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Medalius · Codex de Personalidades · João Crisóstomo
João Crisóstomo
✦ Doutor da Igreja
Período
349–407 (58 anos)
Lugar
Constantinopla
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística / Escola de Antioquia
Idioma principal
Grego
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

João Crisóstomo

349–407
Boca de Ouro Doutor da Igreja Padre da Igreja

São João Crisóstomo (c. 349–407) foi Padre da Igreja grego, arcebispo de Constantinopla e Doutor da Igreja, tido como o maior pregador da cristandade antiga — daí o sobrenome "Boca de Ouro" (Crisóstomo). Formado na retórica em Antioquia, notabilizou-se pelas suas homilias bíblicas, pela vida austera e pela intransigente reforma moral do clero e da corte imperial. Sua coragem em denunciar os abusos dos poderosos custou-lhe dois exílios, o segundo dos quais o levou à morte numa marcha forçada, com as últimas palavras "Glória a Deus por todas as coisas".

Biografia

Infância, formação e conversão

João nasceu em Antioquia, na Síria, por volta de 349 (alguns autores indicam 347). Tendo perdido o pai ainda menino, foi criado na fé por sua mãe, a piedosa viúva Santa Antusa, que cuidou pessoalmente de sua educação. Jovem brilhante, estudou retórica sob Libânio, o mais célebre orador pagão de seu tempo, que chegou a vê-lo como possível sucessor.

Atraído por Cristo, recebeu o batismo por volta dos vinte anos e logo se voltou para a vida ascética. Retirou-se durante quatro anos junto aos eremitas das montanhas próximas a Antioquia e depois passou mais dois anos sozinho numa caverna, em oração e penitência. O rigor extremo desse período arruinou-lhe a saúde, deixando-lhe um mal de estômago que o acompanharia por toda a vida e o obrigou a regressar à cidade.


Diácono, presbítero e o pregador de Antioquia

De volta a Antioquia, foi ordenado diácono por volta de 381 pelo bispo Melécio e, em 386, presbítero por Flaviano. Durante cerca de doze anos exerceu o ministério da pregação na cidade, conquistando fama extraordinária pela clareza, pela força moral e pela exposição das Escrituras.

Na Quaresma de 387, diante do terror que se abateu sobre Antioquia após a população derrubar as estátuas imperiais, pronunciou as célebres Homilias sobre as Estátuas, consolando e exortando o povo. Foi por essa eloquência sem igual que mais tarde recebeu o sobrenome Crisóstomo, isto é, "Boca de Ouro".


Arcebispo de Constantinopla, reformas e conflitos

Em 398 foi levado quase à força de Antioquia a Constantinopla e sagrado bispo da capital do Império do Oriente. À frente da maior sé do Oriente, empenhou-se numa rigorosa reforma do clero e dos costumes, dando ele próprio o exemplo com extrema austeridade na residência episcopal e generosidade para com os pobres.

Sua franqueza em denunciar o luxo e os abusos da corte chocou-se com a imperatriz Eudóxia e atraiu a inimizade do poderoso patriarca Teófilo de Alexandria. Em 403, Teófilo reuniu o chamado Sínodo do Carvalho (Synodus ad Quercum), nos arredores de Constantinopla, que decretou a sua deposição.


Exílio, morte e legado

Esse primeiro exílio durou pouco: um abalo no palácio imperial assustou a imperatriz, e o povo, revoltado, forçou o seu retorno. Mas a paz foi breve. Em 24 de junho de 404, João foi enviado a um segundo exílio, este definitivo, primeiro para Cucuso, na Armênia, e depois rumo ao distante Pítio.

Esgotado pela marcha forçada, morreu em Comana do Ponto em 14 de setembro de 407, com as últimas palavras: "Glória a Deus por todas as coisas". Reabilitado pela Igreja, teve as relíquias transladadas com grande pompa para Constantinopla em 27 de janeiro de 438, sob o imperador Teodósio II. Venerado como um dos quatro grandes Doutores gregos, foi declarado Doutor da Igreja pelo Papa São Pio V em 1568.

Contexto

O contexto em que viveu

João Crisóstomo viveu na transição dos séculos IV e V, num Império Romano já oficialmente cristão depois de Constantino e do Édito de Tessalônica de Teodósio. Era, porém, um cristianismo ainda em formação institucional, marcado por intensas controvérsias doutrinárias e por uma relação cada vez mais estreita — e tensa — entre o poder eclesiástico e o poder imperial.


Nesse tempo o Império já se dividia, de fato, entre Oriente e Ocidente. À morte de Teodósio (395), o Oriente coube ao fraco imperador Arcádio, cuja corte em Constantinopla era dominada por sua esposa, a imperatriz Eudóxia, e por funcionários ávidos de luxo e influência — exatamente o ambiente que a pregação reformadora de João viria a confrontar.


Antioquia, onde nasceu e se formou, e Constantinopla, sua sé episcopal, eram dois dos maiores centros do mundo cristão. A elevação de Constantinopla a "Nova Roma" alimentava uma forte rivalidade entre as sés, sobretudo com a antiga e poderosa sé de Alexandria, então governada pelo ambicioso patriarca Teófilo, que jamais aceitou a primazia da capital.


Esse choque eclesiástico-político ganhou contornos doutrinários com a controvérsia origenista: Teófilo perseguiu monges egípcios acusados de seguir Orígenes, e os chamados "Irmãos Longos", fugindo a Constantinopla, foram acolhidos por João. O episódio deu a Teófilo o pretexto para se voltar contra o arcebispo e, aliado à corte, articular a sua condenação no Sínodo do Carvalho.


Espiritual e teologicamente, João Crisóstomo representa o ápice da era patrística grega, herdeiro da escola exegética de Antioquia, voltada à interpretação literal e histórica das Escrituras. Sua obra homilética, vastíssima, tornou-se referência permanente para a pregação e a moral cristãs.


Ao fundo, o mundo mediterrâneo vivia crescente instabilidade: pressões nas fronteiras e movimentos de povos germânicos prenunciavam as grandes transformações que, poucas décadas depois, levariam ao colapso do Império no Ocidente.

Fatos contextuais
Nascimento em Antioquia
João nasce por volta de 349 em Antioquia da Síria (hoje Antakya, sul da Turquia)...
Encontro com o bispo Melécio e conversão à vida ascética
Por volta de 367, João, então aluno do célebre retórico pagão Libânio, conhece o...
Batismo e instituição como leitor
É batizado por volta de 368 e instituído leitor por Melécio em 371, marcando a s...
Vida eremítica nas montanhas próximas a Antioquia
Retira-se cerca de quatro anos junto aos eremitas das montanhas vizinhas e depoi...
Édito de Tessalônica
Em 27 de fevereiro de 380, Teodósio I, com Graciano e Valentiniano II, promulga...

Suas contribuições à teologia

O núcleo do pensamento de João Crisóstomo é a centralidade da Palavra de Deus pregada e explicada ao povo. Formado na escola exegética de Antioquia, privilegiou o sentido literal-histórico e gramatical das Escrituras, em contraposição à interpretação alegórica de Orígenes e da escola de Alexandria, sem contudo excluir o sentido espiritual quando o próprio autor sagrado o sugeria. Suas centenas de homilias sobre Mateus, João, Atos e as cartas de São Paulo fizeram dele o maior comentarista bíblico da Igreja antiga.


Insistia que as Escrituras não eram reservadas ao clero ou aos monges, mas pertenciam a todos os fiéis: exortava os leigos a lerem a Bíblia em casa, convicto de que a ignorância das Escrituras é a raiz de muitos males. Para Crisóstomo, a liturgia é o lugar onde a comunidade se constrói com a Palavra e a Eucaristia, e o batismo faz de cada cristão membro vivo do Corpo de Cristo.


A doutrina social é o traço mais ardente de sua pregação. Para Crisóstomo, a esmola não é favor opcional, mas dever de justiça: os bens são confiados aos ricos para serem partilhados, e reter o supérfluo é roubar o pobre. Quem honra o altar revestido de ouro e despreza o pobre faminto contradiz a si mesmo, pois o mesmo Cristo que disse "isto é o meu corpo" disse também "tive fome e não me destes de comer".


Crisóstomo elevou também a dignidade e a tremenda responsabilidade do sacerdócio. Em seu célebre tratado "Sobre o Sacerdócio", descreve o ministério como um múnus mais sublime que o dos anjos, exigindo integridade moral à altura do mistério que o sacerdote toca no altar. Por sua doutrina eucarística, foi chamado "Doutor da Eucaristia": ensinou sem ambiguidade a Presença Real e a transformação operada pelas palavras da consagração.


Por fim, todo o seu pensamento converge para a reforma moral concreta: a coerência entre fé e vida, a conversão do coração, a crítica ao luxo e à vaidade, a defesa da família como pequena Igreja e a responsabilidade de cada um pela salvação do próximo. Sua exegese foi pastoral antes de especulativa, transmitindo fielmente a tradição e a sã doutrina da Igreja.

"Queres honrar o corpo de Cristo? Não o desprezes quando está nu. Não o honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora o desprezas a sofrer de frio e nudez." Homilia 50 sobre o Evangelho de Mateus, 4
Influência

Quem ele influenciou

João Crisóstomo é unanimemente reconhecido como o maior pregador da Igreja antiga; o próprio epíteto "Crisóstomo" — "Boca de Ouro" — consagra a fama de sua eloquência. Suas homilias, transmitidas em enorme volume, tornaram-se referência permanente para a pregação cristã e para a teologia pastoral, e sua autoridade foi invocada já no Concílio de Éfeso (431) e nos concílios posteriores.Seu nome está ligado à Divina Liturgia de São João Crisóstomo, a celebração eucarística mais usada no rito bizantino até hoje, tanto pelos ortodoxos quanto pelos católicos de tradição bizantina. A tradição atribui-lhe a redação de uma forma mais breve derivada da Liturgia de São Basílio; por sua concisão, a partir do séc. XIII ela suplantou as demais e tornou-se a liturgia ordinária da Igreja bizantina. As precisões críticas recomendam falar de "liturgia atribuída a Crisóstomo", fruto de revisão de textos anteriores mais do que de composição inteiramente original.É contado entre os quatro grandes Doutores gregos e, no Oriente, é um dos Três Santos Hierarcas, celebrados em conjunto com São Basílio Magno e São Gregório Nazianzeno em 30 de janeiro — festa instituída por volta de 1100 para afirmar a igual dignidade dos três mestres. O Papa Bento XVI chamou-o "Doutor da Eucaristia" e destacou sua contribuição exegética com o conceito de condescendência divina (synkatábasis), pelo qual a Palavra de Deus se faz plenamente linguagem humana.Sua influência sobre a doutrina social cristã é igualmente decisiva: foi pioneiro em propor a comunidade primitiva dos Atos dos Apóstolos como modelo de sociedade, antecipando temas centrais do ensino social da Igreja sobre a destinação universal dos bens e o primado da pessoa, mesmo do escravo e do pobre.

Debates

Debates e controvérsias

Conflito com a imperatriz Eudóxia e a corte

Arcebispo de Constantinopla a partir de 398, Crisóstomo empreendeu uma reforma severa: reduziu os gastos da casa episcopal, disciplinou o clero e empregou os recursos poupados em obras de caridade, como hospitais para os pobres. Suas pregações contra o luxo e a extravagância dos ricos voltaram contra ele a imperatriz Eudóxia, esposa de Arcádio, cujas riquezas e moral foram alvo de suas críticas; o atrito tornou-se irreversível, e a corte passou a articular a sua deposição.


Rivalidade com Teófilo de Alexandria

O patriarca Teófilo de Alexandria, da sé rival, foi o principal artífice da queda de Crisóstomo. Convocado a Constantinopla para responder por acusações, inverteu os papéis e, aliando-se aos inimigos de João na corte, articulou contra ele um processo eclesiástico.


A controvérsia origenista e os "Irmãos Longos"

Teófilo havia perseguido como origenistas certos monges egípcios chamados "Irmãos Longos", que se refugiaram em Constantinopla buscando o amparo de Crisóstomo. O patriarca de Alexandria, em vez de prestar contas, valeu-se politicamente da situação, transformando a controvérsia origenista em arma contra João.


O Sínodo do Carvalho (403) e os exílios

Em 403, Teófilo presidiu, junto a Constantinopla e com bispos seus aliados, o chamado Sínodo do Carvalho, que reuniu uma longa lista de acusações inverossímeis. Crisóstomo recusou-se a comparecer e foi deposto e exilado por Arcádio; voltou logo, em meio ao clamor popular e ao temor da própria Eudóxia de um castigo divino. Nova deposição sobreveio em 404: exilado para Cucuso, na Armênia, e depois conduzido rumo a Pítio, morreu pelo caminho em Comana do Ponto, em 14 de setembro de 407.


O cisma joanita

Após a sua morte, seus partidários — os "joanitas" — recusaram a comunhão com os bispos que haviam participado de sua condenação, gerando um cisma que se arrastou por décadas em Constantinopla. A reconciliação foi gradual: o arcebispo Proclo pregou em sua honra, e as suas relíquias foram trasladadas em triunfo a Constantinopla em 438, selando a reabilitação de sua memória.

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