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Medalius · Codex de Personalidades · Santa Rita de Cássia
Santa Rita de Cássia

Autor desconhecido (iluminador do Rupertsberg Codex), séc. XII · fonte · PD

🏛 Padre da Igreja
Período
1381–1457 (76 anos)
Lugar
Cássia, Itália
Estado canônico
Santo
Escola
Espiritualidade agostiniana
Santo

Santa Rita de Cássia

1381–1457
Advogada das Causas Impossíveis O.S.A.

Santa Rita de Cássia (Margherita Lotti; c. 1381, Roccaporena, Cássia, Úmbria, Itália – 22 de maio de 1457, Cássia) foi uma religiosa agostiniana italiana. Esposa, mãe e viúva antes de tornar-se monja, atravessou um casamento difícil, o assassinato do marido numa vendeta e a morte dos dois filhos, perdoando os culpados. Já idosa recebeu na fronte uma ferida atribuída a um espinho da coroa do crucifixo, sinal da Paixão que a acompanhou até a morte. Beatificada por Urbano VIII (1627) e canonizada por Leão XIII em 1900, é venerada em todo o mundo como padroeira das causas impossíveis e desesperadas.

Biografia

Infância e juventude em Roccaporena

Batizada Margherita Lotti — conhecida pelo diminutivo Rita —, nasceu por volta de 1381 em Roccaporena, pequeno povoado a poucos quilômetros de Cássia, na Úmbria (Itália). As fontes registram duas hipóteses para o ano de nascimento, 1371 ou 1381, sem consenso definitivo. Era filha de Antonio Lotti e Amata Ferri, um casal cristão de idade já avançada e de boa reputação, a quem a comuna de Cássia confiava a função de “pacificadores”: mediar conflitos e evitar derramamentos de sangue entre famílias rivais. Desde cedo, a tradição apresenta Rita atraída por uma vida de piedade e pelo desejo de consagrar-se a Deus.


Casamento, vida familiar e perdão

Apesar de sua inclinação para a vida religiosa, Rita acatou a vontade dos pais e casou-se ainda jovem com Paolo Mancini (Paolo di Ferdinando di Mancino), homem ligado à facção gibelina, descrito pela tradição como orgulhoso e de temperamento difícil. O matrimônio durou cerca de dezoito anos, do qual nasceram dois filhos, provavelmente gêmeos: Giangiacomo Antonio e Paolo Maria. Com paciência e oração, conta-se que Rita influenciou a conversão do marido. Anos depois, Paolo foi assassinado — segundo a tradição, por antigos rivais, no contexto das vendetas familiares da época. Rita perdoou de coração os culpados e recusou-se a revelar seus nomes, esforçando-se para que os filhos não buscassem vingança. Pouco depois, os dois filhos morreram, provavelmente de doença, deixando-a viúva e sem filhos.


Entrada no mosteiro agostiniano de Cássia

Viúva e sozinha, Rita pediu admissão ao mosteiro agostiniano de Santa Maria Madalena, em Cássia. A tradição relata que foi recusada por diversas vezes — entre outras razões, por ser viúva e por persistirem inimizades entre sua família e os assassinos do marido. Segundo a piedosa tradição hagiográfica, seus três padroeiros — São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau de Tolentino — a teriam conduzido milagrosamente para dentro do mosteiro fechado. Por volta de 1407, já viúva, foi finalmente acolhida, vivendo o resto da vida sob a Regra de Santo Agostinho, em penitência, oração e serviço aos pobres e enfermos.


O espinho, os últimos anos e a morte

Por volta de 1442 (algumas fontes indicam 1432), enquanto rezava diante de um crucifixo coroado de espinhos, Rita recebeu na fronte uma ferida atribuída a um espinho da coroa de Cristo — sinal da Paixão que a acompanhou por cerca de quinze anos, até o fim da vida. Da tradição devocional vem também o episódio da rosa e dos figos no inverno: gravemente enferma, ela pediu a uma parenta que colhesse uma rosa e dois figos da horta de Roccaporena, encontrados em pleno janeiro coberto de neve. Rita morreu na noite entre 21 e 22 de maio de 1457, em Cássia, por volta dos 76 anos. Seu corpo é venerado como incorrupto e repousa na Basílica de Santa Rita, em Cássia. Foi beatificada pelo Papa Urbano VIII (1627) e canonizada pelo Papa Leão XIII em 24 de maio de 1900, sendo invocada como padroeira das causas impossíveis e desesperadas.

Contexto

O contexto em que viveu

Rita de Cássia viveu entre o fim do século XIV e meados do século XV (c. 1381–1457) na Úmbria, em Roccaporena, perto de Cássia, então parte dos Estados Pontifícios. Foi o ocaso da Idade Média italiana, às vésperas do Renascimento: a Itália estava fragmentada em comunas, senhorios e facções rivais, e a própria Igreja atravessava uma de suas piores crises institucionais.

O Grande Cisma do Ocidente (1378–1417), iniciado três anos antes do nascimento tradicional de Rita, dividiu a cristandade entre dois e depois três pretendentes ao papado, em disputa mais política que doutrinal. A ruptura só foi sanada pelo Concílio de Constança (1414–1418), que recebeu as renúncias dos rivais e elegeu o papa Martinho V em novembro de 1417, restaurando a unidade da Igreja durante a vida adulta de Rita.

Naquela Itália de comunas, as cidades viviam dilaceradas pelas lutas entre facções — guelfos e gibelinos e seus desdobramentos locais — e pelas vendetas, ciclos de vingança entre famílias que se perpetuavam por gerações. Esse foi o contexto direto do drama de Rita: seu marido, Paolo Mancini, foi assassinado numa rixa de facções, e ela temeu que os dois filhos buscassem vingar a morte do pai, alimentando a vendeta.

Era também tempo de pestes recorrentes, que ceifavam vidas com frequência — tradicionalmente associa-se a morte dos dois filhos de Rita a uma enfermidade. Nesse mundo precário e violento, a vida monástica feminina oferecia às mulheres um espaço de oração, recolhimento e segurança. Rita ingressou no Mosteiro de Santa Maria Madalena de Cássia, comunidade que seguia a Regra de Santo Agostinho, integrando-se ao ramo contemplativo da Ordem agostiniana, então em expansão pela península.

Seus últimos anos coincidiram com acontecimentos que marcariam o limiar de uma nova era: em 1453, quatro anos antes de sua morte, Constantinopla caía nas mãos dos turcos otomanos, encerrando o Império Bizantino e abalando toda a cristandade.

Fatos contextuais
Início do Grande Cisma do Ocidente
A cristandade ocidental divide-se entre papas rivais em Roma e Avinhão (depois t...
Nascimento de Rita em Roccaporena (c. 1381)
Margherita Lotti nasce, segundo a datação tradicional, por volta de 1381 em Rocc...
Casamento com Paolo Mancini (c. 1396)
Ainda jovem, por obediência aos pais, Rita casa-se com Paolo di Ferdinando di Ma...
Assassinato do marido e o perdão de Rita (c. 1406)
Paolo Mancini é morto numa rixa de facções, vítima das vendetas que dilaceravam...
Morte dos dois filhos (c. 1407)
Os dois filhos morrem de enfermidade pouco depois do pai. A tradição narra que R...

Suas contribuições à teologia

Santa Rita de Cássia não foi teóloga nem deixou escritos: seu “pensamento” é a mensagem espiritual que ela viveu. Formada na espiritualidade agostiniana — centrada no amor à humanidade de Cristo, que tem na Paixão sua máxima expressão —, Rita fez do perdão o coração do seu testemunho. Diante do Crucificado, perdoou os assassinos do marido e suplicou a Deus que preservasse os filhos do crime de vingança, preferindo vê-los mortos a vê-los homicidas. Por isso é venerada como mensageira de reconciliação e de paz.

Sua santidade brotou da paciência e da perseverança no sofrimento. Conviveu por longos anos com um marido de temperamento áspero, que seu amor paciente e a oração ajudaram a transformar; diante das provas mais duras, encontrou na oração e na penitência a força para não se queixar dos próprios males. Para Rita, o sofrimento aceito em união com Cristo tem valor incomensurável.

Essa união com a Paixão tornou-se visível: enquanto rezava diante de uma imagem de Cristo coroado de espinhos, um espinho desprendeu-se e cravou-se em sua fronte, deixando uma chaga que a acompanhou até a morte — sinal de sua configuração com o Crucificado. A humildade e a obediência foram o caminho por onde Rita avançou rumo a uma semelhança cada vez mais perfeita com Cristo.

O traço mais marcante de sua mensagem é ter atravessado quase todos os estados de vida — esposa, mãe, viúva e religiosa agostiniana —, vivendo em cada um deles uma santidade do cotidiano, possível para todos. Por isso oferece exemplo válido a quem partilha desses mesmos estados de vida, e é hoje invocada no mundo inteiro como a santa das causas impossíveis.

Influência

Quem ele influenciou

Santa Rita de Cássia é uma das santas mais populares do mundo católico. Sua devoção, viva desde a morte em 1457, difundiu-se intensamente pela Itália, Espanha, América Latina e, de modo particular, pelo Brasil, onde existem cidades, paróquias e festas em sua honra. Na Espanha é chamada de “la Santa de los Imposibles”, e no Brasil é venerada há mais de três séculos — por exemplo, como padroeira do Centro do Rio de Janeiro.Seu título mais célebre é o de padroeira e advogada das causas impossíveis, difíceis e desesperadas, ao lado da fama de protetora das mães, esposas e viúvas. São João Paulo II, ao venerá-la no centenário da canonização (2000), recordou que “Rita tornou-se a advogada dos pobres e dos desesperados, obtendo incontáveis graças de consolação e conforto”.A ela se liga a tradição da bênção das rosas, celebrada todos os anos no dia 22 de maio, sua festa litúrgica: os fiéis levam rosas para serem abençoadas durante a Missa, em memória do sinal da rosa e dos figos colhidos no inverno em Roccaporena. A rosa tornou-se símbolo de esperança e de sua intercessão.O Santuário de Santa Rita, em Cássia — antigo Mosteiro de Santa Maria Madalena, onde repousa seu corpo —, é hoje um dos grandes centros de peregrinação do mundo, recebendo devotos de todos os continentes. Ligada ao mosteiro nasceu também uma importante obra de caridade, o “Alveare” (Colmeia) de Santa Rita, fundado em 1938 pela Beata Maria Teresa Fasce: começou como orfanato dentro do mosteiro das monjas agostinianas e acolhe até hoje crianças e jovens em dificuldade, sustentando-se da caridade dos devotos da santa em todo o mundo.

Debates

Debates e controvérsias

Escassez de documentação e datas incertas

A vida de Santa Rita é, do ponto de vista histórico, pouco documentada, e a fronteira entre o fato histórico e a tradição hagiográfica é tênue. As fontes mais antigas são poucas: o Codex miraculorum de 1457 (registro de prodígios anotado pelo notário Domenico Angeli, com uma breve biografia), a antiga urna pintada e uma tela com episódios de sua vida (por volta de 1480). Não existem provas documentais que fixem com certeza o ano de seu nascimento.

Por isso, divergem as datas: o nascimento é situado em 1371 ou 1381, e a morte em 1447 ou 1457; a entrada no mosteiro é colocada por volta de 1407 e o sinal do espinho por volta de 1442 (o santuário oficial indica 1432). A primeira reconstrução biográfica completa que chegou até nós é tardia: foi escrita em 1610 pelo agostiniano Agostino Cavallucci, apoiada na tradição oral do mosteiro e de Roccaporena e nos modelos hagiográficos da época. Coube ao Papa Leão XIII, por ocasião da canonização (1900), fixar oficialmente as datas de 1381 e 1457.

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