Frederick Bloemaert (1614–1669), gravura; Rijksmuseum / Europeana (RP-P-BI-1666) · fonte · PD
Rufino de Aquileia
Rufino de Aquileia (Tyrannius Rufinus), nascido por volta de 344/345 em Concórdia, perto de Aquileia, e falecido em 411 na Sicília, foi monge, presbítero, historiador eclesiástico e, sobretudo, um dos maiores tradutores latinos de Orígenes e dos Padres gregos numa época em que o conhecimento do grego declinava no Ocidente. A ele se devem versões latinas do tratado De Principiis e de numerosas homilias e comentários de Orígenes, a tradução e continuação da História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, as Recognições do Pseudo-Clemente e obras de Basílio e Gregório de Nazianzo, além de seu célebre Comentário ao Símbolo dos Apóstolos. Amigo de juventude de São Jerônimo, conhecido nos anos de estudo em Roma, tornou-se depois seu mais áspero adversário na controvérsia origenista, que dividiu a cristandade do fim do século IV. Apesar de ter sua ortodoxia questionada e de ter escrito uma Apologia ao papa Anastácio I, Rufino não foi formalmente condenado por nenhum concílio nem pelo papa, que deixou a questão à sua consciência. Não é venerado como santo de culto público nem foi declarado herege: morreu em comunhão com a Igreja, sendo recordado como um decisivo transmissor da patrística grega ao mundo latino.
Biografia
Origem, formação e vida monástica em Aquileia
Rufino nasceu por volta de 344 ou 345 em Concórdia (a antiga Iulia Concordia, hoje Concordia Sagittaria), na região de Aquileia, no nordeste da Itália. Ainda jovem foi a Roma para os estudos, e ali travou amizade com Jerônimo, com quem partilhava o gosto pelas letras e o ideal ascético. De volta ao norte da Itália, integrou-se ao fervoroso círculo monástico de Aquileia, onde abraçou a vida de monge.
Segundo o costume da época, recebeu o batismo já adulto, por volta de seus 25 a 28 anos (c. 370–372), quando vivia como monge em Aquileia.
Oriente: Egito, Alexandria e o Monte das Oliveiras
Por volta de 373 Rufino partiu para o Oriente, em companhia da nobre romana Melânia, a Anciã (Melânia, a Velha), com quem manteria longa colaboração espiritual. No Egito frequentou os mosteiros do deserto e estudou em Alexandria sob Dídimo, o Cego, o célebre mestre da escola catequética, de quem absorveu profunda admiração pela obra de Orígenes; ele próprio afirma, em sua Apologia, ter passado cerca de seis anos no Egito.
Estabeleceu-se depois em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, por volta de 380, onde reuniu monges e fundou e dirigiu um mosteiro, junto ao convento de Melânia, dedicando-se à cópia de manuscritos e à vida ascética. Ali foi ordenado presbítero pelo bispo João de Jerusalém (as fontes situam a ordenação entre c. 386 e 390).
Retorno ao Ocidente, traduções e a ruptura com Jerônimo
Em 397 Rufino regressou à Itália, na companhia de Melânia, depois de uma breve reconciliação com Jerônimo. Detendo-se no mosteiro de Pinetum, perto de Terracina, e em seguida em Roma, iniciou a grande tarefa de sua vida: verter para o latim a obra grega de Orígenes. Traduziu a Apologia de Orígenes de Pânfilo e o tratado De Principiis (Peri Archon), concluído na Quaresma de 398.
O prefácio dessa tradução, em que Rufino dava a entender que Jerônimo também fora admirador e tradutor de Orígenes, reacendeu a controvérsia origenista e provocou a ira do antigo amigo, abrindo entre eles uma guerra de panfletos. Rufino respondeu com a Apologia contra Jerônimo e, tendo sua ortodoxia posta em dúvida, escreveu também uma Apologia ao papa Anastácio I, que o havia convocado a Roma. O papa condenou os erros de Orígenes, mas não pronunciou sentença formal contra Rufino, deixando a questão de sua ortodoxia à própria consciência.
Últimos anos e morte na Sicília
Rufino retirou-se então para Aquileia, acolhido pelo bispo Cromácio, onde permaneceu cerca de nove ou dez anos, prosseguindo intensa atividade de tradutor e escritor: traduziu e continuou a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, verteu as Recognições do Pseudo-Clemente, homilias de Orígenes e obras de Basílio e Gregório de Nazianzo, e compôs o seu influente Comentário ao Símbolo dos Apóstolos.
Diante do avanço dos godos, deixou o norte da Itália e juntou-se ao grupo de Melânia em fuga rumo ao sul. Quando Alarico saqueou Roma em 410, Rufino refugiou-se na Sicília, onde morreu em 411 (segundo algumas fontes, possivelmente em Messina). Deixou como legado a transmissão de boa parte da patrística grega ao Ocidente latino, num tempo em que o conhecimento do grego se extinguia, tendo falecido em comunhão com a Igreja, sem condenação conciliar nem culto público de veneração.
O contexto em que viveu
A vida de Rufino transcorre no fim do século IV e início do século V, quando o Império Romano, já oficialmente cristão após o Édito de Tessalônica (380), vivia um período de intensa criatividade teológica e, ao mesmo tempo, de crescentes tensões doutrinais. Era a era dos grandes Padres — Ambrósio, Agostinho, Jerônimo, os Capadócios — e de uma Igreja que se organizava em torno de concílios, mosteiros e sés episcopais.
Foi também o auge do monaquismo e das peregrinações ao Oriente. Movidos pelo ideal ascético, muitos cristãos do Ocidente — como o próprio Rufino e Melânia, a Anciã — viajavam ao Egito e à Palestina para conhecer os mosteiros do deserto e os Lugares Santos. Nesse movimento se forjou a vocação de Rufino como monge, peregrino e discípulo da tradição grega.
O pano de fundo decisivo de sua biografia é a controvérsia origenista. A obra do grande mestre alexandrino Orígenes, admirada por gerações de monges e teólogos, passou a ser violentamente contestada por suas ousadias especulativas. A disputa envolveu figuras como Epifânio de Salamina, o bispo João de Jerusalém, Teófilo de Alexandria e Jerônimo, opondo defensores e adversários de Orígenes e rompendo antigas amizades — entre elas a de Rufino e Jerônimo, que de companheiros de juventude se tornaram rivais implacáveis.
Sobre tudo isso pesava o pluralismo entre as cristandades grega e latina: o conhecimento do grego declinava rapidamente no Ocidente, tornando indispensável o trabalho de tradutores capazes de transmitir ao mundo latino os tesouros teológicos do Oriente. É justamente esse o serviço que Rufino prestou, ao verter Orígenes, Eusébio, Basílio, Gregório de Nazianzo e outros.
Por fim, seus últimos anos coincidem com o colapso da metade ocidental do Império. As invasões dos godos culminaram no saque de Roma por Alarico, em 410 — acontecimento que abalou profundamente o mundo romano e impeliu Rufino, já idoso, à fuga rumo ao sul da Itália e à Sicília, onde morreria em 411, no limiar de uma nova era.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
O tradutor como ponte entre o Oriente grego e o Ocidente latino
O coração da obra de Rufino foi tornar acessível aos latinos a riqueza da patrística grega. No prefácio à sua tradução do De Principiis (Peri Archon) de Orígenes, ele declara que cedeu ao pedido de homens versados nas letras gregas para que dessem as obras de Orígenes aos que usavam a língua latina, "e assim o tornassem romano", fornecendo material para o aumento do conhecimento verdadeiro àqueles que o desejavam. Rufino entendia esse labor como continuação de uma tarefa iniciada por outros e recomendada pelo exemplo deles — aludindo ao próprio Jerônimo, que antes traduzira homilias de Orígenes.
O método polêmico de "corrigir" Orígenes
Convencido de que muitos erros atribuídos a Orígenes eram interpolações de hereges, Rufino traduzia com liberdade declarada. No mesmo prefácio afirma que, onde quer que encontrasse em seus livros algo contrário à verdade a respeito da Trindade, ou o omitia como expressão estranha e não genuína, ou o reformulava em termos conformes à regra da fé. Quando suprimia um trecho, supria a lacuna acrescentando palavras que lera em outras obras do próprio Orígenes. Esse princípio — exposto também em seu opúsculo Sobre a Adulteração dos Livros de Orígenes (De adulteratione librorum Origenis) — é central e controverso: foi o estopim da ruptura com Jerônimo, que o acusou de mascarar os verdadeiros erros de Orígenes em vez de simplesmente traduzi-los.
O Comentário ao Símbolo dos Apóstolos (Expositio Symboli, c. 404)
Escrito a pedido do bispo Lourenço, é a primeira grande exposição latina do Credo e um testemunho histórico de primeira ordem do Símbolo de Aquileia, a forma do Credo na qual Rufino fora batizado. Nele se encontra a mais antiga atestação latina da cláusula "desceu aos infernos" (descendit ad inferna): Rufino observa com honestidade de historiador que essa cláusula não é acrescentada no Credo da Igreja de Roma, nem está no das Igrejas do Oriente, mas explica que parece estar implícita quando se diz que Ele foi sepultado. O valor do texto para a história do Credo é permanente.
Historiador eclesiástico que levou Eusébio ao Ocidente
Rufino traduziu para o latim a História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia e a continuou, acrescentando dois livros próprios que conduzem a narrativa até cerca de 395, sua própria época. Foi por essa via rufiniana que a historiografia eclesiástica grega passou a ser lida em todo o Ocidente latino medieval.
Ortodoxia pessoal e submissão à Igreja
Rufino sempre professou a fé ortodoxa e distinguiu entre traduzir Orígenes e subscrever todos os seus erros. Defendeu-se na Apologia contra Jerônimo (em dois livros) e numa breve Apologia ao Papa Anastácio, submetendo seu trabalho ao juízo da Igreja. Não é santo de culto nem foi condenado por concílio algum.
"Sei bem que muitíssimos de nossos irmãos, movidos pelo desejo do conhecimento das Escrituras, pediram a vários homens versados nas letras gregas que dessem as obras de Orígenes aos que usavam a língua latina, e assim o tornassem romano." Prefácio à tradução de Orígenes, Peri Archon (De Principiis), Livro I
Quem ele influenciou
Ponte da patrística grega para o Ocidente medievalA maior influência de Rufino foi a de ter sido o grande canal pelo qual a teologia e a espiritualidade gregas chegaram ao Ocidente latino. Por suas traduções, gerações de leitores latinos — ao longo de toda a Idade Média — tiveram acesso a autores que de outro modo lhes seriam mudos.O De Principiis de Orígenes preservado só por eleComo o original grego de várias obras de Orígenes se perdeu, o tratado De Principiis (Peri Archon) só nos chegou completo na tradução latina de Rufino. Sem ele, uma das mais importantes obras especulativas da Antiguidade cristã estaria praticamente perdida. O mesmo papel de salvamento ele cumpriu para numerosas homilias e comentários origenianos.Eusébio, a Historia Monachorum e os Padres capadóciosA História Eclesiástica de Eusébio, na forma rufiniana (traduzida e prolongada até c. 395), foi lida em todo o Ocidente medieval e moldou a percepção latina da história da Igreja primitiva. A Historia Monachorum in Aegypto difundiu no Ocidente o ideal dos monges do deserto, e suas versões de Basílio Magno e Gregório Nazianzeno levaram aos latinos a teologia e a espiritualidade dos capadócios.O Comentário ao Credo, valor permanenteA Expositio Symboli permaneceu como a primeira grande exposição latina do Credo e fonte indispensável para a história do Símbolo dos Apóstolos, em especial para o estudo do Símbolo de Aquileia e da cláusula "desceu aos infernos". É frequentemente citada como um documento que retrata o estado do desenvolvimento da doutrina em seu tempo.Indispensável até a seus adversáriosTal foi o peso de Rufino como transmissor da patrística que mesmo Jerônimo — seu rival na controvérsia origenista — dependeu, ele próprio, do trabalho de tradução dos Padres gregos para o latim, num esforço comum de enriquecer a Igreja do Ocidente.
Debates e controvérsias
A controvérsia origenista e a quebra de uma amizade
A amizade de juventude entre Rufino e São Jerônimo, iniciada em Aquileia, foi destruída pela controvérsia origenista que eclodiu na Palestina. Por volta de 394, Epifânio de Salamina atacou publicamente as doutrinas de Orígenes durante uma visita a Jerusalém, dividindo os dois antigos amigos em campos opostos: Rufino alinhou-se ao bispo João de Jerusalém, enquanto Jerônimo julgava que Rufino não combatia Orígenes com firmeza suficiente. Some-se a isso a figura de Teófilo de Alexandria, que viria a instigar a intervenção papal contra os origenistas.
Em 397 celebrou-se uma reconciliação formal entre Jerônimo e o bispo João, à qual Rufino se associou. Essa paz, porém, foi efêmera: a publicação das traduções de Orígenes feitas por Rufino reabriria a ferida de modo irreparável.
A tradução do De Principiis e a acusação de falsificação
Estabelecido em Roma a partir do outono de 397, Rufino verteu para o latim a Apologia de Orígenes de Pânfilo e, em seguida (Quaresma de 398), o De Principiis (Perì Archôn) do próprio Orígenes. Convencido de que as passagens doutrinariamente inaceitáveis eram interpolações de hereges, Rufino não hesitou em omitir, atenuar ou "corrigir" o texto, procurando harmonizá-lo com o que Orígenes dissera em outros lugares — tese que já defendera no tratado Sobre a adulteração das obras de Orígenes.
No prefácio, Rufino apresentou Jerônimo como admirador de Orígenes e tradutor de obras suas, sugerindo seguir-lhe o exemplo. Jerônimo, extremamente sensível quanto à própria reputação, indignou-se. Para "desmascarar" Rufino, produziu sua própria tradução literal do De Principiis, acusando-o de encobrir os erros de Orígenes ao alterar umas passagens e deixar outras intactas.
Seguiu-se uma amarga guerra de apologias: Rufino escreveu a Apologia contra Jerônimo (em dois livros, c. 401) e Jerônimo respondeu com a Apologia adversus libros Rufini (em três livros), além de cartas violentas dirigidas a amigos como Pammáquio. O tom da polêmica tornou-se pessoal e ferino.
O papa Anastácio I: condenado foi Orígenes, não Rufino
Por instigação de Teófilo de Alexandria, o papa Anastácio I (399–401) chamou Rufino a Roma para justificar sua ortodoxia. Em vez de comparecer pessoalmente, Rufino enviou uma Apologia ad Anastasium, professando, entre outros pontos, sua fé na ressurreição dos mortos e no juízo final.
O fato decisivo é que o papa condenou expressamente os erros de Orígenes, mas não pronunciou sentença formal contra Rufino, deixando a questão da ortodoxia dele à sua própria consciência. Rufino morreu na Sicília por volta de 411, sem jamais ter sido condenado como herege.
Fontes e referências
- en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913)/Rufinus_Tyrannius
- newadvent.org/cathen/13222a.htm
- tertullian.org/fathers2/NPNF2-03/Npnf2-03-30.htm
- ccel.org/ccel/schaff/npnf203.vi.ii.i.html
- newadvent.org/fathers/2711.htm
- newadvent.org/fathers/2712.htm
- newadvent.org/fathers/2709.htm
- newadvent.org/fathers/27101.htm
- britannica.com/biography/Tyrannius-Rufinus
- encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/rufinus-aquileia
- en.wikipedia.org/wiki/Tyrannius_Rufinus
- it.wikipedia.org/wiki/Rufino_di_Concordia
- de.wikipedia.org/wiki/Rufinus_von_Aquileia
- thelatinlibrary.com/decretum.html
- tertullian.org/decretum_eng.htm
- en.wikipedia.org/wiki/Decretum_Gelasianum
- catholic.com/encyclopedia/rufinus-tyrannius
- catholicculture.org/commentary/rufinus-aquileia-and-apostles-creed/
- earlychurchtexts.com/public/rufinus_and_old_roman_creed.htm
- en.wikisource.org/wiki/Dictionary_of_Christian_Biography_and_Literature_to_the_End_of_the_Sixth_Century/Rufinus_of_Aquileia
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