Jerônimo de Estridão
São Jerônimo (Eusébio Sofrônio Jerônimo, c. 347 – 420) foi presbítero, monge e Doutor da Igreja, o maior estudioso bíblico da Antiguidade cristã. Tradutor da Bíblia para o latim a partir do hebraico e do grego, legou ao Ocidente a Vulgata, que por mais de mil anos foi a Bíblia oficial da Igreja latina. Viveu seus últimos anos como monge em Belém, junto à Gruta da Natividade, e é o padroeiro dos tradutores e dos estudiosos das Escrituras.
A vida
Infância, formação e conversão
- Nasceu por volta de 347 em Estridão, cidade na fronteira entre a Dalmácia e a Panônia (região da atual Croácia/Eslovênia), no seio de uma família cristã e de boas posses.
- Ainda jovem, foi enviado a Roma para aperfeiçoar seus estudos, onde se formou em gramática, retórica e filosofia e nutriu uma profunda paixão pelos autores clássicos latinos.
- Recebeu o Batismo em Roma, por volta de 366, e optou pela vida ascética, consagrando-se ao serviço de Deus.
- Atormentado pela tensão entre o amor aos clássicos pagãos e a fé, teve o célebre sonho em que, levado diante do tribunal de Deus, ouviu a sentença: “Tu és ciceroniano, não cristão” (“Ciceronianus es, non Christianus”) — episódio que marcou sua decisão de dedicar-se inteiramente às Escrituras.
- Partiu então para o Oriente, fixando-se inicialmente em Antioquia.
Vida adulta e missão principal
- Viveu como eremita no deserto de Cálcis, na Síria, entregando-se à penitência e ao estudo; ali aperfeiçoou o grego e começou a aprender o hebraico com um judeu convertido.
- Foi ordenado sacerdote em Antioquia pelo bispo Paulino, sob a condição de preservar sua vocação monástica.
- Esteve em Constantinopla, onde foi discípulo de São Gregório Nazianzeno e se aprofundou no estudo das Escrituras e dos Padres gregos.
- Em 382 dirigiu-se a Roma, onde o Papa Dâmaso o tomou como secretário e conselheiro, encarregando-o de revisar a tradução latina da Bíblia — tarefa que iniciou pelos Evangelhos e pelo Saltério.
- Em Roma, tornou-se guia espiritual de nobres matronas dedicadas à ascese e ao estudo da Escritura, entre elas Paula, Eustáquio e Marcela, a quem ensinou inclusive o hebraico para a leitura dos Salmos.
Lutas, controvérsias e perseguições
- Após a morte do Papa Dâmaso (384), suas críticas severas aos costumes do clero e da sociedade romana suscitaram forte oposição, levando-o a deixar Roma em 385.
- Em 386 fixou-se definitivamente em Belém, onde, com a generosidade de Paula, foram fundados mosteiros masculino e feminino e hospedarias para peregrinos, junto à Gruta da Natividade.
- Em Belém realizou sua grande obra: a tradução da Bíblia diretamente do hebraico para o latim, que, somada à revisão do Novo Testamento, viria a constituir a Vulgata.
- Notável polemista, defendeu a fé em escritos contra Helvídio e Joviniano (em defesa da virgindade perpétua de Maria e da vida consagrada), contra Vigilâncio (sobre o culto dos mártires e das relíquias) e contra os pelagianos.
- Rompeu amargamente com seu antigo amigo Rufino de Aquileia por causa da controvérsia origenista, em torno da ortodoxia das doutrinas de Orígenes.
Últimos anos e legado
- Passou os últimos decênios em Belém, dedicado ao estudo, à tradução, à pregação e ao acolhimento dos peregrinos da Terra Santa, repetindo que “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.
- Faleceu em sua cela, próximo à Gruta da Natividade, em 30 de setembro de 420.
- A Vulgata tornou-se a Bíblia oficial do Ocidente latino por mais de mil anos, marcando profundamente a história cultural e religiosa da Europa.
- É venerado como Padre e Doutor da Igreja — um dos quatro grandes Doutores da Igreja Ocidental, ao lado de Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno — e é padroeiro dos tradutores e dos estudiosos da Bíblia.
O contexto em que viveu
São Jerônimo viveu no século da grande virada cristã do Império Romano. Quando ele nasceu, por volta de 347, em Estridão, na fronteira da Dalmácia com a Panônia, o cristianismo já era tolerado desde Constantino; mas foi em vida de Jerônimo que o imperador Teodósio I, pelo Edito de Tessalônica (27 de fevereiro de 380), tornou a fé nicena a religião oficial do Estado, condenando o arianismo como heresia. No ano seguinte, o I Concílio de Constantinopla (381) — que Jerônimo acompanhou de perto, tendo estudado a Escritura com São Gregório Nazianzeno — deu forma definitiva ao Credo niceno-constantinopolitano, em meio às acirradas controvérsias trinitárias e cristológicas que dividiam sobretudo o Oriente.
Foi também o tempo da efervescência do monaquismo no Oriente cristão. Dos desertos do Egito à Síria e à Palestina, multidões buscavam a vida ascética, e o próprio Jerônimo se retirou para o deserto de Cálcis, ao sul de Antioquia, por volta de 375. Nesse Ocidente que pouco a pouco perdia o domínio do grego, crescia a necessidade urgente de uma Bíblia latina unificada e fiel aos originais hebraico e grego — tarefa que o papa Dâmaso confiou a Jerônimo em Roma (382-385) e que ele coroaria em Belém com a tradução da Vulgata.
Os últimos anos de Jerônimo foram ensombrecidos pelo declínio do Império do Ocidente. Após a morte de Teodósio (395), o Império dividiu-se em definitivo entre Oriente e Ocidente, e em 24 de agosto de 410 os visigodos de Alarico saquearam Roma — a “cidade que tomara o mundo inteiro foi ela mesma tomada”, lamentou Jerônimo desde sua cela em Belém, próximo à gruta da Natividade, onde morreu em 30 de setembro de 420.
Como reconhecer Jerônimo de Estridão na arte sacra
Os atributos visuais consolidaram-se na Idade Média e distinguem o santo nas obras sacras.
Linha do tempo
Eventos do santo à esquerda, eventos do mundo à direita — para situar a vida na história.
Milagres atribuídos à sua intercessão
Sinais e prodígios atribuídos à intercessão do santo, registrados pela tradição e pelos processos da Igreja.
O leão de São Jerônimo (tradição)
Tradição hagiográfica, não fato histórico. Segundo a Legenda Áurea de Jacopo de Varazze (séc. XIII), um leão entrou mancando no mosteiro de Belém; os monges fugiram, mas Jerônimo viu que o animal estendia a pata ferida. Mandou lavá-la, retirou um espinho, e o leão tornou-se manso, passando a guardar o jumento do mosteiro. Os estudiosos veem no relato uma reelaboração de motivos hagiográficos antigos, sem base nas biografias contemporâneas.
Suas contribuições à teologia
No centro do pensamento de São Jerônimo está o primado absoluto da Sagrada Escritura como lugar do encontro com Cristo. Para ele, a Bíblia é o instrumento “com o qual todos os dias Deus fala aos fiéis”, e por isso formulou o princípio que se tornaria patrimônio de toda a Igreja: a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo. Convencido de que, se Cristo é “o poder de Deus e a sabedoria de Deus”, quem não conhece a Escritura não conhece o poder e a sabedoria de Deus, Jerônimo fez do estudo erudito da Palavra um serviço eclesial e um caminho de santidade, unindo de modo inseparável a leitura orante da Bíblia ao trabalho filológico rigoroso.
Daí decorre sua opção decisiva por ir às fontes originais — a Hebraica veritas, a “verdade hebraica” do Antigo Testamento — em vez de depender apenas da tradução grega dos Setenta, traduzindo “do original hebraico” e recorrendo ao texto grego para dirimir as divergências do Novo Testamento. Jerônimo cuidava de tal modo do texto sagrado que respeitava até a ordem das palavras, na qual via também “um mistério”. Nele, ascese monástica do deserto e estudo científico da Escritura formam uma só espiritualidade: o silêncio, a penitência e o trabalho intelectual assíduo postos a serviço da inteligência crente da Palavra de Deus.
Espiritualidade e carisma
Espiritualidade bíblico-monástica (hieronimiana)
Espiritualidade centrada no amor à Sagrada Escritura como encontro vivo com Cristo. Jerônimo unia a leitura assídua e orante da Palavra — “que o Livro sagrado nunca seja deposto das tuas mãos”, pois ler a Escritura é “conversar com Deus” — à ascese e à penitência do deserto e do mosteiro. Sua via espiritual combina vigilância constante, mortificação, obediência e trabalho intelectual incansável para fugir ao ócio, fazendo do estudo erudito da Bíblia um exercício de oração e de busca da santidade.
Essa herança ressoa fortemente na Igreja de hoje. O Concílio Vaticano II, na constituição Dei Verbum, retomou expressamente a sentença de Jerônimo de que ignorar as Escrituras é ignorar Cristo, recolocando a Palavra de Deus no coração da vida cristã. O Papa Francisco, no XVI centenário da morte do santo (carta Scripturae Sacrae Affectus, 2020) e instituindo o Domingo da Palavra de Deus (motu proprio Aperuit illis, 2019), propôs Jerônimo como mestre de uma leitura orante e cotidiana da Bíblia. É venerado como padroeiro dos biblistas, exegetas, tradutores e bibliotecários, e a sua inspiração continua viva em famílias religiosas que dele tomam o nome (os Hieronimitas).
Ordens, congregações e movimentos
Famílias religiosas que se reconhecem herdeiras do santo.
Ordem de São Jerônimo (Hieronimitas / Jerónimos, O.S.H.)
Ordem monástica nascida da amálgama de grupos eremíticos na Espanha e em Portugal que imitavam a vida de Jerônimo. Confirmada por bulas do Papa Gregório XI em 1373, sob a Regra de Santo Agostinho. NÃO foi fundada por Jerônimo, que não escreveu regra nem fundou ordem; ele é modelo e patrono. A ela pertenceram mosteiros célebres como o de Guadalupe, o do Escorial e o dos Jerónimos de Belém, em Lisboa.
Eremitas de São Jerônimo da Observância (Lupo de Olmedo)
Congregação reformada fundada por Lupo de Olmedo em 1424, com vida austéra e constituições extraídas dos escritos de São Jerônimo.
Círculo ascético de Belém — Paula, Eustáquio e Marcela
Família espiritual histórica em torno do próprio Jerônimo: matronas romanas que abraçaram a vida ascética sob sua direção. Paula e a filha Eustáquio fundaram com sua generosidade os mosteiros de Belém; Marcela liderou o círculo de estudo bíblico em Roma. A esse grupo Jerônimo dirigiu muitas de suas cartas e dedicou traduções.
Suas obras principais
Obras de maior densidade e influência, com links diretos para o Codex quando disponíveis.
Vulgata (tradução latina da Bíblia)
Sua obra-prima: revisão da versão latina dos Evangelhos e do Saltério e, sobretudo, a tradução do Antigo Testamento diretamente do hebraico. Tornou-se a Bíblia latina oficial da Igreja por mais de um milênio.
Crônica (tradução e continuação da Crônica de Eusébio)
Tradução para o latim das tábuas cronológicas de Eusébio de Cesareia, com um suplemento próprio de Jerônimo que prolonga a história universal de 325 até cerca de 378.
Vida de São Paulo, primeiro eremita
Biografia hagiográfica de Paulo de Tebas, apresentado como o primeiro eremita do deserto. Inaugura a literatura monástica latina de Jerônimo.
Da perpétua virgindade da Bem-aventurada Virgem Maria, contra Helvídio
Tratado polêmico em defesa da virgindade perpétua de Maria, refutando Helvídio, que sustentava que Maria teve outros filhos depois de Jesus.
Carta 22, a Eustáquio, sobre a guarda da virgindade
Célebre carta-tratado endereçada a Eustáquio expondo os motivos e as regras de vida para quem se consagra à virgindade; uma das peças mais influentes de toda a sua correspondência.
Questões hebraicas sobre o Gênesis
Obra filológica que examina passagens do Gênesis a partir do texto hebraico, corrigindo e esclarecendo a tradução grega dos Setenta.
Livro da interpretação dos nomes hebraicos
Glossário onomástico que reúne e explica o significado dos nomes próprios hebraicos da Escritura, organizado livro a livro da Bíblia.
Vida de São Hilarião
Biografia monástica de Santo Hilarião, introdutor da vida eremítica na Palestina, parte da tríade de vidas de monges escrita por Jerônimo.
Vida de Malco, o monge cativo
Narrativa da vida do monge Malco, feito cativo e depois reconquistando a vida ascética; completa as biografias monásticas de Jerônimo.
Sobre os homens ilustres (Catálogo dos escritores eclesiásticos)
Primeira história da literatura cristã: 135 capítulos com breves notícias biobibliográficas de autores eclesiásticos, de São Pedro até o próprio Jerônimo.
Contra Joviniano
Obra polêmica em dois livros contra o monge Joviniano, defendendo a superioridade da virgindade e do jejum sobre o casamento.
Comentário ao Evangelho de Mateus
Comentário em quatro livros ao Evangelho de Mateus, redigido a pedido de Eusébio de Cremona; um dos seus comentários do Novo Testamento mais difundidos.
Apologia contra os livros de Rufino
Defesa, em três livros, contra Rufino de Aquileia no contexto da controvérsia origenista, respondendo às acusações deste e justificando sua própria posição.
Carta 108, a Eustáquio (Epitáfio de Paula)
Uma das mais longas cartas de Jerônimo, escrita para consolar Eustáquio pela morte de sua mãe, Santa Paula; verdadeira biografia hagiográfica e relato da peregrinação de Paula à Terra Santa.
Contra Vigilâncio
Tratado polêmico contra o presbítero Vigilâncio, defendendo a veneração das relíquias e dos mártires, o celibato clerical e o monaquismo.
Comentário a Isaías
Vasto comentário, em dezoito livros, ao profeta Isaías; um dos maiores e mais maduros dos seus comentários ao Antigo Testamento. É do seu prólogo a sentença “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.
Comentário a Daniel
Comentário ao livro de Daniel, importante também por refutar as objeções do filósofo pagão Porfírio quanto à datação e à autenticidade do livro.
Comentário a Ezequiel
Comentário em catorze livros ao profeta Ezequiel, redigido nos últimos anos de Jerônimo em Belém, em meio às dificuldades das invasões bárbaras.
Diálogo contra os Pelagianos
Sua última grande obra polêmica: três diálogos contra a doutrina de Pelágio sobre a graça e a possibilidade de não pecar.
Como a Igreja celebra Jerônimo de Estridão
Oração a Jerônimo de Estridão
Ó Deus, Criador do universo, que vos revelastes aos homens, através dos séculos, pela Sagrada Escritura, e levastes a vosso servo São Jerônimo a dedicar a sua vida ao estudo e à meditação da Bíblia, dai-me a graça de compreender com clareza a vossa palavra quando leio a Bíblia. São Jerônimo, iluminai e esclarecei a...
Como o povo reza a Jerônimo de Estridão
Tríduos, novenas, ladainhas, medalhas e tradições locais que mantêm viva a presença do santo na piedade popular.
Tríduos, novenas e ladainhas
- Novena a São Jerônimo (21 a 29 de setembro) — Devoção de pedir a intercessão de São Jerônimo nos nove dias anteriores à sua festa (30/09), rezando a oração própria com Pai-Nosso e Ave-Maria. Inspira-se em sua dedicação às Sagradas Escrituras.
- Padroeiro dos estudos bíblicos / leitura orante da Palavra — Declarado padroeiro dos estudos bíblicos, São Jerônimo é invocado por quem deseja compreender e amar mais as Sagradas Escrituras; sua frase “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo” inspira a leitura e meditação diária da Bíblia.
Tradições populares por região
Como o santo é vivido na piedade popular no mundo lusófono e além.
São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim (Vulgata), é venerado como padroeiro dos tradutores, biblistas e bibliotecários. Por isso o dia de sua festa, 30 de setembro, foi instituído como Dia Internacional da Tradução (proposto pela FIT e oficializado pela ONU na Resolução 71/288, de 24 de maio de 2017).
Existem paróquias dedicadas a São Jerônimo no Brasil que celebram sua festa padroeira em torno de 30 de setembro, com missas, novena e festividades comunitárias.
O que Jerônimo de Estridão nos diz hoje
"Lê amiúde, aprende tudo o que puderes. Que o sono te surpreenda com o livro nas mãos; quando a tua cabeça pender, que ela caia sobre a página sagrada."
— Carta 22 (a Eustáquio), 17Frases para guardar e compartilhar
Frases curtas para ler em silêncio, copiar, compartilhar e levar consigo.
"A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo."
"Tu és ciceroniano, não cristão."
"Lê constantemente as divinas Escrituras; que nunca o volume sagrado saia das tuas mãos."
"Louvo o matrimônio, louvo as núpcias; mas é porque deles me nascem virgens."
"Tem sempre alguma ocupação em mãos, para que o demônio te encontre sempre ocupado."
A rede de influências espirituais
Ninguém é santo sozinho. Recebeu uma herança — e a transformou em legado.
Mestres e encontros decisivos
São Jerônimo foi formado na cultura clássica latina, que amou profundamente: os autores como Cícero e Virgílio marcaram seu estilo e erudição a ponto de, num célebre sonho relatado na Carta 22 a Eustáquio, ouvir a censura “Ciceronianus es, non Christianus” — “és ciceroniano, não cristão” —, episódio que o levou a pôr toda a sua formação a serviço da Escritura. Reconhecia, ainda assim, os valores artísticos e a riqueza de sentimentos dos clássicos greco-romanos, integrando-os à civilização cristã nascente.No plano teológico e exegético, admirou e traduziu longamente Orígenes — de quem verteu homilias e comentários e cujos métodos exegéticos valorizou antes da ruptura provocada pela controvérsia origenista. Em Constantinopla travou amizade com São Gregório Nazianzeno e bebeu da tradição dos Padres gregos. Decisiva foi a figura do Papa Dâmaso, que o acolheu em Roma como secretário e conselheiro e o lançou à grande empresa da revisão e tradução bíblica. Por fim, foram fundamentais os mestres judeus que lhe ensinaram o hebraico, permitindo-lhe alcançar a Hebraica veritas.
Discípulos e herdeiros através dos séculos
A obra maior de São Jerônimo, a Vulgata — revisão e nova tradução de grande parte da Sagrada Escritura a partir do hebraico e do grego —, tornou-se a Bíblia do Ocidente por mais de mil anos. Moldou a liturgia, a teologia, a pregação e a própria cultura europeia, fornecendo o vocabulário e as imagens bíblicas que atravessaram a arte, o direito e a literatura medievais e modernas.O Concílio de Trento, na sua IV sessão (8 de abril de 1546), declarou a Vulgata latina a versão “autêntica” da Igreja, a ser usada nas leituras públicas, disputas, prédicas e exposições, reconhecendo ao mesmo tempo a necessidade de uma edição emendada o mais correta possível. A Vulgata foi a fonte de praticamente toda a exegese medieval e o texto comum sobre o qual se debruçaram teólogos, monges e universidades durante séculos.Como tradutor que ousou voltar às línguas originais, Jerônimo tornou-se também modelo permanente para os biblistas e tradutores das épocas seguintes. Seu método filológico inspira a moderna ciência bíblica, e a própria Igreja, ao promulgar a Nova Vulgata (1979), reconheceu-se herdeira e continuadora da obra iniciada por ele. Por tudo isso é honrado como padroeiro dos estudos bíblicos e dos tradutores.
Debates e controvérsias
As polêmicas começam ainda em vida — e nunca cessaram. Separamos as históricas (resolvidas pelo Magistério) das contemporâneas (em aberto).
Os grandes embates de seu tempo
Contra Helvídio — a virgindade perpétua de Maria
Por volta de 383, Jerônimo escreveu contra Helvídio, que sustentava ter Maria gerado outros filhos a José depois do nascimento de Jesus. Em defesa da virgindade perpétua de Nossa Senhora, sua obra ocupa um lugar de relevo na história da exegese sobre essas questões.
Contra Joviniano — o valor da virgindade e da vida consagrada
Por volta de 393, opôs-se a Joviniano, que minimizava o valor espiritual da ascese e igualava o estado matrimonial à virgindade. Jerônimo defendeu a excelência da virgindade e da vida consagrada, mas empregou expressões depreciativas sobre o matrimônio que foram criticadas já por seus contemporâneos.
Contra Vigilâncio — o culto dos mártires e das relíquias
Por volta de 406, respondeu ao presbítero Vigilâncio, que rejeitava a vida monástica, a veneração dos santos e o culto das relíquias dos mártires, defendendo essas práticas da Igreja.
A controvérsia origenista e a ruptura com Rufino de Aquileia
Amigos de juventude no grupo de ascetas de Aquileia, Jerônimo e Rufino de Aquileia romperam dolorosamente por causa de Orígenes. Embora Jerônimo se servisse largamente da obra exegética origeniana, recusou as doutrinas heterodoxas; quando a polêmica se reacendeu, Rufino o acusou de ter ele próprio sustentado teses origenistas. Seguiu-se uma troca áspera de apologias — a Apologia contra Hieronymum de Rufino (c. 400) e a Apologia contra Rufinum de Jerônimo (c. 402) —, que selou o fim daquela amizade.
O temperamento polêmico
O próprio Bento XVI reconheceu em Jerônimo um caráter difícil e impetuoso, que o levou a contestar com vigor os hereges, mas também a excessos de dureza. A correspondência revela sua sensibilidade extrema e seu tom por vezes mordaz e satírico — traço que marcou todas essas disputas.
Polêmicas ainda em aberto
Como avaliar hoje o temperamento polêmico de Jerônimo
A veemência verbal de Jerônimo, capaz de ataques cortantes a adversários como Joviniano, Vigilâncio ou Rufino, é hoje objeto de leitura equilibrada. O próprio Papa Francisco, em Scripturae Sacrae Affectus (2020), reconhece que o zelo pela verdade “talvez o tenha levado a algum excesso de violência verbal nas suas cartas e livros”, sem que isso anule a santidade e a grandeza do seu serviço à Palavra de Deus.
A Vulgata, a crítica textual moderna e a Nova Vulgata
A relação da Vulgata de Jerônimo com a crítica textual contemporânea é tema vivo. Em 1979, São João Paulo II promulgou, pela constituição apostólica Scripturarum thesaurus, a Nova Vulgata como texto latino oficial da Igreja, fruto de revisão à luz dos originais e dos avanços filológicos. As traduções litúrgicas vernáculas devem partir diretamente do hebraico, aramaico e grego, consultando a Nova Vulgata como referência interpretativa da tradição latina.
O uso e a admiração de Orígenes
A dívida exegética de Jerônimo para com Orígenes, e a tensão entre admirá-lo e condenar suas teses heterodoxas, continua a ser discutida pelos estudiosos, que veem nela uma chave para compreender tanto a riqueza quanto as ambiguidades da obra hieronimiana.
Hebraica veritas versus Septuaginta: o debate com Agostinho
A opção de Jerônimo por traduzir o Antigo Testamento a partir do hebraico (a Hebraica veritas) gerou um debate, conhecido na correspondência com Santo Agostinho, sobre a autoridade da versão grega dos Setenta — usada pelos apóstolos e venerada pela Igreja antiga. Agostinho temia a perturbação dos fiéis e o abandono de um texto comum; Jerônimo defendia a primazia do original hebraico para alcançar maior fidelidade. Esse equilíbrio entre fidelidade às línguas originais e respeito à tradição permanece atual na ciência bíblica e na tradução das Escrituras.
Patronatos e causas de intercessão
Patronatos oficiais (proclamados pela Igreja) e intercessões populares (sancionadas pela prática secular).
⚜ Patronato oficial
Proclamados pela Santa Sé ou tradição litúrgica firmemente estabelecida.
- Estudantes
- Estudos Bíblicos
🕯️ Intercessões populares
Causas pelas quais a tradição popular invoca o santo.
- Tradutores
- Bibliotecários
Relíquias e locais de devoção
Conhecer onde estão suas relíquias é conhecer a história espalhada da Igreja.
Sepultamento original em Belém
São Jerônimo morreu em Belém em 30 de setembro de 420 e foi sepultado numa gruta junto à Gruta da Natividade, perto dos mosteiros que fundara e do círculo de Paula e Eustáquio.
Gruta de São Jerônimo em Belém
Sob a Basílica da Natividade fica a gruta onde, segundo a tradição, Jerônimo viveu, fez penitência e trabalhou na tradução das Escrituras por mais de três décadas. É local de peregrinação ligado à composição da Vulgata.
Translacão para Roma — Basílica de Santa Maria Maior
Por tradição, as relíquias de Jerônimo foram transladadas a Roma e depositadas em Santa Maria Maior, junto ao relicário do Sagrado Presépio. Sob o altar-mor, na Cripta da Natividade (Cripta de Belém), venera-se o local ligado ao sepultamento do Doutor que traduziu a Bíblia para o latim.
Onde está Jerônimo de Estridão hoje
Mini-mapa visual: itinerário das relíquias e principais santuários (ilustrativo, não cartograficamente preciso).
Curiosidades sobre Jerônimo de Estridão
Fatos pouco conhecidos — pequenas janelas para a humanidade do santo.
É o padroeiro dos tradutores. Sua festa, 30 de setembro, é o Dia Internacional da Tradução — lançado pela Federação Internacional de Tradutores (FIT) em 1991 e oficializado pela ONU na Resolução 71/288, de 24 de maio de 2017.
Aprendeu hebraico já adulto, no deserto de Cálcis, como meio de mortificação e para ler a Bíblia no original — o que lhe permitiu traduzir o Antigo Testamento diretamente do hebraico, e não apenas do grego da Septuaginta.
A Vulgata, sua tradução latina encomendada pelo Papa Dâmaso, foi a Bíblia oficial do Ocidente por mais de mil anos; o Concílio de Trento, na 4ª Sessão (8 de abril de 1546), declarou-a o texto “autêntico” da Igreja Latina.
O chapéu vermelho de cardeal com que costuma ser retratado é um anacronismo: no séc. IV não existia o Colégio de Cardeais como hoje. A associação vem de Jerônimo ter sido secretário do Papa Dâmaso em Roma.
Sua frase “A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo” (Comentário a Isaías, prólogo) foi retomada pelo Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum, n. 25.
É quase sempre representado na arte ao lado de um leão (da lenda do espinho), com o chapéu de cardeal, um crânio (memento mori) e livros — iconografia do erudito penitente.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071107.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20071114.html
- vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20200930_scripturae-sacrae-affectus.html
- newadvent.org/cathen/08341a.htm
- newadvent.org/cathen/05075a.htm
- newadvent.org/cathen/07345a.htm
- newadvent.org/fathers/3001022.htm
- newadvent.org/fathers/3001052.htm
- newadvent.org/fathers/3001125.htm
- britannica.com/biography/Saint-Jerome
- vaticannews.va/pt/papa/news/2019-09/papa-francisco-institui-domingo-palavra-deus.html
- en.wikipedia.org/wiki/Vulgate
- en.wikipedia.org/wiki/Nova_Vulgata
- bible-researcher.com/trent1.html
- la.wikisource.org/wiki/Commentaria_in_Isaiam_(Hieronymus)/pro
- en.wikipedia.org/wiki/Santa_Maria_Maggiore
- un.org/en/observances/international-translation-day
- pocketterco.com.br/oracao/oracao-a-sao-jeronimo
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2025-09-30
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