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Medalius · Codex de Personalidades · Jerônimo de Estridão
Jerônimo de Estridão
✦ Doutor da Igreja
Período
347–420 (73 anos)
Lugar
Belém
Estado canônico
Santo · Doutor da Igreja
Escola
Patrística / Exegese bíblica
Idioma principal
Latim
Santo · Doutor da Igreja · Padre da Igreja

Jerônimo de Estridão

347–420
Doutor Máximo das Sagradas Escrituras Doutor da Igreja Padre da Igreja

São Jerônimo (Eusébio Sofrônio Jerônimo, c. 347 – 420) foi presbítero, monge e Doutor da Igreja, o maior estudioso bíblico da Antiguidade cristã. Tradutor da Bíblia para o latim a partir do hebraico e do grego, legou ao Ocidente a Vulgata, que por mais de mil anos foi a Bíblia oficial da Igreja latina. Viveu seus últimos anos como monge em Belém, junto à Gruta da Natividade, e é o padroeiro dos tradutores e dos estudiosos das Escrituras.

Biografia

Infância, formação e conversão


  1. Nasceu por volta de 347 em Estridão, cidade na fronteira entre a Dalmácia e a Panônia (região da atual Croácia/Eslovênia), no seio de uma família cristã e de boas posses.


  1. Ainda jovem, foi enviado a Roma para aperfeiçoar seus estudos, onde se formou em gramática, retórica e filosofia e nutriu uma profunda paixão pelos autores clássicos latinos.


  1. Recebeu o Batismo em Roma, por volta de 366, e optou pela vida ascética, consagrando-se ao serviço de Deus.


  1. Atormentado pela tensão entre o amor aos clássicos pagãos e a fé, teve o célebre sonho em que, levado diante do tribunal de Deus, ouviu a sentença: “Tu és ciceroniano, não cristão” (“Ciceronianus es, non Christianus”) — episódio que marcou sua decisão de dedicar-se inteiramente às Escrituras.


  1. Partiu então para o Oriente, fixando-se inicialmente em Antioquia.


Vida adulta e missão principal


  1. Viveu como eremita no deserto de Cálcis, na Síria, entregando-se à penitência e ao estudo; ali aperfeiçoou o grego e começou a aprender o hebraico com um judeu convertido.


  1. Foi ordenado sacerdote em Antioquia pelo bispo Paulino, sob a condição de preservar sua vocação monástica.


  1. Esteve em Constantinopla, onde foi discípulo de São Gregório Nazianzeno e se aprofundou no estudo das Escrituras e dos Padres gregos.


  1. Em 382 dirigiu-se a Roma, onde o Papa Dâmaso o tomou como secretário e conselheiro, encarregando-o de revisar a tradução latina da Bíblia — tarefa que iniciou pelos Evangelhos e pelo Saltério.


  1. Em Roma, tornou-se guia espiritual de nobres matronas dedicadas à ascese e ao estudo da Escritura, entre elas Paula, Eustáquio e Marcela, a quem ensinou inclusive o hebraico para a leitura dos Salmos.


Lutas, controvérsias e perseguições


  1. Após a morte do Papa Dâmaso (384), suas críticas severas aos costumes do clero e da sociedade romana suscitaram forte oposição, levando-o a deixar Roma em 385.


  1. Em 386 fixou-se definitivamente em Belém, onde, com a generosidade de Paula, foram fundados mosteiros masculino e feminino e hospedarias para peregrinos, junto à Gruta da Natividade.


  1. Em Belém realizou sua grande obra: a tradução da Bíblia diretamente do hebraico para o latim, que, somada à revisão do Novo Testamento, viria a constituir a Vulgata.


  1. Notável polemista, defendeu a fé em escritos contra Helvídio e Joviniano (em defesa da virgindade perpétua de Maria e da vida consagrada), contra Vigilâncio (sobre o culto dos mártires e das relíquias) e contra os pelagianos.


  1. Rompeu amargamente com seu antigo amigo Rufino de Aquileia por causa da controvérsia origenista, em torno da ortodoxia das doutrinas de Orígenes.


Últimos anos e legado


  1. Passou os últimos decênios em Belém, dedicado ao estudo, à tradução, à pregação e ao acolhimento dos peregrinos da Terra Santa, repetindo que “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.


  1. Faleceu em sua cela, próximo à Gruta da Natividade, em 30 de setembro de 420.


  1. A Vulgata tornou-se a Bíblia oficial do Ocidente latino por mais de mil anos, marcando profundamente a história cultural e religiosa da Europa.


  1. É venerado como Padre e Doutor da Igreja — um dos quatro grandes Doutores da Igreja Ocidental, ao lado de Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno — e é padroeiro dos tradutores e dos estudiosos da Bíblia.
Contexto

O contexto em que viveu

São Jerônimo viveu no século da grande virada cristã do Império Romano. Quando ele nasceu, por volta de 347, em Estridão, na fronteira da Dalmácia com a Panônia, o cristianismo já era tolerado desde Constantino; mas foi em vida de Jerônimo que o imperador Teodósio I, pelo Edito de Tessalônica (27 de fevereiro de 380), tornou a fé nicena a religião oficial do Estado, condenando o arianismo como heresia. No ano seguinte, o I Concílio de Constantinopla (381) — que Jerônimo acompanhou de perto, tendo estudado a Escritura com São Gregório Nazianzeno — deu forma definitiva ao Credo niceno-constantinopolitano, em meio às acirradas controvérsias trinitárias e cristológicas que dividiam sobretudo o Oriente.

Foi também o tempo da efervescência do monaquismo no Oriente cristão. Dos desertos do Egito à Síria e à Palestina, multidões buscavam a vida ascética, e o próprio Jerônimo se retirou para o deserto de Cálcis, ao sul de Antioquia, por volta de 375. Nesse Ocidente que pouco a pouco perdia o domínio do grego, crescia a necessidade urgente de uma Bíblia latina unificada e fiel aos originais hebraico e grego — tarefa que o papa Dâmaso confiou a Jerônimo em Roma (382-385) e que ele coroaria em Belém com a tradução da Vulgata.

Os últimos anos de Jerônimo foram ensombrecidos pelo declínio do Império do Ocidente. Após a morte de Teodósio (395), o Império dividiu-se em definitivo entre Oriente e Ocidente, e em 24 de agosto de 410 os visigodos de Alarico saquearam Roma — a “cidade que tomara o mundo inteiro foi ela mesma tomada”, lamentou Jerônimo desde sua cela em Belém, próximo à gruta da Natividade, onde morreu em 30 de setembro de 420.


Fatos contextuais
Nascimento em Estridão
Eusébio Sofrônio Jerônimo nasce por volta de 347 numa família cristã em Estridão...
Estudos em Roma
Ainda jovem, é enviado a Roma para estudar gramática, retórica e filosofia, tend...
Batismo em Roma
Recebe o Batismo por volta de 366, em Roma, e opta pela vida ascética.
Vida eremítica no deserto de Cálcis
Retira-se para o deserto de Cálcis, ao sul de Antioquia (na Síria), levando vida...
Ordenação sacerdotal em Antioquia
É ordenado presbítero em Antioquia pelo bispo Paulino (em 378/379), com a condiç...

Suas contribuições à teologia

No centro do pensamento de São Jerônimo está o primado absoluto da Sagrada Escritura como lugar do encontro com Cristo. Para ele, a Bíblia é o instrumento “com o qual todos os dias Deus fala aos fiéis”, e por isso formulou o princípio que se tornaria patrimônio de toda a Igreja: a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo. Convencido de que, se Cristo é “o poder de Deus e a sabedoria de Deus”, quem não conhece a Escritura não conhece o poder e a sabedoria de Deus, Jerônimo fez do estudo erudito da Palavra um serviço eclesial e um caminho de santidade, unindo de modo inseparável a leitura orante da Bíblia ao trabalho filológico rigoroso.


Daí decorre sua opção decisiva por ir às fontes originais — a Hebraica veritas, a “verdade hebraica” do Antigo Testamento — em vez de depender apenas da tradução grega dos Setenta, traduzindo “do original hebraico” e recorrendo ao texto grego para dirimir as divergências do Novo Testamento. Jerônimo cuidava de tal modo do texto sagrado que respeitava até a ordem das palavras, na qual via também “um mistério”. Nele, ascese monástica do deserto e estudo científico da Escritura formam uma só espiritualidade: o silêncio, a penitência e o trabalho intelectual assíduo postos a serviço da inteligência crente da Palavra de Deus.

"A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo." Comentário a Isaías, Prólogo
Influência

Quem ele influenciou

A obra maior de São Jerônimo, a Vulgata — revisão e nova tradução de grande parte da Sagrada Escritura a partir do hebraico e do grego —, tornou-se a Bíblia do Ocidente por mais de mil anos. Moldou a liturgia, a teologia, a pregação e a própria cultura europeia, fornecendo o vocabulário e as imagens bíblicas que atravessaram a arte, o direito e a literatura medievais e modernas.O Concílio de Trento, na sua IV sessão (8 de abril de 1546), declarou a Vulgata latina a versão “autêntica” da Igreja, a ser usada nas leituras públicas, disputas, prédicas e exposições, reconhecendo ao mesmo tempo a necessidade de uma edição emendada o mais correta possível. A Vulgata foi a fonte de praticamente toda a exegese medieval e o texto comum sobre o qual se debruçaram teólogos, monges e universidades durante séculos.Como tradutor que ousou voltar às línguas originais, Jerônimo tornou-se também modelo permanente para os biblistas e tradutores das épocas seguintes. Seu método filológico inspira a moderna ciência bíblica, e a própria Igreja, ao promulgar a Nova Vulgata (1979), reconheceu-se herdeira e continuadora da obra iniciada por ele. Por tudo isso é honrado como padroeiro dos estudos bíblicos e dos tradutores.

Debates

Debates e controvérsias

Contra Helvídio — a virgindade perpétua de Maria

Por volta de 383, Jerônimo escreveu contra Helvídio, que sustentava ter Maria gerado outros filhos a José depois do nascimento de Jesus. Em defesa da virgindade perpétua de Nossa Senhora, sua obra ocupa um lugar de relevo na história da exegese sobre essas questões.


Contra Joviniano — o valor da virgindade e da vida consagrada

Por volta de 393, opôs-se a Joviniano, que minimizava o valor espiritual da ascese e igualava o estado matrimonial à virgindade. Jerônimo defendeu a excelência da virgindade e da vida consagrada, mas empregou expressões depreciativas sobre o matrimônio que foram criticadas já por seus contemporâneos.


Contra Vigilâncio — o culto dos mártires e das relíquias

Por volta de 406, respondeu ao presbítero Vigilâncio, que rejeitava a vida monástica, a veneração dos santos e o culto das relíquias dos mártires, defendendo essas práticas da Igreja.


A controvérsia origenista e a ruptura com Rufino de Aquileia

Amigos de juventude no grupo de ascetas de Aquileia, Jerônimo e Rufino de Aquileia romperam dolorosamente por causa de Orígenes. Embora Jerônimo se servisse largamente da obra exegética origeniana, recusou as doutrinas heterodoxas; quando a polêmica se reacendeu, Rufino o acusou de ter ele próprio sustentado teses origenistas. Seguiu-se uma troca áspera de apologias — a Apologia contra Hieronymum de Rufino (c. 400) e a Apologia contra Rufinum de Jerônimo (c. 402) —, que selou o fim daquela amizade.


O temperamento polêmico

O próprio Bento XVI reconheceu em Jerônimo um caráter difícil e impetuoso, que o levou a contestar com vigor os hereges, mas também a excessos de dureza. A correspondência revela sua sensibilidade extrema e seu tom por vezes mordaz e satírico — traço que marcou todas essas disputas.

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