Pular para conteúdo
Medalius · Codex de Personalidades · João Damasceno
João Damasceno
✦ Doutor da Igreja
Período
676–749 (73 anos)
Lugar
Mosteiro de Mar Saba (São Sabas), perto de Jerusalém
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística grega
Idioma principal
Grego
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

João Damasceno

676–749
Crisorroas (Torrente de Ouro) Doutor da Igreja Padre da Igreja

São João Damasceno (em grego Ἰωάννης ὁ Δαμασκηνός; c. 675/676, Damasco – 4 de dezembro de 749, mosteiro de Mar Saba, perto de Jerusalém) foi monge, sacerdote, teólogo e hinógrafo sírio de língua grega, considerado o último dos Padres gregos. Nascido em uma rica família cristã de Damasco, sucedeu ao pai na administração financeira da corte do califa omíada antes de abraçar a vida monástica na Lavra de São Sabas. Quando o imperador bizantino Leão III, o Isáurico, desencadeou a perseguição iconoclasta, João escreveu os três célebres Discursos em defesa das santas imagens, distinguindo com clareza a adoração (latria) devida só a Deus da veneração (proskýnesis) prestada aos santos e às imagens. Sua grande síntese teológica, a Fonte do Conhecimento — cuja terceira parte é a Exposição Exata da Fé Ortodoxa —, tornou-se o primeiro compêndio sistemático da doutrina cristã e fonte da teologia grega posterior. Condenado postumamente pelo conciliábulo iconoclasta de Hiéria (754), foi plenamente reabilitado no II Concílio de Niceia (787), e em 1890 o Papa Leão XIII o proclamou Doutor da Igreja universal.

Biografia

Origem, família e formação em Damasco

João nasceu em Damasco por volta de 675/676, no seio de uma abastada família cristã árabe, os Mansur, que conservava posição de destaque mesmo sob o domínio do califado omíada. Seu pai — tradicionalmente identificado como Sergius (Sarjun ibn Mansur) — era cristão de sólida fé e exercia altas funções na corte, atuando como representante dos cristãos e como responsável pela administração financeira do califa. Segundo a tradição hagiográfica, o pai obteve para João, ainda menino, um preceptor cristão: um monge erudito chamado Cosmas, capturado em uma incursão e resgatado dentre os cativos, que o instruiu nas ciências e na teologia. Junto de João foi educado também seu irmão adotivo, o jovem Cosmas, futuro Cosmas de Maiuma e igualmente grande hinógrafo. Ao morrer o pai, João o sucedeu na administração da cidade, tornando-se, segundo as fontes, conselheiro principal de Damasco.


A defesa das santas imagens contra a iconoclastia

Foi durante esse período que o imperador bizantino Leão III, o Isáurico, deu início à heresia iconoclasta, com um primeiro édito contra a veneração das imagens por volta de 726, seguido de um segundo édito ainda mais severo em 730. Protegido por viver em território fora do alcance do imperador, João ergueu-se em defesa do culto às imagens e escreveu os três Discursos contra os que caluniam as santas imagens. Neles, distinguiu com precisão a adoração (latreia), devida unicamente a Deus, da veneração (proskynesis) prestada aos santos e às imagens, e fundamentou a licitude das imagens na própria Encarnação do Verbo. Segundo a tradição piedosa — que se deve apresentar como lenda hagiográfica, e não como fato histórico datado —, o imperador teria forjado uma carta atribuindo a João uma traição contra o califa; este, enganado, mandou decepar-lhe a mão direita, que a Virgem Maria, invocada pelo santo, teria milagrosamente restituído.


Monge e sacerdote em Mar Saba

Renunciando aos cargos e às riquezas, João retirou-se para o deserto da Judeia e ingressou na Lavra de São Sabas (Mar Saba), mosteiro situado a cerca de vinte e nove quilômetros a sudeste de Jerusalém. Ali levou vida de ascese, estudo e escrita, e foi ordenado sacerdote por João V, Patriarca de Jerusalém. Em Mar Saba dedicou-se à composição de suas grandes obras teológicas e à hinografia, gênero em que se tornou um dos maiores poetas litúrgicos do Oriente, ao lado de seu irmão adotivo Cosmas de Maiuma, que partilhara sua formação e que mais tarde foi feito bispo de Maiuma. Sua eloquência e fecundidade valeram-lhe o sobrenome Chrysorrhoas (Torrente de Ouro).


Últimos anos, morte e legado

João Damasceno morreu em Mar Saba por volta de 749 (a tradição litúrgica fixa o dia em 4 de dezembro), encerrando sua vida como o último dos Padres gregos. Sua grande síntese, a Fonte do Conhecimento (Pēgē gnōseōs), cuja terceira parte é a Exposição Exata da Fé Ortodoxa, constituiu o primeiro grande compêndio sistemático da teologia cristã e tornou-se manual fundamental tanto para o Oriente quanto, mais tarde, para a escolástica latina. Suas posições foram condenadas postumamente pelo conciliábulo iconoclasta de Hiéria (754), que chegou a injuriar sua memória; porém o II Concílio de Niceia (787), Sétimo Concílio Ecumênico, restabeleceu a doutrina do culto às imagens e vindicou plenamente sua honra. Reconhecido como santo por católicos e ortodoxos, foi proclamado Doutor da Igreja universal pelo Papa Leão XIII em 1890. Sua memória litúrgica é celebrada em 4 de dezembro.

Contexto

O contexto em que viveu

São João Damasceno nasceu em Damasco por volta de 675/676, numa cidade que havia menos de meio século deixara de ser bizantina: em 635, no avanço da conquista árabe-muçulmana da Síria, Damasco abriu suas portas aos exércitos muçulmanos, encerrando o domínio do Império Bizantino sobre a região. A partir de 661, sob o califa Mu'awiya, a cidade tornou-se a capital do Califado Omíada, sede de governo de um império que se estendia da Espanha às fronteiras da China.


Sob esse domínio islâmico, os cristãos viviam como dhimmis — tolerados, mas submetidos a um estatuto próprio — e muitos serviam na administração do califado. Foi o caso da família de João: seu pai, Mansur, exercia o cargo de chefe das finanças do califa, e o próprio João o sucedeu como principal conselheiro de Damasco, antes de abandonar tudo pela vida monástica. Sua formação clássica e cristã teria vindo, segundo a tradição, do monge Cosme, resgatado do cativeiro pela influência do califa para ser seu preceptor.


Ao mesmo tempo, o Império Bizantino vivia sob enorme pressão militar omíada. Entre 15 de agosto de 717 e 15 de agosto de 718, os árabes empreenderam o segundo e supremo cerco a Constantinopla, repelido pelo imperador Leão III, o Isáurico — que subira ao trono em 25 de março de 717 — graças ao fogo grego, ao rigor do inverno e a um ataque búlgaro. Essa vitória deteve a expansão árabe na Europa, mas as sucessivas calamidades e a ameaça muçulmana marcaram profundamente a mentalidade imperial.


Foi nesse clima que eclodiu a iconoclastia. Por volta de 726, Leão III começou a pronunciar-se publicamente contra a veneração das imagens sagradas, declarando-as ídolos proibidos pelo Êxodo; em 730 transformou a iconoclastia em política oficial do império, ordenando a remoção e destruição das imagens nas igrejas. Entre as causas apontavam-se a influência do Islã e do judaísmo, ambos hostis às imagens, e a leitura das derrotas e calamidades — terremotos, pestes, fomes, avanço muçulmano — como castigo divino pela suposta idolatria.


Por um paradoxo decisivo, João escreveu sua defesa das imagens de dentro do território califal, em solo muçulmano, fora do alcance do braço do imperador bizantino. Refugiado no mosteiro de Mar Saba (São Sabas), a uns 30 km a sudeste de Jerusalém, e ordenado sacerdote pelo patriarca de Jerusalém, pôde redigir livremente seus três Discursos contra os que caluniam as santas imagens, sem temer a perseguição imperial.


No ambiente monástico palestino e herdeiro da grande tradição patrística grega, João recolheu e sintetizou o legado dos Padres anteriores. Seus Discursos foram condenados depois de sua morte pelo conciliábulo iconoclasta de Hiéria (754), mas o II Concílio de Niceia (787), convocado pela imperatriz Irene, restaurou o culto das imagens e reabilitou os defensores ortodoxos, vindicando definitivamente a doutrina de João Damasceno.

Fatos contextuais
Queda de Damasco para os árabes
Damasco se rende aos exércitos muçulmanos, encerrando o domínio bizantino sobre...
Damasco, capital do Califado Omíada
O califa Mu'awiya estabelece sua corte em Damasco, fazendo da cidade o centro de...
Nascimento de João em Damasco (c. 675/676)
João nasce por volta de 675/676 em Damasco, no seio de uma família cristã abasta...
Formação com o monge Cosme (c. 690)
Segundo a tradição, é educado pelo monge Cosme, resgatado do cativeiro pela infl...
Sucede o pai na corte de Damasco (c. 705)
Filho de Mansur, chefe das finanças do califa, João assume cargo na corte, torna...

Suas contribuições à teologia

A defesa teológica das imagens sagradas

No coração do pensamento de São João Damasceno está a defesa da veneração das imagens contra a iconoclastia. Ele distingue rigorosamente os graus de culto: a adoração (latria) é devida só a Deus, ao passo que às imagens e aos santos se presta uma veneração relativa (proskynesis) que não termina na matéria, mas sobe até aquele que ela representa. Retoma de São Basílio o princípio decisivo: a honra prestada à imagem passa ao protótipo.


A matéria santificada pela Encarnação

O argumento de fundo é a Encarnação do Verbo. Se outrora o Deus invisível e incircunscrito jamais era representado, agora que Ele se fez carne e conviveu entre os homens, tornou-se lícito representá-Lo. Daí sua célebre profissão: «Não adoro a matéria, adoro o Deus da matéria, que se fez matéria por mim, e habitou na matéria, e operou a minha salvação por meio da matéria.»


A grande síntese da fé: a Fonte do Conhecimento

João Damasceno não pretende inovar, mas recolher e ordenar num só corpo a doutrina dos Padres que o precederam. Sua obra maior, a Fonte do Conhecimento — cuja terceira parte é a Exposição Exata da Fé Ortodoxa —, aplica as ferramentas da lógica aristotélica à teologia e organiza logicamente toda a tradição grega. Traduzida ao latim por volta de 1153, tornou-se modelo e fonte para a escolástica latina, sendo usada por Pedro Lombardo e por Santo Tomás de Aquino: é tida como o primeiro grande manual sistemático da teologia cristã.


Cristologia: Calcedônia e as duas vontades

Fiel ao Concílio de Calcedônia, professa em Cristo uma só hipóstase em duas naturezas, perfeito Deus e perfeito homem, unidas sem mudança nem alteração. Na esteira de São Máximo, o Confessor, defende contra os monotelitas as duas vontades e as duas operações: visto que Cristo tem duas naturezas, possui também duas vontades naturais e duas energias naturais, a divina e a humana.


Mariologia: Theotokos e a Dormição

Proclama Maria, em estrito rigor de verdade, Mãe de Deus (Theotokos), contra Nestório, pois Aquele que dela nasceu é verdadeiro Deus. Suas homilias sobre a Dormição descrevem a passagem do corpo da Virgem ao céu segundo a mais segura e antiga tradição; por isso foi citado por Pio XII na constituição apostólica Munificentissimus Deus (1950), que definiu o dogma da Assunção, valendo-lhe o título de Doutor da Assunção.


Deus incompreensível e a Trindade que se compenetra

Sua teologia trinitária culmina no apofatismo e na perichoresis. De Deus sabemos que existe, não o que Ele é em sua essência: «Deus é infinito e incompreensível, e tudo o que d'Ele se pode compreender é a sua infinidade e incompreensibilidade.» E as três Pessoas se compenetram mutuamente, habitando umas nas outras, não por se misturarem, mas por aderirem umas às outras, tendo o seu ser umas nas outras, sem confusão nem mistura.

"Não adoro a matéria, adoro o Deus da matéria, que se fez matéria por mim, e habitou na matéria, e operou a minha salvação por meio da matéria." Primeiro Discurso Apologético em Defesa das Santas Imagens (Apologia I, 16)
Influência

Quem ele influenciou

Quem São João Damasceno influenciouEmbora tenha falecido antes da resolução da controvérsia, seus três Discursos contra os que caluniam as santas imagens forneceram o arcabouço teológico do II Concílio de Niceia (787), que restabeleceu a veneração das imagens, e do Triunfo da Ortodoxia (843).Sua obra-mestra, a Fonte do Conhecimento — cuja terceira parte é a Exposição Exata da Fé Ortodoxa —, foi traduzida ao latim por Burgúndio de Pisa (séc. XII, por ordem do Papa Eugênio III) e dividida em quatro livros à maneira das Sentenças de Pedro Lombardo. Tornou-se assim fonte direta da escolástica latina: Santo Tomás de Aquino cita o Damasceno na Suma Teológica, apoiando-se na Exposição da Fé Ortodoxa.Na liturgia, aperfeiçoou a forma do cânone bizantino e compôs o célebre Cânone Pascal (Dia da Ressurreição), a chamada Rainha dos Cânones, além de contribuir para o Octoeco, o livro litúrgico dos oito tons.Na mariologia, suas homilias sobre a Dormição da Mãe de Deus foram expressamente citadas por Pio XII na constituição Munificentissimus Deus (1950) ao definir o dogma da Assunção. Por encerrar a era patrística no Oriente grego, é tradicionalmente chamado o último dos Padres gregos.

Debates

Debates e controvérsias

A querela iconoclasta e a vindicação do santo

A grande controvérsia de sua vida foi a querela iconoclasta: contra os éditos do imperador Leão III que proibiam o culto das imagens sagradas, João compôs (por volta de 726–730) seus três Discursos em defesa das santas imagens, distinguindo a adoração devida só a Deus da veneração relativa prestada às imagens.


Por isso foi anatematizado pelo conciliábulo iconoclasta de Hiéria (754), que o condenou postumamente com insultos. Essa condenação foi plenamente revertida e o santo vindicado no II Concílio de Niceia (787), o sétimo concílio ecumênico, que reparou amplamente os ultrajes de seus inimigos e consagrou sua doutrina sobre as imagens. A questão está, portanto, definitivamente resolvida pelo Magistério.

Conheça também

Outras personalidades

!

Encontrou algo incorreto?

Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.

Conheça mais pessoas.

O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.