Jerônimo de Estridão
São Jerônimo (Eusébio Sofrônio Jerônimo, c. 347 – 420) foi presbítero, monge e Doutor da Igreja, o maior estudioso bíblico da Antiguidade cristã. Tradutor da Bíblia para o latim a partir do hebraico e do grego, legou ao Ocidente a Vulgata, que por mais de mil anos foi a Bíblia oficial da Igreja latina. Viveu seus últimos anos como monge em Belém, junto à Gruta da Natividade, e é o padroeiro dos tradutores e dos estudiosos das Escrituras.
Biografia
Infância, formação e conversão
- Nasceu por volta de 347 em Estridão, cidade na fronteira entre a Dalmácia e a Panônia (região da atual Croácia/Eslovênia), no seio de uma família cristã e de boas posses.
- Ainda jovem, foi enviado a Roma para aperfeiçoar seus estudos, onde se formou em gramática, retórica e filosofia e nutriu uma profunda paixão pelos autores clássicos latinos.
- Recebeu o Batismo em Roma, por volta de 366, e optou pela vida ascética, consagrando-se ao serviço de Deus.
- Atormentado pela tensão entre o amor aos clássicos pagãos e a fé, teve o célebre sonho em que, levado diante do tribunal de Deus, ouviu a sentença: “Tu és ciceroniano, não cristão” (“Ciceronianus es, non Christianus”) — episódio que marcou sua decisão de dedicar-se inteiramente às Escrituras.
- Partiu então para o Oriente, fixando-se inicialmente em Antioquia.
Vida adulta e missão principal
- Viveu como eremita no deserto de Cálcis, na Síria, entregando-se à penitência e ao estudo; ali aperfeiçoou o grego e começou a aprender o hebraico com um judeu convertido.
- Foi ordenado sacerdote em Antioquia pelo bispo Paulino, sob a condição de preservar sua vocação monástica.
- Esteve em Constantinopla, onde foi discípulo de São Gregório Nazianzeno e se aprofundou no estudo das Escrituras e dos Padres gregos.
- Em 382 dirigiu-se a Roma, onde o Papa Dâmaso o tomou como secretário e conselheiro, encarregando-o de revisar a tradução latina da Bíblia — tarefa que iniciou pelos Evangelhos e pelo Saltério.
- Em Roma, tornou-se guia espiritual de nobres matronas dedicadas à ascese e ao estudo da Escritura, entre elas Paula, Eustáquio e Marcela, a quem ensinou inclusive o hebraico para a leitura dos Salmos.
Lutas, controvérsias e perseguições
- Após a morte do Papa Dâmaso (384), suas críticas severas aos costumes do clero e da sociedade romana suscitaram forte oposição, levando-o a deixar Roma em 385.
- Em 386 fixou-se definitivamente em Belém, onde, com a generosidade de Paula, foram fundados mosteiros masculino e feminino e hospedarias para peregrinos, junto à Gruta da Natividade.
- Em Belém realizou sua grande obra: a tradução da Bíblia diretamente do hebraico para o latim, que, somada à revisão do Novo Testamento, viria a constituir a Vulgata.
- Notável polemista, defendeu a fé em escritos contra Helvídio e Joviniano (em defesa da virgindade perpétua de Maria e da vida consagrada), contra Vigilâncio (sobre o culto dos mártires e das relíquias) e contra os pelagianos.
- Rompeu amargamente com seu antigo amigo Rufino de Aquileia por causa da controvérsia origenista, em torno da ortodoxia das doutrinas de Orígenes.
Últimos anos e legado
- Passou os últimos decênios em Belém, dedicado ao estudo, à tradução, à pregação e ao acolhimento dos peregrinos da Terra Santa, repetindo que “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.
- Faleceu em sua cela, próximo à Gruta da Natividade, em 30 de setembro de 420.
- A Vulgata tornou-se a Bíblia oficial do Ocidente latino por mais de mil anos, marcando profundamente a história cultural e religiosa da Europa.
- É venerado como Padre e Doutor da Igreja — um dos quatro grandes Doutores da Igreja Ocidental, ao lado de Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno — e é padroeiro dos tradutores e dos estudiosos da Bíblia.
O contexto em que viveu
São Jerônimo viveu no século da grande virada cristã do Império Romano. Quando ele nasceu, por volta de 347, em Estridão, na fronteira da Dalmácia com a Panônia, o cristianismo já era tolerado desde Constantino; mas foi em vida de Jerônimo que o imperador Teodósio I, pelo Edito de Tessalônica (27 de fevereiro de 380), tornou a fé nicena a religião oficial do Estado, condenando o arianismo como heresia. No ano seguinte, o I Concílio de Constantinopla (381) — que Jerônimo acompanhou de perto, tendo estudado a Escritura com São Gregório Nazianzeno — deu forma definitiva ao Credo niceno-constantinopolitano, em meio às acirradas controvérsias trinitárias e cristológicas que dividiam sobretudo o Oriente.
Foi também o tempo da efervescência do monaquismo no Oriente cristão. Dos desertos do Egito à Síria e à Palestina, multidões buscavam a vida ascética, e o próprio Jerônimo se retirou para o deserto de Cálcis, ao sul de Antioquia, por volta de 375. Nesse Ocidente que pouco a pouco perdia o domínio do grego, crescia a necessidade urgente de uma Bíblia latina unificada e fiel aos originais hebraico e grego — tarefa que o papa Dâmaso confiou a Jerônimo em Roma (382-385) e que ele coroaria em Belém com a tradução da Vulgata.
Os últimos anos de Jerônimo foram ensombrecidos pelo declínio do Império do Ocidente. Após a morte de Teodósio (395), o Império dividiu-se em definitivo entre Oriente e Ocidente, e em 24 de agosto de 410 os visigodos de Alarico saquearam Roma — a “cidade que tomara o mundo inteiro foi ela mesma tomada”, lamentou Jerônimo desde sua cela em Belém, próximo à gruta da Natividade, onde morreu em 30 de setembro de 420.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
No centro do pensamento de São Jerônimo está o primado absoluto da Sagrada Escritura como lugar do encontro com Cristo. Para ele, a Bíblia é o instrumento “com o qual todos os dias Deus fala aos fiéis”, e por isso formulou o princípio que se tornaria patrimônio de toda a Igreja: a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo. Convencido de que, se Cristo é “o poder de Deus e a sabedoria de Deus”, quem não conhece a Escritura não conhece o poder e a sabedoria de Deus, Jerônimo fez do estudo erudito da Palavra um serviço eclesial e um caminho de santidade, unindo de modo inseparável a leitura orante da Bíblia ao trabalho filológico rigoroso.
Daí decorre sua opção decisiva por ir às fontes originais — a Hebraica veritas, a “verdade hebraica” do Antigo Testamento — em vez de depender apenas da tradução grega dos Setenta, traduzindo “do original hebraico” e recorrendo ao texto grego para dirimir as divergências do Novo Testamento. Jerônimo cuidava de tal modo do texto sagrado que respeitava até a ordem das palavras, na qual via também “um mistério”. Nele, ascese monástica do deserto e estudo científico da Escritura formam uma só espiritualidade: o silêncio, a penitência e o trabalho intelectual assíduo postos a serviço da inteligência crente da Palavra de Deus.
"A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo." Comentário a Isaías, Prólogo
Quem ele influenciou
A obra maior de São Jerônimo, a Vulgata — revisão e nova tradução de grande parte da Sagrada Escritura a partir do hebraico e do grego —, tornou-se a Bíblia do Ocidente por mais de mil anos. Moldou a liturgia, a teologia, a pregação e a própria cultura europeia, fornecendo o vocabulário e as imagens bíblicas que atravessaram a arte, o direito e a literatura medievais e modernas.O Concílio de Trento, na sua IV sessão (8 de abril de 1546), declarou a Vulgata latina a versão “autêntica” da Igreja, a ser usada nas leituras públicas, disputas, prédicas e exposições, reconhecendo ao mesmo tempo a necessidade de uma edição emendada o mais correta possível. A Vulgata foi a fonte de praticamente toda a exegese medieval e o texto comum sobre o qual se debruçaram teólogos, monges e universidades durante séculos.Como tradutor que ousou voltar às línguas originais, Jerônimo tornou-se também modelo permanente para os biblistas e tradutores das épocas seguintes. Seu método filológico inspira a moderna ciência bíblica, e a própria Igreja, ao promulgar a Nova Vulgata (1979), reconheceu-se herdeira e continuadora da obra iniciada por ele. Por tudo isso é honrado como padroeiro dos estudos bíblicos e dos tradutores.
Debates e controvérsias
Contra Helvídio — a virgindade perpétua de Maria
Por volta de 383, Jerônimo escreveu contra Helvídio, que sustentava ter Maria gerado outros filhos a José depois do nascimento de Jesus. Em defesa da virgindade perpétua de Nossa Senhora, sua obra ocupa um lugar de relevo na história da exegese sobre essas questões.
Contra Joviniano — o valor da virgindade e da vida consagrada
Por volta de 393, opôs-se a Joviniano, que minimizava o valor espiritual da ascese e igualava o estado matrimonial à virgindade. Jerônimo defendeu a excelência da virgindade e da vida consagrada, mas empregou expressões depreciativas sobre o matrimônio que foram criticadas já por seus contemporâneos.
Contra Vigilâncio — o culto dos mártires e das relíquias
Por volta de 406, respondeu ao presbítero Vigilâncio, que rejeitava a vida monástica, a veneração dos santos e o culto das relíquias dos mártires, defendendo essas práticas da Igreja.
A controvérsia origenista e a ruptura com Rufino de Aquileia
Amigos de juventude no grupo de ascetas de Aquileia, Jerônimo e Rufino de Aquileia romperam dolorosamente por causa de Orígenes. Embora Jerônimo se servisse largamente da obra exegética origeniana, recusou as doutrinas heterodoxas; quando a polêmica se reacendeu, Rufino o acusou de ter ele próprio sustentado teses origenistas. Seguiu-se uma troca áspera de apologias — a Apologia contra Hieronymum de Rufino (c. 400) e a Apologia contra Rufinum de Jerônimo (c. 402) —, que selou o fim daquela amizade.
O temperamento polêmico
O próprio Bento XVI reconheceu em Jerônimo um caráter difícil e impetuoso, que o levou a contestar com vigor os hereges, mas também a excessos de dureza. A correspondência revela sua sensibilidade extrema e seu tom por vezes mordaz e satírico — traço que marcou todas essas disputas.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071107.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071114.html
- vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20200930_scripturae-sacrae-affectus.html
- newadvent.org/cathen/08341a.htm
- newadvent.org/cathen/05075a.htm
- newadvent.org/cathen/07345a.htm
- newadvent.org/fathers/3001022.htm
- newadvent.org/fathers/3001052.htm
- newadvent.org/fathers/3001125.htm
- britannica.com/biography/Saint-Jerome
- vaticannews.va/pt/papa/news/2019-09/papa-francisco-institui-domingo-palavra-deus.html
- en.wikipedia.org/wiki/Vulgate
- en.wikipedia.org/wiki/Nova_Vulgata
- bible-researcher.com/trent1.html
- la.wikisource.org/wiki/Commentaria_in_Isaiam_(Hieronymus)/pro
- en.wikipedia.org/wiki/Santa_Maria_Maggiore
- un.org/en/observances/international-translation-day
- pocketterco.com.br/oracao/oracao-a-sao-jeronimo
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2025-09-30
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