Gregório de Nissa
São Gregório de Nissa (c. 335 – c. 394/395) foi um dos três grandes Padres Capadócios, bispo de Nissa e irmão de São Basílio Magno e de Santa Macrina. Teólogo e místico de raro fôlego especulativo, recebeu o título de “coluna da ortodoxia” por seu papel decisivo no I Concílio de Constantinopla (381), onde defendeu a divindade do Espírito Santo e a fé de Niceia contra os arianos, Eunômio e os pneumatómacos, sendo reconhecido como pai da teologia mística cristã.
Biografia
Infância, formação e família
Gregório nasceu por volta de 335, na Capadócia (apontam-se Cesareia ou Neocesareia, no Ponto), no seio de uma extraordinária família de santos. Sua avó foi Santa Macrina, a Velha; sua mãe, Emélia (Emmelia) de Cesareia, era filha de mártir; e entre seus irmãos figuram São Basílio Magno, bispo de Cesareia, Santa Macrina, a Jovem, São Pedro de Sebaste e São Naucrácio, que morreu jovem — todos venerados como santos. A formação cristã de Gregório foi acompanhada de modo especial pela mãe Emélia, pela irmã Macrina e pelo irmão Basílio.
Após o batismo, exerceu o ministério de leitor (lektor) na Igreja, mas, atraído pela cultura clássica, dedicou-se ao estudo da filosofia e da retórica e seguiu por algum tempo uma carreira secular como professor de retórica.
Nesse período de vida secular, Gregório foi casado. A figura de Teosébia está ligada a essa fase, mas sua identidade é controversa: parte das fontes a tem por esposa de Gregório — apoiada numa carta de pêsames que Gregório Nazianzeno lhe enviou pela morte dela —, ao passo que outra tradição (sobretudo oriental) a identifica como irmã e diaconisa. A expressão ambígua do Nazianzeno (que a chama de “irmã” e syzygos, palavra que tanto pode significar “consorte/esposa” quanto “companheira”) mantém o debate em aberto, e a questão permanece sem solução definitiva.
Vida adulta e episcopado
Estimulado pelo irmão Basílio e pelo amigo Gregório Nazianzeno, abandonou aos poucos os interesses mundanos e passou um período de retiro no mosteiro fundado por Basílio junto ao rio Íris. Por volta de 372 foi eleito e consagrado bispo da pequena sé de Nissa, presumivelmente com o apoio de Basílio, então metropolita de Cesareia, que o ordenou.
Mostrou-se pastor zeloso, mas logo enfrentou a hostilidade da facção ariana, favorecida pelo imperador Valente. Acusado de má administração dos bens da Igreja e de irregularidade em sua eleição, foi deposto por um sínodo reunido em 376 e enviado ao exílio.
Recuperou sua sé em 378, após a morte de Valente naquele ano, beneficiando-se provavelmente do édito de tolerância e da anistia promulgada pelo novo imperador Graciano. A partir daí abriu-se o seu grande período de atividade eclesial.
Defesa da ortodoxia e Concílios
Gregório teve papel de destaque no I Concílio de Constantinopla (381), segundo concílio ecumênico, que definiu de modo definitivo a divindade do Espírito Santo. Por sua competência teológica e filosófica, os Padres conciliares lhe atribuíram o título de “coluna da ortodoxia”, e o imperador Teodósio o reconheceu como um dos esteios da comunhão ortodoxa.
Sua obra doutrinária defendeu a unidade da natureza divina e a Trindade das Pessoas. Refutou em doze livros o herege Eunômio (líder dos anomeus/arianos extremos), em defesa de Basílio e do Credo de Niceia, e escreveu contra os macedônios (pneumatómacos), que negavam a divindade do Espírito Santo.
Por encargo do concílio, foi enviado em missões eclesiásticas para remediar desordens nas Igrejas, entre elas a Arábia (Transjordânia), e visitou Jerusalém, de onde voltou crítico das peregrinações então em moda. Em Constantinopla destacou-se também como orador e pregador da corte.
Últimos anos e legado
Gregório foi marcado pela perda dos dois irmãos mais próximos em 379: Basílio Magno, falecido em janeiro daquele ano, e Macrina, a Jovem, cuja morte ele acompanhou em Annisa. Nas décadas seguintes consolidou uma vasta produção teológica, ascética e mística, com obras como a Vida de Moisés, o Grande Discurso Catequético, os comentários ao Cântico dos Cânticos, o tratado Sobre a Alma e a Ressurreição e Sobre a Virgindade.
Seu pensamento desenvolveu a doutrina da epéctase — o progresso espiritual contínuo e sem fim rumo a Deus — e uma antropologia centrada no homem como imagem de Deus, chamado a “assemelhar-se a Deus”. O último registro histórico de Gregório é sua presença no sínodo de Constantinopla de 394; pouco depois desaparece da história, tendo morrido provavelmente em fins de 394 ou em 395. Reconhecido como pai da teologia mística cristã e expoente da doutrina trinitária, foi mais tarde aclamado “pai dos pais” pelo VII Concílio Ecumênico (787), ao lado de Basílio e João Crisóstomo.
O contexto em que viveu
São Gregório de Nissa viveu no século IV, a era em que o cristianismo passou de religião perseguida a fé favorecida e, por fim, oficial do Império Romano. Quando ele nasceu, por volta de 335, fazia pouco mais de vinte anos que o imperador Constantino e Licínio haviam promulgado o Édito de Milão (313), concedendo liberdade de culto aos cristãos e devolvendo-lhes os bens confiscados. A geração de Gregório foi a primeira a crescer numa Igreja livre, mas atravessada por intensas disputas doutrinárias.
A grande controvérsia do tempo era o arianismo, condenado no I Concílio Ecumênico de Niceia (325), que afirmou que o Filho é consubstancial (homooúsios) ao Pai. A definição nicena, porém, não pacificou o Oriente: por décadas arianos e semi-arianos disputaram as sés episcopais com o apoio variável da corte. Gregório, sua família capadócia e seu irmão São Basílio de Cesareia foram protagonistas da defesa da fé de Niceia em meio a essa crise.
O cenário político era instável. O imperador Juliano, o Apóstata (361–363), tentou restaurar o paganismo e afastar os cristãos da vida pública. Depois dele, o Oriente caiu sob Valente (364–378), imperador de simpatias arianas que perseguiu e depôs bispos nicenos — entre eles o próprio Gregório, exilado por volta de 376. A morte de Valente na desastrosa Batalha de Adrianópolis (378), contra os godos, mudou o rumo da história e permitiu o retorno dos bispos depostos.
A guinada definitiva veio com Teodósio I, proclamado imperador do Oriente em 379. Convicto niceno, ele promulgou o Édito de Tessalônica (380), que fez do cristianismo niceno a religião oficial do Império, e convocou o I Concílio de Constantinopla (381), segundo concílio ecumênico. Nesse concílio, em que Gregório de Nissa teve papel de relevo, reafirmou-se a fé de Niceia e definiu-se a divindade do Espírito Santo, dando forma final ao Credo Niceno-Constantinopolitano professado até hoje. Foi nesse mundo de afirmação trinitária e pneumatológica que se desdobrou a obra teológica e mística de Gregório, um dos três grandes Padres Capadócios.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
São Gregório de Nissa é um dos três Padres Capadócios e o pensador mais especulativo e místico do grupo. Sua obra articula a fé nicena com notável profundidade filosófica, sempre a serviço da vida espiritual.
Teologia trinitária: uma só essência, três Pessoas
Gregório consolidou a distinção entre ousía (a essência, ou natureza divina única) e hypóstasis (a Pessoa), fórmula que ajudou a Igreja a confessar um só Deus em três Pessoas contra o arianismo. No tratado “Que não há três deuses” (a Ablábio / Ad Ablabium), ele defende que Pai, Filho e Espírito Santo não são três deuses, mas um só, porque possuem uma única e mesma operação: toda ação divina “tem sua origem no Pai, procede pelo Filho e se aperfeiçoa no Espírito Santo”, de modo inseparável. Como a operação é uma, o nome que dela deriva — a Divindade — também é um só. Tomou parte no Concílio de Constantinopla (381), que definiu a divindade do Espírito Santo.
A infinitude e a incompreensibilidade de Deus
Contra o herege Eunômio — que pretendia conhecer a própria essência de Deus, definindo-a como “o Ingênito” (agénnetos) —, Gregório afirma que a natureza divina é infinita, ilimitada e incompreensível. Nenhum conceito humano abarca a essência de Deus: dela só podemos dizer o que ela não é. Por ser Deus infinito, a criatura jamais o esgota.
A epéctase: o progresso eterno da alma rumo a Deus
Daí nasce sua ideia mais característica, a epéctase (do grego de São Paulo, epekteinómenos, “lançar-se para a frente”): porque Deus é infinito, a alma nunca cessa de crescer em direção a Ele. A perfeição não é um estado fixo já alcançado, mas um caminhar sem fim — “a perfeição não se adquire de uma vez por todas; perfeição significa avançar continuamente”, pois nunca atingimos plena semelhança com Deus. Esse progresso prossegue inclusive na eternidade. A doutrina aparece sobretudo na Vida de Moisés e nas Homilias sobre o Cântico dos Cânticos.
Teologia mística e apofática: a treva luminosa
Gregório descreve a ascensão da alma em três etapas, simbolizadas pelas teofanias de Moisés: a luz (a primeira purificação), a nuvem e, por fim, a treva. No alto do Sinai, Moisés entra na “treva divina” e ali conhece a Deus de modo que ultrapassa todo conceito — a célebre “treva luminosa”, em que se “vê não vendo”. É um dos fundamentos da teologia apofática (negativa) cristã: Deus é mais conhecido quando se reconhece que está além de toda compreensão.
Antropologia: o homem, imagem de Deus
Na obra “A criação do homem” (De hominis opificio), Gregório ensina a dignidade singular do ser humano, criado à imagem de Deus: só a alma humana foi feita “imagem da natureza que ultrapassa todo intelecto, semelhança da beleza incorruptível”. Essa imagem, ofuscada pelo pecado, volta a resplandecer pela purificação do coração e pela cooperação livre da pessoa com a graça.
A virgindade e a vida ascética
No tratado “Sobre a virgindade” (De virginitate), Gregório exalta a virgindade e a vida ascética como caminho de pureza que dispõe a alma à contemplação e à união com Deus.
A restauração final (apocatástase): um tema debatido
A Gregório atribui-se também uma forma de apocatástase — a esperança de que, ao fim dos tempos, após um processo purificador, todas as criaturas livres sejam restauradas no bem, entendendo o mal como mera privação, sem existência própria. Este é um ponto delicado e objeto de debate teológico posterior: trata-se de uma posição ligada à herança de Orígenes, não de um ensino definido da Igreja. O próprio Gregório nunca foi condenado por isso, e antigos defensores da ortodoxia chegaram a suspeitar que seus textos tivessem sido adulterados; foi a versão origenista que viria a ser condenada. Registra-se aqui, portanto, como tema atribuído a ele e discutido, sem afirmá-lo como dogma nem como doutrina condenada.
"Assim como aqueles que dão forma a imagens dos príncipes moldam a figura e representam o posto real pela púrpura, assim a natureza humana, feita para reger o restante, foi pela semelhança com o Rei de tudo feita como que uma imagem viva, partícipe do arquétipo na dignidade e no nome; não vestida de púrpura, nem dando sinal de seu posto por cetro e diadema, mas em lugar da púrpura revestida de virtude, que é em verdade o mais régio de todos os trajes; em lugar do cetro, apoiada na bem-aventurança da imortalidade; e em vez do diadema real, ornada com a coroa da justiça." A Criação do Homem (De hominis opificio), cap. IV
Quem ele influenciou
A teologia mística de Gregório — a “teologia apofática”, o conhecimento de Deus na “treva divina” e a epéctase (o progresso sem fim da alma para Deus) — foi decisiva para o Pseudo-Dionísio Areopagita e, por meio dele, para toda a tradição mística posterior, oriental e ocidental: o tema dionisiano de “estender-se” para ser “elevado” é expressamente gregoriano.São Máximo o Confessor recolheu e transmitiu temas capadócios de Gregório (entre eles a epéctase e uma leitura ortodoxa da restauração final), integrando-os na síntese da teologia bizantina, que por sua vez nutriu toda a espiritualidade do Oriente cristão.No Ocidente, João Escoto Eriúgena traduziu para o latim o tratado Sobre a Criação do Homem, difundindo seu pensamento; mais tarde Nicolau de Cusa e Giovanni Pico della Mirandola beberam de sua concepção da dignidade e da liberdade do ser humano.No século XX, Gregório foi redescoberto por um amplo movimento de ressourcement: Hans Urs von Balthasar (Présence et pensée, 1942) e Jean Daniélou (Platonisme et théologie mystique, 1944) o tomaram como modelo de “teologia mística”. Daí nasceram a edição crítica Gregorii Nysseni Opera e o Colóquio Internacional sobre Gregório de Nissa, e seu pensamento segue influente em teólogos contemporâneos.
Debates e controvérsias
Em defesa da fé nicena no século IV
Bispo de Nissa, Gregório foi o principal teólogo ortodoxo da Ásia Menor no debate doutrinal do seu tempo. Como resumiu Bento XVI, defendeu a fé cristã contra os hereges que negavam a divindade do Filho e do Espírito Santo (como Eunômio e os macedonianos) ou comprometiam a perfeita humanidade de Cristo (como Apolinário). Foram debates do século IV, hoje resolvidos pela ortodoxia definida em Niceia e Constantinopla.
Contra o arianismo e o eunomianismo
Sua obra mais extensa é o Contra Eunômio (Contra Eunomium), em vários livros: uma defesa de São Basílio contra o herege Eunômio e do Credo niceno contra o arianismo, afirmando a consubstancialidade (a igualdade de natureza) das Pessoas da Trindade.
Contra os pneumatómacos (macedonianos)
Escreveu contra os macedonianos ou “pneumatómacos”, que negavam a divindade do Espírito Santo, sustentando a plena divindade da Terceira Pessoa — doutrina consagrada no Concílio de Constantinopla (381), de cuja afirmação trinitária Gregório foi um dos artífices.
Contra Apolinário
No Antirrheticus adversus Apollinarium refutou Apolinário de Laodiceia, que comprometia a integridade da humanidade de Cristo (negando-lhe alma/mente humana), defendendo que o Verbo assumiu a natureza humana completa para salvá-la inteira.
Fontes e referências
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070829.html
- vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070905.html
- newadvent.org/cathen/07016a.htm
- newadvent.org/fathers/2914.htm
- newadvent.org/fathers/2915.htm
- newadvent.org/fathers/2907.htm
- newadvent.org/fathers/2904.htm
- newadvent.org/fathers/2905.htm
- newadvent.org/fathers/2901.htm
- newadvent.org/fathers/2913.htm
- britannica.com/biography/Saint-Gregory-of-Nyssa
- iep.utm.edu/gregoryn/
- tertullian.org/fathers/gregory_macrina_1_life.htm
- earlychurchtexts.com/public/gregoryofnyss_ecclesiastes_slavery.htm
- oca.org/saints/troparia/2027/01/10/100140-saint-gregory-bishop-of-nyssa
- en.wikipedia.org/wiki/Gregory_of_Nyssa
- en.wikipedia.org/wiki/Nyssa_(Cappadocia
- obitel-minsk.org/en/the-life-of-st-gregory-of-nyssa
- commons.wikimedia.org/wiki/Category:Gregory_of_Nyssa
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