração, ao trabalho e à caridade. Desse ambiente nasceu a “mística esponsal” ou “nupcial”, na qual a alma se compreende como esposa de Cristo, linguagem que percorre a poesia e a prosa das místicas alemãs e dos Países Baixos. Helfta, fundado em 1229 pelo conde Burchard de Mansfeld e transferido em definitivo para Helfta, perto de Eisleben, em 1258, tornou-se o coroamento dessa mística feminina alemã. Sob a abadessa Gertrudes de Hackeborn (que governou de 1251 a 1291/1292) — que não se deve confundir com a santa homônima —, o convento virou o mais célebre centro de teologia e mística feminina da Alemanha, reunindo as três grandes místicas de Helfta: Matilde de Magdeburgo, Santa Matilde de Hackeborn e a própria Santa Gertrudes.

Foi nessa casa que Gertrudes, entregue ao mosteiro com cerca de cinco anos, recebeu uma formação intelectual notável. Confiada aos cuidados de Santa Matilde de Hackeborn, mestra das alunas e irmã da abadessa, e tendo convivido com Matilde de Magdeburgo, que chegou a Helfta por volta de 1270, assimilou uma espiritualidade alicerçada na Sagrada Escritura, na liturgia, nos Padres da Igreja e na tradição beneditina. As monjas de Helfta gozavam de um alto nível de erudição, e a própria Gertrudes, como recordou Bento XVI, “de gramática tornou-se teóloga” após a sua conversão. Em torno de 1281, em seu vigésimo sexto ano, recebeu a primeira de uma longa série de visões que mudaram o rumo de sua vida e que ela registraria, com outras monjas, no Legatus divinae pietatis (Arauto do Amor Divino).

O tempo de Gertrudes foi igualmente o apogeu da escolástica e das ordens mendicantes. Dominicanos e franciscanos pregavam pela Europa, e a influência dominicana e cisterciense-beneditina marcou a vida intelectual de Helfta. Era o século de Santo Tomás de Aquino e de São Boaventura, ambos falecidos em 1274, e de Santo Alberto Magno, mestre de Tomás. Nesse mesmo ano de 1274 reuniu-se o II Concílio de Lyon, que buscou a reunião com a Igreja do Oriente; Tomás de Aquino morreu a caminho do concílio e Boaventura faleceu durante os seus trabalhos. Enquanto a teologia se sistematizava nas universidades, em Helfta a mesma fé era vivida e expressa pela experiência mística e pela linguagem afetiva das monjas.

A piedade do século XIII voltava-se cada vez mais para a Humanidade de Cristo, suas Chagas e seu Coração, preparando a futura devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A Eucaristia ocupava o centro dessa devoção: em 1264, pela bula Transiturus de hoc mundo, o Papa Urbano IV instituiu para toda a Igreja latina a festa de Corpus Christi, cujos textos litúrgicos foram em boa parte compostos por Santo Tomás de Aquino. Essas duas correntes — o amor à Eucaristia e a contemplação do Coração de Cristo — encontraram em Helfta solo fértil, pois a Eucaristia e o Coração de Jesus foram os grandes temas de suas místicas.

É nesse cruzamento que se entende Santa Gertrudes. Filha de uma época de vácuo político e, ao mesmo tempo, de extraordinário fervor espiritual, ela uniu a erudição beneditina de Helfta à experiência mística esponsal e fez do Coração de Cristo o centro de sua vida e de sua escrita. Por isso é justamente considerada uma das primeiras grandes anunciadoras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, que floresceria plenamente séculos depois.

Fatos contextuais
Nascimento de Gertrudes
Gertrudes nasce em 6 de janeiro de 1256, dia da festa da Epifania, em algum pont...
Oblata ao mosteiro de Helfta aos cinco anos
Aos cerca de cinco anos de idade (c. 1261) é confiada ao mosteiro beneditino de...
Instituição da festa de Corpus Christi (Urbano IV)
Em 11 de agosto de 1264, o Papa Urbano IV institui a festa de Corpus Christi par...
Rodolfo I de Habsburgo eleito rei (fim do Grande Interregno)
Em 1273, Rodolfo I de Habsburgo é eleito Rei dos Romanos em Frankfurt, encerrand...
II Concílio de Lyon; mortes de Tomás de Aquino e Boaventura
O II Concílio de Lyon (tentativa de união com os gregos) reúne-se em 1274. Tomás...

Suas contribuições à teologia

O coração da espiritualidade de Santa Gertrudes a Magna é a amizade íntima e esponsal com Jesus Cristo, vivida no silêncio da clausura beneditina de Helfta. Após uma “conversão” por volta dos vinte e cinco anos, em que reconheceu ter-se entregado demais à “sabedoria humana” e descuidado da “ciência espiritual”, deixou-se introduzir por Cristo, como ela própria narra, “abrindo-me de várias formas aquele sacrário nobilíssimo da tua Divindade, que é o teu Coração divino”. Como observou Bento XVI, “o centro de uma vida feliz, de uma vida autêntica, é a amizade com Jesus, o Senhor”.


Gertrudes é justamente venerada como precursora da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, séculos antes de Santa Margarida Maria Alacoque. A nota característica de sua piedade é a contemplação do Coração de Cristo como fonte transbordante de amor e de misericórdia: à maneira de São João Evangelista, ela repousa a cabeça no peito do Senhor, escutando as suas pulsações, e guarda gravada no próprio coração “a profunda e salutar ferida de amor” com que Cristo a marcou. Dessa troca de amor nasce uma união nupcial, em que o Esposo a recomenda à própria Mãe “como o mais fiel dos esposos poderia recomendar à sua mãe a sua dilecta esposa”.


Sua mística é profundamente litúrgica, bíblica e eucarística. De “gramática” tornou-se “teóloga”, enchendo o coração com “as frases mais úteis e dóceis da Sagrada Escritura”, e toda a sua experiência floresce no húmus do Ofício Divino, dos salmos e do ano litúrgico — intensificando-se nos tempos fortes do Advento-Natal e da Quaresma-Páscoa. Erudita na Escritura e nos Padres (Agostinho, Bernardo, Gregório Magno), une como poucos a doutrina e a experiência mística: seu espírito, “marcado pela liberdade, amplitude e vigor”, funda-se na Regra de São Bento, e sua linguagem ardente eleva suavemente a alma às alturas da contemplação.


O título de sua obra-prima resume tudo: Legatus divinae pietatisArauto do Amor Divino. Toda a sua via mística é uma escola de confiança filial e de abandono à misericórdia de Deus: ciente da própria pequenez, ela responde não com medo, mas com gratidão e fervor, tornando-se “arauto” desse amor que de toda a eternidade quis unir-se à humanidade. Sua existência permanece, nas palavras de Bento XVI, “uma escola de vida cristã, de caminho recto”, com Cristo no centro absoluto de tudo.

"Escolhi-a como minha morada, porque me apraz que tudo quanto existe de amável nela seja minha obra [...] Foi precisamente por este motivo que a afastei de todos os seus parentes, a fim de que ninguém a amasse por razão de consanguinidade, e Eu fosse o único motivo do afecto que se lhe reserva." Arauto do Amor Divino (Legatus divinae pietatis), Livro I, cap. 16 — palavras de Cristo, citadas por Bento XVI (Audiência Geral de 6/10/2010)
Influência

Quem ele influenciou

A irradiação de Santa Gertrudes deu-se, sobretudo, pela difusão de seus escritos. Após circularem em manuscrito entre os mosteiros, suas obras conheceram a primeira edição impressa em latim em 1536, em Colônia, preparada pelo cartuxo Johannes Justus Lanspergius (Lansperge) — edição cuja repercussão se manteve até o fim do século XVII, espalhando-se entre beneditinos, carmelitas e jesuítas. No século XIX, a renovação litúrgica beneditina de Solesmes coroou esse percurso com a edição crítica Revelationes Gertrudianae ac Mechtildianae, dirigida por Dom Louis Paquelin (Poitiers-Paris, 1875–1877), que restituiu os textos de Gertrudes e de Matilde de Hackeborn segundo os manuscritos e tornou-se base de todas as traduções modernas.Sua influência mais decisiva, porém, está na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, da qual é tida como precursora. Séculos antes das aparições de Paray-le-Monial, o Arauto do Amor Divino já descrevia, em linguagem incandescente, o repouso sobre o peito de Cristo e o pulsar de seu Coração. Reabilitada e divulgada justamente quando florescia o culto do Sagrado Coração, Gertrudes antecipou os grandes apóstolos dessa devoção, São João Eudes e Santa Margarida Maria Alacoque (séc. XVII), a cuja difusão a Ordem da Visitação muito contribuiu.Gertrudes deixou ainda marca na espiritualidade litúrgica, fazendo da experiência mística um eco do Ofício Divino e do ciclo do ano cristão. Sua autoridade espiritual atravessou fronteiras e Ordens: Santa Teresa de Ávila chegou a tomá-la como modelo e guia, e os carmelitas espanhóis acolheram calorosamente seus escritos, ao mesmo tempo em que beneditinos como Dom Guéranger a tinham por mestra.

Debates

Debates e controvérsias

Autoria e autenticidade dos escritos

Historicamente discutiu-se quanto do Legatus divinae pietatis (Arauto do Amor Divino) saiu da própria mão de Gertrudes. A questão está hoje esclarecida: apenas o Livro II é redação autobiográfica da própria santa; o Livro I (composto pouco antes ou após a sua morte) e os Livros III a V foram compilados por outra(s) monja(s) de Helfta, que emolduraram e prolongaram o relato com seus testemunhos. Isso não diminui a autenticidade da experiência: os superiores de Helfta submeteram as obras ao exame de renomados teólogos dominicanos e franciscanos, que as aprovaram.

Beneditina ou cisterciense?

Alguns autores modernos tomaram Gertrudes por cisterciense, porque Helfta seguia observância cisterciense e o local hoje é regido por monjas cistercienses. Um exame atento das evidências, porém, não justifica essa conclusão: Gertrudes pertencia à Ordem de São Bento, ainda que num mosteiro de espírito e disciplina cistercienses.

Confusão com a abadessa Gertrudes de Hackeborn

Por longo tempo confundiu-se a mística com a sua superiora, a abadessa Gertrudes de Hackeborn — donde a antiga e errônea atribuição do título de “abadessa” à santa. São duas pessoas distintas: a mística nunca foi abadessa. Para distingui-la, o Papa Bento XIV concedeu-lhe o epíteto “Magna” (a Grande).

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