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Medalius · Codex de Personalidades · Mar Jacó de Edessa
Mar Jacó de Edessa
🏛 Padre da Igreja
Período
640–708 (68 anos)
Lugar
Edessa
Escola
Patrística siríaca ocidental (miafisita)
Idioma principal
Siríaco (com domínio do grego e do hebraico)

Mar Jacó de Edessa

640–708
O Intérprete das Escrituras; o «Jerônimo siríaco»

Mar Jacó de Edessa (em siríaco, Yaʿqub d-Urhoy; c. 640 – 5 de junho de 708) foi bispo de Edessa, monge e o maior polímata da tradição siríaca de seu tempo: tradutor, gramático, exegeta, canonista, cronista e filósofo-teólogo. Pertence à Igreja Siríaca Ortodoxa, de tradição miafisita (Ortodoxa Oriental), que rejeitou o Concílio de Calcedônia (451) e não está em comunhão plena com Roma. Formou-se no mosteiro de Qenneshre, sobre o Eufrates, sob o sábio Severo Sebokht, dominando o grego e o siríaco, e estudou ainda em Alexandria. Por volta de 684 foi ordenado bispo de Edessa por seu amigo, o patriarca Atanásio II de Balad, mas renunciou poucos anos depois por causa de sua firmeza no direito canônico, queimando publicamente uma cópia dos cânones diante da residência do patriarca Juliano. Retirou-se então para a vida monástica, ensinando grego e a Escritura no mosteiro de Eusebona (onde sofreu oposição de monges hostis ao grego) e dedicando-se em Tel Ada à grande obra de revisão do Antigo Testamento. Como erudito, revisou o texto bíblico siríaco (a partir da Peshitta, da Septuaginta e do Siro-Hexaplar), traduziu as Homílias Catedrais de Severo de Antioquia, escreveu a primeira gramática siríaca — introduzindo sinais vocálicos derivados do grego —, compôs um Hexaemeron, uma crônica que continuava a de Eusébio de Cesareia (até c. 692) e numerosas cartas e obras canônicas e litúrgicas. É venerado como santo na Igreja Siríaca Ortodoxa, com festa em 5 de junho; não é santo católico romano nem figura no Martirológio Romano. É considerado o cristão mais erudito dos primeiros tempos do Islã.

Biografia

Origem, formação e os mosteiros

Mar Jacó de Edessa nasceu por volta de 640 na aldeia de 'En-deba ('Aindeba), no distrito de Gumya, província de Antioquia, na Síria então bizantina. Ainda jovem ingressou no mosteiro de João bar Aftônia, em Qenneshre, sobre o alto Eufrates — o grande centro de estudos gregos da Igreja Siríaca Ortodoxa —, onde estudou as Escrituras e o grego sob o célebre Severo Sebokht. Aprofundou depois os estudos em Alexandria e dedicou-se também ao hebraico. Assim formou-se o maior representante do helenismo cristão siríaco: embora falasse e escrevesse exclusivamente em siríaco, foi um entusiasta defensor da língua, da literatura e da teologia gregas.


Episcopado de Edessa e a renúncia

Por volta de 684, Jacó foi ordenado bispo (metropolita) de Edessa por seu amigo, o patriarca Atanásio II de Balad — de Edessa lhe veio o sobrenome. Governou por poucos anos, mas entrou em conflito por causa do que considerava uma atitude relaxada diante do direito canônico, que se recusava a flexibilizar: depôs e expulsou clérigos por condutas não-canônicas. Sem o apoio do patriarca Juliano, que lhe aconselhava brandura, Jacó fez uma demonstração pública de sua posição, queimando uma cópia dos cânones diante da residência do patriarca, e renunciou ao bispado.


Anos de ensino e a grande obra erudita

Retirou-se primeiro para o mosteiro de Mor Yaʿqub, em Kaisum, perto de Samósata, onde escreveu dois tratados, um deles contra os que violavam o direito canônico. Foi depois convidado ao mosteiro de Eusebona, para ensinar os Salmos e a leitura da Escritura em grego; ali permaneceu cerca de onze anos, até ser forçado a partir por causa da hostilidade dos monges ao grego. Mudou-se então, com seus discípulos, para o Grande Mosteiro de Tel Ada (Tell 'Ada), onde se entregou à imensa obra de revisão do Antigo Testamento e à sua demais produção erudita.


Volta a Edessa, morte (708) e legado

Em 708, morto Ḥabbib, que o substituíra como bispo de Edessa, Jacó foi chamado de volta à sé episcopal. Voltou a Tel Ada para buscar a sua biblioteca e os seus alunos e ali morreu apenas quatro meses depois, em 5 de junho de 708, sendo sepultado no próprio mosteiro. Deixou um legado imenso: a revisão do texto bíblico siríaco, a tradução de Severo de Antioquia, a primeira gramática siríaca, uma crônica histórica e obras canônicas e litúrgicas que moldaram por séculos a tradição siríaca ocidental. É venerado como santo na Igreja Siríaca Ortodoxa, com festa em 5 de junho.

Contexto

O contexto em que viveu

Mar Jacó viveu numa época de ruptura para o Oriente cristão. A cidade de Edessa e toda a Síria-Mesopotâmia, antes bizantinas, caíram sob domínio árabe-muçulmano por volta de 639–640, quando Edessa capitulou perante o general Iyad ibn Ghanm; toda a vida adulta de Jacó transcorreu já sob o Califado Omíada. Foi, nas palavras dos estudiosos, o cristão mais erudito dos primeiros tempos do Islã.


Religiosamente, ele pertencia à Igreja Siríaca Ortodoxa, de cristologia miafisita (que confessa em Cristo uma só natureza encarnada do Verbo, unindo divindade e humanidade sem separação, confusão ou alteração). Essa Igreja rejeitara o Concílio de Calcedônia (451) e a sua fórmula das "duas naturezas", separando-se progressivamente da Igreja imperial de Constantinopla; os calcedônios chamavam-na pejorativamente de "jacobita", em referência a Jacó Baradeu, organizador da hierarquia miafisita no século VI. É uma das Igrejas Ortodoxas Orientais, não em comunhão plena com Roma nem com a Ortodoxia oriental calcedônia.


O cristianismo siríaco daquele tempo estava dividido em três grandes ramos: os calcedônios ("melquitas"), fiéis a Constantinopla; os miafisitas ("jacobitas", a Igreja Siríaca Ortodoxa), aos quais pertencia Jacó; e a Igreja do Oriente, de tradição diofisita, que os adversários apelidavam de "nestoriana". Nesse cenário floresceu o mosteiro de Qenneshre, sobre o Eufrates, o grande centro siríaco de estudos gregos nos séculos VII–VIII, onde Jacó se formou sob Severo Sebokht e se tornou o maior representante do helenismo cristão siríaco — transmitindo o saber grego que, mais tarde, alimentaria também o movimento de traduções de Bagdá.


Por tudo isso, Jacó de Edessa não é um santo da Igreja Católica Romana e não figura no Martirológio Romano: pertence à Ortodoxia Oriental miafisita. É venerado como santo dentro da sua própria tradição — a Igreja Siríaca Ortodoxa —, que celebra a sua festa em 5 de junho.

Fatos contextuais
Concílio de Calcedônia define as duas naturezas de Cristo
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Nascimento de Jacó em 'En-deba
Nasce c. 640 em 'En-deba ('Aindeba), na província de Antioquia (cerca de 50 km a...
Formação em Qenneshre sob Severo Sebokht e estudos em Alexandria
Forma-se no mosteiro de Qenneshre, principal centro de estudos gregos dos siríac...

Suas contribuições à teologia

O "Intérprete das Escrituras"

O núcleo da obra de Mar Jacó de Edessa (c. 640–708) foi fixar e interpretar o texto sagrado. Citado pelos exegetas posteriores como "o Intérprete das Escrituras", dedicou anos, no mosteiro de Tel Ada, a revisar e emendar a versão Peshitta do Antigo Testamento confrontando-a com várias versões gregas — a última tentativa de revisão do Antigo Testamento empreendida na Igreja Siríaca Ortodoxa. Foi o principal fundador da Massorá siríaca, o sistema de cuidado e preservação do texto bíblico, e escreveu extensos comentários e scholia.


A padronização da língua e da terminologia

Jacó produziu a mais antiga gramática siríaca que se conservou e introduziu cinco sinais vocálicos adaptados de letras gregas, escritos acima da linha — inovação que permanece marca distintiva da escrita siríaca ocidental (Sertō) da Igreja Siríaca Ortodoxa, da Igreja Católica Siríaca e da Igreja Maronita. Dominando o grego e o siríaco, foi um dos maiores tradutores e terminólogos do seu tempo: padronizou a terminologia teológica grega em siríaco e revisou traduções anteriores em busca de exatidão, fixando assim o vocabulário doutrinal da sua Igreja. A sua Carta a Jorge, bispo de Serugh, sobre a ortografia testemunha a sua insistência na fidelidade dos copistas.


O saber grego dentro do mundo siríaco

Chamado "um dos mais filo-helenos de todos os autores siríacos", Jacó defendeu e transmitiu o saber grego — a filosofia aristotélica e a ciência — dentro da cultura siríaca. Compôs o Enchiridion (Manual), um tratado de terminologia filosófica, e coroou a obra com o Hexaemeron, comentário sobre os seis dias da criação que reúne exegese bíblica e amplo saber científico-natural e filosófico — sua última obra, deixada incompleta e terminada pelo amigo Jorge, bispo dos Árabes.

"Se ele veio e nasceu da carne da semente de Davi, então é também por absoluta necessidade que a mulher que lhe deu à luz é da semente de Davi, pois todas estas coisas dependem umas das outras e estão atadas como (os elos) de uma cadeia." Carta a João Estilita sobre a genealogia da Virgem Maria, §2 (trad. Nau/Pearse)
Influência

Quem ele influenciou

Um dos maiores doutores da Igreja Siríaca OrtodoxaO patriarca siríaco ortodoxo de Antioquia Mor Inácio Zakka I Iwas situou Mar Jacó entre os maiores Padres da Igreja Siríaca Ortodoxa, ao lado de Efrém, o Sírio, Jacó Baradeu, Filoxeno de Mabbug, Severo de Antioquia e Miguel, o Sírio. Pela sua erudição linguística e bíblica, ocupa na literatura siríaca um lugar comparável ao de São Jerônimo na tradição latina. A tradição da própria Igreja o aclama como "chefe entre os doutores da Igreja" e único na extensão do seu saber, sem igual até Bar Hebraeus, séculos depois.Pai da gramática siríaca e modelador da Igreja siríacaComo pai da gramática siríaca e inventor do sistema vocálico siríaco ocidental, fixou a forma da língua litúrgica que a Igreja Siríaca Ortodoxa usa até hoje. A sua revisão bíblica, os seus cânones eclesiásticos (as respostas ao presbítero Addai) e a sua contribuição litúrgica — incluindo uma revisão da Liturgia de São Tiago e ordens de batismo e de matrimônio — moldaram a disciplina e o culto siríacos.Ponte entre o helenismo e o mundo siríaco e árabeA sua obra teve continuidade direta em Jorge, bispo dos Árabes, que completou o Hexaemeron. Mais amplamente, as suas traduções e revisões — junto com as de outros sábios siríacos — serviram de ponte intelectual que fez fluir a filosofia grega para o Califado islâmico, influenciando o movimento de tradução de Bagdá no século IX e, por essa via, a reintrodução de Aristóteles na Europa medieval através das traduções latinas de textos árabes. Em 2008, ao se completarem 1300 anos da sua morte, o Patriarcado de Antioquia proclamou o "Ano de São Jacó de Edessa" em toda a Igreja Siríaca Ortodoxa.

Debates

Debates e controvérsias

A renúncia ao bispado de Edessa (c. 688)

Ordenado bispo de Edessa pelo patriarca Atanásio II de Balad, Jacó governou apenas três ou quatro anos. Aplicava com rigor os cânones da Igreja, o que o pôs em conflito com o clero local.

  1. Morto Atanásio, o sucessor, o patriarca Juliano II, não o apoiou e sugeriu que abrandasse a sua posição.
  2. Em resposta, Jacó queimou publicamente um exemplar dos cânones negligenciados diante da residência do patriarca, renunciou ao bispado e retirou-se para o convento de Mor Yaʿqub de Kaisum, perto de Samósata, com os seus discípulos.
  3. Reconciliado mais tarde, participou de papel destacado no sínodo convocado pelo patriarca Juliano II em 706 e foi rechamado à sé de Edessa em 708, morrendo quatro meses após a reintegração.


A hostilidade ao ensino do grego

Convidado depois para o mosteiro de Eusebona, Jacó ali permaneceu onze anos ensinando grego, instruindo os alunos nos Salmos e na leitura das Escrituras em grego. A sua estada terminou por causa da oposição de monges que detestavam o saber grego, o que o forçou a partir, com os seus discípulos, para o Grande Convento de Tel Ada.


A questão miafisita / Calcedônia — sem condenação pessoal

Jacó pertencia à Igreja Siríaca Ortodoxa e sustentava firmemente a posição cristológica miafisita da tradição Ortodoxa Oriental, que rejeitou o Concílio de Calcedônia (451). Trata-se da posição da Ortodoxia Oriental, e não de uma condenação pessoal de Jacó por heresia.

  1. Ele não foi condenado por nenhum concílio nem sínodo e, por isso, não é tratado como herege.
  2. O Magistério atual reconhece a mesma fé no mistério do Verbo encarnado: na Declaração comum de 1984, o Papa João Paulo II e o patriarca siríaco ortodoxo Mor Inácio Zakka I Iwas afirmaram que as confusões e cismas ocorridos entre as suas Igrejas nos séculos posteriores “de modo algum afetam ou tocam a substância da sua fé, pois surgiram apenas por causa de diferenças de terminologia e de cultura e nas várias fórmulas adotadas pelas diferentes escolas teológicas para exprimir a mesma realidade”, professando em comum a fé na Encarnação.
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