Retrato gravado por Guillaume Chaudière (1584) · fonte · PD
Orígenes de Alexandria
Orígenes de Alexandria (c. 184/185 – c. 253/254) foi um dos maiores teólogos, exegetas e eruditos bíblicos do cristianismo antigo, mestre da Escola Catequética de Alexandria, que dirigiu ainda muito jovem. Filho do mártir Leônides e formado na filosofia grega, ganhou o epíteto “Adamantius” (“o Adamantino”, homem de aço) pela sua disciplina e trabalho incansável, produzindo obras monumentais como a Hexapla, o tratado Sobre os Princípios e o Contra Celso. Preso e cruelmente torturado na perseguição de Décio (250), morreu poucos anos depois como confessor da fé, em Tiro. Embora tenha morrido em comunhão com a Igreja, certas doutrinas associadas ao “origenismo” — a preexistência das almas, a apocatástase (restauração final de todas as coisas) e tendências subordinacionistas — foram condenadas postumamente, culminando no II Concílio de Constantinopla (553), de modo que Orígenes não é venerado como santo nem foi declarado herege formal em vida.
Biografia
Infância, formação e a Escola de Alexandria
Orígenes nasceu por volta de 184/185 d.C., em Alexandria, no Egito, então um dos grandes centros intelectuais do mundo cristão e pagão. Era filho de pais cristãos: seu pai, Leônides, foi preso e decapitado por volta de 202, durante a perseguição do imperador Septímio Severo. Eusébio narra que o jovem Orígenes, ainda menino, foi tomado de tal desejo de martírio que quis lançar-se ao combate junto do pai, sendo impedido pela mãe.
Recebendo a herança espiritual de Clemente de Alexandria, e tendo frequentado as escolas filosóficas da cidade — em especial a de Amônio Sacas —, Orígenes assumiu ainda jovem a direção da Escola Catequética de Alexandria (segundo Eusébio, aos dezoito anos, c. 203), sendo depois confirmado nessa função pelo bispo Demétrio. Sua disciplina ascética e seu trabalho incansável lhe valeram o epíteto de Adamantius, “o Adamantino”, homem de aço ou de diamante.
A esse período liga-se a tradição, registrada por Eusébio (História Eclesiástica VI, 8), de que Orígenes teria se mutilado na juventude, tomando em sentido demasiado literal e extremo as palavras de Mt 19,12 sobre os “eunucos por causa do Reino dos Céus”. A historicidade desse episódio é contestada por muitos estudiosos modernos, que a consideram lenda ou difamação posterior, e deve ser registrada apenas como tradição disputada.
Mestre, exegeta e a Hexapla
Orígenes destacou-se por uma erudição prodigiosa, sobretudo no campo bíblico. Sua obra crítica mais célebre é a Hexapla, uma vasta edição do Antigo Testamento disposta em seis colunas paralelas: o texto hebraico em caracteres hebraicos, o mesmo texto transliterado em caracteres gregos e quatro traduções gregas distintas, instrumento monumental de crítica textual.
Além disso, compôs tratados teológicos e apologéticos de grande influência, como o Sobre os Princípios (De Principiis / Perì Archôn), primeira grande síntese sistemática da teologia cristã, e o Contra Celso (Contra Celsum), em oito livros, refutando ponto por ponto as objeções do filósofo pagão Celso. Foi também pregador e comentador incansável das Escrituras, viajando por diversas regiões do Oriente cristão.
A ordenação contestada e a ida para Cesareia
Por volta de 230/231, ao passar por Cesareia da Palestina, Orígenes foi ordenado presbítero pelo bispo Teoctisto de Cesareia, com a assistência de Alexandre de Jerusalém, sem a permissão do bispo Demétrio de Alexandria. Profundamente ofendido, Demétrio convocou sínodos em Alexandria que decretaram o banimento de Orígenes e o depuseram do sacerdócio — embora São Jerônimo ateste que ele não foi condenado por uma questão de doutrina.
Expulso de Alexandria, Orígenes fixou residência em Cesareia (c. 232), onde fundou uma nova e célebre escola de filosofia e teologia, continuando seu ensino, sua pregação e sua produção literária, e formando discípulos como Gregório Taumaturgo.
Perseguição de Décio, morte e condenação póstuma
Durante a perseguição do imperador Décio, em 250, Orígenes foi preso e cruelmente torturado, suportando os sofrimentos como confessor da fé. Debilitado pelas sequelas, faleceu poucos anos depois, por volta de 253/254, em Tiro, na Fenícia, com cerca de sessenta e nove anos.
Embora tenha morrido em comunhão com a Igreja, parte das doutrinas associadas ao “origenismo” — como a preexistência das almas e a apocatástase — foi condenada postumamente, sobretudo no II Concílio de Constantinopla (553), controvérsia tratada em detalhe em outra seção.
O contexto em que viveu
Orígenes nasceu por volta do ano 185, em Alexandria do Egito, no coração de uma das maiores metrópoles do Império Romano e principal foco intelectual do cristianismo nascente. Naquela época, o Egito e todo o Oriente cristão viviam ainda os primeiros séculos da fé, sem o amparo de definições conciliares: a doutrina sobre a Trindade, a criação, a alma e os fins últimos não havia recebido as formulações precisas que só viriam com Niceia (325) e os concílios posteriores. Era um tempo de viva especulação teológica, em que mestres de grande envergadura procuravam, com os instrumentos da cultura grega, dar razão da fé diante do mundo pagão.
Alexandria era, por excelência, o cruzamento entre a Revelação bíblica e o pensamento helênico. Ali florescera o judaísmo de língua grega de Fílon, ali se desenvolvia o neoplatonismo — Orígenes teria frequentado, segundo a tradição, a mesma escola de Amônio Sacas — e ali existia a célebre Escola Catequética, dirigida antes dele por Panteno e por Clemente de Alexandria. Nesse ambiente, a leitura alegórica e espiritual das Escrituras, a erudição filológica e o diálogo com a filosofia eram o solo natural em que se formou o gênio de Orígenes, o maior exegeta e teólogo da Igreja grega do séc. III.
O cristianismo desse período permanecia, contudo, sob a ameaça constante da perseguição. Em 202, sob o imperador Séptimo Severo, a perseguição irrompeu em Alexandria e levou ao martírio o próprio pai de Orígenes, Leônides; em 250, o édito do imperador Décio exigiu de todos os habitantes do Império o sacrifício aos deuses, desencadeando uma perseguição geral em que Orígenes foi preso e cruelmente torturado. Foi entre esses dois extremos — a formação numa escola aberta à cultura e a fidelidade selada na própria carne pelo sofrimento — que transcorreu a sua vida.
É justamente esse pano de fundo pré-niceno que explica por que Orígenes especulou com tanta liberdade sobre questões ainda não definidas pela Igreja, como a preexistência das almas, o subordinacionismo do Filho e a apocatástase (a restauração final de todas as criaturas). Tais hipóteses, formuladas num tempo em que a fé buscava suas categorias, só viriam a ser pesadas pela balança dogmática muito depois de sua morte, nas controvérsias origenistas dos séculos IV e VI, que culminaram na condenação do origenismo no II Concílio de Constantinopla (553). Orígenes morreu, porém, em comunhão com a Igreja, como confessor da fé, e jamais foi formalmente julgado em vida.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
Exegese e os sentidos da Escritura
Para Orígenes, a teologia é essencialmente a explicação da Escritura: uma “simbiose perfeita entre teologia e exegese”, num convite constante a passar “da letra ao espírito das Escrituras” para progredir no conhecimento de Deus. Como base crítica desse trabalho ele compôs a Hexapla, edição da Bíblia em seis colunas paralelas (texto hebraico, sua transliteração em caracteres gregos e quatro traduções gregas), chegando a consultar rabinos para fixar o texto original.
A partir da tricotomia corpo–alma–espírito, Orígenes distingue três sentidos na Escritura: o sentido literal (corporal), o sentido moral (psíquico) e o sentido espiritual (pneumático), “a unidade da Escritura que, em todo o seu desenvolvimento, fala de Cristo”. É o Espírito Santo que faz compreender o conteúdo cristológico e, portanto, a unidade na diversidade da Escritura, de modo que a leitura orante das Escrituras se torna caminho de união com o Verbo.
Teologia do Logos e a Trindade
Orígenes desenvolve uma teologia do Verbo (Logos) como Sabedoria e Filho unigênito do Pai. No Sobre os Princípios afirma a geração eterna do Filho: ninguém em seu juízo pode supor “que Deus Pai tenha existido, mesmo por um instante, sem ter gerado esta Sabedoria”; a geração do Filho é “tão eterna e perpétua como o brilho que se produz do sol”. Essa contribuição foi decisiva e ortodoxa — Santo Atanásio defendeu a ortodoxia trinitária de Orígenes. Ao mesmo tempo, parte de sua linguagem reflete um subordinacionismo (uma certa preeminência de ordem e dignidade do Pai) próprio de uma época pré-nicena em que a linguagem teológica ainda não estava fixada; a ortodoxia do Concílio de Niceia depois precisou e corrigiu esse ponto.
Teses especulativas depois condenadas
No terreno mais arriscado do Sobre os Princípios, Orígenes formulou, como hipóteses especulativas de um tempo pré-conciliar, teses que a Igreja viria a rejeitar. Da ideia de uma criação eterna deduz uma sucessão indefinida de mundos antes e depois do mundo presente (a sucessão de mundos). Sustenta também a igualdade original e preexistência dos espíritos racionais, criados todos iguais, cujas diferenças atuais derivariam de uma queda anterior pelo mau uso do livre-arbítrio (a preexistência das almas). E, do princípio de que o fim é sempre semelhante ao princípio, chega à apocatástase (apokatastasis): a restauração final universal de todas as criaturas racionais.
É preciso apresentá-las com honestidade: são hipóteses especulativas, não verdades de fé. O próprio Orígenes recua diante de suas consequências e as corrige com professões de fé ortodoxas — e irritava-se quando o acusavam de ensinar a salvação eterna do diabo. Foi a leitura radicalizada por correntes origenistas posteriores que, sob Justiniano, foi anatematizada (sínodo de Constantinopla, 543; anátemas em torno do II Concílio de Constantinopla, 553). A própria Catholic Encyclopedia observa que é discutível se o concílio ecumênico em si condenou Orígenes, mas as teses — preexistência das almas, apocatástase e sucessão de mundos — foram efetivamente rejeitadas pela Igreja.
Martírio e oração
A vida de Orígenes foi atravessada por um anseio incessante de martírio — aos dezessete anos exortou o próprio pai, Leônides, a não recuar diante do supremo testemunho da fé; em 250, na perseguição de Décio, foi preso e cruelmente torturado, morrendo pouco depois em consequência dos sofrimentos. Dessa experiência nascem a sua Exortação ao Martírio e a teologia do martírio como ápice da hierarquia da santidade, o holocausto oferecido sobre o altar de Deus. Autor de um tratado Sobre a Oração, Orígenes entrelaça constantemente exegese e teologia com a experiência orante: para ele o conhecimento das Escrituras exige oração e intimidade com Cristo mais ainda que estudo, pois não há autêntica scientia Christi sem se apaixonar por Ele.
"Sua geração é tão eterna e perpétua como o brilho que se produz do sol. Pois não é por receber o sopro da vida que Ele é feito Filho, por algum ato exterior, mas por sua própria natureza." Sobre os Princípios (De Principiis), I, 2, 4
Quem ele influenciou
Um magistério que atravessou os séculosA influência de Orígenes sobre o pensamento cristão foi imensa e, em larga medida, permanente. Bento XVI o chama de “uma figura crucial para todo o desenvolvimento do pensamento cristão” e de “um verdadeiro maestro”. Em vida formou discípulos diretos de primeira grandeza: São Gregório Taumaturgo, que o seguiu por cinco anos em Cesareia e lhe dedicou um célebre Discurso de Despedida, e São Dionísio de Alexandria, seu aluno e sucessor à frente da escola catequética.Seu prestígio irradiou-se para os grandes Padres. Os capadócios São Basílio e São Gregório Nazianzeno compilaram a Filocalia, antologia de textos de Orígenes; Santo Atanásio defendeu sua ortodoxia trinitária, e Santo Ambrósio de Milão — nas palavras de Bento XVI — “aprendeu das obras de Orígenes a interpretar as Escrituras” e as introduziu no Ocidente, transmitindo-as a Agostinho e à tradição monástica. Entre os latinos, São Jerônimo e Rufino traduziram-no extensamente, e a mística monástica posterior bebeu de sua doutrina sobre a oração.No plano do método, Orígenes é considerado o pai da exegese cristã científica: estabeleceu a tríplice interpretação da Escritura — o sentido literal, o moral e o espiritual — que está na raiz da doutrina medieval dos quatro sentidos das Escrituras, e foi pioneiro da crítica textual bíblica com a Hexapla, sua gigantesca edição da Bíblia em seis colunas paralelas. Bento XVI reconhece-lhe ainda um papel “primordial” na história da lectio divina.Marca singular dessa influência é a sua ambivalência: apesar das condenações que recaíram sobre o “origenismo”, Orígenes continuou a alimentar a teologia, a exegese e a mística da Igreja, sendo lido e citado com admiração mesmo por santos que advertiam contra seus erros.
Debates e controvérsias
A ordenação contestada (c. 231)
De passagem pela Palestina, Orígenes — ainda leigo — foi ordenado presbítero pelos bispos Teoctisto de Cesareia e Alexandre de Jerusalém, sem o conhecimento e a licença de seu bispo, Demétrio de Alexandria, que se sentiu ofendido por aquilo que considerou uma usurpação de seus direitos. De volta a Alexandria, Orígenes encontrou o bispo hostil e deixou o Egito (231). Segundo Fócio, dois sínodos alexandrinos reuniram-se: um decretou seu banimento e o outro o depôs do sacerdócio. São Jerônimo, contudo, atesta expressamente que ele não foi condenado por uma questão de doutrina. Orígenes firmou-se então em Cesareia da Palestina, onde fundou nova escola.
A tradição da automutilação
Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica VI, 8) relata que o jovem Orígenes, tomando em sentido literal e extremo as palavras de Cristo sobre os “eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus” (Mt 19,12), ter-se-ia castrado. Trata-se, porém, de uma tradição contestada: muitos estudiosos modernos a consideram pouco fiável, observando que o próprio Orígenes, ao comentar Mt 19,12, condena justamente a interpretação literal desse versículo.
A Primeira Controvérsia Origenista (c. 393–404)
No fim do séc. IV, a paixão dos monges do Egito e da Palestina por Orígenes provocou forte reação. Epifânio de Salamina e, depois, Teófilo de Alexandria — este último, até então ele próprio origenista — lançaram-se contra o origenismo; Teófilo condenou os livros de Orígenes no Concílio de Alexandria (400). A disputa provocou a célebre ruptura entre dois antigos amigos, São Jerônimo, que passou a atacar Orígenes, e Rufino, que o traduziu e defendeu. No centro da querela estava a tradução latina do Sobre os Princípios: Rufino, ao verter a obra, atenuou ou corrigiu passagens doutrinariamente perigosas, alegando interpolações heréticas no texto grego — o que Jerônimo denunciou como falsificação.
A Segunda Controvérsia e a condenação
No séc. VI, doutrinas origenistas voltaram a circular entre os monges da Palestina. O imperador Justiniano redigiu um tratado contra Orígenes e impôs ao sínodo local de Constantinopla, em 543, a subscrição de anátemas. Anos depois, no II Concílio de Constantinopla (553), V Concílio Ecumênico, condenaram-se doutrinas do origenismo — a preexistência das almas, a apocatástase e o subordinacionismo das Pessoas divinas. É importante notar que se condenaram doutrinas origenistas, e debate-se até hoje em que medida o próprio Orígenes as sustentou na forma anatematizada, ou se foram desenvolvimentos extremos de seus seguidores.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070425.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070502.html
- newadvent.org/cathen/11306b.htm
- newadvent.org/fathers/250106.htm
- newadvent.org/fathers/3812.htm
- newadvent.org/fathers/04121.htm
- newadvent.org/fathers/0416.htm
- newadvent.org/fathers/0415.htm
- papalencyclicals.net/councils/ecum05.htm
- britannica.com/biography/Origen
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