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Medalius · Codex de Personalidades · Lactâncio (Lúcio Cecílio Firmiano)
Lactâncio (Lúcio Cecílio Firmiano)
🏛 Padre da Igreja
Período
250–325 (75 anos)
Lugar
Nicomédia (Bitínia) e, depois, Tréveris (Gália)
Escola
Apologética latina pré-nicena / Patrística africana
Idioma principal
Latim

Lactâncio (Lúcio Cecílio Firmiano)

250–325
O Cícero Cristão

Lactâncio (Lúcio Cecílio Firmiano Lactâncio, c. 250 – c. 325) foi um retórico e apologista cristão latino, discípulo de Arnóbio na África e nomeado por Diocleciano professor oficial de retórica latina em Nicomédia, posto que perdeu com a perseguição de 303, já tendo se convertido ao cristianismo na idade adulta. A elegância ciceroniana de seu latim valeu-lhe dos humanistas a alcunha de “Cícero Cristão”, e suas obras-chave — as Instituições Divinas (Divinae Institutiones), primeira exposição sistemática da teologia cristã em latim, e De mortibus persecutorum — fizeram dele um dos grandes escritores eclesiásticos de língua latina. Já idoso e empobrecido, foi chamado por Constantino, por volta de 317, para ser preceptor de latim de seu filho Crispo, em Tréveris, onde passou seus últimos anos. Não é venerado como santo nem teve culto público, e tampouco foi condenado como herege por concílio algum: é um escritor eclesiástico leigo cujas opiniões teológicas posteriores (milenarismo/quiliasmo e uma pneumatologia deficiente) foram criticadas, sem que isso configurasse condenação formal.

Biografia

Origem africana, formação e conversão

Lúcio Cecílio Firmiano Lactâncio (Lucius Caecilius Firmianus Lactantius) nasceu por volta do ano 250, na África romana. São Jerônimo, no De viris illustribus, registra-o simplesmente como africano de nascimento e discípulo de Arnóbio — o retórico cristão que ensinava em Sica Venéria (Sicca Veneria), na atual Tunísia. Formado na retórica clássica latina, Lactâncio cresceu pagão e exerceu o ofício de mestre de retórica em sua terra natal antes de ser chamado ao Oriente. Sua conversão ao cristianismo deu-se já na vida adulta, ao que tudo indica somente depois de sua mudança para Nicomédia, e não na África.


Professor em Nicomédia e as Instituições Divinas

A pedido do imperador Diocleciano, Lactâncio tornou-se professor oficial de retórica latina em Nicomédia, a capital imperial do Oriente — para onde foi convocado juntamente com o gramático Flávio, conforme atesta São Jerônimo. Numa cidade de língua e cultura gregas, porém, eram raros os que buscavam um mestre de latim, de modo que teve poucos alunos. Foi nesse período de Nicomédia que amadureceu como cristão e começou a conceber sua grande obra apologética, as Divinae Institutiones (Instituições Divinas), em sete livros — a primeira tentativa de uma exposição sistemática da doutrina cristã em língua latina —, redigida ao longo dos anos seguintes, aproximadamente entre 303 e 311. Da mesma época é o tratado De Opificio Dei (Sobre a obra de Deus), de cerca de 303–304.


A Grande Perseguição, a demissão e a pobreza

Lactâncio foi testemunha ocular da eclosão da Grande Perseguição de Diocleciano em Nicomédia. Com o primeiro edito imperial contra os cristãos, de 24 de fevereiro de 303, não pôde conservar sua cátedra pública de mestre de retórica. Privado do cargo, e sendo difícil achar discípulos de latim naquela cidade grega, foi reduzido a tamanha pobreza que por vezes lhe faltava o necessário à vida, como recorda São Jerônimo. Nesses anos de penúria prosseguiu sua obra de escritor, concluindo as Instituições Divinas, das quais ele próprio fez depois um resumo, a Epitome, e compondo o De Ira Dei (Sobre a ira de Deus). Por volta de 313–316 escreveu o De Mortibus Persecutorum (Sobre a morte dos perseguidores), precioso testemunho histórico do fim trágico dos imperadores que perseguiram a Igreja. Atribui-se-lhe ainda o poema De Ave Phoenice (A ave Fênix).


Preceptor de Crispo em Tréveris e legado

A amizade do imperador Constantino tirou-o da miséria: embora já bastante idoso, foi nomeado preceptor de latim de Crispo, filho do imperador. Por volta de 317, quando Crispo foi elevado a César, Lactâncio passou a residir em Tréveris (Augusta Treverorum), na Gália. Aí transcorreram seus últimos anos; morreu por volta de 325 — a data e as circunstâncias exatas de sua morte permanecem desconhecidas. A elegância de seu latim valeu-lhe, entre os humanistas do Renascimento, o epíteto de "o Cícero Cristão". Cumpre notar, em honestidade, que Lactâncio não é venerado como santo, não tem festa nem culto, e que algumas de suas opiniões foram mais tarde criticadas — sobretudo o seu milenarismo (a expectativa de um reino terreno de mil anos) e uma compreensão pouco aprofundada da Trindade e do Espírito Santo. Trata-se, porém, de críticas a posições particulares: nunca foi condenado por concílio algum, e a Igreja sempre o teve por escritor eclesiástico de mérito, mestre de estilo e apologeta de valor.

Contexto

O contexto em que viveu

Lactâncio viveu sob a Tetrarquia, o novo regime que Diocleciano instituiu para conter a crise do Império. Em 293, tendo já assumido o título de Augusto e partilhado com Maximiano, Diocleciano acrescentou dois Césares — Galério e Constâncio Cloro —, formando um colégio de quatro governantes que repartiam entre si o mundo romano. O próprio Diocleciano fixou-se em Nicomédia, na Ásia Menor e próxima da fronteira persa, fazendo dela a capital imperial do Oriente. Foi para essa corte que ele convocou Lactâncio como professor de retórica, situando-o no coração do cenário político e cultural do regime tetrárquico.


Foi também de Nicomédia que partiu a Grande Perseguição, a mais dura e sistemática repressão aos cristãos. Instigado pelo César Galério, ferrenho pagão, Diocleciano deu início à perseguição em 303; nesse mesmo ano publicou-se o primeiro édito contra os cristãos (24 de fevereiro de 303), seguido de outros, cada qual mais severo, ordenando a destruição das igrejas, o confisco dos livros sagrados, a prisão do clero e a morte de quantos se recusassem a sacrificar aos deuses. Lactâncio, testemunha ocular desses fatos, perdeu então o seu cargo público. A perseguição só cessaria com o édito de tolerância de Galério, promulgado em 30 de abril de 311.


A virada veio com Constantino. Em 28 de outubro de 312, ele derrotou Maxêncio na batalha da Ponte Mílvia, às portas de Roma, consolidando-se como senhor do Ocidente. Em fevereiro de 313, reunido em Mediolano (Milão) com Licínio, firmou o acordo que ficou conhecido como "Édito de Milão", concedendo a todos a liberdade de culto, garantindo aos cristãos direitos legais e a devolução dos bens confiscados. É o próprio Lactâncio quem preserva o texto latino original desse documento na sua obra De mortibus persecutorum, ao lado da versão grega de Eusébio.


No plano religioso, Lactâncio insere-se na apologética latina pré-nicena, em larga medida obra da escola cristã africana. Antes dele, africanos como Tertuliano de Cartago — primeiro a produzir um vasto corpus cristão em latim e mestre de Cipriano —, o próprio Cipriano, Minúcio Félix e Arnóbio de Sica haviam feito da apologia o gênero dominante. Segundo São Jerônimo, Lactâncio foi discípulo de Arnóbio, prolongando essa linhagem de retóricos convertidos. Era ainda uma Igreja sem as grandes definições conciliares: o Concílio de Niceia, primeiro ecumênico, só se reuniria em 325, por ocasião da heresia de Ário.

Fatos contextuais
Nascimento na África romana (c. 250)
Lúcio Cecílio Firmiano Lactâncio nasce por volta de 250 na África romana, em fam...
Discípulo de Arnóbio em Sicca Veneria (c. 270)
Ainda jovem, Lactâncio estuda retórica como discípulo de Arnóbio, que ensinava e...
Diocleciano sobe ao trono (contexto mundial)
Em 20 de novembro de 284, Diocleciano é aclamado imperador, iniciando o regime q...
Cátedra de retórica latina em Nicomédia (c. 290)
A pedido do imperador Diocleciano, Lactâncio torna-se professor oficial de retór...
Instauração da Tetrarquia (contexto mundial)
Em 1º de março de 293, Diocleciano e Maximiano nomeiam Constâncio e Galério como...

Suas contribuições à teologia

Apologética racional e o "Cícero Cristão"

Formado na escola retórica clássica e discípulo do estilo de Cícero, Lactâncio é chamado pelos humanistas de "Cícero Cristão". Nas Divinae Institutiones (escritas c. 303–311), empreendeu a primeira exposição sistemática da fé em latim, dirigida aos cultos pagãos e aos adversários literários da Igreja. Seu método é mais literário e filosófico que escriturístico: apoia-se sobretudo no testemunho dos autores clássicos. Os três primeiros livros desmontam a falsa religião (livro I), a origem do erro (livro II) e a falsa sabedoria dos filósofos (livro III), reinterpretando Cícero para combater o politeísmo como vã superstição.


Providência, justiça e a ira de Deus

Contra o epicurismo, Lactâncio defende uma Providência que cria e governa o mundo e que pode intervir para corrigir a injustiça humana. No De opificio Dei argumenta a partir da própria constituição do corpo e da alma do homem para provar o desígnio divino. No De ira Dei sustenta que Deus tem uma ira justa: rejeita tanto a indiferença divina dos epicureus quanto a apatheia dos estoicos, afirmando que Deus se ira porque é movido pela bondade e que, se não se irasse contra os ímpios, não amaria os justos. A iustitia (justiça), cujo coração é a piedade para com Deus e a equidade para com os homens, é o tema central do livro V das Instituições.


Verdadeiro culto, imortalidade e fins últimos

O livro VI trata do verdadeiro culto a Deus e das "duas vias", e o livro VII dos fins últimos: a imortalidade da alma (o sumo bem, para cuja recepção fomos originalmente formados), a ressurreição dos mortos e o juízo final. Aqui Lactâncio defendeu o milenarismo: ao fim dos seis mil anos do mundo, Cristo voltaria e reinaria com os justos por mil anos sobre a terra, antes do juízo definitivo — opinião escatológica depois não acolhida pela Igreja.


Opiniões criticadas

Sem nunca ter sido condenado nem chamado herege, Lactâncio teve pontos criticados. Além do milenarismo, São Jerônimo aponta na Carta 84 que, sobretudo nas cartas a Demetriano, ele nega por completo a subsistência do Espírito Santo, aplicando ao Pai ou ao Filho as passagens que a Ele se referem — uma pneumatologia deficiente. A Enciclopédia Católica observa ainda nele certa falta de domínio dos princípios cristãos e escasso conhecimento das Escrituras, e passagens de tom dualista nas Instituições (tidas por muitos como interpolações de mão alheia).

"A religião deve ser defendida não matando, mas morrendo; não pela crueldade, mas pela paciência; não pelo crime, mas pela fé. Pois, se quiseres defender a religião com sangue, com tormentos e com o mal, ela já não será defendida, mas profanada e violada. Nada é tão voluntário quanto a religião." Instituições Divinas (Divinae Institutiones) V, 20
Influência

Quem ele influenciou

A principal contribuição duradoura de Lactâncio é histórica: o De mortibus persecutorum preserva, em latim, os textos dos decretos de tolerância — o édito de Galério (Édito de Sérdica), publicado em Nicomédia em 30 de abril de 311, e a chamada carta/"Édito de Milão" de Licínio, de 13 de junho de 313. Como os originais não foram conservados, a obra de Lactâncio (ao lado da versão grega de Eusébio) é a fonte primária capital desses documentos. A Enciclopédia Católica chama o De mortibus de fonte de primeira importância para a última e maior das perseguições. Nela também se conserva o relato da visão do lábaro (Chi-Rho) de Constantino.Na redescoberta renascentista, os humanistas admiraram seu latim ciceroniano e o batizaram "Cícero Cristão" (Cicero Christianus). As Divinae Institutiones tiveram editio princeps impressa em Subiaco em 1465, por Konrad Sweynheym e Arnold Pannartz, na abadia de Santa Escolástica — foi o primeiro livro datado impresso na Itália e um dos primeiríssimos livros impressos fora da Alemanha.Lactâncio influenciou a cultura cristã latina posterior como autor da primeira tentativa de exposição sistemática da teologia cristã em latim, embora os Padres tenham valorizado o seu estilo com reservas quanto à doutrina.

Debates

Debates e controvérsias

Reservas doutrinárias de um autor pré-niceno

As objeções a Lactâncio são antigas e já assentadas, e dizem respeito à doutrina, não à conduta.


A crítica de São Jerônimo — melhor a derrubar o paganismo do que a edificar a fé. Em De viris illustribus 80 e, sobretudo, na Epístola 58 a Paulino: "Lactâncio, qual um rio de eloquência ciceroniana, oxalá tivesse sido tão capaz de afirmar as nossas doutrinas quanto foi fácil em demolir as alheias" (no latim: utinam tam nostra affirmare potuisset, quam facile aliena destruxit).


Milenarismo / quiliasmo — no livro VII das Instituições, Lactâncio sustenta um reino terreno de Cristo de mil anos (visão premilenarista). São Jerônimo já o alinhava, em De viris ill. 18, aos que ensinam que, após a ressurreição, o Senhor reinará na carne com os santos — entre eles Tertuliano, Victorino de Petóvio e o próprio Lactâncio —, posição depois não recebida pela Igreja.


Pneumatologia deficiente — São Jerônimo, na Epístola 84, acusa: "Lactâncio, em seus livros e particularmente nas cartas a Demetriano, nega por completo a subsistência do Espírito Santo e, seguindo o erro dos judeus, diz que as passagens em que Ele é mencionado se referem ao Pai ou ao Filho".


Tendência dualista — nas Instituições (livro II), Lactâncio fala de dois espíritos / dois "filhos", um que permanece bom e outro que cai no mal, doutrina criticada por beirar o maniqueísmo. A Enciclopédia Católica, porém, julga que as passagens mais acentuadamente dualistas não são da sua pena, mas de alguém que viveu próximo do seu tempo, provavelmente um retórico de Tréveris.


Importante: apesar dessas reservas, Lactâncio nunca foi condenado formalmente por concílio nem teve seus escritos anatematizados. São objeções doutrinárias a um autor anterior ao Concílio de Niceia (325), num tempo em que a terminologia trinitária ainda não estava fixada — não sentenças canônicas. O próprio Jerônimo continuava recomendando a leitura das suas Instituições.

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