Atanásio de Alexandria
Santo Atanásio de Alexandria (Alexandria, c. 296/298 – 2 de maio de 373) foi bispo e patriarca de Alexandria, Padre e Doutor da Igreja, reconhecido como o maior defensor da fé professada no Concílio de Niceia (325), no qual participou ainda jovem como diácono e secretário do bispo Alexandre. Eleito bispo de Alexandria em 328, dedicou todo o seu episcopado à defesa intransigente da divindade do Verbo e do termo niceno “homoousios” (consubstancial ao Pai) contra a heresia ariana, que então dominava grande parte do Império e do próprio episcopado. Sua firmeza solitária ficou imortalizada na expressão “Athanasius contra mundum” (Atanásio contra o mundo), e a tradição o consagrou como “Pai da Ortodoxia”. Por sua causa foi injustamente deposto no Sínodo de Tiro (335) e padeceu cinco exílios sob os imperadores Constantino, Constâncio II, Juliano e Valente, passando cerca de dezessete anos longe de sua sé, parte deles refugiado entre os monges do deserto egípcio. Foi autor de obras fundamentais da teologia cristã, como “Contra os Gentios”, “Sobre a Encarnação do Verbo” e as “Orações contra os Arianos”, além da célebre “Vida de Santo Antão”, que difundiu o ideal monástico no Oriente e no Ocidente. Morreu em paz em Alexandria em 2 de maio de 373, dia em que a Igreja celebra a sua memória.
Biografia
Infância, formação e início (diácono de Alexandre)
Atanásio nasceu em Alexandria, no Egito, muito provavelmente entre os anos de 296 e 298 (algumas fontes propõem uma data anterior, por volta de 293), no seio de uma família cristã. Recebeu a sólida formação clássica da grande metrópole cultural do Mediterrâneo, com estudos de gramática, retórica e filosofia, e desde cedo se nutriu profundamente das Escrituras.
Ainda jovem, foi acolhido sob a tutela de Alexandre, bispo de Alexandria, que o ordenou leitor e depois diácono e o tomou como secretário e colaborador de confiança. Foi nessa condição, ainda diácono e sem ter recebido a ordem sacerdotal, que acompanhou o bispo Alexandre ao Concílio de Niceia, em 325, atuando como assessor teológico. Embora muito jovem, destacou-se ali pela refutação vigorosa do erro de Ário e pela defesa do termo homoousios (consubstancial ao Pai), que se tornaria a pedra angular da fé nicena. Já nesses primeiros anos compôs suas grandes obras de juventude, Contra Gentes e De Incarnatione (Sobre a Encarnação do Verbo), nas quais formulou a célebre afirmação de que “o Verbo de Deus se fez homem para que nós pudéssemos ser feitos Deus”.
Bispo de Alexandria e a luta contra o arianismo
Em 328, poucos meses após a morte de Alexandre, Atanásio foi eleito e consagrado bispo de Alexandria, sucedendo o seu mestre. Tinha cerca de trinta anos e assumiu o governo de uma das mais importantes sedes da cristandade, em meio à controvérsia ariana que então dividia profundamente a Igreja e o Império.
Convicto de que a salvação depende da plena divindade do Verbo encarnado, Atanásio recusou-se firmemente a qualquer compromisso com os arianos, que afirmavam ser o Filho uma criatura, ainda que a mais elevada. Tornou-se, assim, o mais importante e tenaz adversário da heresia ariana, defendendo sem recuos a fé de Niceia mesmo quando esta era abandonada por grande parte do episcopado oriental, com frequência favorecido pelo poder imperial. Em suas Orações contra os Arianos e em numerosos escritos, fundamentou teologicamente a consubstancialidade do Filho com o Pai, merecendo da tradição o título de “Pai da Ortodoxia”.
Os cinco exílios e “Athanasius contra mundum”
A intransigência de Atanásio na defesa da verdade lhe custou perseguições incessantes. Em 335, foi convocado ao Sínodo de Tiro, uma assembleia hostil dominada por seus adversários, que, com base em acusações falsas, o depuseram injustamente; recusando-se a ser julgado por tal tribunal, recorreu ao imperador Constantino. Esse foi o início de uma longa série de provas: ao todo, Atanásio foi obrigado a deixar a sua cidade cinco vezes, somando cerca de dezessete anos de exílio.
O primeiro exílio (336–337) levou-o a Tréveris (Trier), na Gália, por ordem de Constantino. O segundo (c. 339–346) foi vivido sobretudo em Roma, sob a perseguição de Constâncio II, onde encontrou apoio do papa e do Ocidente. O terceiro (356–362), também sob Constâncio II, começou quando soldados tentaram prendê-lo durante uma vigília noturna; refugiou-se então por anos entre os monges do deserto egípcio. O quarto exílio (362–363) foi imposto por Juliano, o Apóstata, e o quinto (365–366), breve, por Valente. Em meio ao abandono quase universal da fé nicena, sua resistência solitária ficou imortalizada na expressão Athanasius contra mundum — “Atanásio contra o mundo”.
Últimos anos e legado
Durante os longos períodos de refúgio no deserto, Atanásio estreitou vínculos profundos com o monaquismo nascente. Foi ele quem escreveu a Vida de Santo Antão (Vita Antonii), biografia do grande pai dos monges que se tornou um dos textos mais lidos da Antiguidade cristã e contribuiu decisivamente para a difusão do ideal monástico no Oriente e no Ocidente.
Após a morte de seus perseguidores e a virada da maré doutrinal a favor de Niceia, Atanásio pôde governar em paz os últimos anos do seu longo episcopado, que se estendeu por mais de quatro décadas. Morreu serenamente em Alexandria, em sua própria casa e cercado pelo clero, em 2 de maio de 373. Venerado como Padre e Doutor da Igreja e celebrado tanto no Oriente quanto no Ocidente, Santo Atanásio permanece como modelo de fidelidade à verdade e como o grande “Pai da Ortodoxia”.
O contexto em que viveu
Do Édito de Milão à Igreja imperial
Atanásio nasceu numa Igreja que saía das catacumbas. Em 313, os imperadores Constantino e Licínio firmaram em Mediolano (Milão) o acordo conhecido como Édito de Milão, que concedeu a todos a liberdade de adorar a divindade que quisessem, garantiu aos cristãos direitos legais — inclusive o de organizar igrejas — e determinou a pronta devolução dos bens confiscados. Em poucos anos, a fé que fora perseguida por quase três séculos passava a favorecida pelo poder imperial. Esse mesmo favor, porém, trouxe um preço: a intromissão do trono nos assuntos da fé tornou-se a marca do século.
Alexandria, grande sé e centro intelectual
O palco principal foi Alexandria, um dos mais importantes centros de comércio do império e uma das maiores sés patriarcais do mundo cristão, ao lado de Roma e Antioquia. Ali florescera a célebre Escola Catequética de Alexandria, dirigida sucessivamente por mestres como Panteno, Clemente de Alexandria e Orígenes — grande centro de erudição teológica do Oriente, onde a fé e a cultura grega se encontravam.
A crise ariana
Por volta de 318–320, Ário, presbítero da igreja de Báucalis em Alexandria, opôs-se ao bispo Alexandre e passou a ensinar que o Filho fora originado e que “houve um tempo em que não existia”, sendo feito do nada e, portanto, criatura — só o Pai seria sem princípio. Condenado num sínodo de mais de cem bispos do Egito e da Líbia, Ário ganhou a proteção de Eusébio de Nicomédia e dividiu rapidamente o Oriente cristão, com sínodos da Palestina e da Bitínia opondo-se aos do Egito.
O Concílio de Niceia (325)
Para pôr fim ao escândalo, Constantino — então ainda catecúmeno — convocou em 325, em Niceia, o primeiro concílio ecumênico, com cerca de 318 bispos, quase todos do Oriente. O concílio definiu o Filho como “consubstancial ao Pai” (homoousios) e anatematizou os que diziam que o Filho não existiu certa vez, ou que antes de ser gerado não era, ou que fora feito do nada. Foi também a primeira vez que um imperador interveio diretamente numa definição doutrinal.
As décadas de turbulência pós-Niceia
Longe de encerrar a disputa, Niceia abriu décadas de tumulto. Formaram-se facções: arianos estritos, semi-arianos (homoiousianos, que afirmavam a “semelhança” do Filho ao Pai negando a igualdade) e os nicenos. Após a morte de Constantino (337), seu filho Constâncio II favoreceu abertamente o partido ariano no Oriente. Sucederam-se sínodos rivais — Tiro (335), que depôs Atanásio sob falsas acusações; Sárdica (343), em que os orientais se retiraram, revelando os primeiros sintomas do futuro cisma entre Oriente e Ocidente; e a dupla assembleia de Rímini e Selêucia (359), em que os bispos foram pressionados a assinar fórmulas anti-nicenas. Foi o auge do arianismo, tempo em que São Jerônimo escreveria que “o mundo inteiro gemeu e espantou-se ao ver-se ariano”. Só com Teodósio e o Concílio de Constantinopla (381) o niceno triunfaria definitivamente.
Fatos contextuais
Suas contribuições à teologia
A divindade plena do Verbo: o homoousios contra o arianismo
O coração do pensamento de Santo Atanásio é a defesa intransigente da divindade plena e eterna do Verbo (Logos), consubstancial ao Pai. Contra Ário — que reduzia o Filho a uma criatura intermediária entre Deus e o mundo, sustentando que “houve um tempo em que o Filho não existia” —, Atanásio defendeu, em torno do Concílio de Niceia (325), o termo homoousios (“da mesma substância”, consubstancial), afirmando que o Filho é Deus de Deus, gerado da própria substância do Pai e não feito. Nas Orações contra os Arianos, mostra que o Filho é o Verbo eterno, increado e não-criatura: negar a divindade do Filho é negar o próprio Pai.
A soteriologia da Encarnação: “Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus”
Para Atanásio, a luta pela divindade de Cristo não é especulação abstrata, mas questão de salvação: só Deus pode redimir o homem; se Cristo fosse mera criatura, não poderia divinizar ninguém. Daí o axioma célebre de De Incarnatione 54,3: “Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus”. A Encarnação do Verbo opera a divinização (theosis) do homem: ao assumir um corpo, o Verbo manifestou o Pai invisível e, pela sua morte e ressurreição, fez a imortalidade alcançar a todos.
Cristo Logos, Criador e Redentor: a renovação da imagem de Deus
Atanásio articula criação e redenção num só desígnio: o mesmo Verbo pelo qual o Pai criou todas as coisas é aquele que as recria. O homem, feito à imagem de Deus, caiu na corrupção e na morte pelo pecado, perdendo a semelhança divina. Convinha então que o próprio Verbo-Imagem se encarnasse para renovar no homem aquela imagem desfigurada, vencendo a morte por sua morte e ressurreição e restaurando a incorruptibilidade. A salvação é, assim, recapitulação e renovação da imagem de Deus na humanidade.
A divindade do Espírito Santo (Cartas a Serapião)
Levando até o fim a lógica de Niceia, Atanásio foi também um dos primeiros grandes defensores da divindade do Espírito Santo. Nas Cartas a Serapião, refutou os tropici (pneumatómacos), que tinham o Espírito por criatura: o Espírito Santo não é criatura, mas é próprio do Verbo e da divindade do Pai, distinto por natureza das coisas criadas e pertencente à própria Divindade. Sendo a Trindade indivisível, a ação das três Pessoas é uma só; negar a divindade do Espírito destrói a unidade da Trindade. Assim Atanásio preparou a definição pneumatológica do Concílio de Constantinopla (381).
"Pois Ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus; e Se manifestou por um corpo para que recebêssemos a ideia do Pai invisível; e suportou a insolência dos homens para que herdássemos a imortalidade." De Incarnatione, 54,3
Quem ele influenciou
Fixou a vitória de Niceia: o homoousios e a divindade do VerboNo I Concílio de Niceia (325), do qual participou ainda jovem diácono ao lado do bispo Alexandre, foi proclamado o termo homoousios (consubstancial), que afirma ser o Filho, o Verbo, da mesma substância do Pai. Atanásio tornou-se o defensor mais tenaz dessa fé contra o arianismo, recusando todo compromisso com as teses arianas. A causa que ele sustentou quase sozinho contra grande parte do episcopado e do império triunfou definitivamente no I Concílio de Constantinopla (381), que vindicou Niceia.Influência sobre os Padres CapadóciosA obra trinitária iniciada por Atanásio foi completada pelos três grandes Padres Capadócios — São Basílio Magno, São Gregório de Nazianzo e São Gregório de Nissa —, que, em união com os bispos do Ocidente, levaram a fé nicena ao triunfo de Constantinopla (381). São Gregório de Nazianzo saudou Atanásio como “a coluna da Igreja”.A “Vida de Santo Antão” e a difusão do monaquismoA biografia que escreveu do eremita Santo Antão tornou-se rapidamente popular, foi quase imediatamente traduzida para o latim e depois para várias línguas, contribuindo decisivamente para a propagação do monaquismo no Oriente e no Ocidente. Santo Agostinho relata, nas Confissões (livro VIII), como a leitura dessa vida foi um dos antecedentes da sua própria conversão.A 39ª Carta Festal (367) e o cânon do Novo TestamentoNa sua 39ª Carta Festal de 367, Atanásio enumerou exatamente os vinte e sete livros que hoje compõem o Novo Testamento — os quatro Evangelhos, os Atos, as sete epístolas católicas, as catorze cartas paulinas e o Apocalipse —, chamando-os “fontes da salvação”. É tida como uma das primeiras declarações a coincidir exatamente com o cânon neotestamentário atual.
Debates e controvérsias
As calúnias dos arianos e melecianos
Os adversários de Atanásio — a facção ariana ligada a Eusébio de Nicomédia e os cismáticos melecianos — forjaram contra ele acusações graves, levadas ao Sínodo de Tiro (335). As principais foram: ter mandado matar o bispo meleciano Arsênio e decepado a sua mão para usos de magia; ter, por meio do presbítero Macário, profanado os Sagrados Mistérios e quebrado o cálice de Iscíras; além de violência e de ter sido consagrado bispo abaixo da idade canônica.
O desmascaramento em Tiro
As acusações revelaram-se calúnias. Arsênio estava vivo e escondido: descoberto e apresentado ao sínodo, Atanásio mostrou-lhe as duas mãos intactas e desafiou os acusadores a indicar de onde teria sido cortada a “terceira mão”. A acusação do cálice também ruiu, pois Iscíras não era presbítero legitimamente ordenado. O episódio de Arsênio é narrado pelo historiador Sócrates Escolástico.
Os cinco exílios e a intromissão imperial
Apesar disso, Atanásio foi deposto e enviado ao exílio cinco vezes por quatro imperadores diferentes, passando mais de dezessete anos banido, até a sua reabilitação definitiva. Suas provações ilustram o peso da intromissão imperial nos assuntos da Igreja, sobretudo a política pró-ariana de Constâncio II, que renovou contra ele as ordens de banimento.
Fontes e referências
- newadvent.org/cathen/02035a.htm
- vatican.va/content/benedict-xvi/en/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070620.html
- britannica.com/biography/Saint-Athanasius
- oca.org/saints/lives/2012/05/02/101269-saint-athanasius-the-great-patriarch-of-alexandria
- newadvent.org/cathen/01707c.htm
- newadvent.org/fathers/2802.htm
- newadvent.org/fathers/2801.htm
- newadvent.org/fathers/2806039.htm
- newadvent.org/fathers/28161.htm
- newadvent.org/fathers/26013.htm
- ccel.org/ccel/schaff/npnf203/npnf203.iv.viii.iii.v.html
- newadvent.org/fathers/3005.htm
- fourthcentury.com/de-decretis-on-the-council-of-nicaea/
- en.wikipedia.org/wiki/Athanasius_of_Alexandria
- catholicculture.org/culture/liturgicalyear/calendar/day.cfm?date=2026-05-02
- liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=67
- praymorenovenas.com/st-athanasius-novena
- pocketterco.com.br/santo/santo-atanasio
- catholicsaints.info/saint-athanasius-of-alexandria/
- en.wikipedia.org/wiki/San_Zaccaria,_Venice
- christianhistoryinstitute.org/magazine/article/athanasius-defines-new-testament
- catholic.com/magazine/online-edition/athanasius-contra-mundum-the-courage-to-act-alone
- gaudiumpress.org/content/historia-oracao-e-frases-de-santo-atanasio-de-alexandria/
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