Hermas
Hermas foi um escritor cristão de Roma do século II, autor de “O Pastor” (em grego, “O Pastor de Hermas”), uma das mais influentes obras dos Padres Apostólicos. Pelo seu próprio relato era um leigo casado e com filhos, provavelmente um escravo liberto, e a obra reúne visões, mandamentos e parábolas reveladas por um anjo na figura de um pastor, com forte ênfase na penitência. A identidade exata do autor é incerta: o Fragmento Muratoriano o identifica como irmão do Papa São Pio I (c. 140–155), tese hoje predominante, enquanto Orígenes o associava ao Hermas saudado por São Paulo em Romanos 16,14 — identificação hoje descartada. Embora muito estimado e até copiado em alguns manuscritos do Novo Testamento (como o Códice Sinaítico), “O Pastor” não foi recebido no cânon das Escrituras, mas tampouco foi jamais condenado como herético.
Biografia
Os dados autobiográficos n'O Pastor
Quase tudo o que se sabe da "vida" de Hermas vem da própria obra que escreveu, O Pastor (em grego Poimén, em latim Pastor) — um texto literário e alegórico, de gênero apocalíptico, cujos detalhes pessoais são incertos e não podem ser tomados como biografia histórica documentada. A narrativa começa de modo abrupto, em primeira pessoa: «Aquele que me criou vendeu-me a uma certa Rode, que estava em Roma. Muitos anos depois, reconheci-a e comecei a amá-la como irmã» (Visão I). Disso a tradição deduz que Hermas teria sido um escravo cristão, vendido a uma senhora chamada Rode (Rhoda) em Roma, e mais tarde liberto.
O texto retrata-o como pai de família que enriqueceu e empobreceu: a Encyclopædia Britannica resume que foi «um cristão escravizado a quem se deu a liberdade, tornou-se um rico comerciante, perdeu os seus bens e fez penitência pelos pecados passados». A obra fala de filhos que pecaram contra o Senhor — chegando a blasfemar e a renegar a fé (apostasia) em tempo de tribulação — e de uma esposa que «não refreia a língua, com a qual comete iniquidade», a quem o anjo manda que se corrija para obter misericórdia (Visão II).
As visões e a composição da obra em Roma
O cerne d'O Pastor são as revelações que Hermas diz ter recebido. A primeira ocorre quando, caminhando rumo ao campo, ele vê Rode banhando-se no rio Tibre e a ajuda a sair das águas; depois, arrebatado pelo Espírito, é repreendido por seus pensamentos e pecados por uma anciã — que se revela ser a própria Igreja, mostrada cada vez mais rejuvenescida pela penitência. Numa segunda visão, recebe um livrinho a copiar e a ordem de difundir a mensagem. A obra divide-se em três partes: cinco visões, doze mandamentos (preceitos) e dez similitudes (parábolas). O nome "O Pastor" vem do anjo da penitência que, vestido de pastor, aparece na quinta visão e guia o restante do livro.
O cenário é claramente romano: na segunda visão, Hermas é instruído a escrever dois exemplares e enviar «um a Clemente e outro a Grapte; e Clemente o enviará às cidades estrangeiras, pois isso lhe foi permitido; e Grapte instruirá as viúvas e os órfãos», enquanto o próprio Hermas o leria «nesta cidade, junto com os presbíteros que presidem à Igreja». O tema central da obra é a penitência: a possibilidade de um perdão dos pecados cometidos após o batismo — concedido «ao menos uma vez» a quem se arrepende sinceramente.
Datação e a questão do irmão de Pio I
Há duas linhas de datação. Pela menção a Clemente (identificado com o papa São Clemente Romano, † c. 95), parte da obra apontaria para fins do séc. I. Porém, a fonte externa mais antiga, o Fragmento Muratoriano (lista do cânon do NT, c. 170-180), afirma: «Hermas escreveu O Pastor mui recentemente, em nossos dias, na cidade de Roma, enquanto o bispo Pio, seu irmão, ocupava a cátedra da igreja da cidade de Roma». O Catálogo Liberiano e o Pseudo-Tertuliano repetem que o autor foi irmão do papa São Pio I (pontificado c. 140-155). A crítica moderna tende a aceitar essa datação do séc. II (composição talvez ao longo de c. 135-155), reconhecendo nela possíveis camadas redacionais. Orígenes, por sua vez, identificava o autor com o Hermas saudado por São Paulo em Romanos 16,14 — hipótese hoje geralmente abandonada.
Recepção, declínio e legado
Hermas é contado entre os Padres Apostólicos, e foi um leigo (não bispo nem presbítero). O Pastor gozou de enorme autoridade na Igreja primitiva: foi citado com reverência por Santo Ireneu, Clemente de Alexandria e Orígenes, chegando a ser tratado quase como Escritura e a figurar em códices bíblicos — está incluído no Códice Sinaítico (séc. IV). Contudo, o próprio Fragmento Muratoriano, embora recomendasse a sua leitura, negava-lhe o caráter inspirado: «deve, na verdade, ser lido; mas não pode ser lido publicamente ao povo na igreja, nem entre os Profetas, cujo número está completo, nem entre os Apóstolos, pois é posterior ao tempo deles». A obra nunca foi condenada, mas acabou ficando fora do cânon; no tempo de São Jerônimo já era «quase desconhecida dos latinos». Hermas não é santo canonizado romano — não se confunde com o mártir homônimo Hermas, comemorado a 18 de agosto — nem foi jamais tido por herege: trata-se de um escritor cristão respeitado de atribuição incerta.
O contexto em que viveu
Hermas viveu e escreveu na Roma cristã da primeira metade do século II, no período dos imperadores Antoninos (Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio). Segundo a datação mais aceita, sua obra coincide com o pontificado do papa São Pio I (c. 140-155), de quem o Fragmento Muratoriano e o Catálogo Liberiano o dizem irmão. Era uma Igreja ainda jovem, de comunidades urbanas organizadas em torno de presbíteros (Hermas menciona «os presbíteros que presidem à Igreja»), sob ameaça intermitente de perseguição — o que ilumina o relato dos filhos que apostataram em tempo de tribulação.
O grande problema pastoral do tempo, e o coração d'O Pastor, era a disciplina penitencial primitiva. Vigorava o rigor da chamada penitência única: para os pecados graves cometidos depois do batismo havia, no máximo, uma só oportunidade de reconciliação. Hermas, um leigo, anuncia precisamente essa possibilidade de um perdão pós-batismal «ao menos uma vez» a quem se arrepende — mensagem que dialoga com correntes mais severas e prepara o desenvolvimento posterior da doutrina da penitência na Igreja.
Hermas pertence à geração dos Padres Apostólicos — os escritores cristãos do fim do séc. I e início do séc. II, próximos da era apostólica, ao lado de nomes como Clemente Romano, Inácio de Antioquia e Policarpo. É também o tempo em que o cânon do Novo Testamento ainda se formava: o próprio Fragmento Muratoriano, que data O Pastor, é uma das mais antigas tentativas de listar os livros recebidos, e nele a obra de Hermas aparece como leitura útil mas não inspirada, sinal de que as fronteiras do cânon ainda se definiam.
A Roma cristã desse período era um efervescente centro de debate doutrinal. Sob Pio I, a capital foi visitada por mestres heterodoxos: o gnóstico Valentino propagava sua doutrina, Cérdon ensinava, e Marcião chegou a Roma — vindo a ser excluído da comunhão pelo papa Pio I, fundando em seguida a sua seita. Como contraponto ortodoxo, São Justino Mártir expôs e defendeu a fé cristã em Roma justamente durante os pontificados de Pio I e de seu sucessor. É nesse ambiente — entre a vitalidade das comunidades, o rigor penitencial, a ameaça da perseguição, a formação do cânon e o confronto com o gnosticismo e o marcionismo — que se situa Hermas e a sua obra.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
A penitência como segunda graça
O coração d'O Pastor é a penitência (metanoia) como dom da misericórdia divina. Hermas anuncia algo "que nunca tinha sido claramente publicado antes": além do perdão do batismo, é concedida aos cristãos uma única segunda penitência para os pecados cometidos depois dele. No Mandamento 4 lê-se: "há uma só penitência para os servos de Deus… se alguém for tentado pelo diabo e pecar depois daquele grande e santo chamado, tem oportunidade de arrepender-se uma só vez". Não é rigorismo nem laxismo: é o apelo urgente à conversão antes que o tempo do perdão se feche.
A Igreja: anciã que rejuvenesce e torre de pedras vivas
A eclesiologia de Hermas é toda em imagens. A Igreja lhe aparece como uma anciã — "porque foi criada antes de todas as coisas" (Visão 2) — que progressivamente rejuvenesce pela penitência, passando de velha encanecida a jovem e formosa: é a Igreja dos perdoados. A segunda grande imagem é a torre em construção: "a torre que vês edificar sou eu, a Igreja" (Visão 3), cujas pedras vivas são os fiéis — apóstolos, bispos, mestres e diáconos as pedras quadradas e brancas. As pedras rejeitadas podem ser readmitidas, mas só depois da penitência.
A moral dos Mandamentos e os dois caminhos
Os doze Mandamentos formam um catecismo moral: fé num só Deus criador (Mand. 1), simplicidade e inocência (Mand. 2), amor à verdade (Mand. 3), castidade (Mand. 4), paciência contra a ira (Mand. 5) e a alegria que agrada a Deus contra a tristeza que entristece o Espírito Santo (Mand. 10). No Mandamento 6 está a doutrina dos dois anjos / dois caminhos: "há dois anjos com o homem — um da justiça e outro da iniquidade", e cabe ao cristão discernir e seguir o anjo da justiça, "manso, modesto e pacífico".
Uma cristologia e pneumatologia pré-nicenas
Em linguagem ainda não técnica, Hermas parece não distinguir nitidamente o Filho do Espírito Santo (Similitude 5: "o Espírito santo e pré-existente, que criou toda a criação, Deus o fez habitar na carne que escolheu"; Similitude 9: "esta rocha e esta porta são o Filho de Deus"). Isto não é heresia: é vocabulário pré-niceno, de um leigo do séc. II que, como nota a tradição, "evita o dogma" e, quando este aparece, fica "vago"; suas ideias eram "mais nebulosas e confusas do que definitivamente erradas". A obra nunca foi condenada.
"Antes de tudo, crê que há um só Deus, que criou e ordenou todas as coisas, e fez com que de não-existentes todas as coisas passassem a existir. Só Ele é capaz de conter o universo inteiro, mas Ele próprio não pode ser contido. Tem, pois, fé n'Ele, e teme-O; e, temendo-O, exerce o domínio de ti mesmo." O Pastor, Mandamento 1
Quem ele influenciou
Autoridade quase canônica na Igreja primitivaPoucos escritos não-bíblicos gozaram de tamanha difusão e respeito nos primeiros séculos. Santo Irineu e Tertuliano (nos seus dias católicos) "citam o 'Pastor' como Escritura"; Clemente de Alexandria "o cita constantemente com reverência", e Orígenes também, tendo-o por obra "muito útil e divinamente inspirada". Por sua autoridade, o livro foi copiado junto da Bíblia: aparece, com a Epístola de Barnabé, ao fim do Novo Testamento no grande Códice Sinaítico (Aleph, séc. IV).Impacto na teologia e na disciplina da penitênciaO Pastor é uma das fontes mais antigas da reflexão cristã sobre a penitência pós-batismal: seu anúncio da "segunda penitência" concedida uma vez marcou o desenvolvimento da teologia e da disciplina penitencial da Igreja antiga, num tempo em que se debatia se e como o batizado podia ser reconciliado após pecado grave.Leitura catequética e limite canônicoO Fragmento Muratoriano (c. 200) determina que "convém lê-lo, mas não publicá-lo na igreja ao povo, nem contá-lo entre os profetas… nem entre os apóstolos" — isto é, leitura edificante, não Escritura. Na mesma linha, Santo Atanásio o recomenda para a leitura dos catecúmenos. Tertuliano, já montanista, atacou-o como apócrifo, mas a Igreja nunca o condenou: apenas o excluiu do cânon, conservando-o como escrito venerável.
Debates e controvérsias
A questão da canonicidade
Nenhuma outra obra extracanônica do cristianismo primitivo chegou tão perto de ser recebida como Escritura. O Pastor foi citado com reverência por Santo Irineu, Clemente de Alexandria, Orígenes e pelo próprio Tertuliano (antes de aderir ao montanismo); Orígenes tinha-o por "muito útil e divinamente inspirado", e identificava o autor com o Hermas saudado por São Paulo (Rm 16,14). A obra chegou a ser lida publicamente nas igrejas e foi incluída no Codex Sinaiticus (séc. IV), ao lado dos livros do Novo Testamento.
- O Fragmento Muratoriano (lista canônica mais antiga, c. 170–200) fixou o veredito que prevaleceria: a obra "deve, sim, ser lida, mas não pode ser lida publicamente ao povo na igreja, nem entre os Profetas, cujo número está completo, nem entre os Apóstolos, pois é posterior ao tempo deles" — escrita "muito recentemente, em nossos dias", por Hermas, enquanto seu irmão Pio ocupava a cátedra da Igreja de Roma. Recomendava-se, portanto, a leitura privada, mas excluía-se a obra do cânon por ser pós-apostólica.
- Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica III,3) registrou que a obra "foi contestada por alguns e, por causa deles, não pode ser colocada entre os livros reconhecidos", embora "outros a considerassem absolutamente indispensável, sobretudo para os que precisam de instrução nos elementos da fé"; em III,25 ele a relacionou expressamente entre os livros "rejeitados" (espúrios, notha).
- Santo Atanásio (Carta Festal 39, ano 367) excluiu-a do cânon, mas colocou-a entre os livros "não incluídos no cânon", "designados pelos Pais para a leitura" dos que se aproximam recém da fé (catecúmenos), junto da Sabedoria, do Eclesiástico, de Ester, Judite, Tobias e da Doutrina dos Apóstolos.
- São Jerônimo (De Viris Illustribus 10) reconheceu-a "um livro de fato útil", citado "como autoridade por muitos dos escritores antigos" e "lido publicamente em algumas igrejas da Grécia", mas observou que "entre os latinos é quase desconhecido". Excluída em definitivo do cânon, permaneceu obra respeitada — nunca foi condenada.
A polêmica da penitência
O coração da obra é o anúncio de que ao cristão é concedida, após o batismo, uma segunda e única oportunidade de penitência e perdão dos pecados. Essa doutrina, que reagia ao rigorismo que negava qualquer remissão dos pecados pós-batismais, tornou-se alvo de Tertuliano já montanista. Em De Pudicitia (Sobre o Pudor) 10, ele ataca a obra com aspereza: cederia terreno "se a escritura do Pastor, que é a única que favorece os adúlteros, tivesse merecido encontrar lugar no cânon divino; se não tivesse sido habitualmente julgada por todos os concílios das Igrejas (mesmo as vossas) entre os escritos apócrifos e falsos; ela própria adúltera, e por isso patrona de suas companheiras". O rigorismo montanista de Tertuliano opõe-se assim à misericórdia penitencial defendida pela obra — uma polêmica disciplinar, não uma condenação magisterial.
A linguagem obscura sobre o Filho e o Espírito
Em passagens das Similitudes (sobretudo a V e a IX), a linguagem de Hermas sobre as relações entre o Filho de Deus e o Espírito Santo é ambígua. Pensou-se, com alguma razão, que ele não distinguia o Filho do Espírito Santo, ou que sustentava que o Espírito Santo se tornava o Filho pela Encarnação. Como adverte a Catholic Encyclopedia, porém, "suas palavras não são claras, e suas ideias sobre o assunto podem ter sido antes nebulosas e confusas do que definitivamente errôneas". Tratava-se de imprecisão de uma teologia ainda pré-nicena, não de doutrina formalmente herética.
Importante: O Pastor de Hermas nunca foi condenado como herético. Foi excluído do cânon do Novo Testamento por ser obra pós-apostólica, mas permaneceu, ao longo de toda a tradição, um escrito venerável e edificante dos Padres Apostólicos, recomendado em particular para a instrução dos catecúmenos.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/07268b.htm
- newadvent.org/cathen/07268a.htm
- newadvent.org/cathen/12126b.htm
- newadvent.org/fathers/0201.htm
- newadvent.org/fathers/02011.htm
- newadvent.org/fathers/02012.htm
- newadvent.org/fathers/02013.htm
- newadvent.org/fathers/0103420.htm
- newadvent.org/fathers/0407.htm
- newadvent.org/fathers/250103.htm
- newadvent.org/fathers/2806039.htm
- newadvent.org/fathers/2708.htm
- catholic.com/encyclopedia/hermas
- britannica.com/topic/Shepherd-of-Hermas
- catholicculture.org/commentary/church-fathers-shepherd-hermas/
- earlychristianwritings.com/shepherd.html
- en.wikipedia.org/wiki/The_Shepherd_of_Hermas
- en.wikipedia.org/wiki/Muratorian_fragment
- en.wikipedia.org/wiki/Hermas_of_Philippopolis
- oca.org/saints/lives/2017/05/31/101567-apostle-hermas-of-the-seventy
- orthodoxwiki.org/Apostle_Hermas
- en.wikisource.org/wiki/Catholic_Encyclopedia_(1913)/Hermas
Links externos abrem em nova aba.
Outras personalidades
Encontrou algo incorreto?
Por mais que tentemos manter o conteúdo verificado e fiel às fontes, erros podem acontecer. Nos avise para que possamos verificar e corrigir.
Conheça mais pessoas.
O Codex de Personalidades cataloga as figuras da história cristã.