Moisés de Corene
Moisés de Corene (em armênio, Movses Khorenatsi; também grafado Movsēs Xorenac'i) foi o mais célebre historiador da Armênia antiga, autor da «História da Armênia» (Patmutyun Hayots), que lhe valeu os títulos de «pai da história armênia» (patmahayr) e de «Heródoto armênio». Segundo a tradição armênia, viveu no século V, foi natural da aldeia de Khoren (ou Khoronk), na província de Taron, e contou-se entre os discípulos de São Mesrop Mashtots, o criador do alfabeto armênio. Teria sido enviado a estudar no estrangeiro — em Edessa, Alexandria, Atenas e Constantinopla — e, de volta à pátria, colaborado na tradução da Bíblia para o armênio. Sua «História da Armênia» é a principal fonte para o conhecimento da Armênia pré-cristã e teve enorme influência na historiografia posterior. A datação e a autoria da obra, contudo, são muito debatidas: desde o fim do século XIX, muitos estudiosos situam a sua composição entre os séculos VII e IX, embora a historiografia armênia continue a defender a origem no século V. Moisés de Corene não é santo canonizado pela Igreja Católica Romana nem figura no Martirológio Romano; é venerado como santo na Igreja Apostólica Armênia (Ortodoxa Oriental, não em comunhão plena com Roma), entre os Santos Tradutores (Surb Targmanchats), comemorados em outubro.
Biografia
Origem, nome e formação
Moisés de Corene — em armênio Movses Khorenatsi (Մովսես Խորենացի), latinizado Moses Chorenensis — é, nas palavras da tradição, «o mais célebre escritor da Armênia», chamado pelos seus compatriotas «o pai da história» e «o pai dos sábios», e celebrado também como poeta, autor de hinos e gramático. O epíteto «Khorenatsi» indica a sua origem: era natural da aldeia de Khoren (ou Khorni, também dita Khoronk), na província de Taron (Taraun), na Armênia. Segundo a tradição armênia, viveu no século V e foi um dos jovens discípulos de São Mesrop Mashtots, o criador do alfabeto armênio (c. 405), e do patriarca (catolicós) São Sahak (Isaac), no círculo de tradutores que então floresceu na Armênia.
Estudos no estrangeiro e colaboração na tradução
Ainda jovem, conta a tradição, Moisés foi enviado por Mesrop a aperfeiçoar-se nas grandes escolas do mundo cristão: estudou em Edessa, Alexandria (onde se aprofundou na retórica), Atenas e Constantinopla, numa longa peregrinação intelectual que, segundo alguns relatos, o teria levado também a Roma. A morte de Sahak e de Mesrop (ambos por volta de 439–440) tê-lo-ia feito interromper as viagens e regressar à Armênia. De volta à pátria, ter-se-ia juntado aos discípulos de Mesrop na obra que marcou para sempre a cultura armênia: a tradução da Bíblia para o armênio, concluída pela geração dos Santos Tradutores.
Atividade na Armênia e a «História da Armênia»
Uma tradição tardia — registrada apenas no historiador Estêvão de Taron (Stepanos Taronetsi, dito Asoghik), dos séculos X–XI, sem qualquer confirmação contemporânea — afirma que Moisés, natural de Taron, teria sido bispo de Bagrevand e de Arsharunik'. Nenhuma fonte armênia anterior ao século X o menciona entre os discípulos de Sahak e Mashtots, e por isso o dado episcopal não pode ser tido por certo. Seja como for, a obra que imortalizou o seu nome é a «História da Armênia» (Patmutyun Hayots), primeira tentativa de uma história geral do povo armênio, das origens lendárias e mitológicas até a morte de Mesrop e de Sahak (c. 439–440). Reunindo textos gregos, sírios e hebraicos, tradições orais e relatos populares, é praticamente a única obra que preserva a história e as tradições da Armênia pré-cristã, e exerceu enorme influência sobre toda a historiografia armênia posterior.
Datação debatida, morte e legado
A própria época de Moisés é objeto de viva controvérsia. A data de nascimento é desconhecida; o fato de se dizer discípulo de Mesrop levaria a situá-lo «em fins do século IV», e a sua morte «costuma colocar-se por volta do fim do século V». Desde o fim do século XIX, porém, muitos estudiosos — observando que a «História» não é citada por nenhum autor antes do século X, que Moisés não aparece em relato algum contemporâneo dos discípulos de Mesrop e que a obra favorece a família Bagrátida (ascendente ao poder real só em 884) — defendem que ela teria sido composta bem mais tarde, entre os séculos VII e IX (o orientalista Robert Thomson chega a datá-la do século VIII). A historiografia armênia, em contrapartida, continua em larga medida a aceitá-la como obra genuína do século V. Independentemente da datação da obra, Moisés de Corene é venerado como santo na Igreja Apostólica Armênia (Ortodoxa Oriental, não em comunhão plena com Roma), incluído entre os Santos Tradutores (Surb Targmanchats) — ao lado de Mesrop, Sahak, Eznik, Koriun e outros —, comemorados na Festa dos Santos Tradutores, em outubro. Não é santo canonizado pela Igreja Católica Romana nem figura no Martirológio Romano.
O contexto em que viveu
O mundo de Moisés de Corene (Movses Khorenatsi) é a Armênia cristã da Antiguidade Tardia, primeiro reino a abraçar oficialmente o cristianismo. Segundo a tradição, o rei Tiridates III (Trdat) foi convertido em 301 por São Gregório, o Iluminador, fazendo da Armênia a primeira nação cristã (a adoção oficial é por vezes situada c. 314). Encravada entre dois impérios, a Armênia tornou-se campo de disputa entre Roma/Bizâncio e a Pérsia sassânida. Em 387, o imperador Teodósio I e o xá Sapor III firmaram a partição da Armênia entre o Império Romano do Oriente e a Pérsia, ficando a maior parte (cerca de quatro quintos) sob domínio persa — o cenário político em que a obra atribuída a Moisés faria a memória da nação.
O acontecimento decisivo para a cultura armênia — e o pano de fundo direto da figura de Moisés — foi a invenção do alfabeto armênio por Mesrop Mashtots, por volta de 405–406, com o apoio do Catolicós Sahak (Isaac), o Grande, e do rei Vramshapuh. O novo sistema de 36 letras abriu a chamada «Idade de Ouro» da literatura armênia (séc. V) e um vasto movimento de tradução: Sahak fundou uma escola de tradutores e mandou verter a Bíblia para o armênio — começada a partir do siríaco e revista pelo grego (Septuaginta e Novo Testamento) —, versão de tal beleza e fidelidade que recebeu o nome de «rainha das traduções». É a esse círculo dos Santos Tradutores (Surb Targmanchats), discípulos de Mesrop e Sahak, que Moisés diz pertencer, sendo por isso chamado pelos armênios «pai da história» e «pai dos gramáticos».
A geração imediatamente seguinte viu o fim da independência política. Em 428, com o último soberano Artaxes IV (Artashes IV), o reino arsácida (arshakuni) da Armênia foi abolido pela Pérsia, que instalou governadores chamados marzpans — começa o período do marzpanato persa. Privada de rei próprio, a nobreza armênia (os nakharars) tornou-se a guardiã da identidade nacional e cristã, tema que percorre a «História da Armênia» atribuída a Moisés.
Sob o domínio persa veio o confronto religioso. O xá Isdegerdes II (Yazdegerd II) procurou impor o zoroastrismo aos súditos armênios, provocando a revolta liderada por São Vardan Mamikonian. Na Batalha de Avarayr (451), Vardan e seus companheiros tombaram numa derrota militar que, no entanto, levou a Pérsia a renunciar à conversão forçada; a liberdade religiosa seria consolidada após a revolta de 481–484. Esse martírio coletivo — o Vardanank — tornou-se símbolo maior da resistência cristã armênia e selo da fidelidade à fé que a obra de Moisés celebra.
No mesmo ano de Avarayr reuniu-se, no Oriente romano, o Concílio de Calcedônia (451), que definiu as duas naturezas de Cristo. A Igreja armênia não o recebeu: o concílio celebrou-se enquanto os armênios combatiam o esforço dos persas para esmagar o cristianismo, e a Armênia, ausente e desconfiada de que Calcedônia renovasse o erro nestoriano, manteve a fé das três primeiras assembleias ecumênicas. A rejeição foi formalizada no Sínodo de Vagharshapat (491) e reafirmada nos Concílios de Dvin (o segundo em 552). Daí a posição própria da Igreja Apostólica Armênia, situada na Ortodoxia Oriental (miafisismo) — comunhão distinta da Igreja de Roma, na qual Moisés é venerado entre os Santos Tradutores, com festa em outubro.
Por fim, o contexto que alimenta a célebre controvérsia sobre a datação da obra: a ascensão da dinastia bagrátida (Bagratuni) ao poder real. Depois de serem reconhecidos «príncipe dos príncipes», Ashot I Bagratuni foi reconhecido rei dos armênios em 884/885 (por Bagdá em 885, por Constantinopla em 886). Como a «História da Armênia» glorifica os bagrátidas — casa que, do fim do séc. VII em diante, superou em esplendor as demais —, e como nela aparecem fontes posteriores aos séc. VI e VII e seus traços só surgem na literatura armênia a partir do séc. IX, muitos eruditos suspeitam que o autor que se diz discípulo de Mesrop no séc. V tenha, na verdade, escrito entre os séc. VIII e IX. Assim, embora a tradição faça de Moisés um homem da Idade de Ouro (séc. V), a data firme da obra permanece debatida.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
A primeira história geral e contínua da Armênia
O programa de Moisés de Corene foi ambicioso e inédito: compor a primeira história geral e contínua de seu povo, das origens lendárias — o patriarca Hayk e a fundação da nação — até o século V, articulada em torno da queda da dinastia arsácida (428). A obra divide-se em partes que vão da genealogia primitiva até Alexandre, de Alexandre à morte de Gregório, o Iluminador, e do período arsácida ao seu fecho — sendo tida como a «primeira tentativa de uma história universal da Armênia».
Um propósito patriótico
O móvel declarado é patriótico: preservar para a posteridade os feitos de uma nação pequena, mas digna de memória. Diz o autor que «ainda que sejamos pequenos e muito limitados em número (…), muitos atos de bravura foram realizados em nossa terra, dignos de ser escritos e lembrados». A História da Armênia (Patmutyun Hayots) foi composta, segundo o próprio texto, a pedido do príncipe Sahak Bagratuni.
Método: autoridades antigas, arquivos e, sobretudo, as lendas e cantos populares
Seu método combina autoridades antigas e arquivos com o uso sistemático de lendas e cantos populares como testemunhos da Armênia primitiva. Recorre aos cantos de Goghtn (os Goghtn songs, cantados pelos menestréis-gusans), que conservavam os mitos de Hayk e Bel, de Ara, o Belo, e Semíramis, da epopeia Vipasankʻ com Artashes e Satenik, e do nascimento do deus Vahagn. Para a fonte siríaca/arquivística alega ter usado um certo Mar Abas Catina.
O quadro cronológico de Eusébio
O esqueleto cronológico apoia-se em Eusébio de Cesareia: a obra recorre largamente ao Chronicon (a Crônica) de Eusébio para enquadrar as origens, chegando a identificar o Bel armênio com o Nemrod bíblico, numa genealogia que combina a Bíblia e materiais transmitidos por Eusébio.
"Choro por ti, terra da Armênia; choro por ti, a mais nobre de todas as nações do norte; pois foram tirados o rei e o sacerdote, o conselheiro e o mestre; a paz foi destroçada, a desordem deitou raízes; a ortodoxia foi abalada, e a heresia se enraizou pela ignorância." História da Armênia, Livro III, cap. 68 (o Lamento)
Quem ele influenciou
O «pai da história» armêniaO impacto de Moisés de Corene sobre a historiografia e a identidade nacional armênia é imenso. Os seus compatriotas chamam-no «o pai da história» e «o pai dos eruditos» (patmahayr), e a tradição o aproxima de Heródoto. A História da Armênia serviu como manual escolar padrão até o século XVIII e continua a alimentar o orgulho cultural armênio até o século XXI.Fonte quase única da lenda armênia primitivaA obra é a fonte única de boa parte da lenda armênia antiga: é graças a ela que se conhecem o progenitor epônimo Hayk e o mito de fundação, além de tradições pagãs que de outro modo se teriam perdido. Os fragmentos da epopeia Vipasankʻ (Artashes e Satenik), o nascimento de Vahagn e os ciclos de Ara, o Belo, e Semíramis sobrevivem essencialmente porque Moisés os transcreveu dos cantos populares de seu tempo.Um clássico que também serviu à arqueologiaHoje a obra é reconhecida como fonte importante para a história urartiana e armênia primitiva: foi o relato de Moisés sobre a antiga cidade de Van e suas inscrições cuneiformes que levou a Société Asiatique de Paris a financiar expedições, das quais resultou a descoberta da então desconhecida língua urartiana. Venerado pela Igreja Apostólica Armênia entre os Santos Tradutores, é símbolo nacional, com um busto no Matenadaran, o repositório de manuscritos de Erevã.
Debates e controvérsias
A questão da autoria e da datação
A grande controvérsia em torno de Moisés de Corene é acadêmica — não doutrinal: discute-se quando e por quem a História da Armênia foi de fato escrita. Trata-se de um debate de crítica histórica e filológica, e não de uma acusação de heresia.
A tese da datação tardia (pseudo-Moisés, séc. VIII)
Uma corrente «hipercrítica» — de A. Carrière ao tradutor e comentador Robert W. Thomson (1978) — sustenta que a obra não é do século V, mas de época bem posterior (em geral o séc. VIII). Os argumentos são, em síntese:
- Um historiador «Moisés» é desconhecido da literatura armênia antes do século X; só a partir de c. 900 a sua autoidentificação é retomada por outros autores.
- O texto usa fontes posteriores aos séculos VI e VII (a «Vida de São Silvestre» armênia, a História de Sócrates, Anania de Shirak, o Romance de Alexandre).
- Apresenta anacronismos (por exemplo, o nome «Mesrop» para o inventor do alfabeto só aparece em autores do séc. VIII; os anteriores diziam «Mashtots»).
- Revela viés pró-Bagrátida, interessante num contexto de rivalidades dinásticas posteriores.
- Contradiz escritores do séc. V como Koriun e Lázaro de Parp (Ghazar Parpetsi). Thomson chegou a chamá-lo de «falsário audacioso e mendaz».
A defesa armênia (núcleo do séc. V)
A maioria dos estudiosos armênios — de Stepan Malkhasyants e Manuk Abeghian a Gagik Sargsyan e Vrej Nersessian — rejeita a tese tardia e sustenta um núcleo do século V. Argumentam:
- Que um «Moisés, o filósofo» do séc. V é historicamente atestado: Ghazar Parpetsi (c. 495–500) menciona «o bem-aventurado Movses, o filósofo».
- Que a obra se ocupa inteiramente de eventos anteriores a c. 440 e silencia sobre as incursões árabes — o que não se esperaria de um autor do séc. VIII.
- Que a «hipercrítica» de Thomson aplica a um autor antigo regras modernas de citação de fontes.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/10598a.htm
- catholicity.com/encyclopedia/m/moses_of_chorene.html
- iranicaonline.org/articles/movses-xorenaci/
- worldhistory.org/Movses_Khorenatsi/
- livius.org/articles/person/moses-of-chorene/
- kroraina.com/armen/thomson_1.html
- en.wikipedia.org/wiki/Movses_Khorenatsi
- en.wikipedia.org/wiki/History_of_Armenia_(Movses_Khorenatsi
- en.wikipedia.org/wiki/Ashkharhatsuyts
- en.wikipedia.org/wiki/Mar_Abas_Katina
- en.wikipedia.org/wiki/Holy_Translators
- en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Avarayr
- newadvent.org/cathen/01736b.htm
- aypeke.com/moses-of-xoren/history-of-the-armenians/book-1/
- aypeke.com/moses-of-xoren/history-of-the-armenians/book-3/
- en.wikibooks.org/wiki/The_History_of_the_Armenians_(Movses_Khorenatsi
- britannica.com/topic/Armenian-alphabet
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